quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A origem dos primatas

“O Homem que veio do Futuro” (1968), de Franklin J. Schaffner, conhecido popularmente como “Planeta dos Macacos”, é um clássico que deu origem a uma série de filmes e a um ‘remake’ realizado por Tim Burton, em 2001, que ficou longe de fazer jus ao original. Ao contrário deste último, em “Planeta dos Macacos: A Origem” não se tentar refazer uma das histórias da série, mas acrescentar-lhe um episódio, ou uma “prequela”.

Obrigatoriamente, retoma-se a problemática da relação entre o Homem e a técnica e as consequentes alterações sociais, mas adaptada aos nossos dias. Desta vez, o medo do nuclear foi substituído pelo da manipulação genética. Neste caso, um jovem cientista (James Franco) procura uma cura para a doença de Alzheimer, da qual padece o seu pai, usando chimpanzés como cobaias. A droga provoca alterações cerebrais nos primatas, que se tornam mais inteligentes, e promete funcionar em humanos. Mas nem tudo vai correr como esperado.

Nesta aventura vamos chegar à conclusão que de boas intenções da ciência está o Inferno cheio e que a clausura e os maus tratos a animais não só estão errados, por princípio, como se podem tornar perigosos. Com estas premissas, o filme poderia ter outra densidade e profundidade. Mas, talvez para atrair o público jovem, não se resistiu às cenas de acção habituais, com muitos efeitos especiais, explosões, tiros e lutas com fartura.

Nas representações o desempenho é em geral mediano, exceptuando o de Andy Serkis, no papel do primata protagonista, com o recurso à tecnologia com que havia interpretado Gollum, no “Senhor dos Anéis” de Peter Jackson. É interessante verificar que aqui há uma superioridade tanto da técnica, como dos “macacos”, em relação aos humanos.

Uma curiosidade, que talvez passe ao lado dos menos atentos, é a recordação do protagonista do original, Charton Heston, visto na televisão pelas personagens em duas cenas.

Em suma, um filme de entretenimento que não é o fim da macacada, mas o início… [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sábado, 27 de agosto de 2011

O Grande Ditador


Em primeiro lugar, o seu a seu dono - o título deste post deve-se ao Miguel Vaz. A propósito da nossa (infindável) conversa sobre a obra-prima cinematográfica que é "Apocalypse Now" (1976) e do regresso que ele fez a "Hearts of Darkness" (1991) lembrei-me de duas passagens desse documentário.

A primeira é quando o argumentista John Milius diz que ao entrar para uma reunião com Francis Ford Coppola se sentiu como Von Rundstedt quando foi ter com Hitler, em 1944, para lhe dizer que já não havia combustível na frente russa e que tudo estava perdido. Mas quando saiu de lá, uma hora e meia depois, Coppola havia-o convencido de que este era o primeiro filme que iria ganhar um prémio nobel. Milius diz que saiu de lá como Von Rundstedt a dizer "Podemos ganhar! Não precisamos de gasolina!", porque Coppola lhe tinha dado totalmente a volta.

Mais à frente, o próprio Coppola diz que "realizador é um dos poucos cargos ditatoriais que restam num mundo cada vez mais democrático".

Pode até ser que Coppola tenha sido nesta obra um "grande ditador", mas é sem dúvida um maior realizador.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Conan e as barbaridades

Conan desenhado por Earl Norem

Ontem chegou às salas portuguesas o novo filme "Conan, o Bárbaro". Confesso que estou muito relutante em vê-lo. Para além das tantas críticas negativas, como grande apreciador deste herói e da restante obra genial de Robert E. Howard, custa-me vê-lo mal representado. O "Conan" de 1982, interpretado por Arnold Schwarzenegger e realizado pelo rebelde John Milius, é um dos meus filmes de culto. Não é, com certeza, um havaiano num delírio gore em 3D que lhe vai chegar aos pés. Acho que vou mesmo passar...

A propósito deste novo filme, acabei por ver um disparate — mais um — na Sic Notícias. Não costumo comentar coisas fora da blogosfera, mas desta vez não podia deixar passar. Decidi escrever o seguinte: "Nesta peça é dito que Conan 'nasceu no mundo da banda desenhada', o que é totalmente falso! Conan foi criado por Robert E. Howard, que incrivelmente não é referido, e apareceu em histórias publicadas na revista "Weird Tales". Estas foram depois publicadas em livros, que até estão traduzidos e publicados em Portugal. A informação está toda disponível na internet, não há desculpa. Que falta de brio profissional enquanto jornalista." Espero que seja publicado e, principalmente, lido pelo (ir)responsável.

Capa da "Weird Tales" de Dezembro de 1932,
onde Conan aparece pela primeira vez,
no conto "The Phoenix on the Sword"

Modernidade e vanguarda

Cabeça (1913), Santa-Rita Pintor.

