quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O amigo do Rei

“O Discurso do Rei” tem todos os ingredientes para ser um sucesso comercial. É um ‘biopic’ de uma figura da realeza britânica, passado num ambiente histórico e baseado em factos reais. Rapidamente se tornou um dos favoritos aos Óscares, tendo sido nomeado para doze categorias, incluindo a de melhor filme e a de melhor realização.

Tom Hooper, que já havia experimentado o género histórico com as mini-séries “Elizabeth I” (2005) e “John Adams” (2008), realiza um filme mais íntimo, longe de uma grandeza que alguns esperariam, por se passar num período crucial na História da Europa.

Nos anos 30 do século XX, na iminência da Segunda Guerra Mundial, o poder da rádio revela-se da maior importância para a afirmação do soberano perante as massas. A seguir à gravação de uma mensagem de Natal, o rei Jorge V tem um diálogo com o seu segundo filho, o príncipe Alberto, duque de York, no qual chegam à conclusão de que se “tornaram actores”... A rádio é considerada por muitos, à época, como uma verdadeira “caixa de Pandora”, mas é impossível ignorá-la.

No entanto, o príncipe é atormentado pela sua gaguez desde criança, algo que agora se revela um problema ainda maior. A duquesa incita-o a consultar todos os especialistas da área, mas sem êxito. Finalmente, decide recorrer a um terapeuta da fala australiano, cujos métodos são no mínimo estranhos e incluem palavrões e exercícios físicos.

Com a morte do seu pai e a abdicação do seu irmão, o futuro Jorge VI depende directamente de Lionel Logue (Geoffrey Rush) para ultrapassar o seu impedimento de comunicação. Durante os tratamentos desenvolve-se entre ambos uma intimidade que resultará numa amizade profunda. Mas até aí chegar, o caminho será sinuoso. Para além da distinção de classe entre um membro da família real e um súbdito, Logue é um “aussie”, um “colonial”, algo que o situa na base da estrutura social da altura. Por outro lado, este terapeuta excêntrico apercebeu-se pela experiência que a gaguez tem causas psicológicas e consegue entrar na traumatizante adolescência de um príncipe que está longe de ser uma “história de princesas”.

O papel de Jorge VI, notoriamente difícil, é esplendidamente representado por Colin Firth, bem acompanhado pelos desempenhos de Geoffrey Rush e de Helena Bonham Carter.

Esta é uma história de um homem que ultrapassa uma adversidade que o parecia limitar para sempre, para chegar a um desafio ainda maior. Depois de assistir, em família, ao pequeno filme noticioso da sua coroação, Jorge VI vê imagens de um discurso de Adolf Hitler. Uma das filhas pergunta-lhe o que ele está a dizer, ao que o rei responde: “Não sei... mas está a dizê-lo muito bem”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

domingo, 20 de fevereiro de 2011

É preciso caminhar...


Hoje, o programa Méridien Zéro tem como tema as caminhadas e convida Fanny e Mathilde, que fizeram uma volta à Europa a pé, e Werner, animador do grupo TRACE. A emissão francófona da Radio Bandiera Nera pode ser escutada às 22 horas portuguesas.

Lanceiro - Cadernos Militares nº 4

O último número da revista "Lanceiro - Cadernos Militares" tem a destacar os artigos "Pintura Histórico-Militar", do TCor Cav Marcos Andrade, "Sargentos-Mores", pelo SMor Cav Fernando Lourenço, a conclusão de "Tentativas e Golpes Militares", de Roberto de Moraes, o discurso de António Barreto na sessão solene do 10 de Junho de 2010, entre outros, para além das secções habituais. Pode ser adquirida nas livrarias Barata e Férin, em Lisboa, ou encomendada através do endereço de correio electrónico: jornallanceiro@gmail.com.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Réfléchir & Agir n.º 37

O último número da imprescindível «Réfléchir & Agir», a “revista autónoma de desintoxicação ideológica”, tem como tema central “Para uma economia enraizada e solidária”, e oferece um dossier com artigos de Eugène Krampon, Georges Feltin-Tracol, Henri de Robert, Tanguy Douar, Fabrice Léhenaire, André Fauvin, François Pernet e uma entrevista com Michel Drac. Destaque ainda para a grande entrevista com a Philippe d'Hugues sobre o cinema, o artigo de Christian Bouchet sobre a história da direita radical russa, a reflexão sobre “Modernidade, pós-modernidade e hipermodernidade”, de Edouard Rix, e os artigos “Nas fontes da ecologia”, de Thomas de Pieri, e “O caso Houellebecq”, de Pierre Gillieth. Nas notas de leitura, temos várias páginas de livros para descobrir. Não esquecendo as habituais críticas, música e cinema, os breves comentários à actualidade e outras secções habituais. Referência ainda para a breve entrevista com Lieutenant Sturm, o principal animador do Méridien Zéro, o programa francês da Radio Bandiera Nera.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Mortos: 200 Milhões - Todos Nós


