domingo, 31 de outubro de 2010

Programa para hoje


Como se tornou hábito semanal, hoje às 22 horas é altura de ouvir em directo a emissão do Méridien Zéro, o programa francês da Radio Bandiera Nera, que desta vez tem por tema as greves, as reformas e a crise social que se vive agora em França. A grande questão é "Que temos nós a dizer?".

sábado, 30 de outubro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Crónica cultural

Como é hábito a seguir a todas as emissões do Méridien Zéro, a antena francesa da Radio Bandiera Nera, o enciclopédico Pascal Lassalle publica no blog do programa uma crónica cultural que inclui obras referidas e outras sobre o tema tratado.

A emissão dedicada a Portugal, na qual tive a honra de participar no passado fim-de-semana, não foi excepção. A crónica está já disponível nesta ligação e inclui várias referências a livros, revistas, artigos e filmes.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Gettysburg


A entrega do passado sábado da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é sobre Gettysburg, uma batalha que alterou o rumo de um país que se tornaria o mais influente do mundo.

Sobre este tema há que recomendar o livro "Gettysburg" de Dominique Venner, e o n.º 17 de «La Nouvelle Revue d'Histoire», por ele dirigida, cujo tema é "A América dividida".

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A outra filha

“A Nova Filha” conta-nos a história de John James (Kevin Costner), um escritor que parte com os seus dois filhos menores, Louisa (Ivana Baquero) e Sam (Gattlin Griffith), para a Carolina do Sul, após ter sido abandonado pela mulher. Na esperança de um recomeço, compra uma enorme casa isolada onde tenta reatar uma relação familiar.

A situação é desde logo complicada. A rapariga, que é a mais velha dos dois irmãos, está em plena adolescência e inferniza a vida do pai que não sabe como lidar com ela. O rapaz tenta agradar, mas cedo se nota que o trauma do abandono foi grande e teve as suas repercussões.
Como se tal não bastasse, o comportamento de Louisa começa gradualmente a alterar-se. O pai, de início, convence-se que são atitudes próprias da idade e vai tentar “chegar” a ela. Mas esta mutação está directamente ligada a um estranho monte que existe nas traseiras na casa.
Segundo alguns, esta é uma antiga campa de índios, e há inclusive quem as estude. É o caso de um professor universitário, uma das piores personagens da história, à qual se junta a má prestação do respectivo actor.

Estão reunidos todos os elementos para um filme de terror clássico. No entanto, os ‘clichés’ são tantos que até desesperamos, as actuações são sofríveis e mesmo Kevin Costner fica muito aquém do que já demonstrou. É a pergunta que nos salta automaticamente à cabeça é a seguinte: o que fará com que actores conceituados escolham filmes de tão baixa qualidade?

O espanhol Luis Berdejo, que surpreendeu com [Rec] (2007), realiza este filme com argumento de John Travis baseado num conto de John Connolly. Não conhecia a história original, mas ao que parece o filme é-lhe fiel. Tanto pior para o conto, que também deve ser outra desilusão.
O início até parece prometer, com alguns planos bons e uma boa ideia para um filme, mas rapidamente descamba e apercebemo-nos que vamos ser torturados na sala de cinema. Porque esta é uma película francamente má, há-que dizê-lo.

O desenrolar da acção é de início inexplicavelmente muito lento e de repente acelera como ninguém. Para terminar a pior maneira. A história não funciona, apesar do potencial, os actores vão mal, apesar da presença de uma estrela como protagonista, os lugares-comuns dos filmes de terror repetem-se enjoativamente. Este pesadelo, que parece não acabar, nem chega a ser um filme de terror. Talvez um suspense com aspirações a terror ‘light’…

A nós resta-nos fugir. Não dos inenarráveis seres monstruosos que no final de contas são os responsáveis por tudo, mas de quase duas horas de aborrecimento. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

XV Table Ronde


Como habitualmente, irei com uma delegação portuguesa da associação Terra e Povo à XV edição da Table Ronde, o maior encontro identitário paneuropeu, que se realizará no próximo domingo e contará com as intervenções de Pierre Vial, presidente da Terre et Peuple, Pierre Krebs, presidente do Thule Seminar, Eugène Krampon, chefe de redacção da revista «Réfléchir & Agir», Enrique Bisbal, da Tierra y PuebloRoberto Fiorini, da Terre et Peuple, e Lionel Franc, da Terre et Peuple-Wallonie. O tema deste ano é "Amanhã a revolução?"

Waterloo


A entrega do passado sábado da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é sobre Waterloo, uma batalha que sempre preencheu o meu imaginário, porque  ainda criança visitei o local e fiquei maravilhado. Foi por isso que gostei de ler, neste livro da autoria de Geoffrey Wootten, a seguinte passagem: "Todos devíamos ir a Waterloo pelo menos uma vez na vida. É uma amálgama especial de interesses concorrentes. Por um lado é simplesmente uma grande armadilha turística - o primeiro parque temático da Europa -, por outro é um memorial que nos fala de coragem e do desperdício de vidas europeias. Felizmente ambos garantem a conservação deste local mágico."

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Cidade do Crime

O cartaz promocional deste filme diz-nos “bem-vindos à capital americana dos assaltos a bancos”, para sabermos de antemão aonde vamos. A “cidade” é Charlestown, um bairro operário de Boston onde o crime é uma realidade constante e a arte dos assaltos passa de pais para filhos por tradição familiar.

É o caso de Doug MacRay (Ben Affleck), um filho da terra que não escapou à regra. Lidera uma quadrilha de assaltantes que tem por alvo bancos e carrinhas blindadas de transporte de valores. Ele é o cérebro das operações que correm com rapidez e eficácia, ladeado pelo seu “braço direito”, o violento e implacável “Jem” James Coughlin (Jeremy Renner). São como irmãos nesta vida criminosa, mas para Doug este é um caminho que não quer seguir para sempre e a ideia de um recomeço longe de ‘the town’, confortavelmente assegurado pelo produto de um grande golpe, ganha cada vez mais força na sua cabeça.

