quinta-feira, 15 de março de 2012

Regresso ao passado

No prefácio do livro “Roteiros VI”, que publica as principais intervenções do Presidente da República (PR) no primeiro ano do seu segundo mandato, Cavaco Silva disse que o anúncio do PEC IV o apanhou de surpresa porque o então primeiro-ministro não lhe tinha dado conhecimento e “pelo contrário, a informação que era fornecida referia uma situação muito positiva relativamente à execução orçamental nos primeiros meses do ano”.

Acusou, por isso, Sócrates de “falta de lealdade institucional”. A reacção dos socialistas foi a esperada, dizendo que o PR estava a fazer um ajuste de contas extemporâneo. Pedro Silva Pereira, o ‘sidekick’ do ex-primeiro-ministro, disse que Cavaco “não tem infelizmente autoridade moral para acusar quem quer que seja de lealdade institucional” e José Lello repetiu a tirada do “foleiro”.

Realmente, parece que o PR está a enviar à mesa aquele prato que se serve frio. Mas o azedar de relações entre os inquilinos de São Bento e de Belém durante a chamada crise política de 2011 está longe de ser uma novidade.

Quais as intenções do PR com esta manobra? Será que é para ficar bem com a sua consciência e perante os portugueses? Acontece que as responsabilidades de Sócrates são bem conhecidas e não parece que seja por esta “revelação” que os cidadãos vão mudar a sua opinião sobre o papel apagado e quase ausente de Cavaco nessa altura.

Ou será que Cavaco quer avisar o actual Governo? Se é, não tem grande efeito. Será, talvez, que é para atacar o PS? Se sim, apenas conseguiu o contrário – uma unidade efémera entre as várias tendências internas desavindas, agora juntas contra um ataque externo. Este lavar de roupa suja mostra apenas o estado terminal de um regime, dos seus representantes e das suas instituições.
Este é um regresso ao passado que nos mostra que o futuro não pode ser uma continuação deste estado de coisas.

Portugal merece melhor.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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