domingo, 31 de julho de 2011

Anders Breivik é de "extrema-direita"?

Uma vez detido o confesso autor dos sangrentos atentados na Noruega, grande parte da imprensa rapidamente o associou à “extrema-direita”. Termo bastante inclusivo, onde cabem tendências políticas por vezes antagónicas, mas que serve para criar uma amálgama a partir da qual é possível culpar as ideias por actos criminosos e indefensáveis. Uma das acusações prontamente feitas a Anders foi a de que se tratava de um “neo-nazi” com ligações aos movimentos da direita radical europeia. Analisando o seu manifesto e a sua actividade na Internet é possível ultrapassar essa cortina de fumo para tentar chegar ao que realmente passava na cabeça deste psicopata assassino.

Ligações políticas
No meio do turbilhão das especulações sobre as ligações políticas de Anders Breivik, o facto é que o que sabemos é que foi membro do Partido do Progresso, da direita populista e segunda força política no país, e se afirmava como “conservador”. A única “ligação” que o assassino tinha com os grupos mais radicais, aparentemente, reduzia-se a algumas mensagens publicadas em fóruns na Internet.

Maçon
Um dos aspectos menos referidos nas notícias e nos perfis feitos sobre Anders foi o facto de pertencer à maçonaria. Algo que o assassino não escondeu, publicando no seu manifesto uma fotografia com o traje maçon. No dia seguinte aos atentados, a Grande Loja da Noruega afirmava que Breivik havia sido expulso, num comunicado que foi relegado para segundo plano pela generalidade da imprensa.

Pró-homossexual
Apesar de no seu manifesto tecer algumas críticas aos homossexuais, Breivik não deixa de salientar como o islamismo os persegue e os perigos que a islamização da Europa representam para a comunidade ‘gay’. Em escritos na Internet, Anders chegou mesmo a defender os homossexuais numa perspectiva anti-muçulmana.

Pró-sionista
Anders era um assumido admirador do Estado de Israel e do sionismo, pela sua luta contra o islamismo. Considerava que era necessária uma aliança “judaico-cristã”, entre o Ocidente e os judeus contra o expansionismo islâmico.

Pró-ocidental
Ao contrário de grande parte da direita radical, que se opõe aos EUA como fonte do mundialismo e da globalização que destrói as nações, Anders era um defensor do Ocidente. Considerava que era necessário defender a civilização ocidental face aos islamitas e aos que chamava “marxistas culturais”. No seu perfil do facebook, afirmava-se fã de Churchill.

Anti-nazi
Breivik refere explicitamente no seu manifesto que ele, tal como os seus “templários”, são anti-nazis. Não só critica Hitler em relação aos judeus, como diz discordar de grande parte do nacional-socialismo, que considerava uma “ideologia morta” e prejudicial à direita. Na enumeração dos partidos políticos nacionalistas inclui os “nacionais-socialistas”, mas com a ressalva de que os considera de esquerda.

Fundamentalista cristão?
Outro aspecto importante é o da confissão religiosa do assassino de Oslo. Mais uma vez, a imprensa precipitou-se em considerá-lo um “fundamentalista cristão”. No entanto, parece que só aparentemente o seria e numa perspectiva utilitária anti-islâmica. No seu manifesto afirma que “mentiria se dissesse que era uma pessoa muito religiosa”, acrescentando que “sempre havia sido muito pragmático e influenciado por um ambiente secular”. Para que não restem dúvidas, para ele, a religião era “para pessoas fracas” e justificava-se questionando: “Qual o interesse em acreditar num poder superior se se tem confiança em si próprio? Patético.”

Elogio a Obama
Apesar de criticar o actual presidente norte-americano no seu manifesto, Anders Breivik afirmou em comentário na Internet que: “Estou totalmente de acordo que Obama era um orador e um comunicador brilhante, um dos melhores que eu vi nos últimos 30 anos”.

Esteróides e medo
No dia dos atentados Anders estava, segundo reconhece no seu manifesto, a meio de um ciclo de esteróides anabolizantes e sob o efeito de efedrina, com o objectivo de aumentar a sua ‘performance’ física e a sua agressividade. No entanto, estava com “muito preocupado em ter medo no dia da missão”. Receava que este o “paralisasse”, mas ainda assim confiava nos treinos que havia feito e na sua disciplina mental.

