sexta-feira, 29 de junho de 2012

O barulho das luzes

Esta é uma expressão, bastante utilizada, que aparentemente não faz sentido. Mas a sabedoria popular, na sua divertida forma característica, explica muitas vezes as coisas melhor que longos tratados.

Voltando ao “ruído”, o que se ouve mais neste momento é o do futebol. O campeonato europeu e os resultados da selecção nacional sobrepõem-se a qualquer outro assunto e fazem esquecer a nossa lista de prioridades. É, portanto, a altura ideal para que certas notícias, nomeadamente decisões políticas, venham a público e passem ao lado.

Em plena euforia futebolística actual, vejam-se dois exemplos. O primeiro foi a promulgação, pelo Presidente da República, das alterações ao Código do Trabalho, que tanta discussão geraram. A segunda foi a admissão pelo ministro das Finanças de mais dificuldades. Vítor Gaspar afirmou que os dados disponíveis sobre a execução orçamental traduzem “um aumento significativo nos riscos e incertezas”.

É obviamente legítimo celebrar as vitórias dos que têm como missão representar o País no dito desporto-rei, da mesma maneira que há que admitir que existem ‘timings’ para decisões e anúncios políticos que não podem aguardar. Mas reconheçamos que, no mínimo, tem havido uma enorme coincidência.

Trata-se de uma estratégia deliberada dos “políticos” para ludibriar a populaça, ou de total ignorância e cegueira por parte dos cidadãos? Como reza o ditado: “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”.

Como é sabido, as luzes não fazem barulho e, assim, quando esta expressão é utilizada pressupõe um conhecimento de ambas as partes. O “barulho das luzes” é tão útil para quem o usa como camuflagem, como para quem dele se serve como desculpa.
Não nos deixemos iludir, mas também não nos façamos de iludidos.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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