segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Vá para fora cá dentro... e não só

Depois de um período na Beira Alta, eis que chego à cidade onde no século XVII o Capitão Alatriste se viu às avessas com "O Ouro do Rei". E está um — típico — calor de morte!

domingo, 29 de agosto de 2010

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Os Indo-Europeus (III)



Uma óptima novidade editorial francesa, apresentada neste vídeo pelo presidente da Terre et Peuple, Pierre Vial, é a publicação de uma edição revista e aumentada do livro "Les Indo-Européens", de Jean Haudry, pelas Éditions de la Fôret, que tem por base o publicado pela PUF na colecção "Que sais-je ?", em 1981, e que teve várias edições e traduções, incluindo uma portuguesa que referi aqui.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A festa de Stallone

Parece que Sylvester Stallone decidiu fazer uma espécie de encontro dos antigos combatentes dos filmes de acção de Hollywood. Convidou todos os amigos e realizou uma obra que apenas se pode considerar uma paródia em homenagem a este género. O problema é que, mesmo assim, é uma estopada.

O argumento resume-se a uma colecção dos lugares-comuns deste tipo de filmes. É aborrecidamente previsível e penosamente sem piada. A única cena cómica verdadeiramente engraçada é protagonizada por Arnold Schwarzenegger, na fugaz aparição do agora governador da Califórnia. Há que dizer que a ideia das cenas em que Stallone goza com ele próprio é boa, mas simplesmente não resulta.

Não sou daqueles que descartam automaticamente este italo-americano com hipertrofia muscular, que garantiu um lugar entre os grandes nomes dos actores de filme de tiros e pancada. Há que dizer que o primeiro Rambo, “A Fúria do Herói” (1982), é um bom filme sobre o difícil regresso da Guerra do Vietname, bem como o primeiro “Rocky” (1976), com o devido encaixe. O que se seguiu nessas duas séries – aparentemente intermináveis – foi muito mau, mas ao que parece foi apenas motivado pelo lucro fácil perante um público “pouco exigente” (para ser simpático). Mas Stallone foi construindo a sua carreira, como quis e entendeu, atingindo um estatuto que lhe permite, agora, fazer brincadeiras como “Os Mercenários”.

Descurando enquadramentos e necessidade narrativa, como era de esperar, há acção com fartura; para “dar e vender”, como reza a expressão popular. Explosões, tiros, armas potentes e pancadaria da grossa, com cenas explícitas e brutais. Mas isso é o menos, porque o pior – mesmo considerando que é uma paródia – é a historieca do ditador de uma minúscula ilha latino-americana ficcionada, com uma bandeira que mais parece de um país árabe, controlado por um mauzão renegado da CIA. Perante tal cenário, um grupo de mercenários aparece para “salvar o dia” – numa tradução directa da expressão americana – muito ao jeito da série televisiva “Soldados da Fortuna”, tendo como contacto a própria filha do general, defensora da liberdade. Já fora da paródia, o espírito do filme é que a América é que é fixe. Aqui, até estes guerreiros a soldo acabam por ter valores e princípios. Pelo meio, ainda debitam algumas das diabolizações recentes da propaganda norte-americana, como na referência aos “malvados sérvios”.

O exagerado elenco de estrelas caídas (pelo menos etariamente) serve apenas para comentar para o lado: “Olha aquele, como ele está…” O mais ridículo é mesmo a recusa da idade de tantos deles, com o recurso à cirurgia plástica, tão em voga, mas que chega a desfigurar as pessoas. O cúmulo é um Mickey Rourke que mal se consegue levantar da cadeira. Para concluir, digo apenas que ir ao cinema ver estes “dispensáveis” é sem dúvida dispensável. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

IdentidaD n.º 30

Os nossos brinquedos

Confesso: conservo ainda a maior parte dos meus brinquedos de infância. Não só por motivos sentimentais, mas principalmente devido à minha veia coleccionista. Alguns dei-os já ao meu filho, mas muitos continuam na arrecadação. Como que a dizer que certas coisas que guardamos de outros tempos as vamos passando, gradualmente, às gerações seguintes.

