quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Propaganda

Estava curioso em relação a "Noite Sangrenta", a mini-série em dois episódios da RTP, que retrata a noite brutal da "camioneta fantasma" e que vi em estreia nacional no MOTELx. Está bem filmada e produzida, notando-se algum cuidado na recriação da época, tanto nos cenários, como no guarda-roupa. Já no registo oral, desiludiu; por exemplo, soa logo mal o sotaque lisboeta deste século de uma criada ou de um guarda prisonial de Coimbra, no início do século XX. Estes pormenores prendem-se, a meu ver, com uma falha em repoduzir (ou reconhecer?) a marcada divisão de classes de então.

Mas o pior, como alguns me avisaram, é mesmo a inspiração ideológica desta obra. Apesar de se anunciar como obra de ficção, propõe uma versão da tenebrosa "noite sangrenta" na qual os responsáveis são meros idiotas úteis de uma conspiração "das direitas"... É mais uma celebração de uma República imaginária — um mero acto de propaganda.

O actor Gonçalo Waddington como Abel Olímpio, o "Dente d'Ouro".


É altura de recordar, a este propósito, um excelente texto publicado no blog Semiramis, em 2004: "Com o tempo, os republicanos procuraram outras explicações [para a "noite sangrenta"]. Não podiam aceitar a explicação simples que teria sido a sua acção, o radicalismo da sua política, a imundície que haviam lançado desde 1890 sobre toda a classe política, a sua retórica de panegírico aos atentados bombistas (desde que favoráveis), aos regicidas, a desencadear tanta monstruosidade. Significava acusarem-se a si próprios. Outras explicações foram aparecendo, sempre mais tortuosas, acerca dos eventuais culpados: conspiração monárquica; Cunha Leal (apesar de ter sido quase morto); Alfredo da Silva (apesar de, nessa noite, ter escapado à justa e tido que se refugiar em Espanha) uma conspiração monárquica e ibérica; a Maçonaria (a acção da Maçonaria sobre a Guarda, impelindo-a para a revolução, era constante, mas isso não significa que desse ordens para aqueles crimes) Os assassinados na Noite Sangrenta não seriam, entre os republicanos, aqueles que mais hostilidade mereceriam dos monárquicos. Eram republicanos moderados. O furor dos assassinos liquidara homens tidos, na sua maior parte, como simpatizantes do sidonismo. Não se tratava de vingar Outubro de 1910, mas sim Dezembro de 1917. Carlos da Maia e Machado Santos foram ministros de Sidónio Pais. Botelho de Vasconcelos, coronel na Rotunda, às ordens de Sidónio Pais. Se as matanças de 19 de Outubro de 1921 foram uma vingança terão de ser referenciadas à República Nova e não ao 5 de Outubro. Aliás, num gesto significativo, os revolucionários libertaram o assassino de Sidónio Pais. Há na Noite Sangrenta factos que se impõem de maneira evidente. A 20 de Outubro, a Imprensa da Manhã reivindicou para si a glória de ter preparado o movimento, mas repudiou as suas trágicas consequências, especialmente a morte de Granjo. Ora anteriormente, dia após dia, aquele diário havia acusado e ameaçado Granjo, injuriando-o sistematicamente. Como podia agora lavar as mãos da sua morte? Aliás, a atitude dos assassinos foi concludente: depois de matarem Machado Santos, dirigiram-se na camioneta da morte à Imprensa da Manhã para lhe agradecerem o apoio e para aquela publicar os nomes dos que tinham fuzilado o Almirante. Um deles confessou mais tarde que Machado Santos havia sido localizado por informações de jornalistas da Imprensa da Manhã. Os assassinos procuravam a satisfação e a glória de uma obra realizada, no diário matutino onde se proclamara a necessidade dessa realização. Os assassinos nunca esperaram ser castigados. Mesmo durante o julgamento sempre esperaram a absolvição. Quando foram condenados, entre gritos de vingança e de apoio à «República radical», alguns acusaram altos oficiais de não terem autoridade moral para os condenarem, pois estavam por detrás da carnificina. Os assassinos tinham, de certo modo, razão: eles tinham agido dentro da lógica que o republicanismo tinha instilado neles. Em todos os regimes que nascem e se sustentam no crime e no terror (por muito justa que a causa possa ser), há sempre o momento (ou os momentos) em que a revolução devora os próprios filhos. "

A propósito de um centenário (V)

Lembrei-me de post República imaginária, que aqui publiquei em 2007, quando se ficaram a conhecer os preparativos para as comemorações do centenário da República.

Aqui fica um excerto: "(...) a I República estava bastante longe do éden adâmico apresentado pelos abrileiros. Representava, aliás, exactamente o contrário do que estes diziam defender em vários pontos-chave. Um regime onde existira a censura, que mandara soldados para a guerra, que nunca abdicara das colónias, onde a perseguição política e religiosa foi impiedosa, comandado por um partido que podia não ser único, mas sobrepunha-se (impunha-se) a todos os outros.


Esta incómoda realidade, pouco “democrática” segundo os padrões hodiernos, nascida do crime do regicídio e não da vontade ou expressão popular, é hoje sobejamente conhecida. Seria de esperar, por isso, que não se insistisse em mistificações, que alguns pretendem desculpar aos ânimos exaltados da insolação do Verão quente. Hoje exigia-se outra (com)postura, mas nas recentes comemorações oficiais do 5 de Outubro e na preparação do centenário da República percebeu-se que nada mudou.(...)"

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A volta à Europa a pé de Fanny e Mathilde


Referi aqui a fantástica aventura levada a cabo por duas raparigas francesas que decidiram dar uma volta à Europa a pé. Uma viagem - no mais profundo sentido do termo - iniciada em Setembro do ano passado e que terminou em Julho de 2010, após percorrer cerca de 6 000 km e dez países. Fanny, arquitecta, e Mathilde, licenciada em História, ambas ligadas ao movimento de escutismo Scouts Raiders Europe-Jeunesse, decidiram partir à descoberta da Europa e delas próprias.

