quarta-feira, 30 de março de 2011

O sucesso e a crise

No início deste filme entramos na chamada ‘corporate America’ ao ver a vida de Bobby Walker (Ben Affleck), um alto-quadro da gigantesca empresa GTX, que se movimenta num Porsche, vive com a sua família numa impressionante casa de luxo e chega ao escritório a pensar na óptima pontuação conseguida a jogar golfe num clube seleccionado. É aquela “imagem de sucesso” a que tantos filmes americanos nos habituaram.

Mas a crise bate à porta e os cortes de pessoal são a solução apresentada para manter o preço das acções da empresa elevadas. Nestas vagas de despedimentos, Bobby é inesperadamente incluído e vê-se confrontado com uma realidade que desconhecia.

Aqui está um dos primeiros problemas do filme. Dificilmente alguém se solidarizará com este “homem de negócios” que tinha uma vida milionária. Mesmo assim, apesar de algum sentimento inicial de negação, ele acaba por aceitar um emprego na construção com o seu cunhado com quem as relações estão longe de ser as melhores. Mas até isso parece mais que forçado. A tirar desta experiência está, principalmente, a ideia de que tais situações podem acontecer a todos sem excepção.

Há também passagens interessantes sobre os valores morais de quem dirige monstros empresariais e despede centenas de trabalhadores sem quaisquer problemas de consciência, ao mesmo tempo que se reflecte sobre uma altura onde os empregados produziam algo que podiam ver e sentir, por oposição ao trabalho de secretaria e computador que fazem hoje.

Uma das coisas que chama a atenção para este filme, para alem do tema, é o rico elenco. Tommy Lee Jones, sem dúvida com a melhor prestação, Kevin Costner, num papel secundário bastante apagado, Chris Cooper, que cumpre, e Maria Bello, que vai bem sem surpreender. Nota negativa para Ben Affleck no papel principal, que não confere solidez à personagem que encarna. Entre várias oscilações, há um pormenor que estranhei relativamente ao sotaque de Boston, cidade de onde o actor é natural e onde se passa a acção. Inexplicavelmente, Affleck por vezes acentua-o e por outras simplesmente o evita. Ainda considerei que fosse alguma mudança de registo por condição social, mas cheguei à conclusão que tal era demasiado rebuscado.

Este é mais um daqueles casos de um filme que podia ter sido algo verdadeiramente profundo. Talvez a explicação da sua ligeireza esteja no seu realizador e argumentista, John Wells, um homem conhecido pelo seu trabalho em séries televisivas.

Há um momento engraçado na história onde se ridiculariza uma “sessão de motivação” que os recém-desempregados têm que frequentar. O problema é que, apesar desta divertida crítica, quando chegamos ao final do filme, parece que acabámos de participar numa sessão semelhante. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 29 de março de 2011

Língua

Passam hoje exactamente cinco anos da data da morte de Jean Mabire (8/2/1927 – 29/3/2006), escritor que tanto me influenciou e inspirou com as suas obras e com o seu exemplo. Apesar de defensor da Europa das Pátrias Carnais e de se definir a si próprio como “normando e europeu”, Mabire foi um dos grandes autores de língua francesa, com uma extensa obra publicada.

Defendia que a cultura francesa, encarnada numa língua, devia integrar todas as suas especificidades regionais, por oposição à actual promoção da “linguagem dos subúrbios”. Este empobrecimento, considerava ele, levaria a que se conhecesse em breve “uma espécie de francês básico muito análogo ao que é o americano em relação à língua de Shakespeare”.

É inegável que esse estado está à porta. Assistimos impávida e serenamente às repetidas machadadas no Português e aceitamos pacificamente atentados como o (des)acordo ortográfico. O pior, sem dúvida, é a ignorância generalizada e, para a contrariar, só o eterno regresso aos clássicos e aos mestres deverá continuar a ser o caminho.

Por falar em mestres das letras, também ontem se cumpriram sete anos do falecimento de Rodrigo Emílio (18/2/1944 – 28/3/2004), o poeta-soldado de quem os bem-pensantes tanto se tentam “esquecer”, apesar do seu talento e genialidade incomparáveis. Outro autor para quem a defesa da Pátria implicava necessariamente a defesa da Língua e de toda uma Cultura.

