quinta-feira, 26 de abril de 2012

Pensar a Civilização

Niall Ferguson é hoje um dos historiadores mais conhecidos e influentes no mundo. Os seus trabalhos recentes sobre História financeira e económica têm chamado a atenção do público. Várias das suas obras são também séries de televisão bastante populares. É o caso de “Civilização – O Ocidente e os Outros” (capa mole, 512 páginas, 18,90 euros), publicado agora entre nós.



De uma forma provocatória, o autor afirma que se em 1411 déssemos uma volta ao mundo ficaríamos maravilhados com as civilizações do Oriente e nunca imaginaríamos que o Ocidente viria a dominar os Outros durante a maior parte da metade do milénio seguinte. Foi o que aconteceu e, segundo Niall Ferguson, tal só foi possível porque Ocidente desenvolveu seis “aplicações-chave” que os Outros não possuíam: competição, ciência, democracia, medicina, consumismo e ética de trabalho.

A grande questão é saber se hoje o Ocidente perdeu o seu monopólio nestas seis áreas. Principalmente, desde que os Outros começaram a dominar essas aplicações, nomeadamente a China. Se assim for, avisa Ferguson, podemos estar a viver o fim da ascendência ocidental. Mas será que esse declínio se deve à ameaça das outras civilizações ou a nós próprios? Uma causa fundamental, muito bem observada pelo autor, é a ignorância histórica. Como ele afirma: “Durante os últimos trinta anos, incutiram aos jovens das escolas e universidades ocidentais a ideia de uma educação liberal sem a substância do conhecimento histórico. Ensinaram-lhes 'módulos' isolados, não lhes ensinaram narrativas e muito menos cronologias. Foram treinados na análise das fórmulas de excertos documentais e não na competência-chave de ler muito, de forma generalista e depressa. Foram encorajados a sentir empatia por centuriões romanos imaginados ou pelas vítimas do Holocausto mas não a escrever ensaios sobre os 'porquês' e os 'comos' das respectivas condições.”

Esta edição portuguesa tem uma boa tradução e várias notas do tradutor, que são bastante úteis para enquadrar o leitor menos preparado nestes temas. Tem também um aspecto negativo, que é o facto de a editora ter aderido ao famigerado Acordo Ortográfico.

Na análise deste historiador escocês, nota-se uma acentuada perspectiva anglo-saxónica que talvez justifique muitas das suas interpretações. Ainda assim, esta é uma obra feita para o grande público que, mesmo não se concordando com os seus pressupostos e conclusões, tem o mérito de trazer a discussão e a reflexão sobre a Civilização, numa altura em que a superioridade do Ocidente está a ser posta em causa.

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