Na fuga de um assalto, “Jem” decide levar a gerente bancária que lhes abriu o cofre como refém. O grupo solta-a vendada, mas ele suspeita que ela se possa ter apercebido de algo que os denuncie à polícia. Diz a Doug que vai “tratar do assunto”, ao que este lhe diz que não, pois ele próprio descobrirá se ela os pode realmente comprometer. Claire (Rebecca Hall) é também uma rapariga de Charlestown e acaba por envolver-se numa relação amorosa com um homem que ela nem sonha quem é...

Neste perigoso romance, onde Doug vislumbra o seu desejado recomeço, vão cruzar-se a pressão das autoridades policiais, o incómodo de uma relação anterior, um passado familiar que o atemoriza, as fidelidades ao grupo e ao seu “irmão” e a rede mafiosa organizada que vê com muito maus olhos aqueles que dela tentam escapar.

Affleck sai-se bem nesta que é a sua segunda longa-metragem, depois de “Vista Pela Última Vez...” (2007), ao filmar numa cidade que lhe é bastante familiar, e é eficaz nas rápidas sequências de acção. O elenco é bem dirigido e tem uma boa prestação, mas podemos questionar-nos como seria o filme com outro protagonista. Nota especial para Jon Hamm, conhecido pela excelente série televisiva “Mad Men”, no papel do agente do FBI responsável pela investigação, que de certo veremos mais frequentemente no grande ecrã. Mas é Jeremy Remmer que, depois de “Estado de Guerra” (2008), volta a surpreender. Li que na preparação do seu papel chegou inclusivamente a falar com assaltantes de Charlestown, nomeadamente para apanhar o seu sotaque característico.
Não chega ao magistral “Heat” de Michael Mann, verdadeiro clássico moderno dos ‘heist movies’, e até tinha potencial para tal, mas não deixa de ser um bom filme, bem ritmado e que merece uma ida ao cinema. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Finalmente a Plutocracia

Esta é a conclusão do excelente artigo de António Marques Bessa publicado na edição do semanário «O Diabo» de ontem. Para reflectir.

«A fórmula mais degradante da Oligarquia é a Plutocracia: o poder dos ricos. Disse Platão que depois da Democracia acontece a Plutocracia, como um flagelo para lembrar ao povo que o dinheiro tem os seus privilégios. Se todos os ricos se entenderem, terão aos seus pés os pobres patetas que pensam que mandam. Quem os subsidia? Quem lhe paga as contas? Quem lhes dá dinheiro para as eleições fatídicas? Justamente aqueles que, depois, vão exigir pagamento do dinheiro aplicado. A Plutocracia em Portugal sempre andou muito disfarçada. Lembra-se ainda a frase do sr. Boulhosa: “Em Portugal, para ser rico, o melhor é fingir de morto”. O dinheiro tem certamente que se ir buscar a quem o tem para as grandes causas, a manutenção dos Partidos. Mas os Partidos têm de compreender que ninguém dá nada a ninguém. Tudo é uma troca de favores e os políticos são reféns do dinheiro, de Mamón. Cristo tinha dito: “Ninguém pode servir a dois senhores: a Deus e ao dinheiro”. Esqueceram-se ou deitaram para trás das costas esse pequeno “diktat” do judeu acidental que se proclamou Filho de Deus. Declararam entre si que o dinheiro é que interessa e lhes interessa particularmente, sacrificando no altar verde de Mámon as suas almas conspurcadas. Que seja assim. Já que o querem. E seria muito bom perceber o que fazem os banqueiros. Creio que, neste momento, o Coelho já percebeu que manda pouco e que a Plutocracia manda muito mais. E os coelhos não são predadores dos tigres. Mas a Plutocracia, quando é que não mandou quase tudo aqui e em muitos outros sítios? Quanto mais pequeno é o sítio, mais vulnerável é.»

terça-feira, 19 de outubro de 2010

"Revolução francesa"


A propósito da deslocação do Benfica a Lyon, a capa da edição de hoje do diário desportivo «A Bola» retrata como nenhum outro os distúrbios que se têm vivido em França nos últimos dias. As imagens escolhidas mostram bem os responsáveis pela violência que se tem sentido. Tal não passou despercebido à imprensa francesa, como podemos ver no sempre atento François Desouche.

Dia d'O Diabo

domingo, 17 de outubro de 2010

MZ entrevista Jérôme Bourbon

Como habitualmente, hoje às 22 horas é altura de ouvir em directo a emissão do Méridien Zéro, o programa francês da Radio Bandiera Nera, que desta vez entrevista Jérôme Bourbon, director do semanário «Rivarol».

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Nessun Dolore

Do nascimento da CasaPound aos confrontos da Piazza Navona, um romance sobre os fascistas do terceiro milénio e a sua grande história de amizade. Flavio e Giorgio, encontram-se pela primeira vez em frente à escola e tornam-se amigos no estádio Olímpico quando Flavio tenta entrar sem bilhete. São filhos de Roma, mas de bairros diferentes. Flavio é do norte da cidade, um bom bairro. O seu futuro está já definido pelos seus pais, bons estudos, um mestrado nos Estados Unidos e certamente um dia um belo lugar na empresa familiar da família. Giorgio, por seu turno, cresceu na Garbatella, um bairro popular, antes de ficar na moda e de ele ser expulso com a sua família. Vai viver, com a mãe e o irmão, para a CasaPound, o edifício que se tornou o coração “negro” da capital. Nesse dia, no entanto, não há diferenças entre eles, são adeptos numa missão e é o começo de uma amizade indestrutível, que vai cimentar-se durante um concerto de Zetazeroalfa. Na CasaPound, viverão no seio de uma comunidade orgânica, regida por regras simples mas estritas (nada de drogas, de armas ou de crime). Empreenderão as suas batalhas, políticas e de rua, lado a lado. Giorgio e Flavio tornar-se-ão os chefes carismáticos do Blocco Studentesco, a organização juvenil da CasaPound nos liceus e nas universidades.

