quinta-feira, 29 de julho de 2010

Um dia e noite para esquecer

A maré de Verão dá à costa alguns bons filmes, mas também nos traz habitualmente aquelas grandes produções de Hollywood com muitos efeitos especiais e actores conhecidos que, após muito alarido, constatamos que não passam de uma verdadeira perda de tempo, mesmo para quem esteja nas chamadas férias grandes.

É o caso de “Dia e Noite”, que na sua publicidade prometia ser um estrondo do entretenimento estival, mas que se revelou um ‘flop’ de bilheteira nos EUA em detrimento de outros filmes que supostamente não seriam tão do agrado dos espectadores norte-americanos. Os maus resultados comerciais iniciais motivaram inclusive uma alteração de imagem na sua campanha promocional. Mudança de mentalidades na pátria do cinema ‘pop-corn’? Duvido. O facilmente constatável é a baixíssima qualidade desta película. Até os ruminadores de pipocas se recusam, por vezes, a comer tudo o que lhes põem à frente.

Esta é uma tentativa de comédia de acção na qual pouco há a desmontar. June Havens (Cameron Diaz) é rapariga solteira que se encontra para todo o filme com Roy Miller (Tom Cruise), um agente secreto numa missão perigosíssima. Ela tem o seu quê de Maria-rapaz, como o gosto pela reparação de automóveis clássicos. Como diz a determinada altura: “O meu pai queria rapazes…” Ele tem uma descontracção permanente e uma agilidade surpreendente, enquanto mata malandros a torto e a direito. Esta dupla vai andar todo o tempo numa correria ofegante, entre tiros e explosões, motas e aviões, saltando entre vários pontos do mundo.

Os ingredientes cómicos limitam-se a situações rocambolescas forçadas e expressões aparvalhadas. Há também uma série de referências aos filmes de agentes secretos, como a cena em que Cruise sai do mar a lembrar o James Bond de “Casino Royale” (2006).

Um pormenor que não nos escapa, ainda para mais como portugueses, são as calinadas geográficas. Serão mais tentativas falhadas de comédia (duvido) ou a habitual ignorância norte-americana nesta disciplina? O refúgio de Roy Miller é um ilhéu tropical que os maus da fita localizam nos Açores! Aqui ao lado, em Espanha, há uma perseguição que decorre entre uma largada de touros na festa de San Fermín… em Sevilha! Mas há mais. Para dar um último exemplo, há uma cena passada na Áustria onde vemos polícias com a designação “Polizei” nas costas cruzarem-se a equipa de médicos legistas com blusões com a inscrição “Coroner”… É piada? Não se percebe.

Ver Tom Cruise a fazer dele próprio e Cameron Diaz em biquíni numa não-história acelerada, com cenas de acção exageradamente irreais e comédia sem graça? É caso para dizer que, ainda por cima com este tempo, há coisas melhores para fazer. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Salazar morreu há 40 anos

No dia em que se cumprem 40 anos da morte de Salazar, há dois textos no jornal «i» de hoje para que chamo a atenção: "Salazar morreu há 40 anos, mas os discípulos ainda andam por cá", um artigo de Kátia Catulo, e o ensaio de Jaime Nogueira Pinto "Entre Repúblicas".

domingo, 25 de julho de 2010

A biblioteca do militante


Hoje às 22 horas, o tema do Méridien Zero, o programa francês da Radio Bandiera Nera, é da maior importância: a biblioteca do militante. A ouvir.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Terre & Peuple Magazine n.º 44

O último número da revista da Associação Terre et Peuple tem como tema de capa um assunto essencial no nosso combate “Mundialismo: o mal absoluto”, que como nos diz Pierre Vial na apresentação do excelente dossieré a expressão ideológica de uma visão monoteísta do mundo, que quer impor à humanidade inteira o reino de um modelo sociopolítico único, baseado no poder total da economía, do dinheiro, do lucro, da especulação.” De seguida podemos ler artigos de Claude Perrin, Jean-Patrick Arteault, Roberto Fiorini e Alian Cagnat. A destacar nesta edição o artigo de Pierre Vial sobre as “grandes manobras judaicas de sedução à extrema-direita europeia”. Podemos ainda ler as habituais críticas a livros, cinema e a banda desenhada, bem como comentários sobre a actualidade e a rubrica de culinária e o relato das actividades da associação.

É possível ver um vídeo com a apresentação deste número da revista por Pierre Vial aqui.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Réfléchir & Agir n.º 35

O número de Verão da obrigatória «Réfléchir & Agir», a “revista autónoma de desintoxicação ideológica”, tem como tema central “O catálogo dos nocivos”, título inspirado no livro homónimo de Serge de Beketch, que nos fala dos partisans e teóricos da sociedade aberta, da hiperclasse mundial, de Bernard-Henri Lévy, de Finkielkraut, dos antifas, do homo festivus, da economia moderna, dos ecolocratas, com artidos de Eugène Krampon, Pierre Gilleth, Marion Fintan, Eric Norholm, e uma entrevista com o almirante François Jourdier que desmonta o diário «Le Monde» e a sua desinformação. Destaque ainda para a grande entrevista com a histórica directora do «Rivarol», a jornalista Camille Galic, o artigo de Christian Bouchet sobre a América de que podemos gostar, a reflexão sobre o panfleto dos anos 20 «Les Derniers Jours» redigido por Pierre Drieu La Rochelle e Emmanuel Berl e o artigo “Cristóvão Colombo o impostor”, de Henri Durant. Nas notas de leitura, temos várias páginas de livros para descobrir. Não esquecendo as habituais críticas, música e cinema, os breves comentários à actualidade e outras secções habituais.

