domingo, 23 de janeiro de 2011

Manoel de Oliveira em grande entrevista

Simplesmente imperdível é a grande entrevista conduzida por João Marcelino com o nosso mestre do cinema Manoel de Oliveira, hoje publicada no «DN». É de ler de fio a pavio, mas não resisto a deixar aqui algumas passagens.

Sobre o progresso, é categórico: «O que é que nos dá o progresso? Uma coisa só: conforto. Só conforto. O homem da caverna tinha de matar o boi...» E também sobre a tecnologia: «Somos todos escravos da tecnologia».

Quando perguntado sobre os problemas que tinha tido com a PIDE, respondeu: «Não tive problemas com a PIDE. A PIDE é que teve problemas comigo! Fiz uma reunião, disse coisas que eram certas e, por serem certas, meteram-me na cadeia durante uns oito, dez dias. E depois viram que não tinham razão, não podiam, soltaram-me. Houve um movimento também favorável, mas não se pode dizer, a verdade verdadeira não se pode dizer porque é um risco.» Ao que o entrevistador reagiu, «"Era" um risco?», mas o realizador não se deixou ficar: «Era... não sei se ainda é. Sabe que esta história política é muito difícil, muito grave. Há uma desmobilização fortíssima, há uma perda de valores enorme! Hoje a aldrabice monta por aí com toda a força, e isso é triste.»

Sobre o cinema em Portugal diz que «está muito bem, muito obrigado! Há realizadores muitíssimo bons, e devia ser mais desenvolvido e exportado em força, o que dava entrada de dinheiro! Eu dizia, na proporção de um país pequeno, pobre e na situação em que está, que o nosso cinema merecia uma ajuda para que os filmes corressem mundo e fossem também uma entrada económica de resultados.»

Afirmando que «O "Nobel do Cinema" não são os Óscares», diz que a verdadeira originalidade está na personalidade do artista e remata com lucidez que é preciso «não confundir o retrato com o modelo; o modelo é uma coisa, o retrato é outra.»

Por fim, a humildade: «Não me sinto realizado! Estou a tentar realizar-me neste curto espaço que me resta.»

3 comentários:

  1. Manoel de Oliveira continua a espantar tudo e todos com a sua extraordinária lucidez. Um dos últimos "mestres".

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  2. Sem dúvida. Eu ouvi a entrevista na TSF, o que ainda é melhor que lê-la no jornal ou na internet. É impressionante a lucidez deste mestre.

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  3. Não imaginam o carinho e admiração que nutro por este homem e a sua obra.

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