Há uma coisa que não posso deixar de referir, a importância que elas dão à leitura, aos livros que as inspiraram. Como elas afirmam: "ler abre-nos o imaginário". E foi com grande agrado que descobri que os autores de referência delas me são também muito caros: Dominique Venner, Henri Vincennot, Nietzsche, Dumézil, Jean Giono, Jean Raspail, entre outros.


Esta fabulosa experiência, que dará origem a um livro, pode ser apreciada no blog Tour d'Europe que contém relatos da viagem, muitas fotografias e os artigos que saíram na imprensa de vários países sobre elas. Uma aventura inspiradora, em especial nestes tempos que atravessamos. Como elas dizem: "A mecanização, a televisão, as normas. Hoje em dia tudo se vende, tudo se compra, excepto talvez a felicidade..."

Há uma citação do grande Ernst Jünger no blog delas que não resisto a usar para concluir: "Um abismo separa-nos daqueles que se batem por um bem-estar material".

A propósito de um centenário (IV)


É de ler o post do Miguel Vaz, República sangrenta, a propósito do filme "Noite Sangrenta", que retrata a noite brutal da "camioneta fantasma", cuja estreia nacional é hoje no MOTELx. Como diz o Miguel, o "episódio no qual este filme se baseia é no fundo um espelho do regime. (...) Cem anos passados, vamos comemorar o quê?".

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Terror em Lisboa


Começa amanhã a 4.ª edição do “MOTELx”, o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que decorrerá até ao próximo Domingo. Organizado pelo CTLX – Cineclube de Terror de Lisboa, é desde 2007 um espaço de convívio e descoberta pensado para todos os que procuram novos autores, novos filmes e novas abordagens a este género.
O festival terá cinco secções, sendo o “Serviço de Quarto” o espaço dedicado Às longas-metragens, onde este ano sobressai a produção britânica, mas onde podemos também ver filmes vindos de outros países europeus, ou mesmo da Tailândia ou da Austrália. No “Culto dos Mestres Vivos”, dedicado ao norte-americano George A. Romero, que será o grande convidado desta edição, será feita uma retrospectiva da obra cinematográfica do realizador e mostrado o seu mais recente filme “Survival of the Dead”.

A secção “Japão Retro” exibirá três clássicos do cinema de terror japonês seleccionados. Ao “Quarto Perdido”, secção criada no ano passado e que procura as raízes do cinema de terror português, caberá a responsabilidade das honras da sessão de abertura com uma obra portuguesa em antestreia absoluta, “Noite Sangrenta”, realizada por Tiago Guedes e Frederico Serra, uma co-produção entre a RTP e a produtora David & Golias, por ocasião das comemorações do Centenário da República Portuguesa.

Para a secção “Curtas Internacionais”, foram escolhidas 19 curtas-metragens internacionais de 14 países diferentes, do Canadá à Coreia do Sul, do Brasil à Macedónia, da Irlanda à Letónia, que serão exibidas nas sessões do Festival, em complemento das longas-metragens, mas este ano também à hora de almoço. Por fim, o “Prémio MOTELx - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2010”, será disputado entre 12 curtas-metragens, produções e co-produções portuguesas, num total de 149 minutos de terror nacional. O Júri será composto por Alan Jones, crítico de renome internacional e especialista em cinema de terror, José de Matos-Cruz, crítico e autor, e ainda, José Nascimento, realizador.

Para além do cinema, o MOTELx contará também com uma apresentação do “liZboa”, um videojogo cuja acção irá decorrer na cidade de Lisboa, em ambientes e locais emblemáticos da cidade, retratando uma pandemia zombie com epicentro na capital portuguesa, sendo o jogador colocado no papel de um dos sobreviventes. A apresentação, que será na quinta-feira às 18 horas, incluirá a mostra da primeira curta-metragem “liZboa”, a primeira demo jogável do projecto e uma sessão de perguntas e respostas. A seguir, às 19:15, terá lugar a “Noite de jogos de Terror”.
No contacto com os autores, haverá um painel de discussão, Sábado às 19:15, sobre o “Brit Horror” com o realizador Neil Marshall (“Centurion”, 2010), que lidera uma autêntica invasão britânica, da qual fazem parte os realizadores Gerard Johnson (“Tony”, 2009), também acompanhado de Peter Ferdinando, o actor principal, Christopher Smith (“Triangle”, 2009), Johannes Roberts (“F”, 2010) e Paul Andrew Williams (“Cherry Tree Lane”, 2010), aos quais se Alan Jones, autor, crítico e especialista em cinema de terror, e membro do júri do Prémio MOTELx 2010.
O destaque vai para a sessão de perguntas e respostas com o convidado principal do festival, George A. Romero, que decorrerá no último dia às 16:30. Razões de sobra para ir – como diz o ‘slogan’ do festival – “onde o terror é bem-vindo”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

O regresso de Tintin

Como referi aqui no ano passado, Tintin vai regressar hoje às livrarias portuguesas com novo nome, nova chancela editorial, novo formato e novas traduções. O lançamento oficial da colecção decorre hoje no Espaço Tintin, na Av. de Roma em Lisboa, com apresentação de Nuno Artur Silva.

Como nos explica o Eurico de Barros, hoje no «DN»: "Portugal foi o primeiro país não francófono a publicar as aventuras de Tintin, na revista Papagaio, em Abril de 1936, e também o primeiro país do mundo a fazê-lo a cores (embora sem a autorização de Hergé, que até nem ficou muito aborrecido). Mais de 70 anos depois, Portugal volta a inovar com Tintin, reeditando, pela mão da ASA, os 24 álbuns das suas aventuras, num formato inédito, mais pequeno do que o tradicional da Casterman, mas maior do que o da colecção "Tintin de poche" da mesma editora."