Este número da revista esteve em destaque numa emissão recente do Méridien Zero, o programa francês da Radio Bandiera Nera, onde foi entrevistado Eugène Krampon.

MNE iraniano em Lisboa



Na semana passada, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Manuchehr Mottaki, esteve em Lisboa, no quadro de uma deslocação a seu pedido, tendo sido recebido por Luís Amado na terça-feira. No dia seguinte reuniu-se num pequeno-almoço de trabalho com jornalistas e correspondentes, onde representei O DIABO e tive oportunidade de lhe colocar algumas questões. Visitou, depois, a Assembleia da República onde se cruzou com o seu homólogo turco, para no final da tarde dar uma conferência de imprensa oficial. [continua na edição desta semana de «O Diabo»]

Conto Fantástico n.º 1/2


Ontem não me foi possível estar presente no lançamento da revista «Conto Fantástico», mas o Flávio, amavelmente, fez-me chegar um exemplar. Esta nova revista vem preencher uma lacuna nacional no campo da ficção científica. Para quem gosta do género, este primeiro número - duplo, porque referente aos meses Junho e Julho - traz-nos vários contos, artigos e entrevistas. Uma óptima iniciativa!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Do conceito de Nação

Na edição desta semana d'«O Diabo», António Marques Bessa assina um artigo muito interessante intitulado "Na verdade, o que é a Nação?", onde nos diz que "tal facto histórico-social só conheceu tardiamente a sua incorporação no mito do sistema. Compreenda-se que os Reis dispensavam as nações ou as nações estavam ao seu serviço. O problema que vai ser colocado, muito mais tarde, é numa questão atípica na história da Europa, dominada por Impérios que governavam vários povos, fazendo com que a sua convergência se acentuasse para o centro".

Concretamente sobre o conceito de nação, o catedrático do ISCSP escreve que: "Esse conceito obscuro de que Nação só depois foi teorizado pelo padre Syaes, mas principalmente por Renan, que encontrou em Malraux um homem que lhe deu um dimensão maior, é claro que sem esquecer os franceses que pensaram o problema como Maurice Barrès, o romancista do sangue e dos mortos, Maurice Bardèche, o homem que fez o processo de Nuremberga, Robert Brasillach, o grande poeta que foi fuzilado participando de certo modo no destino de Ezra Pound, o grande poeta estado-unidense, que eles mesmo encerraram numa gaiola como insano. Pound viu longe demais e escreveu poemas contra a usura. A concepção de Nação, que já tinha sido estratificada como numa comunidade de mortos, vivos e por nascer, todos ligados por um elo, à maneira da marca céltica, deveria vir a ser assumida por Salazar, como documenta o autor francês da sua biografia, Ploncard d’Assac. Todavia André Malraux, autor de La Tentation de L’Occident, ministro de De Gaulle, escreveu também a este respeito que a sua interpretação da Nação era a “comunidade de sonhos”, aquilo que se estava a fazer empenhadamente e o que se queria fazer no futuro. Apontava aqui para os vivos com herança, mas para o futuro nos sonhos sonhados por todos."

Fala depois da nossa Nação, dos que a ergueram e dos que a traíram, para concluir: "É altura de devolver a elite a umas boas aulas de poder dos grandes poderes para perceberem onde estão: na posição de criados. Dispensáveis." Para ler e reflectir.

"O acordo ortográfico é um atentado criminoso contra a língua portuguesa"

Quem o afirma é um dos maiores opositores ao (des)acordo ortográfico em Portugal - Vasco Graça Moura. Ao «Diário de Notícias» de hoje disse que "[o acordo] É um atentado que tenta desfigurar completamente a língua e é absolutamente irresponsável da parte de quem negociou e da parte de quem o aprovou". O escritor afirmou ainda que "não se nota que exista qualquer espécie de política da língua da parte do Governo português e nota-se, da parte da mesma entidade, uma enorme estupidez na forma de tratar a língua, no que diz respeito ao Acordo Ortográfico".

Sobre a CPLP, afirmou que "que é uma espécie de fantasma que não serve para rigorosamente nada, que só serve para empatar e ocupar gente desocupada", para concluir dizendo que "a projecção do português pode passar pelas organizações internacionais, pode passar pela promoção da cultura da língua, pela promoção da aprendizagem. Neste momento, a melhor maneira de projectar a língua é acabar, pura e simplesmente, com o Acordo Ortográfico". Haja o bom senso de acabar com este aborto ortográfico que nos querem impor.