Até ao próximo dia 5 de Outubro, estará patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC) – Museu do Chiado, a segunda de três exposições que assinalam o centenário do MNAC. Intitulada “Arte Portuguesa do Século XX (1910-1960).
 Modernidade e vanguarda” e comissariada por Adelaide Ginja, corresponde ao período dos primeiros 50 anos de existência do museu. Com cerca de 100 obras, está dividida em cinco núcleos. No primeiro, “Frentes de vanguarda: de Paris a Lisboa”, o destaque vai para as obras de Amadeo de Souza-Cardoso e para a espantosa “Cabeça”, de Santa-Rita Pintor. No segundo, “Almada Negreiros: dinâmica e volumetria”, a atenção prende-se no tríptico “Estudo para os frescos da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos”. Depois, no “Neo-Realismo: lirismo e crítica
”, nota para o óleo de Júlio Pomar, “Menina com um galo morto”. Já no “Surrealismo: poesia, onirismo e acaso” é de ver o óleo “Dança de Roda”, de António Pedro e, em especial, os trabalhos fotográficos de Fernando Lemos. Por fim, no núcleo “Abstracção: modulação e ritmo”, as obras de Vieira da Silva.

Infelizmente, os organizadores não resistiram aos lugares-comuns políticos, ao oporem à “liberdade da revolução republicana” a “ditadura”. Ainda assim, é-nos dito que Almada Negreiros aceita o convite de António Ferro para trabalhar em obras públicas, “sem abdicar da sua independência 
política e artística”. Afinal… [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

Eu (1949-1952), Fernando Lemos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Livres?

“Hoje, estamos sob tutela. As pessoas não são livres se a nação não for livre. Os nossos libertadores – os democratas tout court e os aprofundadores das amplas liberdades democráticas –, no desprezo da independência nacional, conduziram Portugal à degradação económica e à insolvência financeira. Agora, para sobrevivermos materialmente, temos de aceitar uma comissão de tutela dos credores.”

Jaime Nogueira Pinto
in “Sol”, 6/6/2011.

Economia doméstica

Ainda sem sofrer com as medidas de austeridade, cortes de vencimentos, aumentos vários e consequente perda de poder de compra, os portugueses começaram já a alterar os seus hábitos. O consumo sofreu a maior quebra desde finais dos anos setenta do século passado e esse movimento terá tendência a agravar-se.

A facilidade de crédito levou ao endividamento generalizado. A publicidade agressiva levou a que, como naquela anedota dos cursos de ‘marketing’, “esquimós comprassem frigoríficos”. A sociedade de consumo instalou-se e as pessoas aderiram de uma forma desenfreada. A afirmação pessoal através da posse de bens materiais tornou-se a regra. Pior, toda a gente se achou no direito de “ter”, apenas por “ter”.

Pelo nosso país fora vimos nascer centros comerciais como cogumelos, um pouco por toda a parte, ao mesmo tempo que qualquer vilória passou a ter um ou mais supermercados. Perderam-se postos de trabalho e alteraram-se drasticamente as economias locais, que ficaram reféns das redes de distribuição, na mão de intermediários.

O fim do Reino da Abundância levará, inevitavelmente, à morte do ‘homo consumans’. Como reza o velho ditado, “quem não tem dinheiro, não tem vícios”. E pode ser que a crise obrigue a repensar o modo de vida que temos hoje. A antiga lição da economia doméstica pode, e deve, ser um princípio a seguir. Nomeadamente na definição das prioridades das famílias, que ultimamente se habituaram a descurar o essencial em prol do acessório.

Viver mais com menos – uma lição de outras gerações à qual devemos voltar.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Ronda blogosférica

É só rir
Com o passatempo do João, que se diverte a traduzir nomes de bandas (perdão, conjuntos) para português.

Bela sugestão
A exposição fotográfica sobre a Avenida de Roma (1930-2011), no Arquivo Municipal de Lisboa, vista pelo do Bic Laranja.

A comprar
O novo álbum de banda desenhada sobre Esparta, sugerido no Zentropa.

Sétima Arte
João Marchante explica a causa de uma coisa muito cá de casa.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Os Estrumpfes

Os Estrumpfes preencheram o imaginário infantil de tantos nós e continuam a encantar, apesar de agora terem sido rebaptizados Smurfs, ao que tudo indica por imposição. Esta alteração até parece uma das consequências do famigerado Acordo Ortográfico, ao adoptar o nome brasileiro dos pequenos bonecos azuis.
Seja como for, o título anglo-saxónico e a localização da história, Nova Iorque, revelam exactamente o que nos espera nesta longa-metragem – uma americanada. Fugindo a Gasganete, agora Gargamel, e ao seu gato Cruel, agora Azrael, alguns estrumpfes passam um portal aberto durante a “lua azul” que os leva à ‘big apple’ dos nossos dias. A aventura que se desenvolve nessa grande cidade que os deixa espantados vai ser partilhada com um jovem casal que os acolhe e vai acabar por descobrir e sentir a bondade dos estranhos seres que lhes apareceram em casa. Com alguns momentos engraçados, o filme exalta também os valores familiares e inclui uma breve homenagem ao belga Peyo, o criador dos Estrumpfes.

