sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Da Democracia

A igualdade não consiste em os pobres possuírem mais poder do que os ricos ou serem os únicos detentores da soberania, mas terem todos, uns e outros, por igual, de acordo com o número. Deste modo poderiam considerar que estavam asseguradas na Constituição a igualdade e a liberdade.
Aristóteles, A Política, III

Citações como esta são usadas ainda hoje para explicar e exemplificar a democracia. O regresso aos clássicos é sempre aconselhável e salutar, mas como em qualquer assunto não pode ser descontextualizado.

A democracia clássica, nomeadamente a ateniense, é apontada como exemplo e origem do sistema que hoje temos no mundo ocidental e que muitos insistem em disseminar pelo mundo, numa verdadeira atitude prosélita, por vezes pela força. Acontece que esta democracia era bem diferente do que vivemos hoje. Recorde-se que estava reservada apenas aos cidadãos, ou seja, aos homens adultos que tivessem cumprido o serviço militar. Excluídos estavam as mulheres, os escravos e os metecos, cidadãos estrangeiros residentes na ‘polis’. O próprio Aristóteles, apesar de filósofo e homem de cultura reconhecido, viveu como meteco em Atenas durante dezenas de anos e nunca foi considerado cidadão ateniense. Aos olhos dos bem-pensantes de hoje, tal mais parece um regime “racista e xenófobo”. Por outro lado, para um grego clássico, o que vivemos hoje seria provavelmente uma oligarquia, regime onde o poder está nas mãos dos mais ricos.

Baseada na justiça e na liberdade, a democracia deve ser o poder do povo, melhor dizendo, da comunidade. Mas onde encontrar as comunidades quando estas se têm vindo a dissolver gradualmente no magma uniformizador da globalização?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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