Casa Assombrada

“O Escritor Fantasma” é uma verdadeira casa assombrada cheia de fantasmas. O primeiro é o realizador. Polanski, a braços com a justiça norte-americana devido a um caso de abuso sexual de uma menor há vários anos, ficou impossibilitado de regressar aos EUA. Esta situação gerou muita polémica, nomeadamente devido à solidariedade de várias celebridades do mundo do espectáculo, que com certeza teriam outra atitude se se tratasse de um dos tantos casos de pedofilia que diariamente enchem a imprensa. Mas há que ter a honestidade de separar as águas, já que a única influência que essa situação tem no filme até é benéfica, pois há claras semelhanças no isolamento e na fuga à justiça que seguramente o inspiraram.

O fantasma mais importante do filme é o que lhe dá o título, um escritor do qual nunca sabemos o nome durante toda a acção, extraordinariamente representado por Ewan McGregor, com a ingenuidade e sinceridade imprescindíveis. Ao ser contratado para redigir na sombra as memórias de um antigo primeiro-ministro britânico – interpretado por Pierce Brosnan, a quem o papel assenta que nem uma luva –, que nos recorda automaticamente Tony Blair, começa a perceber que nem tudo é tão simples e fácil como inicialmente aparentava.

Levado para uma casa que se adivinha ser em Martha’s Vineyard, apesar de ter sido filmada na Alemanha pelas impossibilidades referidas acima, transmite-nos o sentimento de clausura nesta magnífica arquitectura sóbria e ao mesmo tempo tão fria como o mar gelado que vemos lá fora através das paredes em vidro. Aí, a dúvida instala-se e o mistério adensa-se. O fantasma seu antecessor morreu afogado e ele começa a suspeitar de assassinato. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro é acusado pelo Tribunal Penal Internacional e faz tudo para aparentar calma e normalidade. Espionagem, conspiração de opositores políticos, interesses ocultos, movimentações de bastidores – os ingredientes estão todos neste argumento baseado num romance de Robert Harris, que o adaptou ao cinema em conjunto com Polanski.

A história faz-nos recuar até um passado recente: a administração Bush, a Guerra contra o terrorismo, a invasão do Iraque, os voos secretos da CIA, etc. Nesta viagem pelos caminhos sinuosos das altas esferas do poder internacional, temos “flashes” de trabalhos anteriores do realizador e também do mestre Hitchtcock. Mas o que está maravilhosamente bem conseguido é a atmosfera “noir” em que tudo se passa. E não é nada “retro”, pelo contrário, encaixa impecavelmente com um filme dos nossos dias.

Um “thriller” muitíssimo bem construído, onde o cineasta vai levantando véu a véu uma intriga internacional profunda, sempre com uma intensidade que nos agarra à tela durante toda a acção. Onde os actores, talentosamente dirigidos, nos oferecem personagens que se vão revelando ao longo de todo um percurso findo o qual regressamos mentalmente aos pormenores apontados na memória e vemos que estava tudo lá, à espera de ser descoberto. Esta excelente casa assombrada é, sem dúvida, um assombro a não perder. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Para hoje

Apresentação do mensário «Conto Fantástico» hoje, às 19 horas, na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, Lisboa.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Dados inconvenientes

É hoje noticiado no «Correio da Manhã» que "um quinto da população prisional é estrangeira". Este é um dado inconveniente para os eternos defensores que tudo o que vem de fora é bom e que a melhor política é a das fronteiras abertas. Diz-nos o jornal que: "Segundo dados da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais (DGSP), os cidadãos de países africanos, com Cabo Verde à cabeça, são os que mais têm contribuído para estes números. Seguem-se os europeus – impulsionados por países como a Espanha e a Roménia – e as pessoas oriundas da América do Sul, com destaque para o Brasil."

E qual é o resultado destas alterações nas prisões nacionais? Jorge Alves, presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP), é categórico: "O meio prisional tem mudado para pior por causa do aumento do número de reclusos estrangeiros".

Por fim, há que ter em conta que este artigo se refere apenas aos estrangeiros, não considerando os reclusos de origem estrangeira que conseguiram a nacionalidade portuguesa.

domingo, 18 de julho de 2010

Poitiers 732

A entrega de ontem da colecção "Grandes Batalhas", distribuída pelo «Correio da Manhã», que aconselhei aqui quando saiu, é sobre um momento crucial da História da Europa - a Batalha de Poitiers, em 732. Este livro, da autoria do historiador britâncio David Nicolle, é bastante interessante e bem construído, especialmente nos aspectos militares, com várias ilustrações e boas infografias. Já em certas interpretações históricas não estou inteiramente de acordo, mas não deixa de ser um livro a ter em conta no estudo da Reconquista.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Racismos (XIII)