Quem estranhar estas linhas, percebê-las-á quando vir o perturbante início do último filme da trilogia “Toy Story”, iniciada em 1995. O tempo passou e Andy já não é mais uma criança. Vai para a universidade e isso implica mudanças em casa. Decide colocar o seu ‘cowboy’ Woody nas coisas que vai levar com ele e o resto dos seus brinquedos num caixote para guardar no sótão. No entanto há um equívoco que leva os nossos conhecidos heróis a quase serem triturados por um camião do lixo, para acabarem doados a um infantário onde os mais pequenos os tratam, literalmente, à pancada. Mas isso não é o pior, pois depressa descobrem que foram parar a um verdadeiro ambiente prisional controlado por um grupo de brinquedos maus liderados por Lotso, um traumatizado urso de peluche cor-de-rosa.

A partir daí vai viver-se uma aventura para miúdos e graúdos, com várias referências a clássicos, numa história que junta a fuga e o reencontro, a desilusão e o recomeço. Pelo meio há uma série de situações cómicas muito bem conseguidas, como a cena em que Buzz Lightyear, o astronauta do Comando Estelar, é reprogramado pelos seus captores para um modo em que fala espanhol.

Uma das coisas mais extraordinárias e surpreendentes nesta obra dirigida por Lee Unkrich é a personagem Ken, o companheiro da Barbie, a quem é dito a determinada altura: “Tu não és um brinquedo, és um acessório!” Este dilema, ao qual se juntam o estilo desajeitado e efeminado proporcionam ao filme situações verdadeiramente hilariantes.

Esta é a primeira longa-metragem da Pixar a ser realizada em 3D, mas não exagera, felizmente. Aliás, toda a tecnologia neste filme é – como deve ser – acessória. Aqui o interesse fundamental é a história, a riqueza das personagens e o efeito que têm em nós.

Um filme de família no sentido pleno do termo, que nos mostra a importância das brincadeiras, da amizade, da transmissão de valores, da passagem do testemunho. Porque esse é o seu propósito: a continuidade. Um filme a ver, naturalmente, em família. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

domingo, 15 de agosto de 2010

Uma pouca vergonha


Já na última página da edição d'«O Diabo» da passada terça-feira, se dava conta de uma situação deplorável: a da transformação do Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém, num "lava-pés"! Ontem, no «Diário de Notícias», foi a vez do Eurico de Barros denunciar esta pouca vergonha. Escreve ele: "Uma coisa é enfiar as mãos na fonte do Rossio numa tarde de brasa, outra é usar o monumento aos Mortos do Ultramar como piscina e solário, como parece estar a tornar-se hábito, sobretudo nestes últimos dias em que a canícula não deu tréguas. Nestes tempos em que anda tudo de boca cheia com "cidadania" e "civismo" por causa dos 100 anos da República, convinha que as pessoas, sobretudo as mais encaloradas, percebessem que o Monumento aos Mortos do Ultramar não é uma peça de "arte pública" para usufruto do cidadão, muito menos o sucedâneo de uma piscina municipal onde a malta vai chapinhar e esticar-se ao sol para ficar mais tostadinha".

É caso para repetir o que escreveu "O Diabo": "Haja decoro!"

Zen Anarchist

Ontem referi aqui John Milius, argumentista de "Apocalypse Now" (1979) e realizador de "Conan, o Bárbaro" (1982), por exemplo, foi também actor e, recentemente, escreveu e produziu vários episódios da óptima série televisiva "Roma". Lembrei-me de um post que lhe dediquei no defunto Jantar das Quartas e onde partilhei a ligação para uma excelente entrevista sugerida por um leitor. Uma excelente (re)leitura!

sábado, 14 de agosto de 2010

Coração das Trevas

Na iniciativa "Biblioteca de Verão", «Diário de Notícias» oferece hoje com o jornal o livro "O Coração das Trevas", de Joseph Conrad, a obra em que John Milius se baseou para esccrever o argumento do filme "Apocalypse Now". A edição não é das melhores, mas é sempre de aproveitar.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Já cá canta!

Há um ano atrás, quando saiu o quinto volume da série do Capitão Alatriste, disse aqui que aguardava a tradução de “Corsários de Levante”, para termos em português todas as aventuras deste herói popularizado por Arturo Pérez-Reverte publicadas até agora. A espera terminou e hoje comprei o livro. Uma óptima leitura para este Verão!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Navios japoneses em Lisboa

Não pude ir visitar os navios japoneses que estão em Lisboa devido aos horários impeditivos, mas felizmente o Defesa Nacional proporcionou uma óptima série de fotografias. Obrigado!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 49

