sábado, 3 de dezembro de 2011

Mutação

Este não é o Cronenberg a que estamos habituados, mas também não é teatro filmado, como alguns quiseram ver. É um filme bem colocado no seu tempo, com o ritmo certo e os cenários exactos. As personagens obedecem aos padrões da época, bem aprumadas e com os comportamentos correctos. Mas começa a notar-se o fervilhar da mudança. Quase como se alguns sentissem já a tormenta que se iria abater sobre a Europa. Estávamos no início do século passado.

Nesta altura dá-se o nascimento da psicanálise e esta é uma história que nos leva aos seus dois maiores nomes – Jung e Freud. O primeiro é um discípulo do segundo, mas com o qual vai entrar em discordância, o que vai levar, finalmente, a um corte de relações.

Uma questão fundamental nesta oposição é a forma como Sigmund Freud (Viggo Mortensen) centra toda a sua análise na sexualidade. Mas, ironicamente, é exactamente a sexualidade que acaba por alterar a vida de Carl Jung (Michael Fassbender). Por influência do psicanalista Otto Gross (Vincent Cassel), paciente de Freud, Jung começa a questionar a monogamia e acaba por envolver-se com uma paciente sua. Sabina Spielrein (Keira Knightley) é uma jovem judia russa, inicialmente bastante perturbada, a quem Jung aplica o seu método. Ela interessa-se também pela área e, já melhor, inicia os seus estudos em medicina e auxilia o seu médico no seu trabalho. O envolvimento sexual entre ambos não é um simples caso amoroso, implicando práticas ligadas ao trauma de Sabina.

Num filme onde está presente a discussão sobre a destruição e a criação, é interessante observar os vários elementos que anunciavam já a catástrofe. As questões sexuais, religiosas, sociais e raciais, nomeadamente em relação aos judeus. Viagem a um mundo à beira de uma alteração profunda – de uma mutação. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

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