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O mau jornalismo habitual (VIII)

A bolorenta história do "Fujam, fujam que o Hitler voltou!" já enjoa, mas continua a vender, pelos vistos... Quando há algum resultado mais expressivo de um partido do verdadeiro albergue espanhol que é a área da chamada (por vezes convenientemente) "extrema-direita", somos presenteados com os alarmismos do costume sobre um iminente "regresso do nazismo". Podia ser piada de mau gosto, mas tornou-se prática corrente. Para além disso, como se está a tratar dos "maus", tudo é permitido, até erros crassos.

Vem isto a propósito das duas páginas que o "Expresso" (o tal "jornal de referência" para os bem-pensantes) dedica ao crescimento da "extrema-direita" na Europa, que considera "uma ameaça". O carácter tendencioso do artigo está bem reflectido no título "Uma sombra paira sobre a Europa". E não, este não é um texto sobre poluição atmosférica.

Para ilustrar a peça, temos um mapa do Velho Continente com uma suástica por cima. Não se faz a coisa por menos! Tal opção choca de frente com a nota sobre a Holanda e o partido de Geert Wilders, de que se diz: "Discurso anti-islâmico, associando o islão à criminalidade. Compara o Corão ao Mein Kampf de Hitler." Em que ficamos? Serão "nazis" anti-nazis?

Para dar mais um exemplo, no caso do nosso país, a "extrema-direita" é representada pelo "Partido Renovador Democrático"! Gralha? Erro deliberado? O Partido Nacional Renovador existe há dez anos e concorreu a diversos actos eleitorais. Mesmo que houvesse dúvidas, hoje existe a internet... 

A propósito de um centenário (III)

"Festejar o centenário - ou qualquer número de anos - da implantação da República em Portugal tem actualmente tanta justificação como festejar a instauração do comunismo na Rússia e a formação da União Soviética."

Octávio dos Santos
in «Público», 27/9/10.

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 50

Nas bancas está o número 50 de «La Nouvelle Revue d'Histoire», edição histórica que marca a permanência desta revista de referência independente, que é possível comprar no nosso país. Desta vez, o tema do excelente dossier é “Vichy: o tempo dos enigmas”, que inclui artigos de Dominique Venner, François-Georges Dreyfus, Philippe Conrad, Bernard Bruneteau, Philippe d'Hugues, Olivier Dard e Philippe Alméras. Destaque para as entrevistas com Dominique Venner (disponível em vídeo aqui) sobre a revista e com Henri Lurens, sobre o Oriente visto do Ocidente, e para os artigos “A Revolta de Lutero” de Emma Demeester, e “A nova política da Turquia”, de Aymeric Chauprade. Como habitualmente, temos a crónica de Péroncel-Hugoz e as secções do costume.

A ler, divulgar e apoiar.

domingo, 26 de setembro de 2010

Tomislav Sunic na rádio (II)


Hoje às 22 horas, oportunidade para ouvir Tomislav Sunic no Méridien Zero, o programa francês da Radio Bandiera Nera, a propósito do o seu último livro, "La Croatie : un pays par défaut ?".

Thilo Sarrazin e o "mas"...

Desta vez não foi um "nazi", ou um skinhead ou uma daquelas figuras cómodas - idiotas úteis - que os media utilizam recorrentemente para descredibilizar os sucessivos alertas para a catástrofe em que se tornou a imigração maciça para a Europa. Foi Thilo Sarrazin, economista, membro do do Partido Social-Democrata e do conselho de administração do Banco Central alemão, o responsável por declarações polémicas como "os imigrantes trouxeram mais prejuízos do que benefícios à Alemanha", ou "o quociente de inteligência do país diminuiu por causa destes imigrantes".

E a opinião popular? Para saber o que pensam os alemães, é de ler a interessante reportagem do "Público", publicada na passada sexta-feira, que refere que "segundo uma sondagem, um em cada cinco alemães concordam com as ideias de Sarrazin" e onde a maior parte deles afirma: "Não concordo com Sarrazin, mas..."

sábado, 25 de setembro de 2010

A propósito de um centenário (II)

"Os portugueses não tinham perdido com o advento de Salazar um regime aberto e plural como o que hoje temos, pois apenas tinham conhecido oligarquias dilaceradas por querelas internas."

José Manuel Fernandes
in «Público», 24/9/10.

A propósito de um centenário (I)

"O que estamos a comemorar é a visão da República que a oposição republicana e maçónica do Estado Novo tinha."

Pacheco Pereira
in «Sábado», 23/9/10.

Tomislav Sunic na rádio (I)


Tomislav Sunic, autor de vários livros, tradutor, antigo diplomata croata e professor universitário nos EUA, actual conselheiro cultural do partido American Third Position, será entrevistado no programa Libre Journal des Lycéens, da Radio Courtoisie, dirigido por Romain Lecap, hoje às 11 horas (repete às 23 horas), a propósito do seu último livro, "La Croatie : un pays par défaut ?", por Georges Feltin-Tracol, responsável pelo Europe Maxima, e Pascal Lassalle, professor de História.

Também presentes no programa estarão Fanny e Mathilde, para relatar a aventura da sua volta à Europa a pé.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Plataforma


A propósito dos karens, lembrei-me do livro muito recomendável de Michel Houellebecq, "Plataforma", publicado entre nós pela Bertrand, em 2002, com uma capa inenarrável. Esta foi uma obra de sucesso e bastante polémica, não só pelo estilo provocador do autor, mas pelas considerações "politicamente incorrectas" sobre o islão e o seu impacto nas sociedades ocidentais, escritas antes do 11 de Setembro.