Domenico Di Tullio nasceu em Roma em 1969. É o advogado penalista que defende a CasaPound. Em 2006, publicou o livro «Centro sociali di destra. Occupazioni e culture non conformi» [Centros sociais de direita. Ocupações e culturas não-conformes].

Domenico Di Tullio, Nessun dolore, Il romanzo di Casapound [Nenhuma dor, o romance da CasaPound], 238 páginas, € 16,50. (publicado pela Rizzoli, uma das maiores editoras italianas).

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Monarquia ou república?

Esta é, na minha opinião, uma falsa questão à qual não devemos voltar nestes tempos conturbados. O essencial não está na forma, mas no conteúdo. No meu caso pessoal, pelas críticas que tenho feito à I República, sou considerado “monárquico” por alguns. Nada mais erróneo. Para esclarecer a minha posição, faço minhas as palavras do historiador francês Dominique Venner, no seu livro “Le Coeur Rebelle”, uma sentida e profunda reflexão autobiográfica que tanto me tocou: “As minhas escolhas profundas não eram de ordem intelectual mas estética. O importante para mim não era a forma do Estado – uma aparência – mas o tipo de homem dominante na sociedade. Eu preferia uma república onde cultivássemos a memória de Esparta do que uma monarquia atolada no culto do dinheiro. Havia nestas simplificações um grande fundo de verdade. Acredito ainda hoje que não é a lei que é garante do homem mas é o homem que garante a lei.” [conclusão do meu artigo "A República imaginária" publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

No fio da navalha

Quem se lembra dos conturbados tempos de violência étnico-política que marcaram a Irlanda do Norte no último quartel do século XX e ficaram conhecidos como “The Troubles”? Para quem acompanhou esse conflito complexo, recusando as análises simplistas de certa imprensa e opinadores maniqueístas, esta é uma incursão muito interessante num período da História Contemporânea cujos efeitos ainda se fazem sentir.

No final dos anos 80, era prática corrente a Royal Ulster Constabulary (RUC), a polícia de então na Irlanda do Norte, recrutar infiltrados no campo inimigo, conhecido por Irish Republican Army (IRA), o exército republicano irlandês, uma força paramilitar independentista considerada como organização terrorista pelo Reino Unido.

A acção de “Na senda dos condenados” decorre nessa altura, concretamente entre 1987 e 1991, contando-nos uma versão livre da história de Martin MacGartland. Este foi um dos infiltrados mais importantes da altura, considerado um “supergrass”, que devido à delação afirmou ter salvo cinquenta pessoas. Este número inspirou o título de um dos seus livros autobiográficos, publicado em 1997, que agora foi adaptado à sétima arte com o mesmo nome.

Martin, que é brilhantemente representado por Jim Sturgess, é um jovem católico irlandês que vive de vendas de material furtado porta à porta e passa – ou pelo menos tenta passar – ao lado da oposição entre católicos independentistas e protestantes unionistas. É aquilo que a que se chama popularmente um “espertalhão”. Talvez por isso, mas também porque se vê inevitavelmente ligado à situação politica da sua terra, que começa a ser assediado tanto pela RUC como pelo Provisional IRA (apesar de a maior parte das pessoas o conhecer apenas pela sigla histórica IRA). Acaba por conseguir tornar-se um dos “Óglaigh na hÉireann”, ou seja “voluntários da Irlanda”. No entanto, por discordar do seu modo de actuar, acaba por dar informações preciosas ao Special Branch, através do contacto que o recrutou e que usa o nome de código Fergus, evitando vários atentados. No filme essa personagem é bem interpretada pelo veterano Ben Kingsley, que consegue transmitir eficazmente um lado paternal inerente à “conversão” de Martin.

O ambiente da época está muitíssimo bem reproduzido, tanto no guarda-roupa como nos cenários e nos adereços, dos automóveis às armas utilizadas. Está também muito bem conseguida a integração de imagens da altura e a transmissão do estado de tensão que se vivia. Há uma cena memorável em que Martin é detido pelo exército britânico e os transeuntes se revoltam espontaneamente, começando a atirar pedras e a agredir os soldados.

Neste relato pessoal, que nos chega num filme bem ritmado e que nos prende a atenção até ao final, encontramos as dúvidas de um conflito pessoal, das amizades, das fidelidades, das “causas”. Mas no qual a questão central é sempre a da motivação... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Revista Tintin (VI)


O n.º de hoje da revista semanal «Tintin - Le Journal des Jeunes de 7 a 77 ans» é o 40, de 7/10/1959.

Noites no MOTELx

Cinema São Jorge
Decorreu entre 7 e 11 de Setembro, no cinema São Jorge, o MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, um evento que com apenas quatro anos de existência se tornou uma referência.

O público interessado, sempre participativo e interventivo, proporcionou um óptimo ambiente. Uma das coisas que me agrada é ver um dos cinemas emblemáticos da capital cheio de gente, maioritariamente jovem. A propósito do crescimento deste festival, perguntei a Pedro Souto, um dos directores (ver entrevista abaixo), se havia a ideia de o alargar a outros cinemas. Ele foi categórico e disse-me que a casa do MOTELx é o São Jorge.

Noite Sangrenta (*)
Estava curioso em relação a “Noite Sangrenta", a mini-série em dois episódios da RTP, que retrata a noite brutal da "camioneta fantasma" e que abriu o MOTELx em antestreia nacional. Está bem filmada e produzida, notando-se algum cuidado na recriação da época, tanto nos cenários, como no guarda-roupa. Já no registo oral, desiludiu. Por exemplo, soa logo mal o sotaque lisboeta actual de uma criada ou de um guarda prisional de Coimbra, no início do século XX. Estes pormenores prendem-se, a meu ver, com uma falha em reproduzir (ou reconhecer?) a marcada divisão de classes de então. Mas o pior, como alguns me avisaram, é mesmo a inspiração ideológica desta obra. Apesar de se anunciar como obra de ficção, propõe uma versão da tenebrosa "noite sangrenta" na qual os responsáveis são meros idiotas úteis de uma conspiração "das direitas"... É mais uma celebração de uma República imaginária — um mero acto de propaganda.