Porque se não soubermos quem foi Camões, a “Língua de Camões” deixará mais tarde ou mais cedo de ser a nossa. Perdendo o seu significado profundo e mecanizando-se passará a ser apenas um “meio” desprovido de conteúdo.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 28 de março de 2011

Bem-hajam e até mais ver!


Quando eu morrer,
não haja alarme!
Não deitem nada,
a tapar-me:
— nem mortalha.

Deixem-me recolher
à intimidade da minha carne,
como quem se acolhe a um pano de muralha
ou a uma nova morada,
talhada pela malha
da jornada...

— E que uma lágrima me valha...!
Uma lágrima — e mais nada...

Rodrigo Emílio (18/2/1944 — 28/3/2004) 

domingo, 27 de março de 2011

Alain Soral no Méridien Zéro


A emissão de hoje do programa Méridien Zéro tem como convidado Alain Soral, conhecido ensaísta, escritor e realizador francês. Definindo-se a si próprio como «intelectual francês dissidente», Soral passou pelo Partido Comunista Francês e pelo comité central do Front National. Fundou em 2007 a associação Égalité et Réconciliation, grupo de «esquerda nacionalista» ao qual preside. «Comprendre l'empire» é o título do seu mais recente livro, um ensaio sobre o poder que desmonta a forma como a banca se tornou o verdadeiro império mundial. Lançado no último mês de Fevereiro, o livro entrou imediatamente no top de vendas da Amazon, alcançando o 18.º lugar. Como habitualmente, este programa pode ser escutado através da Radio Bandiera Nera, a partir das 22 horas portuguesas.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O Homem e a Natureza

A Cavalo de Ferro tem o mérito de ter trazido de volta ao panorama editorial nacional o grande mestre das letras norueguês Knut Hamsun. “Pan” é um daqueles livros obrigatórios em qualquer biblioteca. Uma lufada de ar da floresta.


O escritor norueguês Knut Hamsun, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1920, voltou a ser editado em Portugal em 2008 graças à Cavalo de Ferro, com a publicação de “Fome”, traduzido por Liliete Martins e com prefácio de Paul Auster. Desta vez, mais recentemente, lançou uma nova edição de “Pan” (capa mole, 184 páginas, 18,00 euros), traduzida por João Cruz e Mário Cruz, obra que havia sido publicada em 1955, pela Guimarães, com tradução de César Frias. E não ficará por aqui, já que está anunciada para breve a publicação de “Victoria”.

Hamsun é um autor bastante polémico devido ao seu apoio ao movimento de Vidkun Quisling e à Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1943 é recebido por Hitler, a quem se queixa do administrador militar alemão na Noruega, para descontentamento do führer. De seguida, oferece a sua medalha do Nobel a Goebbels. Depois da morte de Hitler escreve um elogio póstumo onde o considera “um guerreiro pela humanidade”. Todas estas atitudes valem-lhe a classificação de “colaborador”, a expropriação dos seus bens e um internamento psiquiátrico já em idade bastante avançada. Mas, apesar de hoje começar a ser reabilitado enquanto escritor, é sempre alvo de críticas devido às suas simpatias políticas e colocado no lado dos “malditos”. Seja como for, independentemente do seu posicionamento, a sua genialidade e a sua qualidade literária são inegáveis.

“Pan”, uma das suas obras de maior sucesso e mais reconhecidas, foi publicado originalmente em 1894 e escrito durante o período em que Hamsun esteve em Paris. Tem como protagonista o tenente Thomas Glahn, antigo militar e caçador, que vive sozinho numa cabana no bosque, apenas com Esopo, o seu fiel companheiro canino. Este fala-nos na primeira pessoa e o livro, de início, parece um diário. Glahn vai encontrar Edwarda e apaixonar-se. No entanto, as infidelidades dela transformarão esta paixão em tragédia.

Em “Pan”, encontramos principalmente a ligação do homem à Natureza, à paisagem que o envolve e o simbolismo do ciclo das estações do ano, manifestações do panteísmo de Hamsun e da sua profunda aversão à civilização urbana e ao progresso. Uma obra-prima da literatura da autoria de quem Thomas Mann considerou “o maior escritor de sempre”. Absolutamente indispensável. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 24 de março de 2011

Horas a mais

Danny Boyle surpreendeu-me com a espantosa viagem ao mundo da droga que foi “Trainspotting” (1996), mas a partir de então nunca mais o conseguiu. Nem com “A Praia” (2000), nem mesmo com o popular “Quem quer ser bilionário?” (2008), que lhe valeu o Óscar na categoria de Melhor Realizador ficou a milhas daquele que foi o seu trabalho verdadeiramente genial.
Desta vez o seu “127 Horas” deu que falar pelas seis nomeações para os Óscares, com seis nomeações, incluindo a categoria de Melhor Filme e Melhor Actor. Ficou, no entanto, de mãos a abanar... e bem. Ainda que, como muitos adiantaram a mera nomeação é por vezes um prémio. A ser assim, nem isso merecia.

