quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Desejado


Retrato de D. Sebastião
Cristóvão de Morais (actividade c.1551–c.1573)
Portugal, século XVI (c. 1572-1574)
Óleo sobre tela
A 100 x L 85 cm

They have a dream...

A secção "Frases" da última edição do «Courrier Internacional» cita o discurso de Muammar Kadhafi durante o Comando Popular Islâmico, a que preside, onde se dirigiu especialmente às delegações de muçulmanos dos Balcãs:

"Sois uma minoria na Europa. Mas um dia, se Deus quiser, sereis os donos, os dirigentes e os herdeiros do continente europeu. Ninguém nos pode impedir de viver na Europa. Deus criou a Europa, não os europeus. Sois europeus e essa é a vossa terra. Como aceitam viver humilhados e oprimidos?"

Um país em mutação

Jia Zhangke é um realizador chinês que não é desconhecido de todo. Os seus filmes, alguns documentários, têm servido de montra às profundas alterações da realidade do seu populoso país. Em especial da forma como a globalização tem afectado esta nação asiática que se tornou o grande produtor do mundo.

A estreia deste filme entre nós tem uma particularidade que é a de ter passado primeiro nos canais televisivos por cabo TVCine, antes de chegar finalmente às salas de cinema. Sinal dos tempos? É exactamente esse sinal que nos transmite “24 City”. A sua pulsação mostra-nos como o gigante chinês está a mudar e a grande velocidade.

Esta é a história da Fábrica 420, em Chengdu, um monstro produtivo que fabricava aviões de combate e seus componentes e era propriedade do Estado, como não podia deixar de ser neste país comunista. Com o fim do esforço de guerra, a fábrica e toda a vida que circulava à sua volta alterou-se radicalmente. Tal coincidiu com a chamada “abertura” chinesa, quer isto dizer, com a entrada da China no mercado globalizado, com os seus produtos baratos e de baixa qualidade.
Podemos dizer que este filme é um semi-documentário. Filmado totalmente em digital, conta a história através de relatos dos que viveram essa transformação. Alguns verdadeiros, outros encenados, mas todos muito bem filmados, com planos demorados, que analisam as expressões e nos levam a pensar toda uma mudança de fundo.

Estas histórias pessoais, que se confundem e misturam com a da própria fábrica, vão desde o saudosismo de um tempo passado, à adaptação a uma nova forma de vida, passando por desgostos – ou desconfortos – amorosos.

A primeira história dentro desta história é a de um operário que recorda com saudade e respeito o seu mestre Wang, que lhe havia passado o salutar princípio da poupança dos materiais e da recusa do desperdício, sempre guiados por uma total dedicação ao trabalho. A última é a de uma mulher que, apesar de não ter aptidão para os estudos, como ela própria diz, consegue vingar na nova realidade comprando coisas para uma classe mais abastada. Os seus rendimentos são bastante elevados, algo reconhecido pelo próprio realizador quando a entrevista. No entanto, depois de nos apresentar feliz uma imagem de sucesso, reconhece que a entristece a precária situação dos pais. Na sua família vemos, como que ao microscópio, a mensagem do filme – o contraste. Passeando o seu Volkswagen Beetle numa paisagem onde observamos trabalhadores rurais, esta rapariga mostra o choque da China hodierna.

A antiga fábrica está a ser desmantelada ao mesmo tempo que vamos ouvindo os testemunhos em primeira mão. Longe vai o espírito da pátria grandiosa que glorifica o combate. Agora o êxito pessoal está nos bens materiais e no consumismo. No local onde antes se produziam máquinas de guerra em nome do povo, está a ser erigido um complexo de apartamentos de luxo, que será vendido a preços proibitivos, acessíveis apenas aos bem sucedidos da nova era. A 24 City que dá nome ao filme. Esta é, agora, a nova forma de afirmação social.

Esta postura e estes comportamentos lembram-nos alguma coisa? Sem dúvida. A diferença é que nós, que vemos no teatro chinês como se passa do comunismo ao capitalismo – como se alterna entre um gémeo e outro – começamos a questionar todo um modelo que constantemente nos é apresentado como inevitável e, por isso, indiscutível – a mundialização. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

terça-feira, 29 de junho de 2010

Saint-Exupéry

No dia do 110.º aniversário do nascimento do escritor-aviador Saint-Exupéry, descobri nas bancas este número especial da revista «Lire». Promete...