Survival of the Dead (***)
George A. Romero e Nuno Markl
George A. Romero é um nome que associamos automaticamente a ‘zombies’ e foi o convidado de honra desta edição do festival. Ao apresentar o seu último filme deste tema, notou-se que sentia o carinho do público e mostrou-se muito contente por estar em Portugal. Lembrou que filmes deste tipo são para ser divertidos e que esperava que dessem umas boas gargalhadas e passassem um bom bocado. “Survival of the Dead” é desenvolvido a partir de uma personagem secundária de “Diary of the Dead” (2007) e há uma questão pertinente a colocar: é possível inovar? A resposta é positiva, ou não estivéssemos a falar do “mestre dos mortos-vivos”. Posso adiantar que, apesar de tudo aquilo que esperamos de um filme deste tipo, há uma evolução nos ‘zombies’, que como reconheceu o realizador, deve abrir portas a uma continuação. No último dia, Romero respondeu a perguntas do público, numa sessão moderada por Nuno Markl.

F (****)
Esta foi uma óptima surpresa neste festival, um belo regresso ao medo nos filmes de terror, como disse Johannes Roberts numa vídeo-mensagem antes da projecção de “F”. Este realizador britânico, que à última hora não pode estar presente no MOTELx, não deixou ainda de saudar os espectadores e dizer que este trabalho era uma “carta de amor” a Carpenter e o seu clássico “Assalto à 13.ª Esquadra” (1976). Realmente, o ambiente claustrofóbico da escola que é atacada por jovens encapuzados, cujo único objectivo é assassinar brutalmente quem encontram, é essencial para a tensão permanente que se sente do início ao fim. Mas a história não se resume ao terror. Explora muito bem o campo das relações humanas, sejam no registo politicamente incorrecto em que é tratada a relação aluno-professor, seja na complicada relação pai-filha. A não perder.

Centurion (***)
Mais um realizador britânico que não pode estar presente, mas que em vídeo deu alguns pormenores interessantes sobre a realização de “Centurion”, rodado em seis semanas nas ilhas escocesas em temperaturas negativas e condições adversas. Esse realismo transparece para o filme e é bom. No entanto, apesar das magníficas paisagens serem irresistíveis, Neil Marshall abusa dos planos aéreos. Apesar de certas personagens e algumas opções da história não serem as melhores, esta é uma boa incursão no mundo guerreiro da Antiguidade.

Sala cheia
Curta vencedora e The Revenant (*)
No último dia, foi entregue o prémio MOTELx para a Melhor Curta de Terror Portuguesa 2010 a “Bats in the Belfry” (Portugal, 2010, 8') de João Alves, atribuído pelo júri constituído por Alan Jones, José de Matos-Cruz e José Nascimento. De seguida, foi projectado “The Revenant” (2009), de D. Kerry Prior, um daqueles penosos exercícios que são as tentativas de humor sem graça. Apesar das gargalhadas de parte do público, não me arrancou um sorriso e foi uma estopada que, para mim, fechou mal um óptimo festival. Para o ano, felizmente, há mais. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ronda blogosférica

Mishima
A propósito da fotografia do assassinato de Asanuma Inejiro, Secretário-Geral do Partido Socialista do Japão, há exactamente 40 anos atrás, tirada por Nagao Yasushi e que lhe valeu um Pulizer prize, The Last Nan Ban Jin, o nosso lusitano no Japão, traz-nos um texto de John Nathan sobre as origens de "Patriotismo", conto de Yukio Mishima, assim como das de "Seventeen", conto de Kenzaburō Ōe.

Desmistificar a História
A Voz Portalegrense publica o primeiro apontamento da série "Desmistificando a História", da autoria de Carlos Manuel Faísca, que traça o desempenho económico português e a evolução das contas públicas durante o século passado. Venham mais!

Desnorte
"Passar além da dor" é o lamento do Miguel Vaz sobre a falta de um rumo para Portugal...

Aforismos
São "frases curtas de longo alcance". Quem o afirma é o João Marchante que, melhor que ninguém, sabe do que fala.

Delírios
O Harms acha que um chorrilho de dispatates pode ser uma "obra fundamental". Não concordo, mas reconheço que tal o inspirou a fazer um texto genial.

Pela Produção Nacional


É este o novo outdoor do PNR que está desde hoje na Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, em defesa da produção naional.

Também hoje, pelas 18 horas, em frente ao Ministério do Trabalho, na Av. de Roma, em Lisboa, o PNR leva a cabo uma acção de distribuição de propaganda sobre o tema do outdoor, contando com a presença do presidente, José Pinto-Coelho. 

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Cottinelli continuado

Li hoje no "Público" que cabe a Ana Costa, neta de Cottinelli Telmo e filha do arquitecto e designer Daciano da Costa, reabilitar a estação de Sul e Sueste, um conjunto de edifícios inaugurados em 1932 para servir as ligações Lisboa-Barreiro, da autoria do seu avô.

A arquitecta garante que "todos os elementos que davam escala aos edifícios, os gradeamentos interiores, as lanternas típicas dos anos, tudo, segundo os desenhos originais do meu avô, serão repostos", acrescentando que o projecto "veio parar-me às mãos sem que se soubesse que sou neta de Cottinelli Telmo. Agarrei nele e disse que iria ser reposto na íntegra. Diz-se que o que é bom é pombalino; a arquitectura do séc. XX tem coisas extraordinárias, mas tem sido descurada".