Tecnicamente bem feito, tanto na animação como no cruzamento desta com os actores reais, será com certeza mais apreciado pelas crianças que pelos pais à procura de uma recordação. Nas salas nacionais só é possível ver a versão dobrada e, felizmente, nalguns cinemas consegue-se fugir ao 3D, que encarece o bilhete sem enriquecer o filme.

É realmente pena que estes bonecos, que nos remetem para a mitologia europeia dos duendes, tenham aqui sido transformados em apenas mais umas figuras de animação como tantas outras. Não por um sentimento de nostalgia ou de purismo dos Estrumpfes, mas pela uniformização a que assistimos nos filmes de entretenimento dirigidos aos mais novos, que parecem cada vez mais obedecer a um modelo pré-formatado. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A chave de Riga


Por ocasião do 810.º aniversário de Riga, a autarquia levou a cabo uma bela iniciativa. Sob uma encenação medieval, foi fundida uma nova chave da cidade a partir de cerca de 50 mil chaves velhas doadas pelos habitantes locais. Uma bonita homenagem da comunidade.

sábado, 20 de agosto de 2011

Frase do dia

“Obama deixará por certo a Casa Branca sem honra nem glória.”

Domingos Ferreira
in “Público”.

Entrevista com Miguel Gomes Martins

Miguel Gomes Martins, historiador especializado em História militar e da Idade Média, publicou recentemente o excelente livro “De Ourique a Aljubarrota. A Guerra na Idade Média”. Com uma óptima base científica e escrita num estilo acessível, é uma obra de divulgação destinada ao crescente público interessado na História do período em que Portugal nasceu e se afirmou. Aqui fica a entrevista que lhe fiz para o semanário «O Diabo».

Como surgiu a ideia de fazer este livro?
Foi uma proposta da Esfera dos Livros, que foi justamente fazer um livro que fosse perceptível por boa parte dos leitores e não apenas pelos habituais especialistas. Vemos a profusão de romances históricos que começam a aparecer, alguns até de autores portugueses, a tratar questões e temas relacionados com a Idade Média, o que significa que há um público interessado. A ideia foi tentar alcançar esse público.

Os seus trabalhos têm incidido especialmente sobre a História Militar Medieval. Porquê o interesse na guerra?
Talvez tenha lido cedo demais, muito novo, as aventuras do Ivanhoe e seguido de forma muito intensa as séries do Robin Hood. Juntamente com outro tipo de leituras e de influências, nomeadamente dos meus avôs, com gostos diferentes, um mais virado para a História da guerra, porque era militar, e o outro para a História propriamente dita.

Acha que hoje se perdeu a ideia que a guerra é algo que faz parte da relação entre os povos?
Eu creio na ideia de que o objectivo da humanidade deverá sempre tentar alcançar a paz. Quando estudo a guerra procuro tentar conhecê-la. Como dizia o general Themudo Barata, nós não podemos combater um mal, sem o estudarmos. Acho que o conhecimento da guerra pode permitir-nos ajudar a alcançar a paz. Ainda que seja uma situação de paz transitória.

Tem surgido um crescente interesse do público no tema da guerra. Será que as pessoas procuram algo que pensam que já não existe?
Não me parece. Acho que tem que ver, sobretudo, com a influência que o cinema tem tido ultimamente na população, se virmos a espectacularidade que a guerra tem. Porque a guerra é um fenómeno espectacular, independentemente de todas as suas consequências nefastas.

Para além do espectáculo, não lhe parece que as pessoas procuram os valores que aí são exaltados?
Não sei. Acho que, se as pessoas procuram esse tipo de ideais, procuram-nos quase como uma relíquia, que está perdida no tempo. Analisam-nos e observam-nos com uma grande distância.

Também a curiosidade pela Idade Média tem vindo a aumentar. Como comenta?
Não consigo encontrar uma explicação. Durante vários anos, porque interessava ao regime, o período de excelência da História de Portugal foi o dos Descobrimentos. Isso levou a que os outros períodos fossem um pouco preteridos em termos de estudo e de divulgação. Creio que esta recuperação da Idade Média tem que ver com algum cansaço em relação a outros períodos.

Acha que já saímos da ideia de que foi uma “idade das trevas”?
Acho que sim. Estamos já a passar ao patamar seguinte, em que se trata de um período histórico como qualquer outro. Também o papel das Universidades tem sido fundamental.

Acha que os portugueses procuram aí uma identidade?
Em termos exclusivamente territoriais, sim. Portugal tem as suas fronteiras praticamente definidas e com os mesmos limites que tem hoje desde finais do século XIII. Com o Tratado de Alcanices, as fronteiras ficam praticamente definidas e são, para todos os efeitos, as fronteiras mais antigas da Europa. Se quisermos ir procurar aí algum elemento de identidade, vamos encontrá-lo na Idade Média. Se quisermos encontrar a formação de Portugal enquanto reino, é aí que vamos encontrar. Também a afirmação do português e a sua institucionalização como língua oficial ocorre em finais do século XIII, com D. Dinis. Há aí, portanto, elementos identitários que surgem, que se afirmam e se consolidam.