Já saiu o número 49 de «La Nouvelle Revue d'Histoire», a revista de referência que aconselho regularmente e é possível comprar nas bancas portuguesas. De leitura obrigatória, traz-nos mais uma vez um tema da maior actualidade: o Afeganistão. O excelente dossier inclui artigos de Jean-Dominique Merchet, Philippe Conrad, Mériadec Raffray, Didier Donnersmark e Aymeric Chauprade. Destaque ainda para as entrevistas com Henri Bogdan sobre a Mitteleuropa, e com David Victoroff sobre a crise do Euro e o futuro da Europa, e para os artigos “Carlos Magno, Imperador do Ocidente” de Emma Demeester, “Os camponeses de onde nós vimos”, de Anne Bernet, “A tumba do Dr. Freud”, de Charles Vaugeois, sobre o livro de Michel Onfray, e “1940. A revanche da Rechswehr”, de Dominique Venner. Nota especial para o artigo de Jean-Michel Baldassari, “Imigração: revelações de um demógrafo”, sobre o livro de Michèle Tribalat sobre a imigração em França. Como habitualmente, temos a crónica de Péroncel-Hugoz e as secções do costume.

O controlo


Continuando o raciocínio da semana passada, António Marques Bessa escreveu na edição de ontem d'«O Diabo»:

"A democracia vigiada também é o controlo do cidadão pela máquina. Logo que a classe política profissional se viu entrincheirada no poder, com a economia na mão, raciocinou bem: só nos falta controlar as massas. E as massas são as pessoas consideradas uma a uma. Tornou-se fácil, com o Estado despesista e sem limites de orçamento, começar a pentear o tecido social para encontrar inimigos e quem interessa para pagar as suas contas. Então, em vez do odioso militar e o cárcere no quartel, o cidadão passou a ter direito a uma observação constante do Ministério das Finanças, que paulatinamente constrói ficheiros e acena com anos de cadeia como se fosse um cacho de bananas. Diversos órgãos de espionagem da república como o conhecido SIS, como o conhecido SIR, como os serviços de informação especiais de cada Ministério, bem com as redes pessoais de cada "homem grande", estendem-se sobre os portugueses para apurar o que andam a fazer, especialmente os mais activos. O acesso a contas confidenciais de simples cidadão, que a eles diz respeito como rotina, é mais um aspecto da vigilância que não será para desprezar, porque a independência económica assegura a independência política. As redes asseguram outros a ficarem impunes: fazem-nos desaparecer e a massa esquece o nome e o que ele fez.
As redes internacionais de informação e controlo ajudam a que este sistema ainda funcione melhor: trocam dados, aconselham técnicas de vigilância, de gravação, mesmo os computadores pessoais podem ser penetrados e toda a informação tida por bem guardada pode ser espionada e vasculhada por um especialista contratado por uma destas redes.
"

Carlos Eduardo Soveral - In memoriam

O Nonas lembrou Carlos Eduardo Soveral no passado 7 de Agosto, dia do aniversário da sua morte. Esta recordação fez-me resgatar da prateleira o muito recomendável livro "Visão indo-europeia ou afã de entender", publicado pela Hugin em 2001. Escolhi a conclusão da "Nota sobre a Exortação da Guerra de Gil Vicente e a trifuncionalidade indo-europeia" para partilhar aqui:

A trifuncionalidade indo-europeia, estudada e magistralmente explicada-iluminada por Dumézil de meio século e de milhares de páginas de uma obra exundiosíssima encontra nesta tragi-comédia de Gil Vicente surpreendente ilustração. Qual se o grande dramaturgo peninsular se figurasse criticamente essa trifuncionalidade e, criticamente, levando pela mão o seu portentoso engenho, tivesse querido exprimi-la de forma teatral. Desnecessário seria dizer que isso não teve, decerto, lugar, uma vez que o talento verdadeiro se encontra de natura misteriosamente assimilado com as essências e estruturas profundas de toda a realidade.

O Império contra-ataca

Este é o excelente último álbum dos Hobbit, que não me canso de ouvir.

Sonho e pesadelo

Os nossos sonhos são um mundo paralelo que interage com o mundo real? Se assim é, um pode influenciar o outro? É então possível manipular um através do outro? Questões que nos traz Christopher Nolan em “A Origem”, filme que realizou e escreveu, que tem sido um sucesso de bilheteira e gerado reacções diversas.

No mundo dos sonhos tudo nos é permitido e Nolan joga com isso para construir uma viagem mental profunda sobre a própria vida e as nossas decisões, os seus caminhos e as nossas opções, os seus paradoxos e mistérios. No plano técnico desta construção, o realizador tanto teve o bom senso de recusar o 3D, como de utilizar os efeitos especiais computorizados ao serviço do filme e não – como parece ser moda ultimamente – como seu objecto central.

