quarta-feira, 22 de junho de 2011

Matança

Seja pelo realizador, seja pelo protagonista que, ganhou o prémio de Melhor Actor no Festival de Veneza 2010, ou mesmo pelo próprio ‘trailer’, este é um filme para o qual se vai com expectativas em alta. Talvez exactamente por isso fique aquém do esperado.

No início, parece que estamos numa película de acção num cenário de guerra, quando tropas norte-americanas capturam um taliban no Afeganistão. Uma vez feito prisioneiro, este entra na máquina do sistema de detenção. Aí parece que viajamos até ao Iraque, concretamente a Abu Ghraib. Os interrogatórios, agressivos, as suas técnicas de afogamento simulado, ou detidos com as roupas cor-de-laranja e os capuzes negros. Daí, o destino esperado. Num dos famosos “voos secretos”, é levado para o Leste da Europa. Mas, ao ser transportado durante a noite por uma estrada coberta de gelo, a carrinha despista-se e ele vê-se subitamente livre. Aqui começa uma verdadeira caça ao homem na qual o perseguido tudo fará para escapar, incluindo matar sem hesitação.

Aquele que se torna um verdadeiro animal em fuga, e depois ferido, chega ao ponto de comer insectos, entre outras coisas, para se alimentar. Há neste aspecto qualquer coisa daqueles programas televisivos de sobrevivência e, assim, exigia-se algo diferente. Outra coisa que não está bem conseguida são as lembranças que ele vai tendo enquanto foge. Breves sonhos recordatórios com algumas imagens que são os lugares-comuns que associamos ao mundo muçulmano radical, sempre cheias de orações.

A realização é boa, bem estruturada com alguns pormenores interessantes e uma bela fotografia. A prestação de Vincent Gallo também é de notar, e Emmanuelle Seigner, na sua breve aparição, não podia fazer mais. Um ‘trhiller’ que tenta buscar compreensão e até compaixão na brutalidade. Longe de surpreender, esta matança só podia acabar de uma forma... [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

domingo, 19 de junho de 2011

Panorama actual no Méridien Zéro


Hoje, o programa Méridien Zéro tem o título de «Panorama Actu» e é dedicado à análise da actualidade, contando com a participação dos jornalistas Pierre Le Vigan e Emmanuel Ratier. A emissão tem início às 22 horas portuguesas e pode ser escutada através da Radio Bandiera Nera.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Alma

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!
Fernando Pessoa
A Mensagem

As palavras intemporais do nosso Pessoa, publicadas no livro cujo título original era, recorde-se, “Portugal”, mantêm a uma impressionante actualidade. A indecisão, o alheamento, o materialismo, parecem reflectir um povo sem alma. Ou, pelo menos, um povo de alma vendida. Que se esqueceu de si próprio a troco de diversões e ilusões e, principalmente, da tentação do conforto da “gaiola dourada”. A era do todo-económico teve este efeito devastador. A crença na paz eterna e no progresso infindável fez esquecer o político, esse conceito teorizado pelo politólogo Carl Schmitt. Sem a noção do fenómeno político e da coisa pública, os governos passaram a ser obra de meros gestores, desprovidos que qualquer sentido de Estado e de Nação.

Terra
Nas celebrações do 10 de Junho, em Castelo Branco, Cavaco Silva deu especial relevo às “desigualdades territoriais do desenvolvimento, aos problemas da interioridade, ao envelhecimento e ao despovoamento de uma vasta parcela do nosso território”. Manifestações de um problema de fundo do nosso país, onde metade do território parece estar de costas voltadas para a outra metade.

Afirmando que as grandes cidades do litoral “cresceram de forma desmesurada e, mais ainda, desordenada”, reconheceu que devemos evitar “procurar replicar o litoral do país. Essa não é a opção correcta: o interior dispõe de uma identidade própria e é ela que lhe confere o seu carácter distintivo e original”. Para o Presidente da República, “importa, no entanto, não repetir erros cometidos noutras parcelas do País. O interior tem de ser um espaço em que a tradição, a Natureza e a presença humana convivam de forma harmoniosa e equilibrada”. Como se os erros tivessem sido apenas numa parte do País. A invocada “identidade própria”, no nosso caso, deve ser nacional. E há que afirmá-la. Esse, sim, é o caminho a seguir.

Outro ponto importante foi a referência à agricultura, actividade essencial para vitalidade da nossa nação, no seu imprescindível fortalecimento da ligação de um povo à sua terra. Mas poderá aquele que transformou Portugal no “bom aluno” da Europa, falar deste sector que foi vendido, tal como o das pescas, a troco de uma união económica europeia? Essa ilusão baseada nos fundos e no crédito, que nos fez crer que podíamos viver bem acima das nossas possibilidades, cuja pesada factura começamos agora a sentir.

