sábado, 23 de junho de 2012

Um futuro presente

No início deste mês faleceu um dos autores cuja obra mais conhecida muito me marcou. Refiro-me a Ray Bradbury e à sua distopia “Farenheit 451”, publicada em 1953 e, mais tarde, em 1966, passada magistralmente ao cinema por François Truffaut.

Este tornou-se um dos livros de ficção científica mais conhecidos e, como não podia deixar de ser, alvo das mais variadas interpretações. A história passa-se numa sociedade norte-americana do futuro onde os livros foram proibidos. Como há quem continue a tê-los e lê-los, existem brigadas de bombeiros cujo objectivo é queimar a casa que os contém.

Rapidamente, muitos viram aqui uma crítica à censura de Estado, enquanto outros procuraram justificar esta obra com a queima de livros feita no III Reich ou com a intenção censória do Macartismo – período que ficou conhecido como uma “caça às bruxas” de índole anti-comunista liderada pelo senador Joseph McCarthy – em relação a alguns títulos.

Tão prontos a descobrir causas políticas, ignoraram as sociais. Se algo impressionava prontamente na visão deste futuro era o alheamento das pessoas em relação aos livros e a ignorância generalizada. Aliás, como é dito, neste mundo os bombeiros raramente eram necessários, já que as pessoas haviam deixado de ler por si próprias.

Em 2007, Bradbury esclareceu definitivamente a questão, dizendo que tinha sido mal interpretado. “Farenheit 451” era um livro contra a cultura da televisão, dos factóides, algo a que ele assistia naquela altura e previa que se agravasse.

Para não deixar dúvidas, Bradbury afirmou na mesma entrevista que estávamos hoje a viver o mundo que ele descrevera no seu romance. Inclino-me a concordar, pelo menos no
fundamental. Mas esta constatação não deve ser um lamento.

Pelo contrário, devemos inspirar-nos no exemplo de Guy Montag.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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