O Mundial resolveu os problemas da África do Sul? O racismo é algo exclusivo dos brancos? Estamos habituados a estes simplismos redutores. Mas há excepções. É o caso do texto "O mundo a preto e branco" de Alberto Gonçalves na revista «Sábado» de hoje. Aqui fica um excerto: «Dúzias de lojas assaltadas. Uma centena ou duas de refugiados em esquadras da polícia. Um desgraçado lançado de um comboio em andamento. A violência na África do Sul, que regressou naturalmente após as tréguas do futebol, é um flagelo com vítimas materiais e simbólicas. As primeiras são os emigrantes de Moçambique, do Zimbabwe ou de outro país vizinho, acusados de roubar empregos aos indígenas e fomentar a insegurança. As segundas vítimas são os jornalistas destacados.
É certo que, ao contrário dos emigrantes, a imprensa ainda não vê a sua propriedade saqueada e a vida dos seus em perigo. Ainda assim, dá pena constatar o vão esforço com que, à semelhança do sucedido nos massacres de 2008, tenta provar que os ataques perpetrados por sul-africanos a estrangeiros se devem à "pobreza" (sic) e não a qualquer sentimento menos nobre.
Compreendo o esforço. Décadas de jornalismo militante e "multiculturalismo" tentaram ensinar-nos que os crimes de ódio ocorrem só no Ocidente e só a cargo de caucasianos. Se, em Viena ou em Dublin, um austríaco ou um irlandês decide aliviar as suas frustações no nigeriano mais próximo, a notícia praticamente se escreve sozinha e metade do texto é preenchido com as palavras "racismo" e "xenofobia". Se acontece um caso similar em Joanesburgo, o desnorte impera: como é possível p racismo entre negros e a xenofobia entre irmãos africanos? (...)»

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Quebrar a rotina

Se há não muito tempo o cinema que se faz noutras paragens raramente chegava a Portugal, agora há que reconhecer que chega cada vez mais. No entanto, uma das características negativas é o tempo que tais filmes demoram a estrear entre nós. É o caso de “Whisky”, uma produção de 2004 – ano em que foi distinguido com o Prémio da Crítica no Festival de Cinema de Cannes –, onde o atraso ultrapassa o limite do razoável.

Este é um filme que nos leva a Montevideo, no Uruguai, mais concretamente a uma fábrica de meias que parece ter parado no tempo. Todos os dias, Jacobo Köller, um dos tantos judeus de apelido germânico que vivem na América do Sul, abre a porta do velho negócio da família na presença da mais antiga das suas três funcionárias. Marta, a sua fiel assistente, acompanha-o nos rituais matinais de pôr a pequena fábrica a trabalhar.

A acção é demorada, com poucos e curtos diálogos e necessariamente repetitiva. Pode até parecer aborrecida, de início, mas é essencial para captar as vidas de pessoas iguais a tantas outras com quem nos podemos cruzar na rua. Para detectar como o dia-a-dia destas formigas humanas se assemelha na sua mecânica ao trabalhar de uma máquina de coser ou de toda uma fábrica.

Mas algo vai perturbar esse regular funcionamento. A visita de Herman, o irmão de Jacobo, a propósito da morte recente da mãe de ambos, vai fazer com que este simule estar casado com Marta. Esta encenação, devida ao sucesso de Herman, que modernizou a sua fábrica do mesmo ramo no Brasil e mostra orgulhoso a fotografia das filhas, vai suscitar várias questões.

O quebrar da rotina, tão desconfortável para Jacobo, levanta as dúvidas sobre as opções de vida de cada um. É um reencontro familiar no verdadeiro sentido, com os fantasmas do passado, os incómodos do presente e as dúvidas do futuro. É ainda possível mudar?

Há uma cena em que Marta mostra a Herman uma habilidade que diz ter desenvolvido quando estava enfadada: a de conseguir dizer as palavras de trás para a frente. Parece que nesta brincadeira engraçada está uma reflexão mais profunda. Será que perante uma vida de aborrecimento podemos ainda inverter as coisas? Mesmo que essa mudança não tenha um significado imediato e que seja inesperada? Mas a interrogação mais importante de todas – e que paira na cabeça de todos nós –, não é a de se podemos mudar, mas antes se realmente o queremos.

Lembro-me daquela história onde, num grupo de amigos, perante a clássica “o que fariam se ganhassem a lotaria?”, um diz que concretizaria um sonho, outro imagina compras extravagantes, mas há um que simplesmente responde que continuaria a trabalhar no mesmo sítio.

* Antecedendo este filme nas salas nacionais, passa em complemento a curta-metragem de animação portuguesa “A Dama da Lapa”, realizada por Joana Toste, em 2004.
[publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Apartheid no Tamariz

Os negacionistas do arrastão têm também a fantástica teoria de que não existem gangs étnicos no nosso país. Sustentam, pelo contrário, que isso são invenções da extrema-direita com objectivos alarmistas. Pois bem, a esses sujeitos, que agora têm andado tão calados, sugiro a leitura do artigo "Um 'apartheid' conformado impõe-se na praia do Tamariz", publicado no «Diário de Notícias». Aqui fica um excerto: "A fronteira não se vê. Mas ela está lá, bem definida, na areia da praia do Tamariz, no Estoril. É uma espécie de linha de apartheid que separa. Para um lado, brancos, turistas e portugueses. Para o outro, negros, certamente portugueses, a maior parte. Visto do paredão, do lado de cá do areal, é esta a paisagem assustadoramente definida que se observa. "Já é assim há muito tempo, já todos sabem para que lado devem ir", atira com um encolher de ombros o empregado de uma das esplanadas (...)."