Diz na nota prévia que as balizas históricas deste seu trabalho – a Batalha de Ourique e a de Aljubarrota – lhe surgiram de forma “natural”. Porquê?
Pela carga simbólica e porque têm uma importância prática de definir momentos históricos na Idade Média. Ourique é a batalha que faz um rei. Aljubarrota fecha um ciclo. É, talvez, o início de Portugal em guerra e o fim de Portugal em guerra na Península Ibérica.

Como foi o processo de selecção das batalhas?
Não foi fácil. Tinha um leque de vinte e tal episódios para os quais havia estudos, documentação e fontes. Tinha, obviamente, que analisar episódios que estivessem suficientemente documentados para não entrar na área da especulação, o que não era o meu objectivo. Esse, foi sempre alicerçar em fontes narrativas e documentais, e nalguns casos arqueológicas, toda a minha análise.

E quanto ao resultado?
A determinada altura, comecei a olhar para o que tinha e só tinha vitórias portuguesas ou semi-empates. Comecei a perceber que as fontes portuguesas estão um pouco inquinadas, pois as derrotas estão escamoteadas. Nesse sentido, a inserção de uma derrota clara, que foi o cerco de Almada, foi quase posta “a ferros”.

Mas deixa antever a possibilidade de um outro livro que trate outras batalhas...
Vai depender da editora. Da minha parte tenho já alguns episódios seleccionados, que me sobraram, digamos assim, deste livro. Gostaria de ter analisado outros, como o cerco de Silves, a batalha de Valverde, ou a batalha de Atoleiros.

Opta pela análise da chamada “guerra total”. O que é?
Estudar apenas as batalhas e numa perspectiva exclusivamente táctica acabou por ser nefasto para a História militar. Actualmente procuramos abranger questões como o político, o social e o económico. Acho que é fundamental para se perceber como era organizada a guerra, perceber questões como o financiamento, a fiscalidade, a organização social do reino, as linhas de penetração, a geografia. É isso que é a História da guerra total, onde se procuram focar todas as questões ligadas directamente à guerra e não apenas as questões de natureza meramente táctica. Cada vez mais os historiadores que fazem História Militar estão conscientes desta necessidade, porque a guerra é um fenómeno dos mais completos, que envolve tudo.

Os exércitos medievais eram provisórios e heterogéneos. É algo que torna a guerra mais fascinante neste período?
Isso obriga-nos a repensar a guerra na Idade Média e pô-la num patamar diferente da guerra no período clássico ou moderno. O facto de não haver exércitos permanentes, um financiamento exclusivamente dirigido para a organização e a prática da guerra, ou rotinas de combate entre os guerreiros, condiciona claramente o tipo de guerra que é praticado. Impossibilita, por exemplo, a condução de campanhas demasiado longas. O tipo de estratégia que é usado na Reconquista é uma estratégia de guerra de desgaste, que vai tentar depauperar os recursos do inimigo. Uma guerra que D. Nuno Álvares Pereira chamava “a guerra guerreada”.

Porque as batalhas não eram habituais...
A fraca ocorrência de batalhas tem que ver com a consciência que os comandantes militares têm de que uma batalha pode ser decisiva e que pode ditar o destino, eventualmente, de um reino. Não são muitas as batalhas decisivas, mas por exemplo no caso de Aljubarrota se a hoste anglo-portuguesa tivesse sido derrotada, provavelmente estaríamos a falar castelhano. Por isso, há sempre relutância em dar batalha quando o inimigo apresenta o desafio, porque este se sente em vantagem. A batalha é assim, por isso mesmo, algo bastante episódico.

Apesar do antecedente clássico do cavalo de Tróia, é nesta época que se vivem verdadeiras “operações especiais”.
Esse tipo de “operações de comandos”, chamemos-lhe assim, era muito frequente. Foi o caso da conquista de Santarém, ou o caso do Geraldo Sem Pavor, que era especialista neste tipo de guerra, fazendo operações durante a noite ou com condições atmosféricas adversas.

E quanto dimensão dos exércitos medievais? Ao nossos olhos parecem muito pequenos...
E são, para todos os efeitos. Por exemplo, em Aljubarrota, são dez mil homens. Às vezes, com os meus alunos, digo-lhes para olharem para o estádio da Luz, por exemplo, e dividirem em quatro ou em cinco para terem a noção. Porque por vezes é difícil imaginarmos o que são dez ou quinze mil homens.

A Reconquista foi uma “aventura nacional”? A génese do país em que nos tornámos?
Não lhe chamaria nacional, porque o conceito de nação não surge nessa altura. Dizer que foi uma aventura que envolveu todo o reino, também seria excessivo, porque envolve diferentes sectores do reino em diferentes momentos. Agora, não me parece que haja uma noção, em todo o espaço do reino português de que há um projecto de Reconquista. Mas, por exemplo, para D. Afonso III, foi um objectivo para reunificar a nobreza desavinda a seguir à guerra civil.