Esta é a capa da edição portuguesa de "Le Camp des Saints", de Jean Raspail, publicado pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”, recentemente reeditado em França. Como afirmei num post a que chamei "perigosa parábola", urge republicá-lo no nosso país.

A sinopse desta obra premonitória rezava assim:  

«Um dia, num futuro que não vem longe, uma estranha frota de velhos navios corroídos pelo tempo e pelo uso parte do golfo de Bengala e ruma em direcção à Europa. Traz a bordo um milhão de estropiados: os esfomeados dos "países subdesenvolvidos", que, cansados da miséria, resolvem bater às portas do paraíso do homem branco.

Como irá ele reagir à invasão pacífica dos que vêm buscar abrigo nas suas terras? Com a respiração suspensa, o mundo espera. Entretanto, ao longo de todas as fronteiras do hemisfério rico, outros milhões de homens - muitos - aguardam para se aventurarem também à conquista do paraíso...

Ficção científica? E talvez não, se tivermos presentes as previsões demográficas para o ano 2000...

É este o grave problema que Jean Raspail nos propõe neste romance grave. Um romance em que, através do trágico ou do burlesco das situações imaginadas, o autor assume uma posição que o leitor pode aceitar ou rejeitar. O problema, esse, talvez não possa ignorá-lo...»

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O lado negro

O primeiro filme de Darren Aronofsky que vi foi “A vida não é um sonho” (2000), uma viagem alucinante ao vício e à espiral descendente da degradação humana e nunca mais esqueci o nome deste realizador. Anos depois, em 2008, voltaria a surpreender com o excelente “Wrestler”, onde Mickey Rourke interpretou magistralmente um lutador em fim de carreira. Foi, assim, com certa expectativa que vi “O Cisne Negro”, filme que levou Aronofsky de novo ao mundo do espectáculo e suscitou críticas antagónicas, quase numa oposição amor/ódio.

A história desenrola-se em Nova Iorque, no seio de uma companhia de ‘ballet’. Preparando o início da nova temporada, o director, Thomas Leroy (Vincent Cassel), faz um ‘casting’ para a escolha da substituta da anterior estrela, Beth MacIntyre (Winona Ryder). Nesta produção de “O Lago dos Cisnes”, a protagonista tem que desempenhar tanto o papel de Cisne Branco como o de Cisne Negro. A jovem e dedicada Nina Sayers (Natalie Portman) desperta a atenção do director, pela sua técnica e desempenho como Cisne Branco. No entanto, ele hesita em seleccioná-la, duvidando que ela consiga ultrapassar a sua rigidez para atingir a paixão necessária para representar o Cisne Negro.

Ela acaba por conseguir o lugar, para grande felicidade da sua mãe omnipresente e controladora da sua carreira. Mas o caminho para a revelação do seu “lado negro” está longe de ser fácil. A tensão entre ela e Thomas cresce, ao mesmo tempo que, como uma sombra, uma bailarina recém-chegada à companhia, Lily (Mila Kunis), a começa a atormentar.

Esta busca desse lado mais solto, mais apaixonado, há que largar certas restrições. Romper com a rapariga “certinha” e dar asas ao sentimento. Este processo implica uma perda da inocência. Uma transformação. O romper com uma ordem estabelecida.

Tudo isto se passa ao som de uma banda sonora baseada na obra de Tchaikovsky, no ritmo gracioso do bailado e com uma representação de suster a respiração por parte de Natalie Portman. Alguma da crítica falou de ‘overacting’, mas na minha opinião ela encarna perfeitamente a personagem.

Na realização, Aronofsky continua com a sua “câmara ao ombro” que funciona muito bem. O mesmo não se pode dizer quando descai para um registo mais próximo do terror. A coisa não sai bem e era melhor ter-se mantido no ‘suspense’ puro e duro. Por falar nisso, há na história um jogo de espelhos que é transposto literalmente para a tela. As alucinações de Nina são, assim, sentidas pelo público.

