quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Crise da Democracia

Cumpre distinguir entre a vontade da maioria e a vontade nacional. A vontade da maioria é consciente; a vontade nacional é inconsciente. Em determinada altura, determinada nação segue certo rumo; não o sabem os políticos, em geral, nem o sabe o povo.
Fernando Pessoa

O que se considera uma democracia? Se for uma questão de designação, podemos até incluir a Coreia do Norte. Fora de ironias, cada vez menos pessoas se identificam com o actual sistema político – que normalmente desconhecem – e desconfiam dos políticos, como classe considerada “corrupta”. Para muitos vivemos uma “partidocracia”, onde as “quadrilhas políticas”, como lhes chamou António Marques Bessa, tomam de assalto o poder. Talvez por isso não seja de estranhar o resultado do estudo revelado na semana passada, onde apenas 56% dos portugueses consideram que “a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo”. Algo de que as elevadas percentagens de abstenção eleitoral já eram um sinal.

A actual concepção de democracia assenta na existência de eleições livres e de direitos civis e políticos. Mas será que esta vai perdurar quando terminar a era do conforto económico?
O historiador francês Dominique Venner, no seu livro “O Século de 1914 – Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX”, escreveu: “A democracia liberal, que apareceu nos Estados Unidos em fins do século XVIII, na esteira das tradições britânicas, estava associada a um desenvolvimento económico contínuo, do qual procedia. Ajustava-se a uma sociedade próspera, empreendedora, preocupada com a liberdade e a igualdade. Num contexto de crise social e política, como o da Europa em 1929, um tal sistema foi necessariamente substituído por um tipo de governo autoritário mais eficaz, que utilizava entre outros o instrumento, com provas dadas, de um partido único mais ou menos disfarçado.” Perante a actual crise, será que tomaremos um rumo semelhante?

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

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