sábado, 17 de dezembro de 2011

Roberto de Moraes (1939 – 2010). In memoriam.



Ernst Jünger e Roberto de Moraes

Passou um ano desde que o meu Amigo Roberto de Moraes deixou o mundo dos vivos. Fica a saudade e a eterna memória. Em sua homenagem, reproduzo aqui o artigo que então publiquei no semanário «O Diabo».

 “Tive sempre o sentimento de não estar conforme com a ordem estabelecida – Quer seja politicamente definida pela monarquia, pelas repúblicas ou pela ditadura, quer sirva economicamente de pasto ao “homo faber” e aos seus satélites, quer esteja teologicamente desmitizada pelas raposas da inteligência. Por isso precisei de nadar contra uma corrente cada vez mais forte (…) em plena “terra de ninguém” (…) muitas vezes com a pergunta de Molière, sete vezes repetida: “Que diabo estou eu a fazer nesta galera?” De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”
Ernst Jünger

Este curto texto que o escritor alemão escreveu por ocasião dos seus 80 anos, citado pelo Roberto de Moraes num excelente artigo que sobre ele escreveu na sequência da primeira entrevista que lhe fez, pode dar pistas para tentarmos perceber um pouco da quase impenetrável personalidade deste historiador e jornalista, mas principalmente estimado Amigo, que recentemente deixou o mundo dos vivos.
A sua pátria – a sua grande pátria –, tal como a minha, era a Europa. Dela conhecia a fundo a História, a Geografia, as gentes, línguas e tradições, a sua cultura nos mais variados aspectos. Mas, indo – como sempre – para além de todo este saber, sentia, principalmente, como do turbilhão da sua diversidade poderia nascer uma força invencível capaz do Sonho.

Encontro
Foi exactamente a Europa que nos aproximou, já lá vai uma década. Após uma intervenção polémica que fiz num congresso, que suscitou amores e ódios, o Roberto de Moraes veio saudar-me e convidar-me para a sua tertúlia semanal. Agradeci educadamente, com algum orgulho, mas sem no entanto imaginar o que aquele gesto realmente significara.
Não era pessoa de cumprimentos fáceis, muito menos de tiradas de ocasião para agradar a quem fosse. Esta característica, que tantos lhe apontaram como maior defeito e gerou inimizades, tinha outro lado – conferia um valor muito mais elevado à sua aprovação.
Desde logo, sempre com o seu estilo directo e frieza militar, começou a trocar comigo impressões sobre inúmeros assuntos. Era uma verdadeira aprendizagem. Só muito mais tarde me apercebi do significado profundo e da força que tinham certas expressões que proferia ao ler textos meus. “Muito bem, é isso mesmo” ou “está escrito em português de lei”, eram verdadeiras classificações de 20 valores no seu sistema avaro. Por outro lado, a discordância era tão implacável como desagradável.

O jantar do Moraes
A sua tertúlia semanal, mais conhecida por “jantar das quartas”, tornou-se para mim obrigatória. Não preciso de agenda para me lembrar que é dia de jantar com amigos. A meio da semana atravesso a cidade rumo a esta tertúlia, que já passou por vários sítios da capital, e onde se cruzam gerações e opiniões, numa discussão de ideias que rompe noite adentro. Este encontro regular chegou mesmo a dar origem a um blog colectivo que durou quatro anos.
O jantar continua, claro, e o nosso Amigo nunca deixará de estar para nós presente. Lembro-me de um caso que o Miguel Freitas da Costa contou numa das tertúlias. O de um clube onde os mortos não deixavam de ser sócios, apenas estavam dispensados de aparecer.

Jünger
Seria impossível – para não dizer desonesto – falar do Moraes sem referir o grande mestre das letras germânico do século XX, já que foi o único jornalista português a entrevistá-lo, por várias vezes. Para além da correspondência mantida, traduziu ainda partes da sua obra e fez a revisão de várias traduções, contribuindo para a divulgação da obra e pensamento do escritor alemão no nosso país.
Roberto de Moraes deslocou-se a Wilflingen por três vezes para visitar Ernst Jünger e manteve com o escritor uma troca de correspondência esporádica. A primeira visita foi em 1973 e deu origem a um artigo publicado na revista “Vida Mundial” n.º 1897, de 22/7/1976, intitulado “Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra”. A entrevista feita na segunda visita, em 1978, seria publicada na revista francesa “Nouvelle École” n.º 33 (Verão de 1979) subordinado ao tema “L’idée nominaliste”, com o título “Rencontre avec Jünger. Un témoignage”, e que foi registada pelo próprio Jünger no seu diário, onde também recorda a visita do jornalista português. A última visita foi no dia 24 de Fevereiro de 1984, tinha Jünger 89 anos de idade, na qual foi tirada a fotografia inédita que se publica.

Obrigado
Um dia descreveu-me como “sólido camarada e jovem colega de História, disciplina que o não tolhe, antes lhe areja o espírito e lhe estrutura o sentido de humor”. Pois eu, na falta de palavras, recorro a um sentido e sincero obrigado, expressão que, juntamente com o “por favor”, era proibida numa instituição de camaradagem que ambos bem conhecíamos. E foi com grande prazer egoísta que soube que uma das últimas coisas que leu foi um texto meu, publicado aqui, no nosso “O Diabo”. Até qualquer dia...

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