quinta-feira, 8 de março de 2012

Entrevista com Francisco Miguel Valada (I)

Aqui fica a primeira parte da entrevista que fiz com Francisco Miguel Valada publicada na última edição de «O Diabo».

Agora que começa a entrar em casa dos portugueses, o Acordo Ortográfico (AO) está a gerar cada vez mais polémica e começa a levantar-se uma oposição crescente. Francisco Miguel Valada é intérprete de conferência em instituições comunitárias e reside em Bruxelas. Tem denunciado o AO em vários debates e artigos publicados na imprensa e é autor do livro “Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico”. O DIABO entrevistou-o


O DIABO – O que o mo­tivou a escrever um livro contra o Acordo Ortográfico (AO)?
Francisco Miguel Valada – Motivos exclusivamente lin­guísticos. O AO é um disparate científico, uma precipitação. O AO é uma teoria que não foi aceite pela comunidade cientí­fica. Acontece a muitas teorias. Mas esta teve direito a tapete vermelho. Por si só, esse motivo basta para o AO ser suspenso. A única entidade que não ma­nifestou reservas quanto à apli­cação do AO foi a Academia das Ciências de Lisboa (ACL). A ACL é o órgão consultivo do Governo em matéria linguística e foi a responsável pelo projecto AO em nome do Estado portu­guês. Agora, pense numa obra pública. Quem foi o responsável pela construção da ponte inter­nacional do Guadiana, um pro­jecto internacional? O LNEC? Não. O LNEC emite pareceres e faz estudos. A quem foi ad­judicado o projecto da ponte, ao LNEC? Claro que não. Foi a uma empresa espanhola e à Teixeira Duarte. Imagine que o Estado português decidia con­sultar diversas entidades, a Tei­xeira Duarte tecia loas à ponte e o LNEC sugeria a imediata interrupção do projecto, porque detectara problemas estruturais. Algum dos responsáveis políti­cos deste país que defendem o AO defenderia a construção da ponte? Não creio. Mas defen­dem o AO, sem perceberem os enganos do processo, sem terem lido os pareceres, enfim, muitos sem terem lido o próprio AO.

O seu livro teve boa re­cepção?
O livro deu o seu contri­buto na tentativa de chamar a atenção para um problema que muita gente teima em de­fender sem ler o AO. E através do livro, pelo menos, consegui que algumas pessoas que me disseram ser, em princípio, a favor do AO, declarassem publi­camente a mudança de opinião. A estabilidade de uma norma ortográfica não se põe em cau­sa com argumentos falaciosos. Estas três dúvidas têm exacta­mente o mesmo valor: “como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que concep­ção tem pê mudo e correcção tem cê mudo?”, “como é que um jovem de 15-16 anos pode compreender que Sócrates foi mestre de Platão e que Platão foi mestre de Aristóteles?” ou “como é que um homem de 39 anos pode compreender que Borges Coutinho foi presiden­te do Benfica , João Moutinho joga no FCPorto e José Mouri­nho treina o Real Madrid?”. A resposta que os autores do AO dão à primeira dúvida posso dar eu às duas outras: “à custa de um enorme esforço de me­morização”. E qual é o valor da minha resposta? Zero. Onde está a prova da minha respos­ta? Nenhures. Qual a reacção do poder? Fuga para a frente. António Caeiro traduziu para português a Ética a Nicómaco, de Aristóteles. Quem quiser sa­ber o valor de uma fuga para a frente, encontra-o na página 86, se não me engano.

Acha que a questão do AO passou ao lado dos por­tugueses?
Passou evidentemente ao lado dos portugueses. A prova disso são políticos que utilizam a norma europeia do português e que estão directamente liga­dos à promoção do AO. Pedro Santana Lopes foi quem assinou o acordo ortográfico, em 1990, e em 2012 continua a achar que facto passa a fato; o cidadão Pinto Ribeiro, meses depois de deixar de andar a promover o AO na qualidade de ministro, dizia que «Ato [sic] jurídico é fácil, agora “fato” em vez de “facto”...»; Gabriela Canavi­lhas, em estreia na Assembleia da República, para além de di­zer que o debate ficara lá para trás, disse que se calhar daqui a uns anos ainda escreveria facto com cê. São um núcleo duro, o “grupo do fato”. Se o AO passou ao lado de quem o decidiu, parece-me ainda mais evidente que passou ao lado dos outros portugueses.

Mas parece que agora muitos estão a despertar...
Porque deixou de ser um problema teórico, uma mera possibilidade, para afectar o dia-a-dia das pessoas. Os autores do AO esqueceram-se de que a sociedade portuguesa é grafo­cêntrica. Temos palavra escrita por tudo quanto é sítio. Vera Curiel, minha colega, duran­te a apresentação que António Emiliano fez do meu livro em Lisboa, disse que a morte do AO aconteceria quando este come­çasse a ser aplicado. Nunca dese­jei que este momento chegasse, mas chegou. Esperemos que a profecia se concretize.

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