Protesto do PNR no Tamariz visto pela SIC

O protesto do PNR no Tamariz



A insustentável e impune violência criminosa que tem assolado a Linha de Cascais, cujo cúmulo foi uma verdadeira guerra de gangs que envolveu tiros e facadas, provocou um protesto do PNR na praia do Tamariz, no qual estiveram presentes 30 activistas.

Alguns falaram de "aproveitamento político", o que não deixa de causar espanto, já que um partido político deve aproveitar determinados factos para afirmar publicamente as suas posições. Neste caso, o PNR limitou-se a ser coerente com o que sempre tem defendido face à criminalidade. A vergonha está do lado daqueles que fingem nada acontecer.

Outros falam de provocação, mas o que o protesto do PNR provocou, sem dúvida, foi um aumento de polícias na zona. Dada a situação de insegurança que ali se vive, pode dizer-se que se provocou uma coisa boa.

O que é facto é que, como afirmou José Pinto-Coelho, "As pessoas não podem vir à praia e andar na rua com medo. Portugal está a ficar entregue a pessoas anti-sociais, com roubos nos comboios, agressões. Qualquer dia não podemos sair à rua sossegados." Ainda há quem tenha coragem de dizer a verdade!

Miguel Sousa Tavares e o (des)acordo



Posso não estar de acordo em muitos assuntos com Miguel Sousa Tavares, mas em relação ao famigerado acordo ortográfico tenho que reconhecer que estou inteiramente com ele. Tem sido mesmo um dos grandes defensores da nossa Língua, quando a maioria, cómoda e convenientemente, vai com a corrente.

O vídeo que partilho foi pilhado (com a devida vénia) ao blog A Voz Nacional e é um óptimo exemplo de como este (des)acordo é extraordinariamente injusto para "o país que tem a matriz da Língua, que é Portugal", como diz Miguel Sousa Tavares.

domingo, 11 de julho de 2010

Eugène Krampon no Méridien Zéro

Hoje às 22 horas, Eugène Krampon, um dos responsáveis pela excelente revista «Réfléchir et Agir», será entrevistado no Méridien Zéro, o programa francês da Radio Bandiera Nera.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Um conto moral

Na última edição do semanário «O Diabo» foi publicado um conto do meu amigo Roberto de Moraes, que me autorizou a reproduzi-lo aqui. Vale mesmo a pena ler.

A CARREIRA

Garatujilho, jovem de futuro, escreveu um romance de cento e vinte páginas. Queria fazer carreira nas letras, embora não o dissesse, pois era um rapaz avisado. Levando debaixo do braço o pequeno volume, saído de fresco na Editorial Verbete, livreiros bem conhecidos, foi visitar o célebre Escribante, autor de algumas obras cheias de beleza, muito apreciadas por duzentos conhecedores.

– Mestre, começou Garatujilho, admiro-o desde a mais tenra adolescência. Li e reli as suas obras-primas: “Vertigem Gelada”, “Prazo de Validade”, “A Condição Húmida”, “Jangada de Cortiça”. Aqui lhe trago o meu primeiro romance. Chama-se “A Mumificação”. Não estou descontente com o título. Trata-se da história de um homem que passa vinte e quatro horas fechado num quarto ponderando se irá ou não cozer um ovo num aquecedor a álcool. Decide finalmente não o fazer pois, no fundo, não gosta de ovos. Há uma descrição de uma janela que dura vinte e sete páginas. Penso ter escrito um livro importante que traz consequências. Quis que o leitor, em cada página, a cada linha, se sinta pessoalmente implicado.

Escribante ia nos setenta e nove anos e fazia lembrar um gato selvagem. Vivia numa pequena casa, ali à Sé, na Rua da Saudade, onde coleccionava “bibelots” de meter medo, de par com uma porção de pinturas modernas. Mostrando os seus tesouros a Garatujilho, que se extasiava educadamente, foi-lhe debitando um discurso ambíguo que levantou dúvidas e inquietações vagas na alma cândida do jovem arrivista.

– Meu caro amigo, disse, estou contentíssimo que tenha escrito “A Mumificação”, que me parece um belo e curioso livro. Há um ror de tempo que se não falava em ovos cozidos num romance. Creio que o último ovo cozido português data de “A Noiva do Republicano”, de Altino de Tormes, que leu, naturalmente. Romance admirável. Todo o Camilo já lá está. Aliás é bem melhor que Camilo.

– Adoro “A Noiva do Republicano”, respondeu acaloradamente Garatujilho, que ouvia falar pela primeira vez naquela obra que, de resto, nunca tinha sido escrita. Mestre, acredita que tenho alguma chance de ganhar o prémio Capões?

– Sabe, não é, que, em Portugal, são anualmente atribuídos 241 prémios literários, disse Escribante, respondendo um pouco ao lado, como era seu hábito.