Voltando ao povo Karen, há uma passagem que o refere durante uma viagem turística da personagem principal à Tailândia. Aqui fica o excerto: "A região fronteiriça que íamos percorrer agora era parcialmente povoada por refugiados da Birmânia, de origem karen; mas não havia problema. Segundo ela, Karens muito corajosos, crianças boas alunas, tudo bem. Não tinham semelhança com algumas tribos do Norte, com quem, aliás, não nos iríamos cruzar durante a excursão; na opinião dela, não perdíamos grande coisa. Em especial no caso dos Akkhas, relativamente a quem parecia ter uma certa má vontade. Apesar dos esforços do governo, mostravam-se incapazes de abdicar do cultivo da papoila de ópio, a sua actividade tradicional. Eram vagamente animistas e comiam cães. Akkhas maus, acrescentou Sôn energicamente: só cultivar papoilas e apanhar frutos, sabem fazer nada; filhos alunos maus na escola. Com eles muito dinheiro gasto, resultado nenhum. São grande nulidade, conclui ela finalmente, dando mostras de um belo poder de síntese.
Quando cheguei ao hotel observei com atenção estes famosos karens, afadigados à beira do rio. Vistos de perto, isto é a uma distância em que não era preciso levar pistola-metralhadora, não tinham um ar nada mau; o aspecto mais evidente era a sua adoração por elefantes. Tomar banho no rio e esfregar o dorso dos elefantes, parecia ser a sua maior alegria. É verdade que não se tratava de rebeldes karens mas sim de karens vulgares - justamente aqueles que tinham fugido das zonas de combate, fartos daquilo tudo, a causa da independência passava-lhes completamente ao lado."

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Regresso ao terror

Antes de “Até ao Inferno” começar, há um aviso de que vamos viajar no tempo. O logótipo da Universal é antigo e, pelo que confirmei numa pesquisa rápida, contemporâneo dos primeiros filmes da série “Evil Dead”, nos anos 80 do século passado. Um sinal do regresso de Sam Raimi aos filmes de terror que o celebrizaram.

Bem sei que os chamados filmes de terror preenchem um género que, apesar de ser de culto para muitos cinéfilos, está longe de ser do agrado da maioria. No meu caso, durante a adolescência era um ávido consumidor deste tipo de cinema, algo na moda na altura. Se por um lado havia os considerados filmes de terror “a sério”, cujo expoente máximo era uma das obras magistrais de Stanley Kubrick, “The Shining” (1980), por outro havia os de terror-comédia, no qual se enquadravam este primeiros sucessos de Raimi. E como me divertia com os meus amigos a ver estes filmes! Louvávamos a inventividade deste realizador norte-americano em pormenores marcantes como a sangrenta moto-serra de “Evil Dead II” (1987) ou Ash de caçadeira em punho em plena Idade Média, no delirante “Army of Darkness” (1992).

Foi exactamente após este “Exército das Trevas” que Raimi escreveu, em conjunto com o seu irmão Ivan, este filme que ficaria adiado durante muito tempo. Pelo meio, foi realizador, argumentista, actor e produtor, trabalhando não só em cinema, mas também em séries televisivas e jogos de vídeo. Subiu ao cume do sucesso com a trilogia “Homem-Aranha” (2002, 2004 e 2007) e agora voltou às origens.

Desta vez conta-nos a história de uma analista de crédito que, pressionada pelo chefe e motivada pela progressão na carreira, recusa mais um adiamento a uma velha cigana. A mulher, que cumpre todos os requisitos de bruxa feia, ataca-a e roga-lhe uma praga. A partir daí, a vida perfeita de Christine Brown (Alison Lohman) começa a desmoronar-se. No trabalho, na sua relação com um jovem professor universitário, no seu dia-a-dia, começa a ser atormentada por um espírito maligno que a quer arrastar para o Inferno e, para tentar escapar, Christine vai perder os escrúpulos.

Como não podia deixar de ser, estão reunidos todos os ingredientes para um filme de terror convencional, onde iremos cruzar-nos com um parapsicólogo indiano, uma médium hispânica, um demónio assustador e assistir às imprescindíveis cenas nojentas, que incluem vómitos, vermes, cadáveres, sangue, etc. Nota para as cenas com as moscas; simples, mas eficazes.

Esta verdadeira visita ao passado, com sabor a recompensa para os primeiros fãs de Sam Raimi, resulta numa boa película que merece uma ida ao cinema. Os entusiastas deste género descobrirão ainda uma série de elementos dos trabalhos iniciais do realizador. Um jogo engraçado de memória cinematográfica. Um filme divertido que não surpreende, mas também não desilude, nem no final. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dia d'O Diabo

Quem são os leitores do Zentropa?

O clã Zentropa é uma das referências desta casa e um exemplo para toda uma área. Agora decidiu fazer um breve questionário aos seus leitores para os ficar a conhecer melhor. Abaixo está a tradução das questões, que devem ser respondidas e publicadas como comentário aqui.

1) Como ouviste falar do Zentropa e da sua comunidade?

2) Com que frequência lês o Zentropa? Todos os dias, várias vezes ao dia, semanalmente, de vez em quando?

3) Qualifica de 1 a 5 os seguintes conteúdos do Zentropa (1=mais interessado, 5= menos interessado): Fotografias e imagens / Vídeos / Citações e sinopses de livros / Documentos inéditos / Entrevistas

4) És membro de alguma organização política? Se sim, qual?

5) Estás envolvido em alguma associação? Se sim, qual?

6) Tens algum blogue ou colaboras num? Se sim, qual?

7) Alguma vez sugeriste conteúdos a publicar no Zentropa?

8) Promoves o Zentropa? Se sim, por que meios?

Por favor responde com comentários.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A vez da Suécia


A estafada história de espantar sobre o "papão da extrema-direita" vai ser repetida como sempre a propósito dos 5,7% atingidos pelos Democratas Suecos, que lhes garantiram 20 deputados no parlamento sueco. Uma verdadeira vitória já que, devido às suas propostas anti-imigração, o partido liderado por Jimmie Akesson ter sofrido um verdadeiro bloqueio mediático.

Há uma coisa que deixa completamente baralhados os suspeitos do costume. Aqueles países que antes eram apontados como exemplos de abertura e integração, começam agora a despertar para os graves problemas da imigração desregrada que se tornou numa verdadeira invasão do continente europeu. Primeiro foi a Holanda e agora a Suécia. Outros se seguirão.

Por fim, há a registar a falta de respeito e consideração com que continuam a ser tratados todos os partidos rotulados (por vezes convenientemente) como "extrema-direita" e os seus eleitores. Se cumprem as regras do jogo democrático, merecem ser tratados da mesma forma, concorde-se ou não com eles.

