sexta-feira, 8 de junho de 2012

Solidariedade

As recentes declarações de Christine Lagarde, a antiga ministra das Finanças do Governo do primeiro-ministro francês François Fillon, sob a presidência de Nicolas Sarkozy, que se tornou a directora do Fundo Monetário Internacional (FMI) após o escândalo sexual que provocou o afastamento do anterior detentor do cargo, Dominique Strauss-Khan, provocaram bastante polémica e fizeram correr muita tinta.

Lagarde disse que os gregos deviam pagar os seus impostos e que pensava “mais nas crianças de uma escola numa pequena aldeia no Níger, que têm duas horas de aulas por dia e têm de dividir uma cadeira por três e que estão muito interessadas em obter educação”.

A primeira afirmação, perante a cultura de evasão fiscal que há muito caracteriza a Grécia, parece sensata e até óbvia. Apesar de a própria Lagarde, beneficiando de um estatuto especial, não pagar impostos sobre o seu salário milionário, superior ao do presidente dos EUA.

Quanto à suposta preocupação com as crianças da África subsaariana, mais parece uma manifestação de pseudo-solidariedade que se tornou comum nas sociedades ocidentais. Ou seja, o mesmo é dizer que não se preocupa com uns nem outros.

De facto, no mundo ocidental, vimos aparecer uma espécie de “solidariedade” de tipo ‘fast-food’. Muitas são as ofertas que garantem que 5 dólares, ou euros, salvam uma família num qualquer país longínquo, sobre o qual os que contribuem pouco sabem. É como se tomassem um comprimido para o alívio rápido da consciência.

É mais fácil para quem vive na sociedade da abundância achar que está a ajudar um desconhecido numa terra distante, do que olhar para o lado e ver aqueles que entre nós estão realmente necessitados. É mais uma das consequências nefastas da perda do sentimento de comunidade.

As dificuldades que nos esperam vão exigir de todos a entreajuda de compatriotas. Esta é tão necessária para garantir a sobrevivência aos que menos têm, como para reforçar uma coesão nacional que se tem vindo a perder.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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