– É muito, retorquiu Garatujilho.

– Ah? Acha? A mim, pelo contrário, parece-me um pouco à justa. Os prémios existem para encorajar os maus escritores e temos muito mais de 241 maus escritores por ano.

– Mestre, replicou Garatujilho rindo, isso é um paradoxo. Há bons escritores a quem foram atribuídos prémios, até mesmo o prémio Capões.

– É verdade, disse Escribante, mas é caso tão raro que nos leva a pensar, razoavelmente, que os júris se enganaram. Com toda a boa fé, evidentemente.

Veja bem: seria injusto que as pessoas tivessem, simultaneamente, talento e prémios. Não se pode ter tudo. Em segundo lugar, são os maus escritores que devem ser encorajados, caso contrário, desgostosos, deixariam de escrever o que seria uma pena. Para quê incentivar os que têm verdadeiro talento? Esses, continuam sempre a escrever, não obstante as contrariedades, a miséria, a família e os críticos literários.

– Hum!... Meu querido Mestre, balbuciou Garatujilho com voz incerta, não vejo bem aonde quer chegar.

– A isto, meu rapaz: uma literatura só é verdadeiramente viva e brilhante quando está cheia de gente sem talento que escreve uma imensidade de romances ineptos, ensaios estúpidos e poemas ilisíveis. É o que faz girar a edição; é o que forma uma espécie de adubo artístico no qual crescem flores soberbas e raras. Veja a Inglaterra, veja a Alemanha, onde não há praticamente prémios e onde, por conseguinte, não há quase maus escritores: por lá se tem estiolado a literatura. Portanto viva o prémio Capões que faz que um mau romance possa vender duzentos mil exemplares!

– Ah! Mestre, mestre, o senhor desespera-me! Exclamou Garatujilho. Receber um prémio será assim uma marca de infâmia indelével? Será preciso ficar sem brilho, ignorado, desconhecido, para caber na sua estima?

– Aceitar um prémio literário, meu caro senhor, é certamente dar prova de modéstia e abnegação. Longe de mim abafar essas duas qualidades num jovem coração.

Garatujilho despediu-se de Escribante num estado de extrema confusão que, graças a Deus, só durou dois dias. O seu editor, que, não sendo nem escritor nem filósofo, mas sim comerciante, deu-lhe excelentes conselhos sobre a táctica a adoptar para conseguir o prémio Capões. Garatujilho, que decididamente não era um jovem qualquer, seguiu os seus conselhos, obteve o prémio e recusou-o. O facto deu tanto que falar que “A Mumificação”, um dos piores romances publicados em Portugal nos últimos vinte anos, se vendeu a quatrocentos mil exemplares. E eis assim um conto com um final feliz.

Roberto de Moraes

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Rumo ao Norte

“Sem nome” é a estreia nas longas-metragens do jovem realizador californiano Cary Fukunaga, que também escreveu o argumento deste filme que nos leva à América Central pelos trilhos da imigração ilegal e da vida nos gangues.

A acção começa em Chiapas, no sul do México, onde através de Willy (Edgar Flores) somos introduzidos na realidade do gangue a que pertence e onde é conhecido por “El Casper”. Os membros distinguem-se pelas suas tatuagens em todo o corpo, muitos deles até na cara, e estão naturalmente implicados em actividades criminosas. Willy escapa-se por vezes às suas obrigações para estar secretamente com a sua namorada e isso é algo que prontamente percebemos que lhe trará problemas com os seus companheiros. Um dos sítios a que tem que estar atento é a La Bombilla, uma parte da linha férrea onde centenas de imigrantes esperam comboios que os levem para norte, em direcção ao desejado “el dorado”.

O gangue em questão é o Mara Salvatrucha, que não é ficcionado, mas bem real. Nascido nos anos 80 em Los Angeles como gangue étnico salvadorenho, desenvolveu-se até aos nossos dias estendendo a sua influência da América Central à do Norte, após as deportações de vários dos seus membros. As suas principais características são a extrema violência e as vinganças cruéis. Os ritos iniciáticos, as tatuagens, os símbolos feitos com as mãos, as execuções e a exploração dos imigrantes, tais como aparecem no filme, ao que parece estão bem representadas e correspondem às práticas dos “mareros”.

Voltando a La Bombilla, é aí que Sayra (Paulina Gaitán), que vem com o seu pai e o seu tio desde as Honduras com o objectivo de chegar aos EUA, se vai cruzar com Willy e o seu percurso altera-se radicalmente. Através dela e dos seus familiares ficamos a conhecer as árduas condições enfrentadas por estes imigrantes, dispostos a arriscar tudo pelo seu sonho. Viajando em cima de comboios de mercadorias, sempre alerta às autoridades, tanto são agradavelmente surpreendidos por crianças que lhes atiram fruta para comer, quando passam no centro do país, como lhes esperam pedras e insultos quando já estão perto da fronteira do norte, atiradas igualmente por crianças que lhes dizem: “Não vos queremos aqui! Vão-se embora!”

