quinta-feira, 10 de maio de 2012

Descobrir Portugal

É comum dizer-se que só valorizamos uma coisa quando lhe sentimos a falta. Como portugueses, devemos sabê-lo melhor que ninguém, em especial quando se trata da nossa terra. É esse o sentimento que está na origem de algo tão nosso – mas que é muito mais profundo e amplo que a mera falta – que é a Saudade.

É bastante comum vermos como as nossas comunidades emigradas lá fora têm a preocupação em preservar o nosso património. Pelo contrário, parece que, para quem cá está, Portugal representa tudo o que “está mal”. Certo é que, quando saímos, sentimos automaticamente o pulsar de uma ligação imemorial. A este propósito, recordo aqui um exemplo paradigmático.
O aclamado escritor John dos Passos, conhecido especialmente pela sua trilogia americana, escreveu um livro que entre nós recebeu o título “Portugal – três séculos de expansão e descobrimentos”. Foi um trabalho de pesquisa sobre a nossa História, mas, mais importante que isso, foi um reencontro. No prefácio à edição portuguesa, escreveu: “Embora eu fosse educado sem qualquer conhecimento da língua portuguesa, a minha família não perdera por completo o contacto com os parentes do meu avô, na Madeira. O meu pai nunca se esqueceu de que era meio português. (...) Para o meu pai, que guardava apenas meia fidelidade para com a deslumbrante América interesseira em que passava a vida, estes laços com a tradição significavam muito. Ao tornar-me mais velho, também eu tomei consciência dessa parte da herança portuguesa que me corria nas veias. Este livro é, de certo modo, um sacrifício feito sobre os altares ancestrais”.

Hoje, que cada vez mais sentimos falta de Portugal em Portugal, pode ser que não seja necessário sair fisicamente da nossa Pátria para a descobrirmos.

Um Povo que descobriu outros mundos ter o dever de, numa altura em que está perdido e sem rumo, descobrir-se a si próprio.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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