Todo este tormento é uma transformação. Todo este percurso é uma busca da perfeição. Esta é a mensagem do filme. Até onde estamos dispostos a ir pela perfeição? O que estamos dispostos a mudar para atingir um fim? Mesmo que esse seja o nosso lado negro... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um artigo a reter

Corria o ano de 2004 quando nesta casa partilhei um excerto do excelente artigo "Léon Krier e a Modernidade da Arquitectura Tradicional", do Francisco Cabral de Moncada. Infelizmente, a ligação para o texto integral perdeu-se, passando a estar inacessível. É por isso que, não podia deixar de saudar o João Marchante, que em boa hora o decidiu reproduzir, bipartido, no seu blog. Um abraço para ambos, em especial para o Francisco, com quem tive o prazer de almoçar há uma semana.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

As raízes anglo-saxónicas do Mundialismo


Hoje, o programa Méridien Zéro tem como tema as raízes anglo-saxónicas do Mundialismo e como convidados Jean-Patrick Arteault e F. Sainz. A emissão francófona da Radio Bandiera Nera é emitida às 22 horas portuguesas.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

35 anos contra o Sistema

A propósito dos 35 anos que hoje completa o semanário «O Diabo», aqui deixo o editorial que escrevi na última edição.


Há 35 anos Portugal era um País muito diferente. Depois do Verão Quente de 75, com o VI Governo Provisório em funções e sob observação apertada do Conselho da Revolução, nascia uma voz incómoda no panorama da imprensa nacional. Um jornal assumidamente anti-sistema, que nunca se calou. Nunca deixou de denunciar as injustiças apesar de todas as adversidades e contra todos os que o tentaram silenciar.

Hoje muita coisa mudou, mas a dependência económica, a ditadura do politicamente correcto, entre tantos outros factores de pressão, sujeitam a imprensa dita “de referência” a uma onda uniformizadora que faz lembrar outros tempos. Por outro lado, o estado alarmante do País e a assustadora inversão de valores justificam a persistência deste jornal de “combate e cultura”, como o considerava a sua fundadora.

O combate continua, contra os que vão espoliando Portugal, os que “se vão governando”, estejam ou não no governo. Na cultura, que cada vez mais é nivelada por baixo, há que assegurar a divulgação dos não-alinhados, dos alternativos, dos dissidentes.

O Diabo é, assim, um exemplo de independência e irreverência que nunca deixou de se renovar, permanecendo fiel aos seus princípios fundadores. Um jornal de futuro, com um espírito de rebeldia, essencial para recusar o conformismo e enfrentar o pensamento único reinante.

Recordar o 10 de Fevereiro

Combate e cultura


O semanário "O Diabo", por ocasião dos seus 35 anos de existência, publicou na passada terça-feira, na sua secção de memórias, o primeiro editorial, escrito pela sua fundadora Vera Lagoa. Vale a pena ler e verificar que o espírito se mantém.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Embrulhada

O bem conhecido e neurótico realizador Woody Allen, desde há uns anos, tem tido uma fase “europeia” com boas surpresas. É o caso do excelente “Match Point” (2005), num registo britânico belissimamente conseguido, ou de “Vicky Cristina Barcelona” (2008), um delírio com algum sangue quente ibérico. Foi, assim, com expectativas algo elevadas, que vi “Vais conhecer o homem dos teus sonhos” para sair do cinema à espera de mais.

O que está em causa nesta história, como não podia deixar de ser, são as desavenças conjugais, a busca do amor e as consequentes desilusões. Tudo numa sátira às relações humanas e aos desenganos da vida.
Primeiro temos Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones), divorciados após um casamento de 40 anos. Ele, numa tentativa de regresso aos tempos áureos da juventude, pratica desporto e acaba por envolver-se com uma prostituta (Lucy Punch) gastadora, parola e muito mais nova. Ela, deprimida com a sua sorte, encontra conforto e esperança numa vidente charlatã que lhe serve ‘whisky’ enquanto lhe assegura que encontrará um novo amor.