O que levava o homem medieval a combater?
Variava, mas uma coisa é certa: a guerra é uma actividade económica rentável. Há uma economia de guerra que gera grandes fortunas. Não só através da pilhagem e dos resgates, mas também com tudo o que isso envolve, o abastecimento dos exércitos, a manufactura de armamentos, o comércio de cavalos. Mas é óbvio que o dinheiro e a economia não são os únicos motores da guerra na Idade Média. A manutenção da independência é um grande motor, por exemplo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Amores

O mestre das letras norueguês, Knut Hamsun, apesar de Nobel da Literatura em 1920, é visto por certos sectores como um dos “escritores malditos”, devido ao seu apoio à Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, o seu talento excepcional ultrapassa quaisquer barreiras e fá-lo sobreviver. Felizmente, voltou ao panorama editorial nacional pela mão da Cavalo de Ferro que, depois de “Fome” e “Pan”, põe agora ao dispor do público português mais uma obra-prima.

“Victoria” (brochado, 128 páginas, 15,00 euros), publicado originalmente em 1898 e agora entre nós, com tradução de Carlos Aboim de Brito, é um livro onde encontramos claramente o seu autor e entramos no seu mundo, numa esplêndida narrativa que nos exalta os sentidos e os sentimentos.

Contando a história de Johannes, filho de um moleiro, que ama profundamente Victoria, a filha do castelão, Hamsun conduz-nos através da Natureza – omnipresente – e da natureza humana. O jovem Johannes passeia à vontade no bosque em que conhece os lugares, os caminhos, as rochas, as árvores, as flores, os pássaros. Sabe que a barreira social entre si e o seu amor se consubstancia em Otto, o seu rival, com quem Victoria aceita finalmente casar-se, para tentar tirar a sua família aristocrática da ruína financeira. Entretanto, Johannes, solitário, torna-se poeta e escritor, mantendo como musa a sua paixão da adolescência. Vai para a cidade e para outros países, mas a distância não atenua o sentimento mútuo, por tantas vezes disfarçado com frieza, distanciamento ou formalismos. Ainda assim, uma série de desencontros amorosos acaba por suceder. Como nos é dito, há “diversas formas de amor: as que duram e as que perecem”. E vamos conhecê-las, até ao final trágico desta bela e tocante história de amores que não nos deixa indiferentes.

Ler Knut Hamsun – mergulhar no seu universo e deixar-se envolver totalmente – é um prazer, um deleite e, principalmente, um privilégio, nestes tempos acelerados e desligados que hoje atravessamos.

Recensão publicada na edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Liberdade de imprensa

Ao contrário do que se possa pensar, a vida depois daquele a que hoje se chama “dia da liberdade” não foi fácil para a imprensa. Especialmente para os “incómodos”. Vera Lagoa, a fundadora deste jornal, foi uma dessas – grandes – pedras no sapato para a “revolução” que ainda ia no adro. Recusou-se a “ir na onda”, como tantos outros que “viraram a casaca” de um dia para o outro. Denunciou corajosamente a “cambada”, como lhe chamou, e os “revolucionários” que conheceu. “O Diabo” sofreu bastante nesses primeiros tempos, mas resistiu – até aos nossos dias.

A sua postura inabalável e espírito incansável transformaram-na num exemplo para o jornalismo, que se quer livre. O seu papel foi fundamental para a consagração da liberdade de imprensa, ainda para mais num período onde tantos a queriam limitar, controlar ou censurar.

Outro caso, entretanto tão convenientemente “esquecido”, é o de Manuel Maria Múrias. A seguir ao golpe de Abril, é preso sem culpa formada devido a um artigo publicado no semanário “Bandarra”, dirigido por Miguel Freitas da Costa. Uma vez solto, funda “A Rua”, jornal que o vai novamente levar à prisão, já nos anos 80. Acusado de “abuso de liberdade de imprensa” devido a um artigo sobre Mário Soares, é condenado e cumpre pena efectiva. Nessa altura, Raul Rego exigiu a sua prisão, na “República”, como “salvaguarda da liberdade e da democracia”!


Mas estas não são “águas passadas”. Já neste século, o jornalista Manso Preto, por exemplo, foi condenado a 11 meses de prisão, com pena suspensa, por se ter recusado a violar o sigilo profissional e revelar fontes enquanto testemunha num caso de tráfico de droga.

A liberdade de imprensa é uma causa de ontem, de hoje e de amanhã. Para nós será sempre um princípio inviolável.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Pobre Dylan

Dylan Dog, o “detective do pesadelo”, é um dos grandes sucessos dos ‘fummeti’, a banda desenhada italiana. Criado por Tiziano Sclavi e publicado pela editora Sergio Bonelli, foi lançado em 1986 e rapidamente se tornou um campeão de vendas e um título de culto. Internacionalizou-se, conseguindo mesmo entrar no mercado norte-americano, através da Dark Horse Comics, com algumas alterações. A Portugal chegou, como outros heróis vindos de Itália – Tex Willer, Martin Mystère ou Zagor –, através de edições brasileiras.