Outro atractivo do filme é o facto de se basear numa história real. Ainda para mais numa impressionante história de resistência, cujo real protagonista considerou estar até bem reproduzida, excepto por alguns pormenores iniciais. Mas aí está, parece mesmo que estamos perante uma daquelas reconstituições que normalmente se vêem nos programas especializados de sobrevivência dos canais de documentários. E o melhor, talvez, fosse ter-se cingido a essa meia hora televisiva...

Ora a história é mais ou menos conhecida e simples. O aventureiro “radical” e escalador Aron Ralston (James Franco), num passeio sozinho no deserto rochoso do Utah, acaba preso num estreito desfiladeiro por uma rocha que lhe esmaga a mão e parte do antebraço. O final também é conhecido, pelo que fazer um filme sobre este caso extremo só poderia centrar-se no aspecto humano profundo do protagonista. Tal não acontece.

Apesar de muito louvada, a prestação de Franco não é impressionante. Mas, há que dizê-lo, com as condições que lhe deram, como fazer mais? E será que, mesmo assim, o conseguiria?

Para evitar, em vão, uma seca monumental, o realizador optou pelo pior. Um exagero de ecrãs divididos incompreensíveis, uma acção acelerada sem sentido, uma série de ‘flashbacks’ com personagens de quem pouco ou nada se sabe, sonhos que nos levam para a frente e para trás, como quem nos abana para não adormecermos. Tudo isto com a uma inexplicável ligeireza que passa ao ritmo de um anúncio publicitário de uma bebida energética ou de um teledisco de um qualquer ‘top’ de vendas da MTV.

Houve uma única frase que me ficou deste filme. Quando Aron tenta escavar a rocha que lhe prende o braço recorrendo à lâmina do pequeno alicate que trazia na mochila diz: “Uma lição: não comprem a ferramenta multifunções barata fabricada na China. Eu tentei encontrar o meu canivete suíço, mas...”

Não se iluda. Esta é uma estopada tal que o filme parece demorar o tempo que lhe dá título... Poupe-se ao sofrimento de tentar amputar o braço para sair da sala. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 23 de março de 2011

Le Choc du Mois n.º 41


Neste número da revista francesa «Le Choc du Mois» o tema principal é "Que pode (verdadeiramente) fazer a Polícia?", com um dossier que inclui vários artigos, entrevistas e uma reportagem com a Brigada Anti-Crime. Destaque também para outro dossier sobre o fim do mundo e a reportagem sobre a juventude neofacista italiana intitulada "Rock around Mussolini".

O valor dos que escolheram o caminho mais difícil


A propósito do cinquentenário da Guerra do Ultramar, é de ler o artigo de Jaime Nogueira Pinto publicado ontem no jornal "i", porque "esta é uma pedra-de-toque das poucas questões políticas do nosso passado próximo. Que divide quanto à política, mas que podia unir, quanto ao valor dos que escolheram então o caminho mais difícil".

segunda-feira, 21 de março de 2011

Primavera

Flora

Porque ontem começou a Primavera, aqui fica um pormenor de um dos meus quadros favoritos, a "Primavera" de Sandro Botticelli, que há pouco tempo tive finalmente a oportunidade de apreciar na Galleria degli Uffizi. Um deleite...

domingo, 20 de março de 2011

Laurent Ozon no Méridien Zéro


O programa Méridien Zéro recebe, na edição de hoje, Laurent Ozon, membro do conselho político do Front National, responsável pela formação de quadros e pelas questões de ecologia. Ozon conta, além disso, com um extenso currículo na área do Ambiente, sendo um dos grandes defensores das teorias do localismo.  Como habitualmente, a emissão pode ser escutada através da Radio Bandiera Nera, a partir das 22 horas.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Enfrentar o destino

O grande mestre da ficção científica Philip K. Dick teve já diversas das suas obras adaptadas ao cinema. Não esperando propriamente algo à altura do clássico contemporâneo Blade Runner (1982), suscita-me sempre a curiosidade quando um realizador decide levar PKD ao grande ecrã.