Psicopata
Tudo indica que Anders Breivik seja um psicopata que decidiu tentar “resolver” os problemas que via na sociedade norueguesa como se estivesse num jogo de computador. Robert Spencer, director do ‘site’ Jihad Watch e autor de vários livros a denunciar o islamismo, bastante citado por Anders no seu manifesto, afirmou em entrevista à rádio Fox que nunca nos seus escritos havia incentivado à violência e que o terrorista de Oslo só podia ser um doido. Do seu delírio assassino, apenas se pode concluir que o contributo para as ideias que supostamente defende não podia ter sido mais negativo e prejudicial. Mais um indivíduo mentalmente perturbado que acabou sacrificar dezenas de inocentes.

Extrema-direita condena
Os partidos e movimentos europeus considerados de extrema-direita foram unânimes na condenação dos atentados perpetrados por Anders Breivik, incluindo os que têm posições contra a islamização da Europa, o principal motivo assumido pelo terrorista. Bruno Gollnisch, eurodeputado do Front National, denunciou aquilo que considerou uma manipulação da imprensa "contra a direita nacional e os defensores dos valores tradicionais", acrescentando que "um assassino solitário apenas compromete os seus cúmplices e a si próprio". Em comunicado, o Vlaams Belang declarou "condenar todas as formas de violência", seja qual for a sua origem. Considerando que "a liberdade de expressão termina onde começa a violência", este partido flamengo apresentou as suas condolências às vítimas, às suas famílias e à nação norueguesa. Sobre o autor dos atentados afirmou que "o jovem delinquente não percebeu nada do que é o nacionalismo". Também Harald Vilimsky, do austríaco FPOe, deu os pêsames às famílias das vítimas e ao povo norueguês, em nome do partido, manifestando o desejo de que todos os responsáveis sejam detidos e castigados. O Partido Nacional Renovador, em Portugal, repudiou a tentativa de colagem a Anders Breivik e reiterou a sua oposição frontal a todo o tipo de violência e de barbárie.

sábado, 30 de julho de 2011

Esclarecedor

Para sair de tanta ignorância que se tem ouvido sobre as posições políticas de Anders Breivik, o assassino norueguês, bem como de várias associações abusivas a ideias que nada têm que ver com as dele, recomendo a entrevista esclarecedora do investigador italiano radicado no nosso país, Riccardo Marchi, publicada hoje na revista "Notícias Sábado", distribuída com o "DN" e o "JN".

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Terrorista

O atentado à bomba a vários edifícios governamentais no centro de Oslo e o brutal e cruel massacre a tiro de dezenas de adolescentes são actos terroristas. São uma forma de violência política levada ao extremo. O norueguês Anders Behring Breivik, um aparente “cidadão normal”, teve o calculismo e o sangue frio para levar a cabo esta verdadeira sangria. Os seus motivos foram ideológicos. Alarmado com os problemas da crescente imigração e da islamização da Europa, decidiu atacar os governantes, que considerava politicamente responsáveis por esta situação, e os seus apoiantes, tidos como colaboradores.

O terrorismo, enquanto forma de luta, é odioso e condenável na medida em que atinge inocentes. Por isso, em casos como este questionamo-nos: como é possível?

Anders escolheu uma das novas formas de terrorismo no seu modo de actuação já que, ao que tudo indica, agiu sozinho, tornando-se uma versão europeia de Timothy McVeigh, o bombista de Oklahoma que, em 1995, matou 168 pessoas. Um método bastante eficaz e muito difícil de ser antecipado pelas forças de segurança.

Analisando agora a demorada preparação da “operação” e o extenso manifesto deixado por Anders, percebe-se que se sentia imbuído de um “espírito de missão”, considerando-se um cavaleiro templário dos tempos modernos. Um soldado na guerra do “Choque das Civilizações” e capaz de mudar o mundo. Depois de anos de envolvimento na política, desiludiu-se. Terá pensado na frase de Clausewitz que diz que “A guerra é a continuação da política por outros meios”?

A verdade é que, enquanto activista político, o assassino de Oslo pensou ter encontrado nesta matança a melhor forma de propagar as suas ideias. Conseguiu o contrário.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Tudo é um negócio?