A propósito de Cottinelli Telmo, recordo o excelente apontamento biográfico escrito pelo Miguel Vaz, para a Alameda Digital, com o título "Quem é Cottinelli Telmo?" A (re)ler.

Uma capa

Soube hoje da morte de Paulo-Guilherme d'Eça Leal (1932-2010), no passado dia 9 de Outubro. Deste pintor, gráfico, decorador, cineasta, poeta e escritor, lembro-me sempre da capa de um dos livros que mais me marcaram. Falo de "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", de Alain de Benoist, publicado por Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, em 1981. Aqui fica a imagem, em sua memória.

Maurice Allais (31/5/1911 – 9/10/2010)

No dia em que foi anunciado o prémio nobel da economia, soube da morte de Maurice Allais, o único francês a ser laureado nessa categoria. Nascido em 1911, definia-se como um "liberal socialista" e era um defensor da comunidade europeia. No entanto, considerava que esta devia assegurar a sua segurança económica. Como afirmou no ano passado: "um proteccionismo racional, entre países de níveis de vida muito diferentes não é apenas justificado, como absolutamente necessário".

Uma das teorias mais interessantes de Maurice Allais, a da "autarcia dos grandes espaços", inspirou, entre outros autores, Guillaume Faye, no que respeita à solução económica para um grande bloco etno-político europeu. Tal levou Faye a afirmar: "A Europa futura não pode ser encarada sob a forma indolente e ingovernável da actual União Europeia, que é uma medusa sem poder soberano, de fronteiras abertas, dominada pelo dogma do comércio livre, submetido à vontade americana e à OTAN. É preciso pensar numa grande Europa imperial e federal, etnicamente homogénea (quer dizer, 'europeia'), baseada em grandes regiões autónomas e, sobretudo, indefectivelmente aliada à Rússia. A este enorme bloco continental chamei 'Eurosibéria'. Este ouriço gigante, que em nada seria ofensivo mas simplesmente inatacável, seria de longe a primeira potência mundial (o mundo vindouro será dos grandes blocos) e, sobretudo, deveria ser «autocentrado» e romper com os muito perigosos dogmas da mundialização. Teria perfeitamente os meios de praticar a 'autarcia dos grandes espaços', da qual, com o Prémio Nobel da Economia francês, Maurice Allais, desenvolvi os princípios."

E agora, Viena...

Os resultados eleitorais continuam a contrariar os chantres do politicamente correcto. Segundio os primeiros resultados, o FPÖ conquistou o segundo lugar com "27,1 por cento dos votos, contra 14,83 por cento em 2005". Esta subida foi principalmente devida à campanha que denunciou, sem complexos, a islamização da Áustria, apelando ao patriotismo austríaco, e ao grande apoio da população jovem. Um dos slogans polémicos utilizados na campanha foi "Mehr mut für unser Wiener Blut", que significa "mais coragem para o nosso sangue vienês" e que remete para o compositor Strauss e o falecido cantor pop austríaco Falco. A seguir, uma frase que rima com a anterior e que diz "estrangeiros a mais não fazem bem a ninguém". Polémicas à parte, a verdade é que Strache conseguiu um resultado histórico, à semelhança do falecido Jörg Haider, em 1996.

domingo, 10 de outubro de 2010

O Guerreiro de Roma

Foram dois grandes amigos, o Pascal e o Humberto, que me levaram a Balista. Este “vírus”, como lhe chamou o Humberto, inoculou prontamente mais pessoas, entre as quais o Miguel.

A trilogia “O Guerreiro de Roma”, iniciada com “Fogo a Oriente”, publicada entre nós pela Civilização, tornou-se um verdadeiro fenómeno literário e vai já no segundo volume, cujo título é “Rei dos Reis”. O autor destas aventuras é Harry Sidebottom, professor de História Clássica na Universidade de Oxford, onde é membro da St. Benet’s Hall e leitor do Lincoln College, e especialista em guerra na Antiguidade, arte clássica e história cultural do Império Romano. À qualidade da narrativa e do enredo junta-se assim um profundo conhecimento histórico. Tal nota-se, ainda, nos excelentes anexos no fim de cada livro, que incluem um glossário, uma cronologia dos acontecimentos mais importantes daquele período e várias referências bibliográficas para melhor enquadrarmos a nossa leitura. A questão religiosa no livro está muito bem tratada, em conjugação com os dilemas pessoais e morais de Balista, tal como a parte militar, nomeadamente em relação às técnicas de cerco. O último livro desta série, “Lion of the Sun”, foi publicado em Julho passado no Reino Unido. A julgar pelo ritmo de publicação das traduções portuguesas, só o teremos por cá no próximo ano.

Para os que não ficaram totalmente convencidos, aqui fica um excerto do primeiro volume: “Arete estava de olho no ciclone. Fora desejo dos deuses que esta cidade remota e até então insignificante se tornasse o último foco da eterna guerra entre o Oriente e o Ocidente. O conflito sempre estivera latente, desde os primeiros registos históricos. Começara com os Fenícios do Oriente que raptaram Io e os Gregos retaliaram, raptando primeiro Europa e depois Medeia. Quando os Troianos levaram Helena, as coisas passaram do rapto de raparigas à guerra. Os Aqueus incendiaram Tróia, os Persas incendiaram Atenas e Alexandre incendiou Persépolis. As areias do deserto ficaram alagadas de vermelho com os destroços das legiões de Crasso em Carras. Cadáveres romanos abandonados marcaram a retirada de Marco António de Média. Júlio César foi aniquilado na véspera de mais uma guerra de vingança. Os imperadores Trajano, Lúcio Vero e Septímio Severo empreenderam sucessivas guerras de vingança. Depois chegaram os Sassânidas e o Oriente contra-atacou. Milhares de romanos mortos em Meshike e Barbalissos. Antioquia, a metrópole da Síria, e tantas outras cidades foram incendiadas no tempo dos conflitos. O Oriente contra o Ocidente, a disputa jamais teria fim.”