Povo
No final do seu discurso na cerimónia do nosso dia nacional, o Presidente da República afirmou: “É Portugal inteiro que tem de se erguer nesta hora decisiva.” Uma expressão que não deixa de me recordar o título do ensaio pessimista do filósofo e historiador germânico Oswald Spengler. Acrescentou que este é “um tempo de sacrifícios, de grandes responsabilidades”. Sem dúvida, mas espera-se que seja para todos e por todos. Alertou ainda que “não podemos falhar”. Diria antes que não devemos, porque olhando para trás, para a nossa História, vemos que não seria a primeira oportunidade falhada. O nosso país parece ter, por vezes, essa infeliz característica. E concluiu: “É nestas alturas que se vê a alma de um povo”. Certo de que o nosso povo ainda tem alma – esteja ela vendida, esquecida ou simplesmente adormecida – mantenho a firme esperança que um dia renasça. Esse é o sentimento nacional que deve gerar uma vontade comum. Aí, afirmar-nos-emos como Nação secular que somos. Portugal somos nós. E nós temos que ser Portugal.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O eremita

Há uma coisa curiosa no ambiente deste filme, passado na década de 30 do século passado. Numa pequena terra da América profunda, apesar dos automóveis, parece que ainda conseguimos respirar qualquer coisa do Oeste tardio. A recriação de época está muito bem conseguida e faz-nos entrar naquele pequeno mundo, quase familiar.

Felix Bush é o velho e misterioso eremita local, de aspecto desgrenhado, que vive em auto-reclusão na sua casa afastada no meio da floresta. Naturalmente, gera medo e desconfiança nos habitantes da terra, que sobre ele contam as histórias mais mirabolantes. Um dia, decide dar uma grande festa funerária para si próprio e onde vai estar presente... Vivo! A condição é que cada uma das pessoas conte uma das histórias que sabe sobre ele. Para garantir a afluência e o sucesso da iniciativa, decide fazer um sorteio entre os presentes, sendo o prémio a sua propriedade. Para organizar tudo isto, Bush recorre aos serviços da funerária local, contando com a ajuda do funcionário Buddy (Lucas Black), talvez o primeiro a descobrir que há um homem por trás daquela imagem de eremita assustador. Mas talvez Felix não queira ouvir histórias sobre si, mas pelo contrário conseguir contar a sua...

Esta estreia de Aaron Schneider na longa-metragem é um filme sem rodeios, que vai directo ao assunto, que funciona bem e ainda com uma bela fotografia. Mas o melhor mesmo está nos actores. Um trio de luxo que dá gosto ver. O inultrapassável Robert Duvall, esse senhor da sétima arte, que dá vida e sentimentos ao velho Bush. Bill Murray, totalmente à vontade no papel do irónico dono da funerária, Frank Quinn. E, por fim, Sissi Spacek, a mão carinhosa através de quem conseguimos chegar ao protagonista. Um bom filme sobre um passado que atormenta e que condicionou toda uma vida. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Eis a viragem

Como esperado, também Portugal teve a sua “viragem” à direita, à semelhança do que aconteceu por esta Europa fora, cansada do fracasso das políticas socialistas e atormentada pelos efeitos da crise económico-financeira.

Passos Coelho conseguiu, à frente do PSD, um resultado expressivo que lhe permitirá ser o próximo primeiro-ministro e contar com uma maioria absoluta com o apoio dos centristas. Mas esta vitória, há que dizê-lo, foi mais por demérito alheio que por mérito próprio. Era preciso correr com Sócrates e esta era a solução imediata.

No PS, a derrota motivou a demissão do secretário-geral e o início da luta pela liderança. Como sairão os socialistas da “máquina” que gripou?

O CDS conseguiu tantos deputados como a soma dos da extrema-esquerda, mas algum “voto útil” nos sociais-democratas impediu um resultado ainda mais impressionante. Terá uma força considerável no próximo Governo.

A CDU continua a ser suportada pelo eleitorado fiel dos comunistas e a representar o “protesto” de esquerda.

O BE, passadas as “causas fracturantes” e com a sua institucionalização, perdeu metade da sua força parlamentar e a sua fase descendente parece não estar terminada.

Concluindo, mesmo com uma abstenção considerável, o eleitorado reagiu. Cabe agora ao novo Governo ter a mesma atitude. Bem precisamos, porque este não é o tempo para “mais do mesmo”.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Racismos (XVI)

Mais uma notícia sobre um caso curioso, a mostrar que o fenómeno do racismo está longe de ser unívoco. Reza assim: "um gangue latino planeou, nos anos 90, "libertar" uma cidade californiana dos seus habitantes negros, através da intimidação, ameaça e violência, numa tentativa de demonstração da sua lealdade a um gangue da máfia mexicana na prisão."

domingo, 5 de junho de 2011

Méridien Zéro e a tourada


Hoje, a emissão do programa Méridien Zéro tem o título «Olé! Descoberta da Corrida» e é dedicada à Tourada à espanhola. Como é habitual, o programa pode ser escutado a partir das 22 horas portuguesas, na Radio Bandiera Nera.