Os conhecedores do género associarão o nome de Sasha Grey ao cinema porno, onde esta actriz se tornou uma estrela, participando num número impressionante de filmes. Mas, apesar de ela interpretar uma ‘call girl’, tal não significa que continue no mesmo registo.

Nesta nova experiência de Steven Soderbergh, heterogéneo realizador norte-americano, mais parece que estamos a assistir a um documentário sobre a crise financeira de 2008, nos EUA, e as dúvidas e expectativas em relação às eleições presidenciais, nas quais se opunham McCain e Obama. Com este pano de fundo, assistimos à relação entre Chris (Chris Santos), ‘personal trainer’ num ginásio, e a sua namorada Christine (Sasha Grey), uma acompanhante de luxo com o nome profissional Chelsea. Mas aqui, mais do que um relacionamento no mínimo ‘sui generis’, o que está em causa são os clientes de ambos e as perspectivas de carreira e negócio.

Apesar do ‘crash’ da bolsa e do futuro incerto, o mundo onde ambos se movem é o do luxo – hotéis de cinco estrelas, jactos privados para viagens a Las Vegas, roupa de marca e restaurantes exclusivos. No meio desta opulência, o que ambos vendem acaba por ser o mesmo. Chris não é só um treinador, mas também um “amigo”. Chelsea não é uma prostituta, no sentido puramente físico do termo, mas uma companheira, uma ouvinte algo psicóloga, uma verdadeira namorada de aluguer.

Tudo isto é apresentado numa narrativa fragmentada, que não respeita a ordem cronológica dos acontecimentos, ao longo da qual vamos juntando as peças.

Não só pela forma como pelo conteúdo, este é um filme no qual há que reconhecer alguma originalidade. Para além de ser uma habilidosa desconstrução de uma sociedade contemporânea dominada pelo dinheiro, onde tudo se compra e tudo se vende. Será que aqui o amor pode ainda subsistir, ou tudo está reduzido à famosa frase “é a economia, estúpido”? [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Proteccionismo

Com o agravar da crise económico-financeira, eis que surge de novo uma velha ideia: comprar nacional. Até o Presidente da República a veio sustentar em público. Cavaco Silva apelou aos portugueses que prefiram os produtos fabricados no nosso País.

Parece que agora muitos “descobriram” as vantagens do proteccionismo. Ajuda a economia nacional, evita a saída de capital e salvaguarda postos de trabalho.

Há não muito tempo atrás, esta ideia seria considerada retrógrada, reaccionária e classificada com outros mimos semelhantes. Própria das direitas ultrapassadas, quando não dos “fascistas”. E lá sairia do baú das recordações o conhecido ‘slogan’ do Estado Novo que garantia que “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”, com os estafados alarmismos das esquerdas que se dizem modernas.

É claro que esta atitude sensata e necessária que começa a ganhar cada vez mais apoiantes não se destina a criar uma Albânia de outros tempos. É antes uma tomada de consciência de que cada um de nós, à sua medida, pode fazer a sua parte pelo todo. Simultaneamente, deve levar-nos a perceber os perigos do chamado “mercado global” e as consequências nefastas que este pode ter para economias como a nossa. A receita é simples e eficaz. Comprar primeiro os produtos nacionais, depois os europeus e só então recorrer àquilo que nos chega da China e outros megaprodutores com quem é quase impossível concorrer. Talvez assim consigamos estimular e reconstruir uma indústria verdadeiramente nacional.

Lembremo-nos de Portugal – de nós – e da máxima clássica: o proteccionismo começa em casa.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Acção!

Esta é a história de uma adolescente com uma vida completamente fora do normal. Criada pelo seu viúvo pai Erik (Eric Bana), um ex-agente da CIA, no isolamento de uma floresta gélida no Norte da Finlândia, Hanna (Saoirse Ronan) treina artes marciais, manuseamento de armas de fogo, caça e tem uma preparação física e uma resistência impressionantes, para além de ser poliglota. O conhecimento do mundo “lá fora” vem das entradas de uma velha enciclopédia que o seu pai lhe lê à noite.

Aos dezasseis anos Hanna é uma máquina de matar implacável e sente-se finalmente pronta para o objectivo para o qual foi preparada - matar Marissa Wiegler (Cate Blanchett). Para ser bem sucedida o seu pai garante-lhe: “Lembra-te do que te ensinei e tudo correrá bem”.

