quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Embrulhada

O bem conhecido e neurótico realizador Woody Allen, desde há uns anos, tem tido uma fase “europeia” com boas surpresas. É o caso do excelente “Match Point” (2005), num registo britânico belissimamente conseguido, ou de “Vicky Cristina Barcelona” (2008), um delírio com algum sangue quente ibérico. Foi, assim, com expectativas algo elevadas, que vi “Vais conhecer o homem dos teus sonhos” para sair do cinema à espera de mais.

O que está em causa nesta história, como não podia deixar de ser, são as desavenças conjugais, a busca do amor e as consequentes desilusões. Tudo numa sátira às relações humanas e aos desenganos da vida.
Primeiro temos Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jones), divorciados após um casamento de 40 anos. Ele, numa tentativa de regresso aos tempos áureos da juventude, pratica desporto e acaba por envolver-se com uma prostituta (Lucy Punch) gastadora, parola e muito mais nova. Ela, deprimida com a sua sorte, encontra conforto e esperança numa vidente charlatã que lhe serve ‘whisky’ enquanto lhe assegura que encontrará um novo amor.

Depois, uma geração abaixo, descobrimos a filha de Alfie e Helena, Sally (Naomi Watts) e o seu marido Roy (Josh Brolin). Ela trabalha no mundo das galerias de arte e desenvolve uma “paixoneta” pelo seu patrão Greg (Antonio Banderas), convencendo-se de que é correspondida. Ele, médico de formação, é um escritor norte-americano frustrado que sonha com um ‘best-seller’ e não suporta as visitas recorrentes da sogra recriminatória, começando a desejar a jovem e atraente vizinha (Freida Pinto) que vê da sua janela enquanto desespera pelo telefonema da editora que parece nunca chegar.
É o terreno propício aos desencontros, traições e enganos que se vão sucedendo à medida que se destrói o aparente equilíbrio desta família londrina.

Há uma cena no filme de que gostei especialmente. A que põe Antonio Banderas e Naomi Watts frente a frente, aquando da despedida dela do seu trabalho. Allen filma em planos alternados, com diferentes profundidades. A sequência capta maravilhosamente o entendimento – ou, melhor dizendo, desentendimento – que cada uma das personagens tem uma da outra. A distância e o afastamento são, desta forma, literalmente captados pela câmara.

Este é, assim, um filme de Woody Allen, facilmente reconhecível. Onde a história não se desenrola, antes se vai enrolando, para terminar numa embrulhada total. Mas como há excepções, talvez haja quem encontre o dito “homem dos sonhos”. Nós é que não encontramos aqui o “filme dos sonhos”. É um Allen e vê-se bem, onde valem sobretudo alguns pormenores e o cinismo final, mas não vai além disso. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

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