quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Entrevista com Nuno Rogeiro (I)

Nuno Rogeiro é um comentador político com larga experiência jornalística, passou por vários meios de comunicação, incluindo pelo nosso “O Diabo”, onde chegou a director-adjunto. Tornou-se especialista em questões internacionais e é actualmente responsável pelo programa “Sociedade das Nações”, da Sic Notícias. Publicou recentemente “Na Rua Árabe - Causas e Consequências das Revoltas no Médio Oriente”. Fomos a sua casa entrevistá-lo.


O DIABO – Como é que começou realmente esta “Primavera Árabe”? Já que, como afirma no livro, tudo começou fora da “rua árabe”...
Nuno Rogeiro – Creio que assisti aos primórdios da “Rua Árabe”, fora do mundo árabe, no Irão. Quando visitei este país, descobri que por debaixo de uma unanimidade e homogeneidade aparente, característica destas sociedades, havia, de facto, uma pluralidade de pontos de vista e opiniões que poderiam chegar a grandes radicalizações. Por isso é que se costuma dizer que a sociedade iraniana é das “mais democráticas” que há. No sentido de que há sempre uma discussão profunda, mas que não é pública. Muitas das vezes, sendo o próprio Estado a fazer com que essa discussão não seja pública. Fui então percebendo as algumas sociedades muçulmanas não eram aquilo que pareciam. Por trás da aparente unidade existia uma grande série de opiniões que só não eram expressas de uma forma mais positiva porque havia pressões de outros Estados – do ponto de vista militar, financeiro, etc. – ou porque muitas destas sociedades árabes e muçulmanas não são sociedades livres do ponto de vista dos seus direitos civis. E quando não há esta liberdade as opiniões acabam por não passar para o público em geral.

Há um efeito de panela de pressão?
O “Rua Árabe” é a descrição de uma panela de pressão. Mais tarde ou mais cedo as tendências que eram observáveis e que eu encontrei no Irão e noutros países acabariam mais tarde ou mais cedo por vir ao de cima. A questão era saber como é que o governantes controlam esta panela de pressão. Podem controlá-la de várias formas e foi tentado por vários regimes em todo o mundo árabe mas, em geral, não deu resultado.

O que é que está a dar resultado?
Nos países onde as coisas têm decorrido de uma forma menos violenta, como é o caso de Marrocos, tem havido uma tentativa de abertura dos regimes. Que pode dar resultado, evitando para já banhos de sangue. Em outros países, como é o caso da Argélia, onde os militares estão no poder, têm tido resultados até agora. Não se sabe é quanto tempo aguentam mais. Nos outros países em que se tentou uma mistura de abertura e força militar não resultou, que foi o caso do Egipto ou da Tunísia.

O que aí vem será mesmo democracia?
Pode não ser. Estamos a fazer esta entrevista no dia em que alguns institutos de sondagens dizem que os portugueses em geral acreditam cada vez menos na democracia tal como a conhecemos. Portanto, vamos perguntar que democracia. Uma democracia que se traduz no voto maioritário das pessoas e depois a ausência das liberdades civis? Aquilo a que em outros tempos os politólogos chamaram democracia totalitária. A possibilidade de uma democracia do voto em que além disso não há qualquer espaço para a opinião? Poderá ser uma democracia em que há no fundo o semblante de liberdades civis, mas que na prática essas liberdades só estão escritas nas constituições e não podem ser garantidas. Uma coisa que este livro tenta fazer é não forçar uma explicação do fim da história. Nós não sabemos dizer verdadeiramente qual será o fim da história. Há muitas hipóteses em aberto, muitas delas são no sentido de haver mais liberdades civis, outras são no sentido de a actual panela de pressão substituir a antiga. Em que os laicos ou os militares são substituídos por islamitas.

Há o perigo islamita, até através do voto?
A questão da vontade democrática é só uma: ou se decide jogar o jogo até ao fim e tem que se aceitar o voto independentemente do resultado ou simplesmente uma democracia em que aceitamos uns resultados e outros não. A questão é esta. Quando se abre um processo deste tipo é muito difícil voltar a fechá-lo. Até porque nós estamos habituados através da história de que quando os povos desejam algo mais do que pão para a boca - e desejam por exemplo liberdades civis – é muito difícil dizer-lhe “tomem lá o pão e agora esqueçam a liberdade”.