Assim começa um filme de acção ‘non-stop’, de ritmo acelerado, que vai levar-nos numa perseguição por vários países, até Berlim, o ponto de encontro final. Das cenas mais originais e bem realizadas é a passada num labiríntico terminal de contentores.

Durante a sua missão, Hanna vai descobrir ao mesmo tempo uma realidade totalmente desconhecida. Outras pessoas, outros adolescentes, uma família e até fazer uma amiga, para além de ver televisão e ouvir música pela primeira vez.

Nota bastante positiva para o desempenho de Saoirse Ronan, sem dúvida uma jovem que demonstra grande talento, e de Cate Blanchett, que consegue encarnar bem a agente fria e implacável. Também a banda sonora, a cargo dos The Chemical Brothers confere um ambiente diferente do habitual neste tipo de filmes e que resulta bem.

Esta é uma interessante variação do estilo “Nikita”, em regresso aos filmes de espionagem clássicos, com pormenores muito bem conseguidos e um ar europeu, mas que peca por um argumento previsível. Veracidade? Talvez tudo não passe de um conto de fadas... [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 21 de julho de 2011

“Os políticos querem institucionalizar a asneira na língua portuguesa”

Contra o disparate do Acordo Ortográfico há que não baixar os braços. Aqui fica a entrevista que fiz a Vasco Graça Moura e que foi publicada no “O Diabo” da semana passada.

Escritor, tradutor e eurodeputado durante dez anos, Vasco Graça Moura tem sido um incasável opositor ao Acordo Ortográfico (AO) desde o início da polémica sobre a sua adopção. Alertando sempre para as consequências nefastas do AO, publicou em 2008 o livro “Acordo Ortográfico: A Perspectiva do Desastre”. Recentemente apelou ao novo Governo que suspendesse a sua aplicação. O DIABO, jornal que recusa o AO, entrevistou-o.


Sempre foi um feroz opositor ao Acordo Ortográfico (AO) e recentemente apelou ao novo Governo que suspendesse a sua aplicação. Porquê?
Porque me pareceu que este Governo tinha todas as condições para agir com sensatez na matéria. Infelizmente, o que li no seu programa é muito decepcionante e mostra que o Executivo não percebeu. Nem de perto nem de longe, o que está em jogo.

Acha que existe uma real possibilidade deste Governo suspender o AO?
Acho que sim, mas é cada vez mais remota.

Como já afirmou, juridicamente ainda não está em vigor…
Esse é o meu entendimento: um tratado internacional, para entrar em vigor e produzir efeitos, tem de ser recebido na ordem interna de todos os Estados que o assinaram. Ora o AO não foi ratificado pelo menos pela República Popular de Angola e pela República Popular de Moçambique.

Não tem poupado críticas ao AO, chamando-lhe mesmo “abominável”. Acha que não há a percepção das consequências da sua adopção?
Este é um dos casos em que os políticos deveriam atentar nos pareceres especializados, como fazem para um aeroporto ou para o TGV. Não o fizeram, não percebem o que andam a fazer e querem institucionalizar a asneira na língua portuguesa…

Que responde àqueles que o acusam de ser “fundamentalista” ou “retrógrado”, dizendo que o português é uma “língua viva”?
Sugiro-lhes que não sejam parvos e pensem um pouco na língua que dizem falar. Mas não penso gastar o meu latim com eles.

Parece que no caso do AO se ignoraram as críticas de vários especialistas e os protestos de tantos cidadãos apenas porque são contra. Concorda?
Só há posições contra. Existem pelo menos nove pareceres altamente qualificados contra o AO. A favor dele não há nenhum. Mesmo no Brasil reconhecem que está cheio de vícios. Só os autores materiais da coisa é que são a favor. Há dezenas e dezenas de milhares de cidadãos que protestaram. Mais de 130.000!

Foi uma imposição?
Foi uma patetice cujos responsáveis não querem dar a mão à palmatória

O que é possível fazer para parar o AO?
Apelar ao bom senso dos governantes e das Academias e levar à suspensão com vista a uma revisão do texto. Esperar pela criação do vocabulário ortográfico comum, elaborado com intervenção de todos os países subscritores. Guardar a ratificação pelos países que ainda não o ratificaram.

