No início deste filme entramos na chamada ‘corporate America’ ao ver a vida de Bobby Walker (Ben Affleck), um alto-quadro da gigantesca empresa GTX, que se movimenta num Porsche, vive com a sua família numa impressionante casa de luxo e chega ao escritório a pensar na óptima pontuação conseguida a jogar golfe num clube seleccionado. É aquela “imagem de sucesso” a que tantos filmes americanos nos habituaram.
Mas a crise bate à porta e os cortes de pessoal são a solução apresentada para manter o preço das acções da empresa elevadas. Nestas vagas de despedimentos, Bobby é inesperadamente incluído e vê-se confrontado com uma realidade que desconhecia.
Aqui está um dos primeiros problemas do filme. Dificilmente alguém se solidarizará com este “homem de negócios” que tinha uma vida milionária. Mesmo assim, apesar de algum sentimento inicial de negação, ele acaba por aceitar um emprego na construção com o seu cunhado com quem as relações estão longe de ser as melhores. Mas até isso parece mais que forçado. A tirar desta experiência está, principalmente, a ideia de que tais situações podem acontecer a todos sem excepção.
Há também passagens interessantes sobre os valores morais de quem dirige monstros empresariais e despede centenas de trabalhadores sem quaisquer problemas de consciência, ao mesmo tempo que se reflecte sobre uma altura onde os empregados produziam algo que podiam ver e sentir, por oposição ao trabalho de secretaria e computador que fazem hoje.
Uma das coisas que chama a atenção para este filme, para alem do tema, é o rico elenco. Tommy Lee Jones, sem dúvida com a melhor prestação, Kevin Costner, num papel secundário bastante apagado, Chris Cooper, que cumpre, e Maria Bello, que vai bem sem surpreender. Nota negativa para Ben Affleck no papel principal, que não confere solidez à personagem que encarna. Entre várias oscilações, há um pormenor que estranhei relativamente ao sotaque de Boston, cidade de onde o actor é natural e onde se passa a acção. Inexplicavelmente, Affleck por vezes acentua-o e por outras simplesmente o evita. Ainda considerei que fosse alguma mudança de registo por condição social, mas cheguei à conclusão que tal era demasiado rebuscado.
Este é mais um daqueles casos de um filme que podia ter sido algo verdadeiramente profundo. Talvez a explicação da sua ligeireza esteja no seu realizador e argumentista, John Wells, um homem conhecido pelo seu trabalho em séries televisivas.
Há um momento engraçado na história onde se ridiculariza uma “sessão de motivação” que os recém-desempregados têm que frequentar. O problema é que, apesar desta divertida crítica, quando chegamos ao final do filme, parece que acabámos de participar numa sessão semelhante. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

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