Bilhete-postal


Um amigo que muito prezo, de Leça da Palmeira, enviou-me um bilhete-postal de outros tempos por uma via muito moderna. Sinal dos tempos? Talvez. Mas parece-me que o significado profundo deste seu gesto é a convicção de que Portugal é eterno!

Ucrânia: uma nação europeia inacabada...


Como habitualmente, hoje às 22 horas é altura para ouvir em directo a emissão do Méridien Zero, o programa francês da Radio Bandiera Nera, que desta vez tem por tema "A Ucrânia: uma nação europeia inacabada...", com a presença de Pascal Lassalle, professor de História e especialista na Europa de Leste.

Degeneração


Referi aqui o grupo musical do Quebeque Mes Aïeux e a eles regresso a propósito da música "Dégéneration". O vídeo que partilho tem legendas em inglês, prestem atenção à letra...

sábado, 9 de outubro de 2010

A Guerra Peninsular


A entrega de hoje da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é sobre a Guerra Peninsular, um assunto que nos diz directamente respeito. Neste livro, da autoria do historiador Gregory Fremont-Barnes, há uma passagem sobre o exército português na qual é dito que, após uma opinião inicial muito negativa sobre os portugueses, os ingleses acabaram por reconhecer que estes "suportavam as fadigas e as privações da campanha sem se queixarem e mostravam uma bravura considerável em acção". O autor refere ainda que "a contribuição dos portugueses para a guerra foi importante, e, embora seja natural pensar no exército de Wellington como 'britânico', é justo referir que em 1810 quase metade era constituído por portugueses".

Este conflito marcante da História da Europa lembra-me automaticamente os livros "Ir prò Maneta", de Vasco Pulido Valente, e "O Hussardo" e "Um Dia de Cólera", de Arturo Pérez-Reverte.

Intervenção urbana

Não sabem o que significa? Proponho a definição dada pelo Eurico de Barros na sua crónica publicada hoje no "Diário de Notícias": "um gasto inútil de dinheiro público numa iniciativa muito vistosa a fazer de conta que é muito útil ou muito agradável para o munícipe, que foi uma ideia brilhante do município, o tal que está sempre a pensar no bem do munícipe, mas acaba por não ter ponta de utilidade ou de interesse para o dito, resultando muitas vezes num incómodo visual ou físico ou até mesmo numa agressão urbana."

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Corações das Trevas

O Miguel Vaz trouxe-me hoje à memória uma recordação de outros tempos ao falar de "Hearts of Darkness: A Filmaker's Apocalypse" (1991), um documentário sobre a complicada rodagem de um dos meus filmes de culto. Na minha adolescência, "Apocalypse Now" (1979) foi, em paralelo com "Taxi Driver" (1976), o filme que mais vezes vi. Como grande fã que era desta obra de Francis Ford Coppola, foi com grande satisfação que, no início dos anos 90, descobri que o vídeo-clube (esse tipo de pequeno comércio em vias de extinção) perto de minha casa era dos poucos que o tinha. Aluguei e gravei. Tudo isto se passou muito antes dos DVD e os seus 'extras'. Foi aí que vi pela primeira vez, por exemplo, a caríssima cena da "plantação francesa", amputada na primeira versão do filme, mas que, por fim, acabou por ser restituída na versão 'redux'.

Mas o Miguel escreveu acerca da concretização da "grande esperança" de Coppola. Repito aqui o que lhe respondi. Essa "grande esperança" era partilhada por muitos e devo confessar que ainda me parece incrível a rapidez com que tudo mudou.

Sobre a atribulada realização deste filme, que é o melhor alguma vez feito sobre a Guerra do Vietname, há uma frase de Coppola que diz tudo: "There were too many of us, we had access to too much equipment, too much money, and little by little we went insane".

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A volta à Europa a pé de Fanny e Mathilde em vídeo


Um excelente vídeo sobre a volta à Europa a pé de Fanny e Mathilde, ao som de "Le repos du guerrier", do grupo néo-trad do Quebeque Mes Aïeux.

As regiões

Uma das divisões administrativas previstas no artigo 125.º da Constituição de 1933 eram as províncias. Estas só foram criadas de facto em 1936, tendo por base os estudos do geógrafo Amorim Girão, consagrando uma nova divisão territorial do continente assente nessas regiões naturais. Apesar de terem sido extintas em 1956, continuaram a ser uma referência. Eu ainda as estudei na primária, já depois do 25 de Abril. "Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro, Douro Litoral, Beira Alta, Beira Baixa, Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo, Alto Alentejo, Baixo Alentejo, Algarve", ainda me lembro da cantilena como se fosse ontem...


Vem isto a propósito de ter visto, com agrado, que o meu filho, actualmente no equivalente à 3.ª classe, está a estudar estas regiões. Por muitas outras divisões que tenha visto, esta continua a ser a que me vem automaticamente à cabeça.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Depoimento

Se penso em mim por um bocado
E me pergunto quem sou eu,
Sobre mim mesmo debruçado
Sou um poeta que morreu.


Venho do mapa sem lugar
Onde a Terra é uma bola.
Atiro aos outros um olhar
Como quem dá mais uma esmola!


Quanto ao mundo - um ermitério.
Quanto à morte - a minha vida.
Caminho para o mistério
(Para a flor não colhida).




A negra calma difusa,
Eu quero a Noite mais noite,
Mais noite a Noite do Campo!
(-Nem só luza
Um pirilampo!)


Tão-pouco estertor de velas.
Eu quero a Noite mais a noite.
Mais noite no Firmamento!
(-Apague as estrelas
Um sopro do vento!)


Nem longe luz de luzeiros.
Eu quero a Noite mais noite,
Mais noite a noite na Rua!
(-Nem candeeiros,
Nem lua!)


Noite silente! - nem um balbuceio...
Noite de luto! - nem um bruxuleio...


Nem do ao longe uma canção,
Nem um fósforo se afoite!
-Perca-me eu, na Escuridão...
Perca-se a noite, na Noite!...