Não é uma guerra perdida?
Espero que não seja.

Acha que é importante haver meios de comunicação, como “O Diabo”, que se recusam a adoptar o AO?
Acho essencial: é um verdadeiro exercício de cidadania.

Vai continuar a publicar as suas obras segundo a ortografia actual, mesmo que a editora adira ao AO?
Ponho sempre como condição o uso da ortografia em que escrevo.

domingo, 17 de julho de 2011

As revoltas árabes


Hoje, o programa Méridien Zéro é dedicado às «Revoltas Árabes» e tem como convidado o historiador francês Philippe Prévost. Nascido em 1935, Prévost é especialista em história da religião, contando com diversas obras publicadas sobre o tema. A emissão tem início às 22 horas portuguesas e pode ser seguida através da Radio Bandiera Nera.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Mudar

A decisão da Moody’s de baixar o ‘rating’ de Portugal para “lixo”, o que significa dizer que o nosso País apresenta alto risco de bancarrota, provocou rapidamente um coro de protestos. Acontece que esta guerra que as agências de notação declararam à União Europeia e à sua moeda única, começando por atacar os mais fracos, começou há muito. Primeiro a Grécia, a Irlanda e Portugal, para agora serem a Espanha e a Itália “os senhores que se seguem”. Mas há que dizer que, como se diz popularmente, nos pusemos a jeito. O facto de estas agências ignorarem pura e simplesmente as medidas de restrição é reveladora.

Recorde-se que estas são as mesmas credibilíssimas agências que deram nota máxima a bancos norte-americanos que abriram falência pouco depois, na sequência da chamada crise do ‘subprime’.
Agora que nos consideram “lixo” não devemos optar pela solução fácil de devolver o elogio e chamar “lixo” a tais agências, que pela sua actuação bem podiam ser funerárias. Devemos, isso sim, aproveitar para nos reciclarmos. Para pensar seriamente na subserviência aos “mercados”. Para nos recordarmos que somos um país e que devemos defender-nos.

Mas, num plano superior, estamos também na altura de a União Europeia deixar de ser um tubo de ensaio da mundialização. É tempo de a Europa se assumir como a grande potência que pode e deve ser. Um projecto comum europeu não pode ser, como tem sido, uma diarreia regulamentadora sobre minudências como a uniformização do tamanho do carapau e da cor dos legumes. Pelo contrário, tem que centrar-se nas grandes questões como esta. E não vacilar.

A decisão de ignorar a notação das agências é um bom sinal. A seguinte devia ser deixar de lhes pagar.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mentirinhas

“Os Amigos de Alex” (1983), de Lawrence Kasdan, foi uma obra cuja influência noutros filmes perdura. Podemos até arriscar a dizer que criou um subgénero cinematográfico. É aqui que se enquadra “Pequenas Mentiras entre Amigos”, realizado e escrito por Guillaume Canet, mais conhecido pelo seu trabalho como actor.

Todos os anos, um grupo de amigos parisienses se junta para umas férias em conjunto, no sul de França, na casa de Max (François Cluzet), o mais bem sucedido de todos eles, sempre preocupado com o seu negócio e constantemente a mostrar que tem muito dinheiro.

Desta vez, antes de partirem, um deles sofre um grave acidente de viação e fica hospitalizado em estado crítico. Mesmo assim, os restantes decidem não abdicar da viagem e insistem em divertir-se como em ocasiões anteriores. Aí começamos a ver um grupo que parece amigo, unido e íntimo. Há um pormenor interessante a esse respeito na realização, quando são filmados todos os cumprimentos à francesa, com muitos beijinhos e abraços. Mas depressa se percebe que não é bem assim. Por detrás desta cumplicidade aparente, há demasiadas histórias mal resolvidas, desejos secretos, problemas conjugais, entre outros segredos. Para manter as coisas como sempre, há que mentir. Mas com o desenrolar dos acontecimentos e o suceder de várias peripécias, as mentiras acabam por acumular-se e a verdade por vir ao de cima. Nota para a figura de Jean-Louis (Joël Dupuch), que funciona como uma espécie de consciência do grupo.