A história passa-se num futuro próximo onde é possível entrar nos sonhos alheios e roubar ideias. Este método é bastante utilizado na espionagem comercial, o que levou à necessidade de sistemas de defesa contra tais intromissões. Mas o que vai ser proposto a Cobb (Leonardo DiCaprio) é algo diferente: a colocação de uma ideia na mente de alguém, para provocar um determinado resultado. Isto é considerado praticamente impossível, mas o protagonista aceita o trabalho mediante a perspectiva de resolução da sua vida e do reencontro com a sua família. Para este golpe, precisa de um arquitecto que construa o cenário onde se passará o sonho e descobre a jovem Ariadne (Ellen Page). O nome desta personagem não é inocente e a sua primeira prova de selecção é desenhar labirintos. Na mitologia grega, a filha de Minos, o rei de Creta, deu a Teseu um novelo de linha que lhe permitiu encontrar o caminho de volta do labirinto. O fio de Ariadne tornou-se depois um método lógico para a resolução de um problema. Parece que a chave está nesta referência ao labirinto, símbolo ancestral que remonta ao Neolítico, neste filme que sai dos simplismos habituais de Hollywood. Curiosa, também, no nome de uma das personagens, a recordação do grande mestre do xadrez Bobby Fischer.

Mas, considerações profundas à parte, era preciso fazer um ‘blockbuster’. Nolan não hesitou em aplicar a chapa do ‘heist movie’, com ritmo elevado, muita acção e referências que nos levam a trabalhos anteriores do realizador ou a filmes como “Matrix” (1999) e até “Ao Serviço de Sua Majestade” (1963). Este último vem-nos automaticamente à mente nas cenas na neve, passadas numa fortaleza de montanha, onde todo o ambiente bondiano se torna aborrecido, porque desnecessário. As cenas de tiros e explosões estão muito bem feitas e visualmente bem conseguidas, mas são exageradamente demoradas e prolongam demasiado o filme.

Lembre-se que este filme era um dos projectos de vida de Christopher Nolan e que teve todos os meios, técnicos e financeiros, para o realizar. O grau de exigência torna-se, assim, mais elevado. A fantástica ideia que é colocada neste trabalho não se desenvolve como se esperava. Mas será que isso alguma vez acontece? [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Mar e camaradagem



A CasaPound Latina dispõe de vários quartos para quem quiser passar uma noite ou vários dias de férias com um programa de camaradagem e praia.

Para mais informações sobre reservas de quartos, escreva para casapound2006@libero.it

Algumas palavras sobre Latina:
Latina é uma cidade italiana com 118 mil habitantes, que é também o centro administrativo da região da Lazio. Situa-se a 50 km a sul de Roma e foi fundada a 30 de Junho de 1932, o que a torna uma das cidades italianas mais recentes, mas também um exemplo da arquitectura fascista. Inicialmente foi nomeada Littoria, sendo rebaptizada depois da Segunda Guerra Mundial. Latina está no coração do Agro Pontina, uma planície agrícola fértil. O centro da cidade está a dez minutos das praias do Mar Tirreno.

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Back to Mac

Dedicado ao Pedro Guedes.


Não contando com aquele ícone da minha adolescência que foi o ZX Spectrum, o meu primeiro computador foi um Macintosh Plus. A culpada desta iniciação informática foi a minha mãe que, nos idos anos 80 do século passado, decidiu comprar uma máquina dessas para uso doméstico. Rapidamente todos nos habituámos intuitivamente à facilidade de utilização de um computador. Lembro-me que os meus colegas de liceu estranhavam e os professores também. Não por ser um Mac, mas por quase ninguém ter computador, muito menos entregar trabalhos impressos. Foi uma aventura engraçada até que, devido aos projectos de engenharia do meu pai, um PC entrou lá em casa. Um verdadeiro pesadelo! Para quem estava habituado a usar o ambiente Mac e o respectivo processador de texto, usar comandos MS-DOS e o insuportável WordStar era uma verdadeira tortura. Nessa altura cheguei a ganhar uma certa aversão a computadores...

Depois veio o Windows, esse monoteísmo informático, que nivelou tudo. Converti-me, como tantos outros, forçadamente. Até ao passado fim-de-semana, quando comprei um Mac e em poucos minutos reencontrei a facilidade de um sistema que faz muito mais sentido na minha cabeça. Mas também porque talvez não haja amor como o primeiro...