Desta vez foi a escolha de estreia de George Nolfi, já conhecido como argumentista – o seu mais recente trabalho de escrita foi o último filme da série Bourne, “Ultimato” (2007) –, como realizador. Adaptou o conto “Adjustment Team”, de 1954, e dirigiu um filme que deixa a desejar. O que podia ser uma bela incursão no género ‘sci-fi’, torna-se um ‘thriller’ romântico. Um exercício de entretenimento mais próprio para uma tarde de domingo. Tal não é necessariamente mau, já que a prestação dos protagonistas é boa e certos pormenores evitam o enfado.

Matt Damon, que tem aparecido frequentemente em grandes produções, confirma o seu talento de como actor multifacetado e a dupla que faz com Emily Blunt resulta bastante bem.

A história mostra-nos o jovem e ambicioso político David Norris (Matt Damon), em plena campanha eleitoral e a caminho de um promissor futuro. Depois de um percalço que o desvia de uma vitória anunciada, conhece a bela bailarina contemporânea Elise Sellas (Emily Blunt) que não lhe sai da cabeça. Parecem destinados um ao outro, mas de quem depende o destino?

Cedo Norris descobre acidentalmente, para sua total estupefacção, que há agentes do destino que têm como missão assegurar que tudo se mantenha “de acordo com o plano”. Para tal trabalham em equipa e dispõem de vários poderes. Um deles é a impressionante facilidade das passagens espácio-temporais que lhes permitem “saltar” de um lado para outro com óbvia vantagem sobre o perseguido. Este é um pormenor interessante, já que a forma de entrar nestes canais é através de portas que aparentam ser normais. Outro ponto curioso é o do guarda-roupa bem conseguido destes agentes, sempre de chapéu, num estilo algo ‘fifties’.

Decididos a cumprir a sua missão, que não questionam, os agentes vão perseguir os protagonistas acelerando a acção do filme numa corrida de tirar o fôlego que nos leva, infelizmente, a um final fraco e mais que previsível.

O ponto forte está nas questões maiores que toda a história levanta e que o realizador-argumentista parece relegar, a medo, para segundo plano. Será que o livre-arbítrio condena a humanidade? O homem contra quem o controla, contra quem lhe delineou os planos. Contra toda uma máquina que assegura o cumprimento desses planos previamente delineados. Pode o homem alterar o seu destino? E quando o amor se atravessa no caminho... Pode o amor mudar o destino? [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Drieu La Rochelle

quinta-feira, 17 de março de 2011

Manif

Quando oiço falar em manifestações em Portugal, lembro-me sempre de uma peça jornalística televisiva sobre um dos protestos da função pública liderados pela esquerda.

A determinada altura, uma jovem repórter entrevistava um elemento, com uma retórica saída directamente da cassete do PCP, que se destacava de um grupo que tinha vindo de uma localidade do interior do País. Depois de umas tiradas decoradas, mecânicas, sem sentido, eis que se chegou ao ponto alto da conversa. Perguntado sobre o que trazia no farnel, o manifestante respondeu com um sorriso que para além do chouriço e outros enchidos, tinha também um garrafão de vinho tinto da sua região. Foi o que despertou a atenção dos seus companheiros e mostrou aquilo em que todos estavam de acordo – a festa.

Tratava-se, na realidade, de um passeio a Lisboa com a desculpa de protesto.

É isso que mais parece ter sido a manifestação de dia 12 de Março. Não contestando algum mal-estar e louvando a mobilização de um Povo que normalmente fica em casa e guarda as críticas para o café vemos que o registo das “manifs” pouco mudou.

Apenas com o agravar das condições económicas e sociais se criará um estado extremo que levará as pessoas a revoltarem-se verdadeiramente. Mas, mesmo que aí cheguemos, qual será o seu objectivo? E será que lá chegaremos?