Depois, uma geração abaixo, descobrimos a filha de Alfie e Helena, Sally (Naomi Watts) e o seu marido Roy (Josh Brolin). Ela trabalha no mundo das galerias de arte e desenvolve uma “paixoneta” pelo seu patrão Greg (Antonio Banderas), convencendo-se de que é correspondida. Ele, médico de formação, é um escritor norte-americano frustrado que sonha com um ‘best-seller’ e não suporta as visitas recorrentes da sogra recriminatória, começando a desejar a jovem e atraente vizinha (Freida Pinto) que vê da sua janela enquanto desespera pelo telefonema da editora que parece nunca chegar.
É o terreno propício aos desencontros, traições e enganos que se vão sucedendo à medida que se destrói o aparente equilíbrio desta família londrina.

Há uma cena no filme de que gostei especialmente. A que põe Antonio Banderas e Naomi Watts frente a frente, aquando da despedida dela do seu trabalho. Allen filma em planos alternados, com diferentes profundidades. A sequência capta maravilhosamente o entendimento – ou, melhor dizendo, desentendimento – que cada uma das personagens tem uma da outra. A distância e o afastamento são, desta forma, literalmente captados pela câmara.

Este é, assim, um filme de Woody Allen, facilmente reconhecível. Onde a história não se desenrola, antes se vai enrolando, para terminar numa embrulhada total. Mas como há excepções, talvez haja quem encontre o dito “homem dos sonhos”. Nós é que não encontramos aqui o “filme dos sonhos”. É um Allen e vê-se bem, onde valem sobretudo alguns pormenores e o cinismo final, mas não vai além disso. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

IdentidaD n.º 34

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Entrevista com Jean Raspail

A propósito da reedição de "Le Camp des Saints" em França, de que falei aqui, referi uma excelente entrevista dada pelo autor, Jean Raspail, ao canal televisivo France 3 que não resisti a partilhar aqui.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 52


Nas bancas nacionais está o número 52 de «La Nouvelle Revue d'Histoire», que tem como tema principal "Os Homens e a Guerra" e oferece um excelente dossier, bastante completo, com artigos de Hervé Coutau-Bégarie, Philippe Conrad, Charles Vaugeois, Dominique Venner, Bernard Lugan, Bernard Fontaine, Guy Chambarlac, Bruno Colson, e uma entrevista com o Dr. Eckard Michels sobre os alemães na Legião Estrangeira . Destaque também para a entrevista com Stéphane Courtois, o "historiador de esquerda que demoliu o comunismo". Uma publicação de qualidade ímpar, a não perder.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O conflito israelo-palestino


A edição de hoje do programa Méridien Zéro é dedicada ao complexo conflito israelo-palestino. O convidado é Zacarias Adam, um militante humanitário da causa palestina. Como sempre, a emissão tem início às 22 horas portuguesas e pode ser escutada através da Radio Bandiera Nera.

Robert Brasillach (31/3/1909 - 6/2/1945)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Regresso ao Homem do Castelo Alto

O Miguel Vaz partilhou na casa que agora ambos frequentamos um comentário à sua leitura de do «O Homem do Castelo Alto», de Philip K. Dick, de que falei aqui há uns anos. Refere-se à edição lançada entre nós no ano passado pela Saída de Emergência com um prefácio de Nuno Rogeiro.

Como lhe disse em comentário, não li nenhuma das traduções portuguesas do livro, nem a que ele menciona, nem a publicada anteriormente pela Livros do Brasil na colecção Argonauta, em dois volumes. Cingi-me ao original.

No que respeita ao ensaio que abre esta edição, tinha a ideia de que se tratava do artigo de N. Rogeiro "A Ruínas Espelhadas - Notas sobre a Ficção de Philip K. Dick", publicado no n.º 14/15 da revista "Futuro Presente, em 1983. O Miguel confirmou que o mesmo é, "segundo as palavras do autor, é uma versão "muito manejada e revista" desse texto inicial publicado na "Futuro Presente", até para "ter em contra o largo continente de estudo que, nas últimas décadas, se foi formando sobre Dick", e recebeu o título céliniano "De um Castelo ao Outro - Engenharia e Engenho na Ficção "Científica" de Philip K. Dick". Apesar de já ter lido o livro e de admirar bastante o seu autor e restante obra, confesso que me despertou a curiosidade.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Terre & Peuple Magazine n.º 46


O último número da "Terre et Peuple Magazine" tem como tema central "O Sol regressará" e inclui um dossier com artigos de Pierre Vial, Alain Cagnat e Claude Perrin. Destaque ainda para o artigo de Robert Dragan intitulado "Que ler sobre a imigração?" e para a conclusão da entrevista com Jean-Patrick Arteault, iniciada na edição anterior, sobre as raízes do mundialismo ocidental.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Escolhemos estar no campo dos malditos