Uma adaptação ao cinema em versão “americanada” fazia temer o pior. E, de facto, pior era impossível. Aqui, o parceiro de Dylan foi substituído por um imbecil que se torna morto-vivo e tenta, sem o conseguir, ser o ‘comic relief’. O que nos dá não passa de uma penosa tentativa de humor, completamente sem graça, que se torna deprimente e incómoda. Também a cidade original onde se passa a acção, Londres, foi alterada para Nova Orleães. Podia até ser interessante, mas nem isso foi aproveitado.

É num mundo cheio de lobisomens, vampiros e ‘zombies’ que vivem entre os humanos, disfarçando a sua condição de mortos-vivos, que se passa esta história de detectives que se adivinha quase desde o início. O final é previsível e anunciado, transformando esta longa-metragem numa seca prolongada. Um filme que se arrasta num aborrecimento sem limites.

Com um péssimo protagonista, piores actores e má realização, nem as cenas de acção se safam, são mal feitas e repetitivas. Os paupérrimos diálogos não passam de uma colecção de ‘clichés’.
Pelo meio, há uma referência ao criador da banda desenhada, pois um dos vampiros chama-se Sclavi. O grito que ele dá na cena em que aparece deve ter sido o que o verdadeiro Sclavi deu quando viu esta catástrofe. Não merecia isto. É simplesmente mau demais. Esta tentativa frustrada de Dylan Dog nem chega a ser um filme de terror, apenas um horror de filme. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Desabou mais um mito

A morte do escritor Federico García Lorca foi um dos mitos da Guerra Civil de Espanha que desabou finalmente com os trabalhos dos historiadores Manuel Caballero Pérez e Pilar Góngora. A este respeito, é de ler o artigo de Jorge Almeida Fernandes, no "Ípsilon", intitulado "Ódios de família na morte de Federico García Lorca". Muito interessante é que a investigação já tinha sido feita, mas ignorada por motivos políticos. Diz o autor: "A morte de Lorca era situada a 19 de Agosto (por vezes 18), apesar de haver desde 1983 uma rigorosa reconstituição da execução, feita pelo jornalista granadino Molina Fajardo, que dava a maioria dos nomes envolvidos. Lorca fora morto na madrugada de 17. Entrevistara 48 testemunhas da época e reunira numerosos documentos. Indicava o local onde Lorca teria sido enterrado. Mas Molina era falangista e o livro foi posto de lado como tentativa de branqueamento da Falange. A investigação de Molina foi o ponto de partida de Caballero, que confirmou e desenvolveu o essencial das suas hipóteses, após uma exaustiva exploração de arquivos."

domingo, 14 de agosto de 2011

Lars von Trier em entrevista


O realizador dinamarquês Lars von Trier, que ainda sofre a pressão negativa depois a polémica conferência de imprensa no último festival de cinema de Cannes, deu uma entrevista ao jornal francês "Le Monde", que foi amplamente referida na restante imprensa, a propósito de duas afirmações. A primeira foi que iria fazer como o norte-americano Terrence Malick e nunca mais daria conferências de imprensa. A segunda foi que pensa que "o politicamente correcto está em vias de matar o mundo".

Mas há outra que me chamou mais a atenção. Diz Von Trier sobre as consequências do ostracismo provocado pelo "incidente" de Cannes: "No fundo, adoro isto, ser 'persona non grata'. Esse papel romântico e solitário assemelha-me aos meus heróis. Acho que não faço nada para me facilitar a vida!"

Estou cada vez com mais curiosidade de ver o "Melancholia"...

sábado, 13 de agosto de 2011

Genocídio

Foi como Miguel Esteves Cardoso classificou o Acordo Ortográfico (AO), ontem, no "Público", afirmando: "o AO é um acto de genocídio cultural, estético, racional e político". Nem mais!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Guerra total no Portugal medieval

O “tempo dos cavaleiros” preenche o imaginário de muitos de nós, para alem de se reportar exactamente ao período em que nasceu e cresceu Portugal. Muitas vezes refém de episódios mitificados ou caído no desinteresse pela desconstrução que de tudo duvida, o conhecimento da Idade Média está normalmente afastado dos crescentes interessados na História.

Publicado pela Esfera dos Livros, “De Ourique a Aljubarrota. A Guerra na Idade Média” (brochado, 436 páginas, 25 euros) abre claramente essas portas. Escrito num estilo acessível, que se lê quase como um romance histórico, não deixa por isso de ser um excelente trabalho de divulgação, baseado em fontes e na historiografia de referência. Não se restringindo aos aspectos estratégicos e tácticos, o autor opta pela perspectiva da “guerra total”, permitindo conhecer as alterações profundas que este acontecimento extremo provoca na sociedade daquela altura. Para tal, escolheu quinze batalhas – balizadas temporalmente por duas de elevada carga simbólica –, divididas em capítulos, que se iniciam com uma infografia auxiliar, nos quais analisa os antecedentes, os actores, os palcos, o confronto e as suas consequências.