Os que sonham com novas “revoluções” ou revoltas ao estilo norte-africano arriscam-se mais a acordar para verificar que, afinal, nada mudou.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

quarta-feira, 16 de março de 2011

Nas paredes


Estive recentemente em Pisa e perto do centro dei de caras com esta mensagem na parede. Concordando inteiramente com ela, não resisti a fotografá-la.

domingo, 13 de março de 2011

Méridien Zéro recebe a revista Rébellion


A edição de hoje do programa Méridien Zéro tem como convidados os dinamizadores da revista Rébellion, publicação bimestral de carácter socialista, revolucionário e europeísta. Como sempre, a emissão pode ser escutada através da Radio Bandiera Nera, e tem início às 22 horas portuguesas.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O western vive

Os irmãos Coen formam uma dupla talentosa que já nos ofereceu verdadeiras pérolas cinematográficas como “Fargo” (1996), “O Grande Lebowsky” (1998), ou mais recentemente “Este Pais Não é para Velhos” (2007). Agora decidiram mostrar que ainda é possível fazer um ‘western’ e, felizmente, realizaram-no majestosamente.

Para fazer um clássico moderno, recorreram a outro clássico, o romance “True Grit”, de Charles Portis, que deu origem ao filme “Velha Raposa” (1969), de Henry Hathaway, que deu o Óscar a John Wayne. O resultado não podia ter sido melhor e os Coen conseguiram mostrar que o ‘western’ é um género que ainda vive.

O protagonista deste história é Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um ‘marshall’ do Oeste norte-americano com um currículo que fala por si, mas com um feitio dos diabos, dedo leve no gatilho e uma tendência para o abuso do álcool. Até ele chega Mattie Ross (Hailee Steinfeld) uma jovem de 14 anos que o contrata para encontrar Tom Chaney (Josh Brolin), o ladrão que matou o seu pai, para o trazer à justiça. Apesar da sua tenra idade, ela revela-se muito hábil no duro mundo dos adultos e determinada a conseguir o que quer. Atrás de Chaney anda também Laboeuf (Matt Damon), um ‘ranger’ do Texas que se junta nesta caça ao homem e à recompensa, com um estilo totalmente diferente de Rooster. É a partir desse triângulo que se forma que se desenvolve toda a acção do filme.

Os desempenhos do veterano Jeff Briges - o ‘Dude’ de “O Grande Lebowsky” - e da jovem Hailee Steinfeld são magistrais. Ele confirma da melhor forma e com todo o à vontade o grande actor que é. Ela deixa-nos pasmados com tamanho talento e espantosa segurança numa actriz tão nova que agora inicia uma carreira, que será certamente promissora.

Nesta verdadeira ode ao pioneirismo e à fundação da América encontramos todos os elementos do ‘western’, da sessão pública de enforcamento à cena num ‘saloon’, na cidade, e das planícies às montanhas. Temos heróis e bandidos, tiros e cavalgadas, coragem e enganos. E, para terminar, um final fabuloso.

Esquecido nos Globos de Ouro, parecia que as 10 nomeações para os Óscares, incluindo as categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Actor Principal e Melhor Actriz Secundária, consagrariam “Indomável”. Tal não aconteceu e o filme saiu da cerimónia de mãos a abanar. Por seu lado, os realizadores viram os seus bolsos cheios com aquele que está a ser o maior sucesso comercial da sua carreira até agora.

Sem prémios, mas com o reconhecimento do público, este é sem dúvida um dos melhores filmes do ano. Um grande ‘western’ dos manos Coen, que se espera que continuem indomáveis. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 9 de março de 2011

Família

Segundo uma sondagem revelada pelo jornal “Público” sobre a família, percebemos que esta mudou e que os inquiridos sentem que foi para pior.

Aqueles que anseiam pelo progresso perpétuo e defendem qualquer mudança como necessariamente positiva, tentam a todo o custo derrubar os últimos pilares que sustentam as nações, os povos, as identidades. A família tem sido um dos seus alvos preferenciais. Eles sabem onde se deve atingir.

No mundo hedonista de hoje, a prioridade económica vai para os bens materiais e o individualismo crescente atira as relações duradouras para o cesto dos “comportamentos retrógrados”. Por outro lado, as cada vez mais influentes redes (as)sociais facilitam as infidelidades e o relacionamento virtual. As duras consequências são sobejamente conhecidas. Da quebra demográfica acentuada ao desprezo desavergonhado pelos mais velhos, passando pela total desvalorização da vida conjunta. Assim se vai perdendo, um pouco por todo o lado, o sentimento de comunidade – essa força tão importante para enfrentar difíceis tempos de crise e para perpetuar um todo nacional.