A Guerra dos Trinta Anos


A entrega do passado Sábado da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é sobre a terrível Guerra dos Trinta Anos, a mais devastadora do início do período moderno, que ficou marcada pelo atroz sofrimento da população civil. Este livro, da autoria do historiador britânico Richard Bonney, é uma boa introdução ao tema, bastante ilustrada.

Este conflito marcante da História da Europa lembra-me automaticamente dois livros: "O Sol de Breda", uma das aventuras do Capitão Alatriste, de Arturo Pérez-Reverte, e o excelente "Der Wehrwolf", de Hermann Löns.

Entrevista com a Comunità Solidarista Popoli

Porque se falou aqui do povo Karen, republico a entrevista com Franco Nerozzi, correspondente de guerra e fundador da Comunità Solidarista Popoli, publicada no ano passado no inconformista.

Primeiro que tudo, pode falar-nos da Birmânia, país complexo e perigoso, e em especial do povo Karen?
A Birmânia é um país perigoso, sobretudo para os seus habitantes. Não falo dos birmaneses mas da outra metade da população, pertencente a diferentes etnias, que deseja obter uma certa autonomia em relação ao poder central. São povos verdadeiramente diferentes uns dos outros que foram forçados e reunidos numa colónia britância e que, desde a descolonização, aguardam a sua independência. Entre essas populações, encontra-se o povo Karen, principal minoria em número e importância. O tratado que deveria garantir a sua liberdade não é respeitado pelo governo birmanês. Desde então teve lugar uma guerra pela sobrevivência desse antigo povo cuja história remonta há 2700 anos.

Fale-nos da sua viagem e da missão que agora cumprida.
Cada missão em território Karen deixa-nos com um sentimento misto de alegria e tristeza. Foi este o caso. No fim desta missão, não podemos deixar de concluir que os nossos amigos Karen merecem todo o nosso apoio para continuar a sua luta pela liberdade. Eles são pobres, mal nutridos e mal armados. Apesar disso, sempre recusaram cair no tráfego de droga. Há por isso uma alegria em reencontrar esse povo que vive na simplicidade. Isso dá-nos uma lição de ética. Há também a tristeza de ver que nada é feito para ajudar estas centenas de milhares pessoas que se escondem na selva para fugir à repressão de Rangoon. A atenção internacional é dedicada unicamente às promessas de democracia ou ao caso de Aung San Suu Kyi. A luta das etnias não interessa a ninguém.


Como se passam as actividades militares, para-militares e sanitárias no território?
Nos últimos anos assistimos ao avanço progressivo das tropas birmaneses e dos seus cães de guarda, as milícias da DKBA [Karens colaboracionistas]. Dezenas e dezenas de aldeias foram atacadas, incendiadas ou ocupadas pelos soldados. Tudo isto foi acompanhado de violência e violações. Mais do que operações militares, podem classificar-se como actos de banditismo. O exército Karen adoptou uma táctica de guerrilha, abandonando pouco a pouco o terreno para tentar preservar os homens. Incomodam o exército birmanês através de operações rápidas e desaparecem novamente na selva. Essa táctica teve bons resultados. Nos últimos meses, a relação entre os mortos do exército Karen e dos seus adversários é de 1 para 60, a favor dos insurgentes. As nossas actividades sofreram com essa tensão constante. As zonas onde funcionavam as nossas clínicas encontram-se agora em mãos birmanesas. As nossas equipas são agora móveis e seguem os Karens com o seu material e medicamentos. Podem assim cuidar das populações que encontram pelo caminho. Uma clínica trabalha ainda em pleno na zona de Mutraw, mas encontra-se muito perto da zona birmanesa. Não sei até quanto continuará a funcionar.

Quais são as necessidades da população? Como é possível ajudar?
A recente ofensiva do exército birmanês provocou o êxodo de cerca de 7 000 pessoas que se juntaram às 500 000 que já foram forçadas a abandonar as suas aldeias. Essas gentes refugiaram-se provisoriamente sob a protecção dos guerrilheiros. Vivem em campos com cobertas de plástico em jeito de tecto, para se poderem proteger da abundante precipitação, e sofrem de má nutrição. A verdadeira urgência é por isso comprar arroz, óleo e sal. A Comunità Solidarista Popoli e a associação L'Uomo Libero procuram neste momento recolher fundos suficientes para acudir a essa grave situação. Alimentar alguém por um mês, nestas condições, custa cerca de 8 euros. Assim, com cerca de 100 euros, podemos alimentar um refugiado Karen por um ano, sem contar com suplementos de ferro ou vitaminas.

Os povos ocidentais estão ao corrente do que se passa mas persistem em olhar para o lado. Porquê?
Os povos ocidentais ouvem apenas as sirenes do consumismo e estão um pouco "distraídos". Os seus governos obedecem à lógica mundialista. O sofrimento humano não entra nos parâmetros dessa lógica. O peso do povo Karen é insignificante para eles, já que não tem qualquer valor comercial. Existem dezenas de situações semelhantes em todo o mundo. Falo frequentemente no exemplo do Kosovo. A Europa viu-se a impor uma guerra que favoreceu a criação de um Estado mafioso, favorecendo o tráfico de droga e recebendo ordens de Washington.


Do vosso ponto de vista, será possível encontrar um dia uma resolução pacífica para este conflito?
Prever o que acontecerá na Birmânia é difícil. Existem muitos intervenientes implicados nesta situação. Que fará a China no futuro, país que é actualmente o principal patrocinador de Rangoon? Que farão as multinacionais (sobretudo a Chevron e a Total) que pilham os recursos do país e financiam os generais? Que farão os países que vendem armas e fornecem instrutores militares como Israel, Austrália, Singapura ou Índia? E os Estados Unidos, que já perceberam que as sanções sobre Rangoon não são uma boa estratégia sobretudo quando se trata de investir no país? Pessoalmente, acredito que no futuro assistiremos a uma erupção democrática no país, mas apenas na condição de os investidores terem garantias suficientes para apoiar o projecto. Não estou certo se mudará grande coisa para as etnias minoritárias, que continuarão a ser um fardo embaraçoso para os responsáveis do país.

