quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de Abril

Sendo filho do ‘baby boom’ marcellista, não tenho idade para ter vivido o 25 de Abril de 1974. Contam os meus pais que passei esse dia num pranto inexplicável e gosto de brincar com esta história familiar dizendo que, talvez como os animais, os bebés pressentem a vinda das catástrofes.

Ironias à parte e analisando à distância, só posso concluir pela inevitabilidade do fim do Estado Novo. Ao contrário do que muitos se convenciam, não havia uma especificidade do caso português que evitasse o fim do Império, nem solidez política nos que achavam que tudo iria continuar na mesma na “terra dos brandos costumes”.

É por isso que quando oiço falar no “mérito dos militares de Abril” me lembro das palavras de António Marques Bessa, na apresentação do livro “Alvorada Desfeita” – uma ficção histórica alternativa que especula sobre o falhanço do golpe militar do 25 de Abril –, que cito de memória: “Têm o mesmo mérito de quem dá um pontapé numa coisa podre. A coisa cai e não é necessário grande esforço”.

O que é facto é que se tornou um símbolo “pronto-a-usar” para os nossos políticos. Muitos não se cansam de recordar até à exaustão as “conquistas de Abril”, esquecendo sempre os “conquistados de Abril” – aqueles que tanto perderam e foram injustiçados pelos que tomaram o poder.

A discussão sobre esta questão, apesar de necessária, está viciada à partida. Mas o que a torna verdadeiramente impossível é o facto de as gerações mais novas nada saberem sobre esse período.

Para não cair mais uma vez naqueles discursos teóricos sobre a ignorância generalizada, recordo aqui um caso paradigmático a que assisti há uns anos. Numa daquelas peças televisivas em que se fazem perguntas a estudantes à porta das escolas – feitas normalmente para conseguir as respostas mais disparatadas – questionavam-se alunos sobre o que era o 25 de Abril. Uma rapariga, bastante convicta, afirmou: “é feriado”. O repórter insistiu, perguntando se ela sabia porque é que era feriado. Mais uma vez, com a mesma segurança, respondeu: “Porque não há escola e não se trabalha”.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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