sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Amigos para sempre

Seth MacFarlane é um nome que associamos imediatamente à irreverência e às piadas sem tabus. Começou a sua carreira famosa Hanna-Barbera, trabalhando em séries animadas como “Johnny Bravo”, “Cow and Chicken”, “Dexter's Laboratory” e “I Am Weasel”. Já aqui mostrava a sua marca, nestes desenhos animados que saíam completamente dos cânones a que estávamos habituados.
Decidiu depois continuar na animação, mas fazendo uma série para adultos (ou melhor, jovens adultos), chamada “Family Guy”. Seguiram-se “American Dad!” e “The Cleveland Show”, também no mesmo registo, criando um novo estilo que se associa automaticamente ao nome Seth MacFarlane. Estas séries demonstravam já um certo paradoxo, pois eram uma animação que parecia para crianças, mas com um humor ácido, palavrões e situações para adultos. Pareciam algo de um rapaz num corpo de adulto, ou de um homem que nunca deixou de ser criança.

É esse espírito que o leva à sua primeira longa-metragem, “Ted”. Num filme que cruza actores reais com animação digital, conta-nos a história de um rapaz de Boston, John Bennet, que não tem amigos. Perante esta situação que tanto o afecta, John decide pedir um desejo – que o urso de peluche que recebeu no Natal ganhe vida.

O desejo concretiza-se e Ted torna-se o melhor amigo de John. Juntos vão atravessar a infância, a adolescência e chegar à idade adulta. Esse é o primeiro choque que a história nos dá. Ted já não é um ursinho carinhoso, mas alguém que consome drogas, bebe álcool, pensa em sexo e diz palavrões.
Os tempos de miúdos já lá vão e o paralelo de um adulto continuar a viver com um ursinho fala por si. A presença de Ted (Seth MacFarlane) começa a perturbar a relação de John (Mark Wahlberg) com a sua namorada Lori (Mila Kunis), com quem as coisas se tornam mais sérias. A questão fundamental coloca-se: Ted ou Lori? A vida de criança ou a de adulto?

Uma decisão bastante complicada, já que estes são dois companheiros que viveram uma vida juntos e juraram amizade eterna. Este é, aliás, um filme sobre a amizade. É também uma reflexão sobre as fases da vida, nomeadamente a passagem à idade adulta. Se o filme acabasse um pouco mais cedo, seria uma perfeita analogia. Mas, infelizmente, há lugares comuns do cinema norte-americano a que nem os mais irreverentes resistem.

Nem por isso o filme deixa de ser bastante divertido, apesar de abusar de um estilo de comédia juvenil que parece estar em voga, onde abundam as festas, a embriaguez e o uso de drogas. O MacFarlane politicamente incorrecto que esperamos está lá, nas piadas étnicas, sexistas, religiosas, ou sobre qualquer outro tema tido por inconveniente. O melhor mesmo são os diálogos, havendo alguns simplesmente maravilhosos, conferindo uma humanidade ao urso que, passado pouco tempo, começamos a aceitar como qualquer outra personagem.

Outro ponto alto, em especial para quem viveu a sua infância nos anos 80, são as inúmeras referências a esse período. Uma delas é o filme “Flash Gordon”, que Ted e John definem como símbolo da sua amizade. Mais, foi o que os ajudou a distinguir o certo do errado e o bem do mal. O cúmulo é a aparição de Sam Jones, o actor que encarnou Flash Gordon, numa sequência tão delirante como hilariante. Há até uma cena em que John está a ler um álbum de Tintin.

Um filme irresistível para trintões que guardam com saudade um tempo em que podiam sonhar com tudo. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

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