domingo, 8 de janeiro de 2012

E agora?

As dúvidas são grandes e a expectativa maior. Os receios quanto ao que será o futuro de Portugal e da Europa aumentam. O tempo das “vacas gordas”, da vida confortável e do futuro garantido chegou ao fim. O mundo mudou e o nosso país também. 2011 foi um ano de viragem e, no novo ciclo que se avizinha, nada será como dantes.


O ano transacto foi um annus horribilis para todos os que nos asseguravam que tudo ia correr bem. Os políticos do costume, bem instalados, viram a sua careca descoberta. Afinal, todo este progresso e desenvolvimento era ilusório. Comprado a crédito e hipotecando gradualmente o País a interesses estrangeiros. Com um endividamento geral, dos interesses do Estado às famílias, não tardou a que os credores nos batessem à porta. As dúvidas sobre a perda da nossa soberania esbateram-se com o início oficial de um semi-protectorado ou de um co-governo, como queiramos chamar. Mas Portugal não foi um caso único. A Europa foi vítima de repetidos ataques e a ditadura dos mercados mostrou a sua força ao fazer cair governos e colocando em seu lugar homens da sua confiança.

Portugal
No nosso país, percebemos que nem o fim do socratismo, nem as “medidas de austeridade e contenção” alteraram a situação perante os sempre atentos e intervenientes “mercados”, como agora se diz. Simultaneamente a esta perda de confiança nas instituições políticas e o questionar da validade das eleições enquanto instrumento popular de alteração da situação, vieram a descredibilização total no sistema judiciário, onde apenas quem tem posses razoáveis parece escapar, e a desconfiança nas instituições financeiras, com as falências de bancos e as repetidas fraudes. Os despedimentos, abaixamento do poder de compra e a subida da criminalidade aumentaram o sentimento de insegurança. O receio de um regresso ao Escudo, com a respectiva quebra do valor da moeda, assusta cada vez mais gente. Na rua, o nosso pessimismo agravou-se.
Perante tal cenário, os portugueses iniciaram de novo um êxodo. A taxa de emigração subiu vertiginosamente. Mas hoje, para além de técnicos qualificados, grande parte dos que saem não pensa voltar ou ser português. Como filhos da globalização, viver em Braga, São Paulo ou Nova Iorque é a mesma coisa. Esta verdadeira fuga coincide com outras – a fuga de capitais e de investimentos.
Grande parte dos portugueses deixou de acreditar em Portugal.

Europa
Também no resto da Europa, depois de anos ricos, as dificuldades apertam. A actual construção europeia treme com a força dos “mercados” e com as divisões internas. Mesmo a moeda única não parece resistir. O nosso continente é hoje um grupo de países sobreendividados, que viram passiva e alegremente a sua força produtiva partir para outras paragens, onde cada um tenta tratar da sua sorte, sem uma necessária estratégia comum.
Neste estado frágil, nada pior do que a situação conturbada que se vive no Mediterrâneo e no Médio Oriente. As várias revoltas a que se chamou a “Primavera Árabe”, pelos que apenas viam “a vinda da liberdade e da democracia a povos oprimidos”, abriram a porta aos islamitas, a uma maior instabilidade na região e à incerteza quanto ao futuro.

Mundo
A alteração do equilíbrio de forças no mundo ficou marcada pela influência crescente das chamadas potências emergentes. Com a China à cabeça, comprando dívidas e empresas estrangeiras e exportando produtos e mão-de-obra, percebemos como os parceiros do grande jogo da política mundial mudaram.
Os Estados Unidos da América, apesar da dívida e da crise económico-financeira, continuam a ser uma potência militar impressionante e a influenciar directamente a política externa. Quem acreditou numa “mudança”, já viu que afinal nada mudou. Os norte-americanos não abdicam dos seus interesses.

O fim da ilusão
Vivemos em fartura e, agora que sabemos que adversidades espreitam, somos forçados a mudar. Há sempre quem nos garanta horizontes de melhoria, que tudo vai ser como dantes em breve. O discurso dos “especialistas” do costume, dos optimismos oportunistas, é sempre o mesmo.
Mas uma coisa é certa e percebida – a festa da felicidade perpétua vai terminar. O reino da abundância chegou ao fim. Esta desilusão – no sentido profundo do termo – é também uma oportunidade. Um tempo para mudar de atitude e não descurar o que é realmente importante. A altura ideal para reencontrarmos valores essenciais, que foram sendo esquecidos e perdidos.

O nosso futuro
A futurologia é a disciplina predilecta dos comentadores políticos. Acontece que, ultimamente, com tantos erros de previsão e cálculos económicos, caiu em descrédito.
Numa altura em que os desafios se agigantam e as dificuldades nos estrangulam, há que redescobrir a fibra dos portugueses que ao longo da nossa História não vacilaram perante as maiores adversidades. Que mantiveram acesa até hoje a chama pátria e nos legaram a responsabilidade de perpetuar esse fogo sagrado. Reza o nosso hino: Levantai hoje de novo…
O nosso futuro pertence-nos. O nosso pior inimigo é a passividade em relação à condução dos nossos destinos enquanto país, a apatia generalizada face ao porvir de uma Nação da qual somos parte integrante.
O nosso futuro pertence-nos. Alea jacta est!

[publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

1 comentário:

  1. Portugueses à mercê de quem muito bem calhar

    1. Não há necessidade do Estado possuir negócios do tipo cafés (etc), porque é fácil a um privado quebrar uma cartelização.
    Agora, em produtos de primeira necessidade - que implicam um investimento inicial de muitos milhões - só a CONCORRÊNCIA de empresas públicas é que permitirá combater eficazmente a cartelização [leia-se roubalheira] privada.
    {um exemplo: veja-se a roubalheira do preço da gasolina}
    2. Com a entrega de produtos de primeira de necessidade (ex: energia, água, etc) a privados... e com estes a venderem a quem muito bem calhar (e a pirarem-se para um outro lado qualquer)... os portugueses ficarão à mercê de quem muito bem calhar.

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