O Diabo no ar


O Diabo realizará hoje a partir das 19 horas. Uma emissão conduzida por Cândido Mota e João Vasco Almeida.

Em estúdio estarão também Jorge Morais, Rui F. Baptista, Nuno Tuna e Duarte Branquinho. Comentários e Análise de José Serrão, António Saleiro, António Martins Neves, Carlos Barroso, Brandão Ferreira, Henrique Silveira...

Nove repórteres nas principais sedes partidárias para acompanhar a par e passo o clima sentido junto aos portagonistas. Ainda, repórteres de rua que irão dar voz ao povo anónimo.

Uma transmissão internacional que conta com a parceria da Rádio Cartaxo, Rádio Clube da Covilhã, Rádio Águia Azul, Solar FM, Emissora das Beiras, Rádio Popular Afifense e KLBS (Estados Unidos).

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Lanceiro à carga!

Está já disponível o número 5 do “Lanceiro”, agora com o título “Cadernos Militares Magazine”, um formato ligeiramente maior e uma periodicidade que passa a ser de três números por ano.

O “Lanceiro” existe desde 1999, quando foi fundado pelo seu director, José Manuel dos Santos Costa, e saiu ininterruptamente até finais de 2007. Depois de um período sem ser publicado, voltou à carga no início de 2009 com o título “Cadernos Militares” e com um visual renovado.

Mais do que uma mera revista para consumo interno, esta é uma publicação de História e cultura militar dirigida a um público abrangente. O “Lanceiro” tem um objectivo claro, como dizia a nota de abertura do n.º 1 dos “Cadernos Militares”: “Para que não se esqueça e não se faça tábua rasa da nossa História que como disse Mouzinho "foi obra de soldados" fazemos uma publicação para todos os que sentem e vivem "os interesses permanentes e vitais da Pátria e têm o culto da sua História", tenham ou não passado pelas fileiras”.

É, assim, um verdadeiro achado. Tanto no vazio do panorama editorial no nosso país no que respeita a publicações deste género, como no espírito patriótico e de dever que o guia, valores tão em desuso nos tempos que passam. Haja quem os mantenha.

Neste número destacam-se os artigos “A Carga da Brigada Ligeira: Heróica Carga da Cavalaria Inglesa”, de Roberto de Moraes, “A Guerra 14/18: Porque morreram 10 milhões?”, do General António Martins Barrento, “Carabinas e Clavinas na Cavalaria Portuguesa”, de Jaime Regalado, e “Os ME-262”, de Carlos Passanha. Para além das secções de notícias e história e da evocação de Marcelino da Mata, é ainda possível encontrar as crónicas de Ana Costa Lopes, sobre “Aljubarrota e Batalha”, e de Filipe Barbeitos, sobre o “Regresso a Timor”.

Uma revista muito interessante que pode ser adquirida nas livrarias Barata e Férin, em Lisboa, na Galileu, em Cascais, na Lello, no Porto, na Minerva, em Coimbra, ou encomendada através do endereço de correio electrónico: jornallanceiro@gmail.com. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

Um livro é uma arma carregada!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Aves azuis

Carlos Saldanha é conhecido pela trilogia de filmes “Idade do Gelo”, cujo melhor é o primeiro, de 2002. Agora decidiu filmar em “casa”, ou seja num Brasil virtual. Em várias entrevistas afirmou que sentia a responsabilidade como brasileiro de recriar fielmente a cidade do Rio de Janeiro, onde se passa a maior parte da acção. Em termos de animação, este é um produto ao nível do mais avançado que hoje se faz. Mas, apesar da qualidade da técnica, do espectáculo de cor e movimento, não deixa de ser mais um como tantos outros. A indústria cinematográfica sabe que filmes para crianças levam mais gente às salas e o rendimento é maior, em especial se os espectadores forem sobretaxados com o aluguer dos óculos 3D.

Quem nos leva ao “Rio” é Blu, uma arara azul domesticada que vive no gelado estado Minnesota com a sua dona Linda. Um dia, ela é visitada por um ornitólogo brasileiro que lhe diz que o seu animal de estimação é o último macho da sua espécie e convence-a a levá-lo para o Brasil para que acasale com Jewel, a fêmea que tem no seu abrigo para aves.

Tem assim o início de uma aventura que, como não podia deixar de ser, se desenrola durante o Carnaval. O casal de aves azuis é raptado e em toda a correria que se segue há algumas personagens engraçadas, como o buldogue Luiz ou o gangue dos macacos assaltantes, e momentos de piadas ligeiras. Ao mesmo tempo, tenta-se alertar para o tráfico de espécies em perigo de extinção e o comércio de animais protegidos. Mas, apesar disso, é curioso ver como as favelas são retratadas com ligeireza, bastante diferentes da perigosidade conhecida.

Este é, assim, um exercício de entretenimento que não serve para muito mais que isso, entreter... [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]