Rodrigo Emílio
in "Primeira Colheita (1957-1972)", Editora Pax (1973).

A propósito de um centenário (X)

"A Primeira República portuguesa foi um monumento de ignomínia. As comemorações em curso não podem escamotear esse facto e deveriam proporcionar aos portugueses uma visão altamente crítica desse período da nossa história. (...)"

Vasco Graça Moura
in «Diário de Notícias», 6/10/2010.

E comemorar o 28 de Maio?

Esta questão é a conclusão de um texto interessante, intitulado "Independência esquecida", publicado na edição de ontem do semanário «O Diabo»: "(...) Em 1910, é verdade, a monarquia constitucional estava em grandes apuros. Tinha uma classe política desacreditada e incapaz de assegurar bom Governo e o jovem rei D. Manuel II era atacado por quase toda a gente, da direita e da esquerda. O Partido Republicano Português, um movimento sobretudo lisboeta, conseguira criar um sério problema de ordem pública, que a monarquia constitucional nunca poderia ter resolvido sem se negar a si própria, tornando-se um regime repressivo, o que a sua classe política não podia aceitar. Quando o PRP resolveu tentar a sua sorte em Outubro de 1910, subvertendo a guarnição de Lisboa, quase ninguém apareceu a defender o regime.
Tudo isto é verdade. Mas se o objectivo é celebrar a morte de sistemas políticos apodrecidos, ignorando o que se lhes seguiu, não deveríamos comemorar também o 28 de Maio de 1926, que igualmente pôs fim a um regime desacreditado e já sem defensores?"

Fiel companheiro

Este é um filme para todos os que gostam de cães, em especial da estreita relação que se forma entre um cão e o seu dono. Aqui a fidelidade canina ultrapassa os limites do imaginável e a dedicação é de tal forma que nem a morte pode quebrar uma ligação tão poderosa.

Se ainda restam dúvidas, também sou daqueles que considera que “o cão é o melhor amigo do homem”. Esta declaração de interesses tem razão de ser no filme em questão, porque imagino que quem não goste de cães não o veja da mesma forma.

É difícil evitar ‘spoilers’ neste caso, porque a história que inspira este filme é sobejamente conhecida no mundo dos entusiastas caninos. Hachiko foi um cão japonês, de raça Akita, nascido em 1923, que vivia com o professor Ueno, da Universidade de Tóquio. Durante o seu primeiro ano de vida ia esperá-lo todos os dias à estação de Shibuya, à hora exacta da chegada do comboio. Em Maio de 1925, o dono não voltou. Ueno falecera após um derrame cerebral. Apesar de ter sido dado, Hachiko fugiu e voltou à estação para esperar o seu amigo. Fê-lo diariamente durante nove anos! Hachiko tornou-se uma presença acarinhada para as pessoas que todos os dias se cruzavam com ele, muitas das quais o alimentavam. No entanto, foi um aluno do professor Ueno, especialista em Akitas, que celebrizou esta história magnífica, escrevendo vários artigos na imprensa sobre o assunto. O exemplo de Hachi serviu para motivar uma recuperação desta raça canina que se tornou uma referencial nacional nipónica. Em 1932, foi erigida uma estátua de bronze na estação de Shibuya em homenagem a Hachiko.

Em 1987, o japonês Seijirô Kôyama realizou um filme que retratava esta extraordinária história, intitulado “Hachikô monogatari”. No ano passado, o realizador sueco Lasse Hallström, trouxe-nos um ‘remake’ que é uma versão ocidental de Hachiko passada nos dias de hoje, que só agora se estreou no nosso país.

É um daqueles filmes que se costumam classificar como “familiares”, mas bastante comovente. Nesta versão, Hachiko vem do Japão e mantém o nome, mas tudo se passa nos EUA e há várias alterações. Richard Gere vai bem no papel do professor e o resto do elenco cumpre. Este é um actor que envelheceu bem no ecrã, como se costuma dizer, evitando a tentação de ser uma galã depois de tempo. Mas o filme vale pela história que o inspira e gira à volta dela. Há por exemplo uma coisa que podia ter sido explorada de outra forma, que são as imagens que vemos da perspectiva do cão.

Uma nota para uma curiosidade para portugueses. No caminho que Hachi faz de casa à estação de comboios há um talho que tem anunciado “Chouriço e linguiça”, com a imagem da bandeira nacional. Um pormenor para o qual não resisti chamar a atenção dos menos atentos.

Voltando ao início, se duvida que “o cão é o melhor amigo do homem” veja este filme. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A propósito de um centenário (IX)

"(...) Da fugaz I República ficaram pois, quase exclusivamente, as boas intenções. A intenção de educar o povo, de proteger o povo, de contar com o povo. Mas esse mesmo povo abandonou a República no primeiro momento, talvez pensando que de boas intenções está o Inferno cheio.
Isto também explica que a República tenha durado uns escassos 16 anos, enquanto o período seguinte (1926-74, dominado por Salazar entre 1928 e 1968) durou uns longos 48 anos, ou seja, três vezes mais.
Tudo somado, pode dizer-se que a I República não deixou saudades. E se hoje se comemora com tanto fervor é mais por razões ideológicas - e porque no poder está o partido que herdou a tradição republicana, o Partido Socialista - do que pelas virtudes que mostrou."

José António Saraiva
in "Sol".