Perante este cenário, creio sinceramente que a família continua a ser uma instituição que deve servir de modelo para a construção e preservação social. Sem anacronismos, há que afirmar que a família é, e continuará a ser, a base da sociedade. Da sociedade como a queremos continuar a construir.

Post Scriptum – Muito obrigado a todos os leitores que me endereçaram os parabéns e desejaram um bom trabalho na direcção deste semanário. O vosso apoio é essencial para o nosso jornal.

Editorial da edição desta semana de «O Diabo».

domingo, 6 de março de 2011

Jean Haudry no Méridien Zéro


Esta semana, o programa Méridien Zéro tem como convidado o Prof. Jean Haudry, conhecido linguista francês e fundador do Instituto de Estudos Indo-Europeus na Universidade Lyon III. O tema da emissão, como não podia deixar de ser, são os Indo-Europeus. Como é habitual, o programa tem início às 22 horas portuguesas e pode ser escutada através Radio Bandiera Nera.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Alain de Benoist em Coimbra


Alain de Benoist está de regresso ao nosso país para marcar presença no II Colóquio Intradepartamental "Aprofundar a crise", promovido pelo Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. A sua conferência, sob o tema “As Origens da Crise Financeira”, será proferida amanhã, às 11.45, no anfiteatro IV da FLUC, com apresentação de Alexandre Franco de Sá.

Hitler e os livros

aqui me tinha referido à relação de Hitler com os livros, a propósito de “Hitler’s Library”, de Ambrus Miskolczy. Sobre o mesmo tema publiquei no semanário «O Diabo» e noutra casa uma recensão ao livro “A Biblioteca Privada de Hitler – Os Livros que Moldaram a sua Vida”, recém-publicado entre nós. Aqui fica.

A biblioteca "maldita"

A Civilização publicou um olhar sobre a biblioteca particular de Hitler que tenta revelar os livros que mais o influenciaram. Um campo novo para tentar descobrir o pensamento do führer

Adolf Hitler é visto normalmente como uma “encarnação do mal” e deve ser a figura do século XX sobre quem mais obras se publicaram. No entanto, muitas delas raramente trazem algo de verdadeiramente novo sobre o líder do III Reich, que viu o seu fim num dos períodos mais trágicos da História da Europa. Agora, para colmatar a falta, eis que com agrado chega pela mão da Civilização Editora, “A Biblioteca Privada de Hitler – Os Livros que Moldaram a sua Vida” (capa mole, 316 páginas, 18,90 euros).

As pilhagens e a destruição do pós-guerra fizeram desaparecer grande parte dos mais de 16 mil volumes que compunham a biblioteca de Hitler. Do que sobrou, Timothy W. Ryback seleccionou alguns para contarem a história do seu proprietário, do Guia de Berlim de Max Osborn, comprado durante a Primeira Guerra Mundial, à biografia de Frederico II, de Thomas Carlyle, oferecida por Goebbels em 1945, passando pela “bíblia” rácica norte-americana de Madison Grant.

Segundo ele, Hitler tinha "D. Quixote", "Robinson Crusoe", "A Cabana do Pai Tomás" e "As Viagens de Gulliver" entre as grandes obras da literatura mundial e considerava Shakespeare superior a Goethe e Schiller.

O autor não se refere apenas ao conteúdo das obras e à sua influência. É bastante interessante a forma como descreve fisicamente os exemplares, o seu estado, dedicatórias e anotações.

Nota positiva também para a imagem da capa, uma belíssima fotografia de Heinrich Hoffmann, que na edição portuguesa está maior e a cores, ao contrário da versão reduzida e a preto e branco da edição original.

Esta obra não chega a ser uma biografia intelectual de Hitler, nem uma análise sistemática da sua biblioteca. É uma interpretação feita num estilo mais ligeiro, claramente destinada a um público mais abrangente. Não obstante deixar muito a desejar, tem o mérito de despertar a curiosidade para um aspecto pouco conhecido e por vezes até ignorado da vida de Hitler. Kubizek, amigo de juventude de Hitler, disse que “os livros eram o seu mundo”. Que melhor sítio para tentar compreendê-lo do que na sua biblioteca? [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 2 de março de 2011

Óscares 2011

A Academia estava muito preocupada com a baixa de audiências da cerimónia dos Óscares e foi algo que se notou da pior forma este ano. Numa tentativa de fazer uma coisa “jovem” escolheu como apresentadores James Franco e Anne Hathaway e encolheu a duração do evento, pondo actores a despachar, literalmente, a entrega dos galardões.

