quarta-feira, 28 de março de 2012

Shakespeare entre nós

O talentoso e reconhecido actor britânico Ralph Fiennes aventura-se no seu primeiro trabalho de realização com um desafio que está longe de ser fácil. “Coriolano” é a passagem ao cinema da tragédia shakespereana homónima, com uma diferença fundamental – passa-se nos tempos modernos.
Quem vir a sequência inicial, com as cenas de combate militar urbano, repletas de tiroteios com armas automáticas, pode pensar que está perante mais um filme de guerra. Mas há um pormenor que rapidamente mostra que estamos perante algo completamente diferente. Apesar dos cenários, os diálogos são “de outro tempo” e de outro nível.

A história, fiel ao original, passa-se numa Roma fictícia dos nossos dias. Os senadores, engravatados, sentam-se num hemiciclo moderno ou falam na televisão. Os militares, com fardas actuais, têm espingardas de assalto e blindados. O herói de guerra Caio Márcio Coriolano (Ralph Fiennes) é respeitado pelos cidadãos e candidata-se a cônsul. Mas este não é um homem habituado às guerras da política, com todas as suas jogadas de bastidores, as suas regras e os seus costumes. Logo começa a ser desacreditado pelos seus inimigos, acaba derrotado e, furioso, insulta o senado. Sai de Roma e segue para Antium, onde acaba por aliar-se àqueles que combateu – os volscos, que são apresentados com um aspecto balcânico e armados com kalashnikovs. Desejando vingança, junta-se a Tullus Aufidius (Gerard Butler) e ataca Roma.

O filme conjuga bem o regresso aos clássicos com a actualidade das movimentações políticas e da manipulação e controlo da opinião pública.

Do elenco de luxo, há a destacar as prestações formidáveis de Ralph Fiennes, à volta de quem tudo gira, e de Vanessa Redgrave.

Um bom e arrojado princípio de carreira de Fiennes como realizador. A mostrar que o grande mestre das letras britânico não só continua vivo como visita o nosso mundo. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

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