Depois de um extenso período de investigação e produção científica, Miguel Gomes Martins deve ser um exemplo para tantos historiadores que nunca vêem o seu trabalho de investigação chegar ao grande público, pelo hermetismo do registo académico. Este é um livro para ler, reler e despertar a curiosidade para um período tão importante da nossa História e amiúde bastante desconhecido.

Recensão publicada na edição desta semana de «O Diabo».

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

La Nouvelle Revue d’Histoire n.º 55



O número 55 de "La Nouvelle Revue d’Histoire", relativo aos meses de Julho e Agosto, tem como tema central “Como nascem as revoluções” e oferece um excelente dossier com uma dezena de artigos. Para além disso, podemos também ler uma entrevista com o arqueólogo e historiador Guy Rachet, que afirma que “as raízes da Europa não devem nada ao Islão”, bem como diversos outros artigos, e ainda as secções habituais de actualidade e crítica de livros. Uma revista a não perder, de leitura obrigatória.

Reino Não Unido


Serviços pouco secretos

Infelizmente, as trapalhadas nos “serviços secretos” nacionais não são novidade. Ainda há poucos anos, o caso da revelação da lista de “espiões” do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) veio demonstrar que estes serviços são tudo menos secretos.

Alguns especialistas adiantam que tal se deve ao “complexo da PIDE”, ou seja, encaram os serviços de informações como potenciais novas polícias políticas se não tiverem um apertado controlo legal. Como muito bem afirmou o general Pedro Cardoso, a qualidade de uma democracia avalia-se pela eficácia dos seus serviços de informações. As democracias precisam desses serviços. Mais, são essenciais para a credibilidade internacional de um Estado.

Agora, o surge o caso do ex-director do SIED, Jorge Silva Carvalho, que, ainda em funções, enviou alegadamente informações através do seu correio electrónico pessoal à Ongoing, empresa onde agora trabalha. Será que o que parece é? O Governo pediu um inquérito que concluiu que o sigilo foi quebrado e Júlio Pereira, secretário-geral do Serviço de Informações da República Portuguesa (SIRP), colocou à consideração do procurador-geral da República a possibilidade de abertura de um inquérito criminal. Esperemos que tudo seja investigado até ao fim.

Mais uma vez nos deparamos com a promiscuidade entre o mundo empresarial, o das informações, o da política e o das sociedades secretas, nomeadamente a maçonaria, onde se movem grandes interesses. E o pior é que, aparentemente, o que fica para último é o interesse nacional.

O País precisa de serviços de informações que o sirvam. Não para que de eles se sirvam.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Viagem aos anos 80

Há um dado curioso sobre o realizador e as influências neste filme. Ainda adolescente, J. J. Abrams e o seu amigo Matt Reeves (futuro realizador de “Nome de Código: Cloverfield”) foram contratados para restaurar alguns dos filmes feitos por Steven Spielberg em miúdo, em formato Super 8. Mas, sem dúvida, neste seu último trabalho, Abrams faz uma incursão pessoal à sua própria infância e a um universo spielberguiano.

Nada melhor para iniciar essa viagem que um filme. Neste caso, um que está a ser rodado por um grupo de rapazes onde todos têm o seu papel: realizador, actores, maquilhador, efeitos especiais, etc. Quando conseguem recrutar uma das raparigas giras da escola como actriz, decidem ir filmar uma cena nocturna aproveitando a passagem de um comboio. Mas o inesperado acontece. Há um acidente e das carruagens destroçadas sai algo. Começa aqui um mistério que se vai adensar. A Força Aérea toma conta do ocorrido e veda o local, ao mesmo tempo que começam a suceder uma série de acontecimentos inexplicáveis.

Paralelamente, vemos também como é crescer. A amizade, a família, os primeiros amores, a perda da inocência, mas tudo num registo de epopeia juvenil, onde uns rapazes acabam por “salvar o mundo” de um visitante incompreendido que apenas queria regressar.

A história de “Super 8” passa-se numa pequena cidade norte-americana nos anos 70 do século passado, mas está repleta de referências a toda a cinematografia de ficção científica da década seguinte. Nesta verdadeira “máquina do tempo” temos “Encontros Imediatos de Terceiros Grau” (1977), andamos de bicicleta nos subúrbios, como em “ET” (1982), e cruzamo-nos com monstros, como em “Gremlins” (1984), para vivermos uma aventura, como em “Goonies” (1985), entre amigos, como em “Conta Comigo” (1986).