Um filme que vive fundamentalmente das personagens, que estão bem desenvolvidas e que podemos imaginar com facilidade que pudessem realmente existir. Até aqui é bastante interessante e até, por vezes, divertido, mas infelizmente o fim estraga tudo. É demasiado longo e excessivamente sentimental. Uma pena… [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

domingo, 10 de julho de 2011

Méridien Zéro até ao fim da noite


A emissão de hoje do programa Méridien Zéro tem o título «Um homem, um destino» e é dedicada ao escritor Louis-Ferdinand Céline. O convidado é Marc Laudelout, um dos mais reconhecidos especialistas na obra de Céline. Editor e crítico literário belga, Laudelout é fundador e director do Bulletin Célinien, uma revista criada em 1981 totalmente consagrada à obra do escritor francês. Como é habitual, o programa pode ser escutado a partir das 22 horas portuguesas, na Radio Bandiera Nera.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Em defesa da nossa Língua

Ao contrário do que muitos nos querem fazer crer, a questão do Acordo Ortográfico (AO) – exactamente por gerar tanto desacordo – está longe de estar terminada. No início deste novo ciclo, que se pretende de mudança política, onde tanto está a ser “reavaliado” e a atitude parece querer ser diferente do ilusionismo socrático predecessor, este é um ponto que devia estar na ordem do dia.

Foi exactamente neste sentido que apontou António Emiliano, professor de Linguística na Universidade Nova de Lisboa e um dos maiores (honra lhe seja feita) denunciadores do disparate que é o AO. Num artigo publicado no jornal “Público”, tomando como exemplo a reavaliação da construção do aeroporto de Alcochete, questionou: “Terá a língua menos valor, peso ou importância para Portugal e para as gerações vindouras do que um aeroporto?” Os assuntos complicados podem e devem ser apresentados de forma simples para que todos percebam. É aqui que Emiliano acerta na ‘mouche’.

Também Vasco Graça Moura, outro incansável contra o “abominável” acordo, nas suas palavras, afirmou que o actual Governo "deve voltar atrás e suspender a aplicação do AO", lembrando que "juridicamente não está em vigor".

Uma medida que urge “reavaliar”. O AO é inútil, desnecessário e catastrófico. A sua suspensão seria uma excelente e oportuna medida do novo Executivo.

Neste jornal faremos o que nos compete na defesa da nossa Língua e, tal como em tantos outros meios de comunicação, continuaremos a escrever em português e não em “acordês”.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A longa fuga

A história que inspira este filme é verdadeiramente impressionante. Durante a Segunda Guerra Mundial, um prisioneiro político polaco, encarcerado num campo de concentração soviético, lidera um pequeno grupo numa fuga de 7200 quilómetros. Durante um ano e meio atravessam a Sibéria até à Mongólia, onde passam o deserto Gobi, depois o Tibete e os Himalaias, para chegar finalmente à Índia, onde encontram a tão ansiada liberdade. Foi o relatado como experiência pessoal por Slavomir Rawicz, em 1954, no livro “A longa caminhada” que rapidamente se tornou um ‘bestseller’ internacional. Acontece que, depois da sua morte, os registos do campo onde Rawicz esteve realmente desmentiram a sua história e tudo leva a crer que ele se tenha aproveitado de experiências e relatos alheios como próprios.

Peter Weir, o australiano que realizou obras memoráveis como o tocante “Clube dos Poetas Mortos” (1989), ou o assombroso “Master and Commander” (2003), entre outros, diz que a leitura desse livro o “levou a pensar o pouco que sabia sobre o sistema Gulag e sobre a repressão debaixo de Estaline”.

É aqui que este filme é um alerta. Para que não se esqueçam os crimes e torturas do comunismo, nem aqueles que heroicamente lhe conseguiram escapar.
Weir optou por focar a esta longa fuga na troca do isolamento forçado pelo

isolamento escolhido, já que o grupo evita cuidadosamente aglomerados populacionais. Mantém-nos apenas homens na Natureza, que por tantas vezes se revela implacável, em ambientes inóspitos, da floresta gélida ao deserto abrasador.

Apesar de bem realizado, com uma fotografia fabulosa e interpretações à altura, o filme é demasiado longo e por vezes até maçador. Mesmo assim, não deixa de ser uma obra corajosa sobre a coragem. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]