quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Apartheid

Hendrik Verwoerd
Os recentes confrontos brutais ocorridos na mina de Marikana, a oeste de Pretória, que terminaram com dezenas de mortos e centenas de feridos e detidos, vêm recordar ao mundo que na África do Sul se continua a viver uma situação desastrosa. Afinal, assistimos a massacres perpetrados pela polícia depois do domínio branco...

Com o fim do ‘Apartheid’, muitos se convenceram que nasceria uma “nação arco-íris” que seria a concretização da utopia da diversidade. A realidade não podia ser mais distinta. Já aquando da realização de um campeonato do mundo de futebol naquele país se havia visto como se estava longe do paraíso. Violência e pobreza extremas e o aparecimento de uma nova segregação racial estão a pô-lo a par de outros países vizinhos terceiro-mundistas. Como tem vindo a afirmar, há anos, nas suas análises, o africanista Bernard Lugan: “o milagre sul-africano não passa de uma miragem porque o fracasso do ANC é total e em todos os domínios”.

A África do Sul é um mosaico de povos e essa composição leva-nos à origem do ‘Apartheid’. Aquele que é muitas vezes considerado como o pai desse sistema de desenvolvimento separado defendia algo bastante diferente do que acabou por se concretizar. Hendrik Verwoerd, o primeiro-ministro assassinado em 1966, era partidário de um etno-diferencialismo, segundo o qual o território sul-africano seria partilhado pelos brancos e os vários povos negros e que levaria à criação de estados etnicamente homogéneos. Esta ideia opunha-se ao ‘Baaskap’, o supremacismo segregacionista conservador, para o qual os afrikaners eram um povo eleito por Deus que devia, por direito divino, dirigir e explorar os negros.

Como afirmou Pierre-Olivier Sabalot, autor de uma biografia de Verwoerd: “o desenvolvimento separado é também a valorização das identidades dos nove povos negros da África do Sul, chamados a florescer, ao seu ritmo, nos seus próprios territórios de origem, numa lógica de co-desenvolvimento político, económico e cultural, cada um no seu lugar, em ruptura com o Estado-nação artificial sul-africano, que é uma criação colonial britânica”. Uma ideia a repensar?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Sem comentários:

Enviar um comentário