Uma viagem à infância de tantos de nós, que cresceram a ver a ficção científica que chegava dos EUA e nos fazia sonhar naquela idade onde a imaginação não tem limites. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sábado, 6 de agosto de 2011

Estrumpfes


Os Estrumpfes preencheram o meu imaginário infantil e continuam a encantar, apesar de agora terem sido rebaptizados Smurfs, ao que tudo indica por imposição. É por isso de ler a excelente peça do Eurico de Barros, "Muito mais do que os estrumpfes", publicada hoje no "DN", sobre toda a obra gráfica de Peyo, o criador dos pequenos duendes azuis. Para recordar.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Médicos

Um acidente ligeiro em férias e uma noite em hospitais até então desconhecidos introduziu-me ao novo mundo dos médicos importados. Felizmente acabou tudo bem, com duas médicas - a sério - nacionais. Mas não deixei de recordar Walt Kowalski numa cena memorável de "Gran Torino": "Where's Dr. Feldman, my regular doctor?"

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Da violência política

Segundo uma sondagem realizada nos Países Baixos, 52 por cento da população entende que Geert Wilders não deve moderar o seu discurso anti-islâmico. E por que haveria de mudar? Este político holandês, cujas ideias parecem ter influenciado o manifesto de o assassino norueguês Anders Breivik, representa uma das múltiplas e por vezes antagónicas correntes do saco sem fundo a que se chama comummente (convenientemente?) “extrema-direita”. Esta tendência recente, de uma direita populista, anti-islamização, pró-israelita e pró-ocidental é contrária à “extrema-direita” clássica. Mas, mesmo assim, sofre da falácia que atinge, na generalidade, todas as direitas – a ‘reductio ad hitlerum’.

Tal não acontece noutros casos. No mesmo país, os imigracionistas defensores do multiculturalismo não alteraram as suas posições depois de Theo van Gogh ter sido brutalmente assassinado por um muçulmano que discordava do seu filme e não foram estigmatizados por tal acontecimento. Parece que há dois pesos para a mesma situação.

A este propósito, há que recordar uma passagem esclarecedora do livro do pensador francês Alain de Benoist, “Comunismo e Nazismo: 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917-1989)”: “O nacionalismo é frequentemente assimilado ao fascismo, e este ao nazismo, enquanto que o socialismo nunca é considerado como potencialmente estalinista. A direita é sempre suspeita de ‘fascismo’, enquanto que o comunismo, apesar dos seus erros, é tido como pertencente às ‘forças do progresso’”.

As democracias modernas continuam a reclamar os valores da “liberdade, igualdade e fraternidade”, apesar de a Revolução Francesa ter trazido o terrorismo e a guilhotina. A violência política não tem campos predeterminados.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Presumível culpada

No final da Guerra Civil Americana, a 14 de Abril de 1865, dias depois do general confederado Robert E. Lee se ter rendido ao general da União Ulysses S. Grant, Abraham Lincoln tornava-se o primeiro presidente norte-americano a ser assassinado. O responsável, o conhecido actor John Wilkes Booth, foi também o autor de um plano mais extenso que tinha como alvos, para além de Lincoln, o secretário de Estado William H. Steward e o vice-presidente Andrew Johnson, que, apesar de atacados, sobreviveram. Para atingir o seu objectivo – destabilizar a União e dar alento aos combatentes sulistas –, Booth recrutou vários conspiradores com quem se reuniu na casa de hóspedes de Mary Surratt, incluindo o filho desta, John.

O assassino fugiu, mas seria encontrado dias depois por um soldado da União que o matou. Esta é a introdução deste filme sobre um tema polémico, ainda hoje, na História norte-americana: o julgamento dos alegados responsáveis. Vários suspeitos foram detidos e, finalmente, levados a tribunal sete homens e uma mulher, Mary Surratt (Robin Wright), acusada de ter dado guarida e apoio aos conspiradores. Não tiveram direito a um julgamento civil e acabaram condenados por um tribunal militar, controlado pelo todo-poderoso Departamento de Guerra.

Como seu defensor legal, Mary tem um advogado aparentemente improvável, Frederik Aiken (James McAvoy), jovem herói de guerra da União que duvidou até ao fim da inocência da sua constituinte. No entanto, Aiken acreditava que havia combatido pelos valores da liberdade e da justiça e por um país onde se respeitasse a Constituição e garantisse a todos o direito de um julgamento justo.

“A Conspiradora” não é um grande filme, excepto na duração. Com uma realização convencional, actores que cumprem e uma razoável reconstituição de época, o seu interesse principal é lembrar a necessidade permanente da presunção de inocência e do acesso igual à justiça, seja em que caso for. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Floresta


Na última edição do suplemento "Actual", Pedro Mexia – que felizmente escreve em português e não no "acordês" adoptado pelo "Expresso" – assina um excelente texto sobre um livro fundamental de um dos meus autores de referência. Trata-se de "O passo da Floresta", de Ernst Jünger, obra à qual regresso recorrentemente. Diz ele que "o caminho da floresta é uma acção livre e independente, em que o indivíduo abandona a submissão, a indiferença, a neutralidade, o abaixamento pessoal, e desaparece, decide-se pelo underground, vai pelo trilho da floresta, que é secreto e aventuroso". Leitura a não perder.