E sim, este post foi escrito num Mac.

Eterno reencontro


Tenho uma teoria muito minha (mais uma...) de que os verdadeiros amigos se reencontram sempre. Antes de tentarem negá-la, dou aqui um exemplo prático.

Há anos que não sabia do Afonso, mas graças à internet descobri que ele se havia tornado num Wenceslau de Moraes (escrito à antiga, comme il faut...) hodierno. Vive agora no sul do Japão e mantém um excelente blog que nos traz as últimas novas nipónicas à velha Lusitânia e alhures.

Fica aqui um convite a todos para visitarem o Último Nan Ban Jin, as aventuras e desventuras de um português No Japão, em pleno século XXI, e um grande abraço a um Amigo que está longe fisicamente, mas perto em espírito. A ele dedico A Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai.

Nagasaki

Hoje é um dia em que não podemos deixar passar em branco os crimes dos "bons" e no qual devemos relembrar a realidade nuclear.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Entrevista com Alain de Benoist

Alain de Benoist esteve em Lisboa e o Flávio aproveitou para fazer uma excelente entrevista que foi publicada no semanário «O Diabo». Finalmente, decidiu reproduzi-la integralmente no seu blog. Aqui fica uma das questões sobre o posicionamento esquerda/direita:

As suas obras parecem ser muito populares entre uma larga franja de activistas, não só entre a direita, alguns vêem-no inclusive como um Noam Chomsky europeu. Pese embora a corrente intelectual a que pertence ter ficado conhecida pelo nome de Nova Direita, considera-se um homem de direita?

Não me insiro de forma alguma na clivagem Esquerda-Direita. Já fui algumas vezes definido como um “homem de esquerda de direita” ou como alguém que tem valores de direita e ideias de esquerda. Nada disto faz muito sentido. A direita e a esquerda nasceram com a modernidade e estão em vias de com esta desaparecer. Para mais, houve sempre uma pluralidade de direitas e de esquerdas muito diferentes. Algumas dessas direitas tinham mais afinidades com certas esquerdas do que com as outras direitas (e vice-versa). Consoante as épocas e os países, as ideias catalogadas à direita ou à esquerda podem igualmente variar. Razão pela qual os politólogos há já muito tempo que renunciaram a dar uma definição unitária da “direita” ou da “esquerda”. A “direita”, hoje em dia, pode ser republicana ou monárquica, democrata ou anti-democrática, cristã ou anti-cristã, favorável à construção europeia ou hostil a essa construção, pró-americana ou anti-americana, liberal ou anti-liberal, reaccionária ou revolucionária, etc. O facto de alguém se apresentar como um “homem de direita” não nos diz pois grande coisa acerca do seu pensamento. O que conta, não são as etiquetas, mas o conteúdo das opções que se fez.

As noções de direita e de esquerda já não são hoje em dia operacionais no campo das ideias. Mantêm-se por hábito no domínio da política parlamentar, mas todas as sondagens mostram que o eleitorado tem cada vez mais dificuldade em identificar o que as diferencia. A sociologia eleitoral mostra também que os sufrágios são cada vez mais voláteis: enquanto que antigamente o voto passava de pai para filho, a favor das mesmas famílias políticas, hoje em dia cada vez mais os eleitores votam sucessivamente em candidatos “de direita” ou “de esquerda”. Enfim, constata-se que todos os grandes acontecimentos destes últimos anos revelaram novas clivagens, que atravessam as famílias políticas.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Casa de loucos

O que sabemos da Grécia ultimamente não passa de notícias sobre a crise económico-financeira que atinge a Europa, mas eis que em pleno Verão nos chega o cinema contemporâneo grego, pela mão de Yorgos Lanthimos, realizador que conseguiu com esta sua segunda longa-metragem o prémio “Un certain regard” em Cannes e o grande prémio do Festival Internacional do Estoril, entre outros.

“Canino” não é um filme fácil. É uma experiência alucinante, violenta e perturbante que nos transporta a uma casa de loucos onde se vive uma realidade alterada. Um olhar sobre o controlo dos outros e a manipulação do discurso levado ao extremo. A acção passa-se na Grécia dos nossos dias, mas fica a percepção que poderia muito bem passar-se noutro local e noutro tempo.