Há um dado curioso a notar. Paulina Gaitán, que interpreta a rapariga hondurenha, é uma actriz mexicana, e Edgar Flores, que interpreta um jovem mexicano, é um actor hondurenho.

Concluindo, apesar da actualidade do tema tratado e das possibilidades desta história, o filme não surpreende. Pelo contrário, é sempre previsível, com os acontecimentos futuros anunciados com demasiada antecedência. As representações também deixam a desejar e a realização, apesar de alguns bons planos e sequências, não traz nada de novo. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Mitos urbanos

Há uns dias, em conversa com um amigo meu, fiquei a saber que um livro recém-publicado (hoje publica-se tudo...) sobre mitos urbanos incluía como tal o arrastão de 2005 em Oeiras. É caso para dizer que a desinformação tem acção prolongada. Tenhamos presente que os negacionistas do arrastão que agora estão calados, atacarão seguramente mais tarde.

Assim sendo, imagino que as notícias que encontrei (numa pesquisa não exaustiva) e que listei abaixo também não passem de "mitos urbanos" para os bem-pensantes de serviço:

- "Agressões e assaltos triplicam no Verão nos comboios de Cascais‎" (Diário de Notícias);
- "Jovens detidos por desacatos na Linha de Cascais sujeitos a apresentações periódicas na polícia" (Público);
- "Bando pára comboio durante 20 minutos" (Correio da Manhã);
- "Facadas e tiros no areal da Linha de Cascais" (Jornal de Notícias);
- "António Capucho diz que policiamento na linha de Cascais é insuficiente" (A Bola);
- "Grupo de jovens apedrejou comboios na Linha de Cascais" (Diário Digital).

Usem o google e perceberão que isto é apenas uma pequena amostra de uma grande desgraça. Algo trazido sob a capa politicamente correcta do multiculturalismo e da integração.

Post Scriptum: Ah! É verdade, se relacionarem estes desacatos com a imigração e as suas consequências deixa de ser "mitos urbanos" e passa a ser "racismo" e "xenofobia", atitudes susceptíveis de acusações judiciais. É este o estranho mundo que habitamos...

domingo, 4 de julho de 2010

O Senhor Imperador

O Eurico de Barros lembrou ontem Johnny Weissmüller no «DN», afirmando muito bem que "Tarzan há só um, weissmüller e mais nenhum", o que me trouxe uma curiosa recordação sobre a primeira vez que ouvi o nome desse actor. Nos primeiros anos do liceu, lembro-me perfeitamente de um dos "malucos" que passavam pelo Bairro de Alvalade: o Senhor Imperador. Este título, auto-atribuído, era apenas uma das suas personalidades, mas assim ficou conhecido pelos rapazes que se metiam com ele quando passavam na parte de cima da Av. da Igreja, onde vivia em frente a um banco. Por vezes, metíamos conversa com ele e ríamos muito com as suas histórias, sempre pomposas. Eram relatos do género: "quando eu conheci a Rainha de Inglaterra no Palácio de Buckingham..." Era bastante divertido, apesar de rapidamente o seu discurso de tornar incompreensível. Uma das vezes um amigo meu perguntou-lhe como se chamava e a resposta foi pronta: "Johnny Weissmüller". Entreolhámo-nos para verificar que a ignorância era comum ao grupo. Nessa noite falei nisso ao meu pai que me esclareceu, dizendo que Weissmüller era o Tarzan. Atente-se ao artigo definido, já que, como escreveu o Eurico, Tarzan há só um. Lembrei-me logo de alguns filmes dele, que tinha visto na televisão nas sessões de Domingo à tarde.

Tinha sido a única vez que se atribuíra um nome, mas para nós seria sempre o Senhor Imperador, o nosso "maluco" preferido.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ainda é santo?

Lembram-se quando as esquerdas europeias e muitos direitinhas andavam embevecidos com o "santo" Obama? Pois bem, apesar de pouco ter mudado nos EUA, parece que muitos continuam a viver no reino da fantasia, por ignorância ou simplesmente má-fé.

A notícia do «Público» de hoje, que refere que o actual presidente norte-americano “pede ajuda aos republicanos para aprovar reforma das leis de imigração”, mostra como pouco ou nada mudou. Este presidente, aliás, perante uma maioria da população contrária à imigração, chegou até a elogiar “a acção do seu antecessor, George W. Bush, dizendo que foi "corajoso" por ter tentado fazer uma reforma da imigração, embora sem sucesso.

Não me interpretem mal, longe de mim defender o Dubya. O que quero dizer é que, apesar do novo presidente ser “bronzeado” (Cavaliere dixit), os EUA e o seu projecto de hegemonia mundial continuam iguais a si próprios...

Em termos geopolíticos, a situação até está pior em relação a nós. É curioso como, no mesmo jornal, Vasco Pulido Valente refere, a esse propósito, que “com o fim da 'guerra fria' a segurança da Europa deixou de ser prioridade da política externa americana (Obama, por exemplo, ainda não arranjou tempo para cá vir).