Para o ano há mais e espera-se que seja melhor (não é difícil). Mesmo para inovar, convém aprender com as boas lições do passado…

Derrotados
“A Rede Social”, com oito nomeações, venceu três, das quais Melhor Argumento Adaptado. Uma justíssima e esperada consagração do notável trabalho de Aaron Sorkin. Mesmo assim, com toda a expectativa criada e ao falhar a merecida melhor realização para David Fincher, é um perdedor.
“Indomável”, o magnífico ‘western’ dos irmãos Coen, com dez nomeações, ficou de mãos a abanar. É pena, porque este foi um dos filmes do ano com representações fantásticas do veterano Jeff Bridges e da jovem Hailee Steinfeld.

A xaropada “127 Horas”, com seis nomeações, também ficou a ver navios… e bem. Ainda que, como muitos disseram, a mera nomeação é por vezes um prémio. Se foi o caso, nem isso merecia.
Na animação, a segunda nomeação de um filme de Sylvain Chomet, o maravilhoso “O Mágico”, perdeu para o forte adversário da casa “Toy Story 3”.

Vencedores
“O Discurso do Rei”, foi o grande vencedor da noite. Apesar de só conseguir quatro das doze estatuetas para as quais estava nomeado, foi considerado o Melhor Filme, contra uma concorrência de peso, Tom Hooper conseguiu ser reconhecido como Melhor Realizador e Colin Firth como Melhor Actor, não esquecendo o prémio de Melhor Argumento Original para David Seidler.

“A Origem”, de Christopher Nolan, filme que sinceramente me desiludiu, acabou por ganhar quatro das oito categorias para as quais tinha sido seleccionado. Apesar de serem mais técnicas, não deixa de ser uma vitória.

No documentário “Inside Job – A Verdade da Crise”, um merecidíssimo reconhecimento do trabalho corajoso de Charles Ferguson sobre os responsáveis pela actual crise financeira.

Natalie Portman, contrariando certas críticas, venceu justa e esperadamente o Óscar para a Melhor Actriz, pelo seu desempenho em “Cisne Negro”. Foi a única estatueta das cinco nomeações deste filme de Darren Aronofsky.

“The Fighter – O Último Round”, acabou também por ser o vencedor dos papéis secundários. Premiando os belos desempenhos de Christian Bale e Melissa Leo. Curisoamente tiveram os melhores discursos da noite. O dele bastante sincero e o dela tão admirada que até soltou “the f word”, como dizem os americanos. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 1 de março de 2011

Um dia d'O Diabo especial

Este é o meu primeiro dia como director do semanário «O Diabo». Um novo desafio para o qual espero estar à altura. Abaixo fica a capa, como habitualmente, e o meu editorial.


Aos leitores

Sou pouco mais velho do que “O Diabo” e este foi um jornal com o qual, literalmente, cresci. Desde criança que me recordo de ver este semanário em casa dos meus avós e não resistir ao seu logótipo, o que me fazia amiúde recortar os vários desenhos que ilustravam as secções.


Talvez daí tenha nascido a minha paixão pela imprensa e o verdadeiro vício pelos jornais, que se foi agravando. Recordo também os elogios feitos a Vera Lagoa, cuja independência e importância eram louvadas por familiares por quem tinha o maior respeito e consideração. Talvez aí tenha percebido que há mais no jornalismo do que as meras notícias e que o “quarto poder” é uma fonte de tentações, para muitos irresistíveis.

Já no liceu, quando a política me começou a atrair, tornei-me leitor regular de “O Diabo”, para estranheza de muitos condiscípulos e choque de alguns professores, para mais tarde, já na Faculdade, começar a colaborar esporadicamente na imprensa.
De há um ano a esta parte tenho colaborado regularmente neste semanário e assistido à solidificação de uma equipa motivada pela vontade de continuar um marco de irreverência e coragem no panorama nos jornais nacionais.

Encontrei nesta redacção uma segunda casa e alguém que depositou em mim a confiança para continuar o seu trabalho. Ao José Esteves Pinto não posso deixar de agradecer tal honra e reconhecer o seu esforço de tantos anos com um grande abraço.

Aos leitores que sempre nos acompanharam cabe-me apenas garantir que, com a incansável redacção e dedicados colaboradores, darei o meu melhor para continuar o nosso jornal. [publicado na edição de hoje de «O Diabo»]