E quem estiver interessado em ajudar, o que poderá fazer?

Para nos contactar, o mais simples é usarem o nosso endereço electrónico [info@comunitapopoli.org]. Temos necessidade de doações. Se alguem quiser organizar uma recolha de fundos através de outras actividades, ficaremos bastante reconhecidos. Devo precisar que nenhum membro da associação Popoli recebe dinheiro e que 100% das doações são encaminhadas para os Karen.

Algumas palavras em jeito de conclusão...
Como disse, os Karens têm numerosas necessidades. Procuramos ajudar um grupo de gente que fez a escolha de lutar pela sua liberdade sem compromissos. Somos claros, se os Karens tivessem escolhido a via do tráfico de droga, não teriam necessidade da nossa ajuda. Se renunciassem à sua dignidade, não precisariam de nós. Se tivessem escolhido a via da emigração para países ricos, não teriam necessidade de nós. Eles escolheram bater-se para sobreviver enquanto povo. É por isso que os ajudamos e que precisamos do vosso apoio.

domingo, 19 de setembro de 2010

Rentrée


Hoje às 22 horas, é tempo da rentrée do Méridien Zero, o programa francês da Radio Bandiera Nera. A ouvir.

Genocídio esquecido


O Miguel Vaz lembrou muito bem, a propósito do povo Karen, que há "genocídios e genocídios". Realmente, os Karen parecem filhos de um deus menor no que toca à solidariedade internacional, pese embora o facto de se recusarem a pactuar com o tráfico de droga que sustenta o regime birmanês. Como disse o Miguel, uma das excepções é a Comunità Solidarista Popoli. Porque as imagens têm mais força que as palavras, ainda para mais neste tempo de ditadura mediática, partilho aqui um vídeo que retrata as atrocidades cometidas contra os Karen pelo exército birmanês. Imagens bastante fortes que mostram aldeias destruídas, crianças chacinadas e um médico voluntário assassinado. Viram na televisão? Felizmente existe a internet!

sábado, 18 de setembro de 2010

O Salazar de Filipe Ribeiro de Menezes

Tenho ouvido falar mal e bem da biografia política de Salazar da autoria de Filipe Ribeiro de Menezes, traduzida recentemente do original em inglês e publicada entre nós pela D. Quixote. O problema é que as pessoas com quem tenho falado, apesar de algumas reacções inflamadas, ainda não leram o livro. Pelo menos de fio a pavio...

Tal despertou-me a curiosidade e por isso que tenho tentado ler todas as recensões da obra e as entrevistas com o autor. Hoje o "Diário de Notícias" publicou uma entrevista feita pelo Eurico de Barros que me deixou ainda mais curioso e vale a pena ler. Há uma parte bastante interessante, que é a primeira vez que vejo, sobre os projectos futuros de Menezes. Diz ele: "Estou, em parceria com um colega irlandês, a examinar as ligações de Portugal com a Rodésia e a África do Sul durante a Guerra Colonial. Eu estou a tratar do material português e esse meu colega já foi à África do Sul e teve já a coragem de ir ao Zimbabwe, a Harare (risos). Felizmente para nós, grande parte da documentação do Governo rodesiano foi para a África do Sul, que nos oferece garantias de acesso. É um projecto muito grande, que por isso está a ser feito lentamente. Mas é muito interessante e começa com a guerra em Angola."

Voltando ao "Salazar", ainda não decidi se leio esta edição, ou opto pelo original inglês, como me aconselhou um amigo meu.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Europae n.º 1

Este é o primeiro número de "Europae", a revista da recém-criada Associação Cultural Genos, que nas suas 100 páginas inclui um extenso dossier sobre a Bretanha, um artigo sobre a geopolítica europeísta de Enrique Ravello, uma entrevista com Gabriele Adinolfi, e vários artigos sobre antropologia, cinema, poesia, história, entre outros. Excelente novidade!

Futebol "nacional"

A propósito do regresso do chamado "derby algarvio", um amigo enviou-me uma notícia do jornal «A Bola» que mostra bem ao que chegou o futebol "nacional". Diz a notícia que "dos 38 jogadores convocados, só 16 são portugueses. Apenas Rúben Fernandes (na foto) é natural da região." e por isso se intitula "Derby pouco algarvio".

Já o mesmo jornal, no dia 19 de Setembro, havia publicado as declarações de Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol, sobre o facto de Portugal ser o terceiro país europeu com mais estrangeiros nas suas ligas profissionais, afirmou que o "excesso de estrangeiros põe em perigo o futebol português".

Pelo mesmo caminho vai a chamada selecção "nacional"...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"O acordo ortográfico é uma merda"


Quem o afirma é o jornalista, dramaturgo, tradutor, cartunista, Millôr Fernandes, numa entrevista ao "Diário de Notícias", no passado 23 de Agosto. A mostrar que também no Brasil há quem veja o (des)acordo como ele é.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A Outra Guerra

Quando pensamos num filme de guerra norte-americano actual, lembramo-nos automaticamente do Iraque, o conflito que o presidente Obama decretou terminado deixando lá 50 mil soldados. Mas a construção na Nova Ordem Mundial implica várias frentes, como aquela onde no passado penaram ingleses e soviéticos e para onde o mesmo Obama enviou um contingente de reforço de 40 mil soldados no início do seu mandato. A outra guerra está a tornar-se a principal e a chegar ao cinema, como não podia deixar de ser.

É exactamente para esse teatro de guerra que, neste filme, é enviado o Capitão Sam Cahill (Tobey MacGuire) para uma segunda comissão. Já no Afeganistão, o helicóptero onde seguia é abatido e ele é dado como morto. A trágica notícia vai abalar a retaguarda caseira. Sam é casado, tem duas filhas e é o filho preferido. O seu irmão Tommy (Jake Gyllenhaal) é a “ovelha negra” da família, que ainda por cima acabou de sair da prisão. A tensão cresce e as coisas não são, obviamente, fáceis. No entanto, a vida continua e por vezes altera-se como não imaginamos. Tommy, antes bêbado e irresponsável, começa a aproximar-se das sobrinhas e da cunhada e até mesmo do pai que o despreza.