Mas que interessa tudo isto? Obama é o “futuro”, “change”, “yes we can” e outras tretas do género. Porque o que conta é a ilusão... e a realidade que se lixe.

O Kosovo é um país?

Pacheco Pereira, que anda pelos Balcãs, publicou no seu blog o artigo do «Público» da semana passada, ao qual juntou várias fotografias. Vale a pena ler e, por isso, deixo aqui um excerto sobre o Kosovo: "Em Pristina, o coração é albanês e, se não fosse parte do acordo que permitiu o acto de independência, seria à Albânia que se teria juntado o Kosovo do Sul. Mas, se o Kosovo é formalmente independente, reconhecido por 70 países, não o é por outros 70, nem pela ONU, com a oposição da Rússia, aliada da Sérvia. Mais, se o Kosovo é um país, então na parte do Kosovo do Norte, a partir de Mitrovica e envolvendo as províncias fronteiriças, quem manda é a Sérvia. Na cidade de Mitrovica está um retrato dos Balcãs: no Sul, flutuam bandeiras albanesas (mais do que do Kosovo) e, no Norte, passando a famosa ponte, estamos na Sérvia. As ruas estão pejadas de propaganda política das eleições sérvias, em que esta parte da cidade participa, as inscrições são em cirílico, fala-se servo-croata e não albanês. Não há mesquitas, só igrejas ortodoxas, incluindo uma nova em folha para substituir outra que foi destruída nos confrontos de há dez anos. O hospital e muitas das despesas da cidade são pagos por Belgrado. Ninguém paga um tostão de imposto ao Governo de Pristina, nem, aliás, a nenhum Governo, porque isto é o Faroeste, parece Deadwood. Não há polícia regular, há uma espécie de milícia sem uniforme que responde ao presidente da câmara e que ninguém controla. Só por curiosidade, há dois presidentes da mesma câmara, mas isso é uma rotina nos Balcãs. Nas ruas, manda quem tem mais força. Tudo quanto é ilegal encontra guarida no Norte do Kosovo: contrabando, drogas, tráfico de pessoas, cortes de madeira ilegais, roubo de propriedades, assassinatos. Por singular coincidência, os grupos criminosos que aqui actuam são multiétnicos, sérvios e albaneses em boa colaboração."

Cadernetas de cromos (XVIII)

Regresso às cadernetas de cromos, com uma que tem a particularidade de me ter sido oferecida por um amigo depois de eu ter começado a divulgar aqui as muitas cadernetas antigas que herdei.



Trata-se de Homens, Raças e Costumes, uma colecção sem data, mas que muito provavelmente foi publicada no nosso país em 1976, pelas Edições Francisco Más, composta por 295 cromos. Tal como a anterior Raças Humanas, esta caderneta será hoje por muitos considerada politicamente incorrecta, apesar de se limitar a mostrar a diversidade humana. Diz-nos a introdução que "embora pertençamos à mesma espécie não somos iguais de aspecto exterior. Agrupamo-nos dentro de uma variedade de tipos de características comuns - que formam as raças." E sobre o nosso continente diz: "Se não foi o berço da civilização, A Europa pode considerar-se como a parte do globo onde a civilização encontrou a sua pátria adoptiva, florescendo na completa organização intelectual e cultural dos nossos dias. No aspecto humano, pode afirmar-se que os europeus pertencem, ou pertencemos, ao tronco Caucasóide, ou Raça Branca (...)"

É nestas alturas que me lembro de um slogan que não se podia aplicar melhor: 0% Racismo. 100% Identidade.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Céline por Rebatet


“Na vasta biblioteca do castelo dos Hohenzollern, Céline escolhera uma velha colecção da Revue des Deux Mondes, 1875-1880. Não se calava sobre a qualidade dos textos que lia: «Isto é que é estudo sério, bem analisado, profundo, instrutivo… belo estilo, preciso… sem palha.» Foi a única leitura que o vi fazer na minha presença. Era extremamente cauteloso na dissimulação dos seus «mestres», da sua «formação». Como se a sua originalidade não tivesse por si própria dado provas, magnificamente.
De tempos a tempos, quando passeávamos os dois sem testemunhas, voltava-lhe o desgosto da sua carreira cortada, mas sem demonstrar fraqueza inútil, em tom de brincadeira:
— Estás a ver? Donde parti… se não tivesse a mania de querer dizer as verdades… que poleiro teria… O grande escritor mundial da «gôche»… o bardo do sofrimento humano, da pulhice absurda… sem ter que disfarçar nada. Que grande gozo, Bardamu, Guignol, Rigodon… Prémio Nobel… Os pobres merdosos Aragon, Malraux, Hemingway, ao pé do Céline… que ganhou antes deles. Ai! Diz lá… onde é que eu iria parar! «Mee-estre»… O Nobel… Milionário… A grande condecoração… Doutor Honoris Causa… Vês isso acontecer-me aqui!”

Lucien Rebatet
in "Memórias de um Fascista", Editora Livros do Brasil, Lisboa, 1988.

Céline

Céline (27/5/1894 - 1/7/1961)