quinta-feira, 3 de maio de 2012

Marine determinante

O socialista François Hollande ficou à frente na primeira volta das eleições presidenciais francesas e o actual Presidente da República, Nicolas Sarkozy, ficou em segundo lugar. Mas foi Marine Le Pen, que se impôs em terceiro lugar e se tornou o candidato determinante da segunda volta. Depois dos erros das sondagens, do primarismo da classificação política e da surpresa dos menos atentos, é tempo de analisar os resultados, perceber o que está em causa e tentar ver o quem será o próximo inquilino do Eliseu.



Com 18 por cento dos votos, a candidata da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, tornou-se uma peça incontornável na decisão da segunda volta das presidenciais francesas. Há quem lhe chame o “árbitro”, mas as suas intenções vão muito além deste acto eleitoral. A política em França está a mudar. Os socialistas europeus, desacreditados politicamente, esperam a vitória de Hollande, para relançar a esquerda. Sarkozy tenta, a todo o custo, manter-se no cargo, mas a tarefa não é fácil. O actual cenário político francês ajuda a compreender as alterações na política contemporânea na Europa.

O esperado
A vitória do candidato do Partido Socialista, François Hollande, não surpreendeu. Depois dos desentendimentos entre os socialistas, foi este o escolhido para derrubar o actual Presidente. A seu favor jogaram a crise económico-financeira, o crescente desemprego, as questões sociais e, especialmente, a animosidade gerada por Sarkozy. Com 28,63 por cento dos votos, Hollande conta, em princípio, com os votos da esquerda na segunda volta. Ainda assim, e apesar de a maioria dos analistas o apontarem como favorito na segunda volta, nada está, obviamente, garantido. Ainda assim, Hollande pisca o olho aos valiosos eleitores da FN. Em declarações à RTL, afirmou: “Num período de crise, que nós conhecemos, a limitação económica da imigração é necessária, indispensável. Eu quero lutar contra a imigração clandestina no plano económico”.

O derrotado
Sarkozy não teve um primeiro mandato fácil. A sua presidência foi bastante criticada pelos vários sectores políticos franceses. Em plena campanha, quando a sua popularidade estava em baixa, beneficiou do caso do chamado assassino de Toulouse. Endureceu o seu discurso e apostou em temas como a segurança e a islamização de França. Era uma clara tentativa de conseguir chegar aos tradicionais eleitores da FN. A estratégia não resultou. Atingiu os 27,18 por cento e tenciona agora tornar-se o unificador da direita para ser reconduzido no cargo. Mas este é um objectivo bastante complicado. Apesar de se ter tentado distanciar, sabe que precisa daqueles que votaram Marine para continuar no Eliseu.

O ajudado
Jean-Luc Mélenchon, o candidato da extrema-esquerda, foi desde o início acarinhado pelos meios de comunicação social e, segundo as sondagens, era apontado como aquele que conseguiria o terceiro lugar na primeira volta. No fim de contas, a montanha pariu um rato. O seu resultado pouco ultrapassou os 11 por cento. Há que dizer que Mélenchon, tal como Eva Joly, defenderam sempre o voto em Hollande, oue seja, a unidade das esquerdas contra Sarkozy. Podia ser uma justificação para os fracos desempenhos destes dois candidatos, mas o que aconteceu contrariou as análises dos que se convenceram de que a política em França não havia mudado.

A “surpresa”
A grande vencedora desta primeira volta foi Marine Le Pen, filha do histórico líder da FN Jean-Marie LePen. Muitos consideraram o seu expressivo resultado de 18 por cento, superior ao conseguido pelo seu pai na segunda volta de 2002, como uma surpresa. De facto, nenhuma sondagem previu tais números. Mas há que ter uma análise fria e atenta da situação política francesa. Marine iniciou, com sucesso, o chamado processo de desdiabolização da FN. Com todas as críticas que lhe possam ser apontadas, Marine fez-se valer como opção para grande parte do eleitorado. Assumiu-se como chefe da oposição e está decidida a mostrar que a cena política francesa se alterou. Ela é um dos novos actores e ninguém pode alterá-la. A sua posição sobre a segunda volta será anunciada no dia 1 de Maio, data em que a FN faz a sua tradicional homenagem a Joana d’Arc. Mas o seu objectivo claro são as legislativas. Recorde-se que, quando o sistema era proporcional, a FN conseguiu eleger 35 deputados à Assembleia Nacional. A partir daí, apesar das votações expressivas, a FN foi arredada da representação no parlamento pelo novo sistema a duas voltas. Agora, com este crescimento, Marine espera voltar o feitiço contra o feiticeiro.

As Direitas
Na maior parte dos casos, a imprensa portuguesa, para não falar de outros casos, continua a tratar a FN como um partido de extrema-direita. Com este simplismo, parece que se trata de um pequeno partido marginal e que extrema-direita equivale, necessariamente, a fascismo. Tal entendimento só pode demonstrar ignorância ou má-fé. Fazendo uma análise séria, é impossível remeter a FN para os lugares-comuns do costume, normalmente inquinados ideologicamente. Em primeiro lugar, espectro dos seus eleitores é amplo. Um dado curioso, para os menos atentos, e bastante incómodo para as esquerdas, é que a FN é o partido que em França colhe a maior fatia de apoio dos operários. Também tem grande adesão nas camadas mais jovens, assumindo-se como uma força anti-sistema. Em segundo lugar, há que ter em conta o panorama das direitas francesas. Se olharmos para o programa do RPR dos anos 80 do século passado, descobrimos automaticamente grandes semelhanças com o do FN hodierno. Tal não acontece por acaso. A fractura da grande família direitista em França continua. Como muito bem classificou René Rémond, na sua tipologia das direitas francesas, assistimos ainda hoje à luta entre orléanistas e bonapartistas pelo domínio desta grande família política. Marine está a inverter o jogo de forças. Um fenómeno ao qual devemos estar atentos, para melhor compreender as mudanças em curso, não só em França, mas em toda a Europa.

E agora?
Aquele que pode ser considerado o bloco das direitas (Sarkozy, Le Pen, Dupont-Aignan) tem, em teoria, 47 por cento dos votos. O da esquerda (Hollande, Mélenchon, Joly, Poutou, Arthaud), por seu lado, dispõe de 44 por cento. Claro que a forma como se vão repartir os nove por cento dos eleitores que votaram no centrista François Bayrou é importante e difícil de adivinhar. No entanto, as contas estão longe de ser fáceis. Uma coisa é certa, a atitude dos eleitores de Marine Le Pen será determinante na decisão de quem será o próximo Presidente francês. Alguns preferirão, mesmo que contrariados, o candidato da direita. Outros o da esquerda, conforme muitos já declararam. Mas há sempre aqueles que optam pela abstenção. Como afirmaram vários frentistas, com estes candidatos na segunda volta, no dia do acto eleitoral da segunda volta preferem “ir à pesca”. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

Sem comentários:

Enviar um comentário