sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Canal cultural

A polémica sobre a privatização da RTP e a manutenção de um serviço público de televisão reacendeu-se com as recentes declarações de António Borges, que sugeriu a concessão do primeiro canal e o encerramento do segundo, que classificou como “pequeno”.

Em primeiro lugar, a definição de serviço público de televisão é provavelmente impossível. Ou, pelo menos, cada pessoa consultada sobre o assunto terá a sua ideia própria. Como está longe de ser consensual, tentemos lá chegar pelo que não é serviço público. Telenovelas, futebol, concursos televisivos e publicidade, entre outros conteúdos, não entram certamente nessa definição. No entanto, a RTP1 tem usado e abusado deles para “competir” com os canais comerciais.

Por outro lado, a RTP2 funciona como um canal cultural. Não quero aqui fazer a sua defesa tal como funciona agora, ou da sua actual programação. O que me parece relevante é a existência de um canal que assegure a transmissão de programas culturais que numa perspectiva puramente comercial não seria possível. Não me refiro apenas a programas de Ópera, Teatro ou Bailado, sem dúvida importantes, mas considerados pelos fiéis das audiências como algo que “ninguém vê”. Saliento sobretudo a produção e disponibilização de programas sobre a nossa História, a nossa Língua, ou o nosso Património, entre tantos outros que devem dar-nos a conhecer quem somos enquanto Nação e fortalecer a nossa identidade.

É pois da maior insensatez, para não dizer pior, encerrar o único canal – no sentido literal do termo –, de acesso livre, que leva a cultura a um público generalizado. Obviamente, deve caber ao Estado esse papel.

O lucro da Cultura não é imediato e esta não pode submeter-se a uma simples lógica de mercado. Pelo contrário, o preço da ignorância é elevado e arrasta-se por gerações.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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