Mas, mais uma vez, todo este ambiente vai sofrer um tremendo safanão. Sam Cahill não morreu. Conseguiu sobreviver a um doloroso cativeiro de torturas e privações impostas pelos taliban devido a uma terrível acção. Quando por fim regressa a casa, em clara e natural situação de ‘stress’ pós-traumático, o regresso ao seu lar perfeito vai ser demasiado difícil.

Depressão, agressividade, ciúme, suspeição, dúvida e violência. Estão criadas as condições para um drama intenso e é o que acontece, com Jim Sheridan ao leme, a responder à altura. Este realizador irlandês, que se notabilizou com o excelente “Em Nome do Pai” (1993), consegue captar com segurança o desempenho dos actores, no qual assenta o filme. Este não é um clássico nem uma revelação, mas Sheridan oferece-nos uma obra bem construída e honesta, neste ‘remake’ do dinamarquês “Irmãos” (2004), realizado por Susanne Bier.

As actuações têm nota positiva, no geral, com destaque para o trio Natalie Portman, à vontade no papel da mulher de Sam, Jake Gyllenhaal, muito bem como o irmão que começa a entrar numa esfera familiar que não era a sua, e Tobey MacGuire, seguro e confiante, a tentar deixar para trás a inevitável colagem ao “Homem-Aranha”. Referência positiva também para Sam Shepard, no papel de Hank Cahill, o pai dos dois irmãos.

Um bom filme sobre os traumas da guerra e a forma como estes afectam necessariamente a estabilidade da vida familiar, onde uma relação fraterna de confiança é seriamente abalada. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dominique Venner em entrevista



Excelente entrevista com o historiador Dominique Venner, realizada por Laure Destrée, sobre a revista que ele próprio dirige, "La Nouvelle Revue d'Histoire", à venda nas bancas em Portugal. Venner afirma que o objectivo principal da revista é dar uma outra visão da História, ao contrário da interpretação que domina actualmente o ensino e os media, uma visão puramente maniqueísta entre os bons e os maus. A não perder!

A Armada Invencível 1588


A entrega do passado Sábado da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é sobre a frustrada invasão da Inglaterra pela chamada "Invencível Armada", uma das batalhas navais mais famosas da História. Este livro, da autoria do historiador escocês Angus Konstam, é uma boa introdução ao tema, ilustrado com várias imagens e mapas.

domingo, 12 de setembro de 2010

Que ler? Venner!


O Miguel Vaz releu "O Século de 1914", uma obra imprescindível de Dominique Venner, publicada em Portugal no ano passado pela Civilização, com tradução de Miguel Freitas da Costa. Este é realmente um livro para ler e reler, e para depois a ele continuar a recorrer. Por isso o Miguel diz que se tornou "de cabeceira". Eu li-o pela primeira vez no original, em francês, e reli-o em português. É, de facto, um livro inspirador, que cito amiúde. Uma síntese formidável para melhor compreender o século XX e perceber a actual situação da Europa.


Da ampla bibliografia de Venner, há outro livro que, na minha opinião, é ainda mais importante: "Histoire et tradition des Européens. 30 000 ans d'identité". Esperemos que um dia seja também traduzida para a nossa língua. Este regresso às origens, às referências europeias maiores, é um apelo ao renascimento de uma identidade multimilenar.


Referência ainda para outro livro excelente, "Le Coeur Rebelle", onde Venner faz uma reflexão autobiográfica profunda, falando do activismo político, da guerra, da prisão e da forma como mudou ao longo da vida sem no entanto se arrepender do passado.


Por fim, não me canso de recomendar aqui a óptima e obrigatória "La Nouvelle Revue d'Histoire", dirigida por Dominique Venner, que se vende nas bancas portuguesas.

sábado, 11 de setembro de 2010

Da queima de livros

O golpe mediático do pastor norte-americano que ameaçou queimar o Corão deu muito que falar na imprensa, como não podia deixar de ser. Como aqui já afirmei, "para mim, queimar livros é um crime hediondo". E neste caso não é diferente.

Mas este post foi motivado pelos vários textos que automaticamente apareceram a lembrar, a esse propósito, casos do passado, como a Inquisição, mas com especial referência ao III Reich. Neste último caso, é curiosa a desonestidade com que nunca se referem as destruições de livros pós-Segunda Guerra Mundial. Na Alemanha foram destruídas dezenas de milhares de livros escolares, de poesia, bem como obras de autores alemães "suspeitos de alimentar o militarismo", como von Clausewitz! Noutros países sucederam situações semelhantes, mas é algo que raramente é mencionado.

Da próxima vez que se chocarem (naturalmente) com a queima de livros, lembrem-se que todos os regimes o fazem... até os "bons".

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O Pequeno Hoplita


Na minha recente ida a Espanha, gostei de ver que o meu filho descobriu, por si, numa visita à Casa del Libro, um livro que eu havia visto na internet e me despertara a curiosidade. Comprei-o, claro. Trata-se de "El Pequeño Hoplita", publicado pela Alfaguara, da autoria de Arturo Pérez-Reverte e com ilustrações de Fernando Vicente. Esta excelente história, que nos leva às Termópilas e aos 3oo de Esparta, está magnificamente ilustrada. Uma óptima forma de transmitir aos mais novos um dos acontecimentos mais importantes da História da Europa e os valores a este inerentes. Para quando uma edição portuguesa?

Abaixo deixo algumas das ilustrações disponíveis no blog de Fernando Vicente.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Caixa

Richard Kelly estreou-se em grande como realizador com “Donnie Darko” (2001) e é natural que a sua primeira obra – que é também a sua obra-prima – seja usada como termo de comparação para os trabalhos seguintes. Assim, este seu filme fica muito aquém do desejado, apesar de ser interessante. Estará o talento de Kelly confinado ao seu golpe de génio inicial? O futuro o dirá, mas espera-se sinceramente que não.