"No plano do compromisso, escolhemos a lucidez e as consequências que dela decorrem. Nomeadamente, que as convicções nunca devem ser sacrificadas aos interesses conjunturais, sempre ilusórios. De facto, isto significa que recusamos qualquer compromisso, qualquer oportunismo, baseado no pretexto de que o nosso corpo ideológico nos impede toda a perspectiva de «sucesso». Qual «sucesso»? Aquele que consiste, vendendo a alma por um prato de lentilhas, em ser tolerado, admitido pela gente que controla o poder, todos os poderes, e que exigem dobrar a espinha aos dogmas do politicamente correcto para escapar à diabolização? Um pouco por toda a parte, na Europa, gente tida como pertencente ao nosso campo compromete-se num caminho sem retorno, no caminho da renegação. Fazendo vassalagem ao cosmopolitismo, ao poder do dinheiro. Convertendo-se ao emburguesamento que os leva a trair os compromissos e as lutas de juventude. Não é preciso ser «extremista», certamente, para obter um lugar (trampolim...) no circo democrático. Lamentável degradação, que não inspira mais do que desprezo. O que não impedirá os renegados de continuarem tão ou mais párias que aqueles que fazem cintilar um certificado de respeitabilidade, aparentemente capaz de abrir as portas de promissoras carreiras.
Nós não temos ilusões: estamos e escolhemos estar no campo dos malditos. Para sempre. E estamos por gosto, já que é o único sítio no qual podemos cruzar-nos com homens e mulheres dignos de estima."

Pierre Vial

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Além

Existe vida depois da morte? É possível comunicar com os que já partiram? São perguntas que o Homem tem feito ao longo dos tempos e que não perdem a actualidade. Este é um tema polémico e, pior ainda, muito dado a lamechices e charlatanices. Daí que ver Clint Eastwood debruçar-se sobre este assunto desperta, no mínimo, a curiosidade dos cinéfilos.

Reza a história que Steven Spielberg conseguiu que Eastwood lesse o argumento de Peter Morgan e se decidisse a fazer este filme que estava na calha há algum tempo. Será porque o realizador, agora octogenário, se preocupa mais com a morte? Interrogações a deixar aos especuladores habituais…

Nesta “Outra Vida”, são apresentadas três histórias que logo se percebe que se vão inevitavelmente cruzar. Por um lado temos a personagem mais bem conseguida, George Lonnegan (Matt Damon), um homem simples que consegue comunicar com o além e que já fez disso negócio com a ajuda do irmão interesseiro. Considera que o seu “dom” é na realidade uma maldição que o impede de levar uma vida normal. Abandonou as “leituras” e prefere trabalhar como operário. No entanto, não é tão fácil assim fugir do seu talento. Depois, há os dois gémeos ingleses de 12 anos, Marcus e Jason (Frankie e George McLaren), que vivem com a mãe drogada e alcoólica, controlada pelas autoridades. Jason morre atropelado e o irmão não descansa enquanto não consegue entrar em contacto com ele. Essa busca proporciona alguns momentos engraçados quando Marcus consulta certos charlatães que abundam neste meio. Por fim, a personagem mais fraca, Marie Lelay (Cécile de France), uma jornalista francesa com uma carreira de sucesso e a quem a vida corre de feição, que sobrevive a um ‘tsunami’ enquanto está na Tailândia. Essa experiência de quase-morte vai alterá-la para sempre e fá-la iniciar uma pesquisa sobre as provas científicas de que é possível comunicar com o além.

A fantástica cena do ‘tsunami’, que abre o filme, está muito bem conseguida e realizada. Confere alguma espectacularidade sem cair no exagero. É para isto que servem os efeitos especiais.

Quanto ao lado politicamente incorrecto de Clint, não deixa de aparecer, ainda que pontualmente. É o caso do atentado no metro de Londres ou a cena em que a professora de Marcus o manda tirar o boné dentro da aula, quando ao seu lado está uma rapariga muçulmana trajando o seu ‘hijab’…

Por último, foi na conferência de imprensa dada no New York Film Festival, em Outubro do ano passado, aquando da estreia deste filme, que Clint Eastwood referiu o nosso mestre cinematográfico Manuel de Oliveira. Disse ele: “há aquele realizador português que tem mais de cem anos e continua a fazer filmes. Eu tenciono fazer a mesma coisa!” Esperemos que sim. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]