No caso da Líbia, como se explica a mudança repentina da visão da Europa sobre Khadafi?
A atitude europeia foi determinada somente por dois ou três países que se adiantaram. Um deles foi a França, que se adiantou devido a questões de calendário eleitoral. A questão na política internacional é que quando se tomam decisões geralmente essas decisões acarretam consequências. Poderíamos perguntar se a França tinha a noção exacta daquilo que estava, no fundo, a fazer: a forma como estava a acelerar a História. A verdade é que houve uma consequência para a “precipitação” do Sr. Sarkozy, em parte devido ao facto de achar que tinha estado no lado errado da História no que respeita à Tunísia. Tentando desta vez estar do lado certo. Pela primeira vez os europeus tiveram um papel muito mais predominante numa acção deste género que os americanos.

Qual foi, então, o verdadeiro papel e interesse americano nestes países?
Continuo a achar, e há provas nas diversas declarações, que os EUA fizeram, desde o 11 de Setembro, uma aposta extremamente arriscada. Digo arriscada porque podia dar ou não resultado. A aposta era esta: canalizar os ímpetos revolucionários e até violentos de muitos grupos extremistas e salafistas contra os regimes corruptos. O que foi curioso porque ultrapassou todas as expectativas que a Al-Qaeda pudesse ter de todos estes regimes. É uma estratégia arriscada? É uma repetição daquilo que aconteceu no Afeganistão? Esse é o risco, sem dúvida. Qual era a alternativa? Era continuarmos com uma quantidade de regimes que não tinham qualquer tipo de aceitação política, sob a ficção de serem regimes que eram necessários para preservar uma espécie de paz pública e tranquilidade regional.

Qual é o perigo para a Europa caso os islamitas subam ao poder?
Agora há um ajuste de contas dentro do mundo islâmico. Ou seja, o Islão vai ajustar contas consigo próprio. Pela primeira vez nas últimas dezenas de anos, o Islão tem resolver a sua própria casa. O resultado, muito provavelmente, vai traduzir-se em que grupos islamitas vão ganhar eleições em todos estes países. Não tenho muitas dúvidas sobre isso. Já ganharam na Tunísia e no Egipto. No entanto, não acredito na tese de uma conspiração de um círculo islamista que esteja espalhado por todos estes países. O que eu tento demonstrar no livro é que todos estes países têm grupos islamistas diferentes.

Quais as consequências para a Europa?
A primeira consequência para a Europa, que está demonstrada em estatística, foi o afluxo de refugiados para a Itália. Em números que ultrapassaram largamente os que a Itália poderia alguma vez comportar. A segunda, prende-se com as comunidades islâmicas na Europa. Estas comunidades fortaleceram-se nos últimos dez anos, sobretudo na França, na Bélgica, de certa forma também em Itália, e todas elas estiveram a apoiar estas revoltas árabes. É muito difícil pensar nas revoltas egípcias ou sírias sem pensar nas comunidades destes países a viver, por exemplo, em Paris. A terceira, é haver uma pressão de vários Estados fundamentalistas que possam querer avançar com um cenário militar contra a Europa. Já o vi descrito em vários sítios, pessoalmente não acredito e acho que é uma possibilidade extremamente remota. Simplesmente porque estes Estados querem tratar da sua própria vida e não embarcar numa aventura militar contra a Europa.

Como comenta a atitude da chamada “direita populista” europeia que se baseia num discurso anti-islâmico?
A Direita tem “as costas largas”... Muitos dos grupos que se têm oposto à vinda sem controlo de imigrantes para a Europa, dos países do Norte de África e dos países islâmicos em geral, têm olhado para estas revoltas de uma forma ambivalente. Por um lado, acham que se as revoltas correrem mal, temos novas vagas de imigração sem controlo. Mas, por outro lado, se este regimes derem resultado, essa será uma forma de fixação dos candidatos a imigrantes. Se o Islão conseguir resolver a sua própria situação, haverá menos pressão sobre a Europa.

É um Choque de Civilizações?
Se há 30 anos alguém dissesse que o Islão era o grande problema do Ocidente, ninguém acreditava. Ninguém previa que no final do século XX haveria uma guerra por causa da religião. Todos achavam que os problemas seriam outros: económicos, territoriais, derivados da Guerra Fria, etc. Apesar do conflito de Civilizações, aquilo que sai das revoltas árabes, é que as pessoas queriam aquilo que quiseram no Ocidente há 200 ou 300 anos atrás. Ou seja, a possibilidade de elevarem o seu estatuto económico, de falarem livremente, de educarem os seus filhos nas escolas que quisessem, de viverem sem medo. As chamadas liberdades e os direitos civis e económicos foi o que esteve na mesa no primeiro momento da revolta árabe. Se assim vai continuar, não sei. Mas sei que não foi a religião o grande motor destas revoltas. Se fosse uma revolta religiosa teria consequências totalmente diferentes. [Conclui amanhã]

Publicado na edição de «O Diabo», de 24/1/2012.

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