A propósito de um centenário (VIII)

"Os tais pais da República, saídos das Lojas, eram tão mentirosos como os de hoje. Salienta Jorge de Abreu, em "O 5 de Outubro, A Revolução Portuguesa", que: "De todos os relatos que vieram à tona da imprensa portuguesa sobre episódios do movimento que implantou a República no nosso País, conclui-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram os pontos do governo revolucionário que se cumpriram à risca". Para lá de devorar imediatamente alguns dos seus autores, a República começou a endividar-se a ponto do termo "portugaliser" (portugalizar) se tornar comum a fim de designar uma situação extremamente deteriorada. A primeira ditadura militar de Sidónio Pais foi abafada pelo assassinato do mesmo (Sidónio Pais, Diplomata e Conspirador: 1912-17, Miguel Nunes Ramalho), erro em que nunca caiu Salazar. E a República engendrou os seus monstros, sendo ela mesmo um regime iníquo, construído na conspiração, no assassinato, no roubo violento, no terror imposto e voluntariamente posto em prática pelos seus dirigentes, cuja ética não chegaria ainda à do Cavaleiro Kadosh. Gentinha de carripana e armas na mão entrava nas casas e matava em nome da revolução. A tropa invadia os Conventos e confiscava-os para assentar quartéis. Mesmo para terem um Parlamento tiveram que roubar o Mosteiro de São Bento aos beneditinos. É justamente isto que querem comemorar, ao completarem-se 100 anos de vergonha, 300 de decadência e muitos de bancarrota reconhecida. É pena: o País fundado no sangue de gente que combateu nos quatro cantos do mundo não merecia uma tão horrível má sorte. Mas trovadores, bruxas e adivinhos, como cantava José Cid na sua célebre balada, já tinham previsto o desastre e diagnosticado, tal como o sapateiro de Trancoso, em trovas adulteradas, e o Padre António Vieira, em letras incendiárias, que a salvação havia de vir um dia, quando o País que somos batesse no fundo. E alguém havia de avistar o sonho feito realidade: ao lado do cavalo preto da fome, já cansado de cavalgar, ao lado do cavalo amarelo do segador do trigo das almas, o cavalo branco d'El-Rei Dom Sebastião a ultrapassar, por um fino fio indistinto, os seus directos rivais. Quem quer comemorar o perjúrio, a cultura de morte, o roubo, o quadrilhismo, o insondável desejo de assassinar um País nas aras de um templo obscuro – que devia ter uma a serpente Python no centro da cúpula de mármore róseo, como chegou a descrever Robert E. Howard (Conan, The Barbarian) – deveria ir viver para os Sete Infernos de Dante e chiar todos dias da sua porca vida."

António Marques Bessa
in "O Diabo", 5/10/2010.

5 de Outubro de 1143


Tratado de Zamora

Dia d'O Diabo

Não posso deixar de notar a coincidência irónica do título deste post...

A propósito de um centenário (VII)

"Não deixa (...) de ser estranha a forma como 100 anos depois, se está a comemorar a I República. Primeiro, porque isso está a ser feito de uma forma que reduz a realidade complexa de então a uma falsa dicotomia entre uma monarquia corrupta e uma república redentora. Depois porque, de forma chocantemente manipulatória, se pretende radicar tudo o que hoje associamos à democracia em que vivemos no espúrio regime de então. Só encontro uma explicação para isso, e não é entusiasmante: a existência de angustiantes paralelos entre o regime que saiu do 5 de Outubro e certas práticas políticas dos dias que correm."

José Manuel Fernandes
in "Público", 4/10/2010.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Repressão da Imprensa na I República


É inaugurada hoje às 17:00 horas no Palácio da Independência em Lisboa a exposição “A Repressão da Imprensa na 1ª República” organizada pela Plataforma do Centenário da República e com o apoio da Causa Real que contará com a apresentação do  jornalista e cronista José Manuel Fernandes.
Esta exposição estará patente todos os dias até ao dia 15 de Outubro, de Segunda a Sexta, e é feita à margem das comemorações oficiais dos cem anos da república portuguesa e também, o que é mais penoso, à margem da investigação oficial sobre os primórdios do regime republicano.
Trata-se da exibição dum conjunto de várias dezenas de quadros que evidenciam existência de um sistema repressivo regular e duradouro, mantido ao longo da primeira república. Durante esse período o regime estabeleceu formas imaginativas, directas e eficazes, de impedir o acesso do público aos textos perniciosos ou nefastos ao regime: o uso o assalto, a apreensão, a suspensão, e até a censura sem fundamento legal de jornais ou artigos foi tão frequente e continuado, que no seu conjunto constituiu um sistema repressivo sólido e consistente. A estratégia era a sustentação de um regime que não aceitava a contestação dos seus fundamentos, e uma classe política que não punha em jogo a sua permanência no poder. É esta a tese da presente exposição que assim se opõe à ciência histórica em vigor.
A entrada é gratuita com oferta do catálogo.

domingo, 3 de outubro de 2010

Europa contra Ocidente


Hoje às 22 horas, mais uma emissão do Méridien Zero, o programa francês da Radio Bandiera Nera, que desta vez tem por tem "Europa contra Ocidente" e conta com a presença de Eugène Krampon, Pascal Lassalle e Georges Feltin-Tracol.

sábado, 2 de outubro de 2010

Descubra as diferenças

Paris

Moscovo

A islamização é uma realidade no nosso continente à qual não podemos ficar indiferentes.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A propósito de um centenário (VI)


É de saudar a reedição do obrigatório "O Poder e o Povo", de Vasco Pulido Valente, pela Alêtheia, com novo prefácio do autor onde é referida a comemoração do centenário da República e onde formula questões bem incómodas para os respectivos celebrantes: «Como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista? (…) Como é possível pedir que uma cultura política assente nos “direitos do homem e do cidadão” preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos (e, às vezes, matava) uma extensa e indeterminada multidão de “suspeitos”? (…) E como é possível, no meio disto tudo, ignorar que a Monarquia, tão vilificada pelo PRP (…), tinha sido um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês que o 5 de Outubro trouxe a Portugal?»

Entrevista com Fanny e Mathilde


Este é um vídeo de uma entrevista realizada com Fanny e Mathilde realizada em Maio deste ano pelos camaradas do Folk Advance, que o legendaram em inglês. As duas jovens francesas que decidiram dar uma volta à Europa a pé, estavam então na Irlanda, já perto do fim da sua aventura.