“Presente de morte” (adiante falarei desta tradução) conta-nos a história de um típico casal suburbano norte-americano. Ela é professora e ele é engenheiro na NASA, têm uma vida aparentemente normal até que num período de dificuldades laborais inesperadas são confrontados com uma estranha proposta. Arlington Steward (Frank Langella), um homem misterioso, com a cara deformada e extremamente educado e formal, oferece-lhes um milhão de dólares se carregarem no botão da caixa que lhes deixa durante 24 horas, o tempo para decidirem. Mas a decisão está longe de ser fácil, já que Arlington lhes diz que ao ser pressionado o botão morrerá uma pessoa que eles não conhecem. Obviamente, este dilema moral provoca grandes alterações na vida familiar do casal Lewis. Algo entre o recorrente pensamento “e se ganhássemos a lotaria?” e o desprezo pela vida de quem não se conhece.

Outro aspecto bastante interessante é o filme passar-se nos anos 70 do século passado. Apesar do seu tema intemporal, esta opção resulta muito bem. O ambiente está fielmente recriado e por vezes traz-nos à memória os filmes de terror dessa altura – finais de 70 início de 80.

Há um diálogo memorável em que Arlington Steward, quando questionado sobre o porquê do objecto ser uma caixa, responde que a nossa casa é uma caixa, o nosso carro é uma caixa com rodas, e em casa olhamos para uma caixa que vai desgastando a nossa alma até que a caixa que é o nosso corpo morre, para acabar na última caixa. E se repeti na frase anterior sete vezes a palavra “caixa” é porque esse seria o título óbvio para este filme. Bastava fazer uma tradução directa e mantinha o seu carácter enigmático. Mas não, foi preferida uma tradução livre – que neste caso foi mesmo a liberdade para traduzir para o que se quer – que aponta para um filme de terror e desvenda em parte a história.

Nos desempenhos, o destaque vai sem sombra de dúvidas para o excelente Frank Langella. Cameron Diaz cumpre, estando à altura do exigido, e James Marsden desilude numa fraca interpretação. Outra nota negativa para a estreia tardia, numa altura em que há estreias simultâneas é incompreensível que filmes como este cheguem às salas nacionais um ano depois da sua ‘première’ norte-americana.

Apesar do seu início interessante e das imensas possibilidades, o confuso e exagerado ‘twist’ ficção científica com pitadas de terror não resulta no grande filme que este podia ser. Voltando ao princípio, esperemos o regresso do génio de “Darko”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nuno Gonçalves

O «Público» iniciou hoje a distribuição da colecção "Pintores Portugueses" e a primeira entrega é um livro sobre Nuno Gonçalves, da autoria de Pedro Flor, que faz também uma análise dos Painéis de São Vicente. O preço deste volume é de €3. Vale bem a pena.

Dia d'O Diabo

domingo, 5 de setembro de 2010

Lepanto 1571


A entrega de ontem da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é mais uma vez sobre um momento crucial da História da Europa - a Batalha de Lepanto, em 1571. Este livro, da autoria do historiador escocês Angus Konstam, é muito interessante e bem feito, nomeadamente na parte militar, como não podia deixar de ser.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um regresso à Guerra Fria

No início deste Verão, as notícias dos agentes secretos russos descobertos e acusados nos EUA trouxeram recordações da Guerra Fria. Coincidência cinematográfica, é o que faz “Salt”, realizado pelo australiano Phillip Noyce, que se tornou conhecido com “Calma de Morte” (1986), onde volta a reencontrar Angelina Jolie, depois de “O Colccionador de Ossos” (1999).

Esta actriz, que no género dos filmes de acção é difícil de dissociar da personagem de vídeo-jogo Lara Croft, trazida ao cinema na série “Tomb Raider” (2001 e 2003), não é propriamente uma das minhas actrizes de eleição. No entanto, depois de saber que o papel principal de “Salt” estava originalmente previsto para Tom Cruise, devo dizer que Angelina Jolie acabou por salvar este filme do desastre total.

Nem começa mal. Evelyn Salt é uma agente da CIA que é acusada por um dissidente russo de ser uma agente adormecida. Segundo as suas revelações, ela pertence a um grupo de crianças que foram treinadas numa base secreta na antiga União Soviética e depois introduzidas nos EUA para chegarem a lugares de destaque dentro da estrutura do poder para utilizações futuras. A sua missão: assassinar o presidente russo durante o funeral do recém-falecido vice-presidente norte-americano. O objectivo: reacender a Guerra Fria entre os EUA e a Rússia.

Ela vai escapar-se espectacularmente da sede da CIA e, a partir daí, a acção frenética não pára mais. De início, a destreza, eficácia e segurança de Salt fazem-nos lembrar um Bourne feminino, com qualquer coisa de McGyver. É implacável, impiedosa e inventiva. Mas também é inverosímil, sem bem que neste género os limites ultrapassam-se muitas vezes, para gáudio do público. Conta, ainda assim, com alguns pormenores inovadores, como a cena em que Salt, refugiando-se durante uma perseguição numa casa de banho pública, cola um penso higiénico na perna para estancar uma ferida, ou quando movimenta a carrinha numa fuga dando choques eléctricos com um ‘taser’ à condutora.

O que se segue é que desilude. Girando à volta da protagonista, as restantes personagens são demasiado superficiais, quando não vazias. O cúmulo é mesmo o marido de Salt, posto à pressão para dar uma das explicações da história. O próprio enredo deixa a desejar com uma exagerada sucessão de pseudo-revelações anunciadas. Os diálogos são pobres e sempre na turbulência da agitação permanente.

É mesmo pena que não se tenha ido mais além na recuperação de um tema bem interessante como este. Mas enfim, há quem goste da acção pela acção, como uma pastilha elástica que se mastiga e mastiga e nunca se chega a comer nada. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]