O plano inicial, onde um velho leitor de cassetes “explica” que várias palavras têm significados diferentes daqueles que lhes conhecemos, é um verdadeiro mergulho de cabeça nesta história onde o pai mantém, com a cumplicidade da mulher, a sua família numa redoma fechada ao mundo exterior. Tudo se passa numa grande vivenda afastada da cidade onde filhos são isolados do mundo “perigoso” lá de fora por um domínio psicológico brutal, até estarem “preparados”. Nessa “preparação”, que não é mais do que uma parte importante do mecanismo de controlo, os filhos têm fazer jogos e tarefas, sendo premiados com pequenos autocolantes. Este sistema de recompensas lembra automaticamente a educação canina. Há aliás um paralelo entre um cão que a determinada altura sabemos que está a ser treinado numa escola especializada a pedido do pai e um dos “treinos” que este dá aos membros da família para se protegerem dos gatos – os “mais perigosos animais do mundo” –, pondo-os de gatas a ladrar.

Os filhos, cujos nomes nunca sabemos, conhecendo-os apenas por o irmão, a irmã mais velha e a mais nova, são jovens adultos com atitudes acriançadas. O rapaz tem o privilégio de satisfazer as suas necessidades sexuais com uma empregada de segurança que o pai traz da empresa onde trabalha. Mas o sexo com Christina é mecânico, serve aquele propósito e mais nada; não há paixão, nem emoção. Esta rapariga é, assim, um contacto com o mundo exterior e logo se tornará um problema.

Entre os filhos começa a subir a tensão. Apesar do medo criado sobre o mundo lá fora, a curiosidade aumenta. Os métodos de castigo e repreensão já não conseguem evitar todas as transgressões. Aqui está a grande questão do filme. Até que ponto se cria uma realidade para atingir determinados objectivos? Até onde deve uma família proteger-se?

Nesta desconstrução das realidades construídas o campo está aberto a todas as interpretações. Se do modelo familiar passarmos ao modelo de sociedade, e não necessariamente a totalitarismos passados – esses também mais ou menos mitificados –, encontramos hoje vários pontos em comum, das “operações de paz” à guerra das palavras “incorrectas”. Um filme de loucos, mas que dá que pensar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Nevoeiro

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa
in "Mensagem" (1934).

Ainda a propósito...

... do post anterior, façamos um regresso aos arquivos desta casa.

1. A preocupação de Angola com a imigração já não é novidade, num país onde a questão racial está presente.

2. O caso de perseguição política em Portugal a propósito de uma campanha contra os produtos chineses.

3. Outro caso igual ao anterior, mas onde já não há "racismo".

Racismos (XV)

Disse ontem o «Público» que: "A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé manifestou o receio de que a excessiva importação de mão-de-obra chinesa leve ao desemprego de milhares de angolanos." Mas não há motivo para preocupação porque, como afirmou o sempre atento Harms,"isso não é grave. Se os bispos portugueses fizerem o mesmo em relação aos angolanos ou chineses presentes em Portugal já estamos perante um gravíssimo caso de contornos racistas e xenófobos."

A caminho da democracia vigiada

Este é o título do interessante artigo de António Marques Bessa publicado na edição do semanário «O Diabo» de ontem. Falando sobre o significado do termo "democracia", incessantemente repetido no nosso país, a propósito de tudo e nada, conclui desta forma: "A grande tragédia é terem transformado a democracia residual numa ideologia de exportação de negócios e desorganização de sociedades que não podem viver assim. Já escrevia Montesquieu que os regimes de pequenos países não servem para os impérios, e vice-versa. Porém, no nosso País, todos os dias andam a descobrir a pólvora: talvez um dia se deparem com um leque de sistemas e tenham a sorte de escolher o menos mau. Há uns anos, Margarida Sebastião escreveu uma tese editada onde analisava o caso suíço e deixava pendurada na capa a pergunta chave: a democracia directa ainda interessa?
Pois é. Talvez seja essa que nos interessa – ao povo que assiste à governança e não pode fazer nada porque está de mãos atadas. Os suíços têm-nas e conservam-nas bem livres. E julgo que quererão continuar a querer controlar o seu destino.
"

domingo, 1 de agosto de 2010

Racismos (XIV)

Num interessante artigo sobre a Al-Qaeda do Magrebe (AQMI), organização que opera aqui bem perto de nós e já se referiu à "reconquista do Al-Andalus" apelando à "guerra santa" contra a Península Ibérica, publicada na edição do semanário «Expresso» de ontem, há uma referência ao "racismo branco e árabe" da Al-Qaeda. Diz o texto que: "As filiais da Al-Qaeda no Magrebe são árabes e brancas. Não recrutam negros."