O último dia

Hoje saiu a última edição do diário «24 horas». Estando sempre atento à imprensa no nosso país, não podia deixar de o referir. Apesar de não conseguir gostar do seu estilo, não deixo de registar que mesmo um jornal que se alimentava das chamadas "celebridades", algo que tantos asseguram que é sucesso garantido, também se afunda. Folheei-o algumas vezes e nunca o comprei, ao contrário de muita gente, que chegou a fazer com que este jornal chegasse aos números dos ditos de referência.

Contrariamente ao que alguns diziam, este não era um tablóide ao estilo inglês, com jornalismo de investigação. Tinha, aliás, uma característica muito estranha para mim, que era a de basear grande parte das suas notícias em programas de televisão e nos seus participantes. Percebo que atraísse, por isso, um público diferente do dos restantes títulos, mas até esse acabou por deixar de o comprar.

Seja como for, os ventos não estão realmente de feição para a imprensa escrita.

Terra e Povo no MNAA

No passado Domingo, dia 27 de Junho, a Terra e Povo realizou a visita programada ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, para ver a exposição das chamadas "Tapeçarias de Pastrana". O guia foi o Prof. Humberto Nuno Oliveira, historiador, professor universitário e um dos sócios-fundadores da associação.

Veja o relato completo deste óptimo dia de convívio, onde se ficou a conhecer melhor a nossa História e o nosso património, aqui.

Contra o encerramento da BN

Por causa destas obras, que sem dúvida melhorarão consideravelmente a capacidade da Biblioteca Nacional, a direcção comunicou que os serviços de Leitura Geral da Biblioteca encerrarão durante dez meses (de 15-11-2010 a 01-09-2011) e os Reservados durante cinco meses (01-04-2011 a 01-09-2011). Contra esta decisão inconcebível foi lançada uma petição que já assinei e apelo a todos que assinem também: http://www.peticao.com.pt/encerramento-bnp

Dia d'O Diabo

Ficam os mitos

Soube ontem, pelo Miguel Vaz, da triste notícia da morte de Rui Moura, autor do Mitos Climáticos, blog que integrava a minha lista de visitas habituais. Não deixa de ser inesperado, já que há pouco tempo atrás troquei algumas mensagens de correio electrónico com ele. Partiu, deixando para trás o seu precioso contributo para um debate a que tantos se recusam. Os mitos aí ficam, à espera de espíritos críticos como ele, que contrariem esta floresta de papagaios em que vivemos. Que descanse em paz.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O regresso dos negacionistas

Na notícia que referi no post anterior, é recordado o Arrastão de 2005, com o seguinte texto:

ARRASTÃO VARRE PRAIA DE CARCAVELOS
A 10 de Junho de 2005, Dia de Portugal e de Camões, Portugal assistiu, na televisão, a um fenómeno que apenas se tinha visto, até então, em terras brasileiras: um arrastão na praia de Carcavelos, Cascais. Cerca de duas centenas de jovens, oriundos de zonas problemáticas, usaram o comboio para chegar ao local e fugir. No areal, lançaram o pânico entre os milhares de banhistas, com vários a serem agredidos e roubados. A polícia chegou pouco depois e deteve alguns jovens.

Perante isto, aguardam-se as reacções inflamadas dos negacionistas do arrastão, que não só nos voltarão a tentar impingir que este não aconteceu, como provavelmente assegurar-nos que desta vez também nada se passou na Linha de Cascais.

Longe deste tipo de fantasias utópicas que tentam prevalecer através do terrorismo mediático, há que dizer que a intervenção das forças de segurança e o reforço policial são apenas um paliativo. A solução está na revisão da lei da nacionalidade, numa política de imigração controlada e na credibilização do sistema judicial.

Arrastões

Tenho um colega de trabalho que é assíduo leitor do «Correio da Manhã», jornal que não é propriamente da minha eleição, mas que reconheço ser corajoso na divulgação da criminalidade que assola o nosso país e que muitos querem ocultar. Hoje de manhã, o meu colega disse-me: "Tens que ler isto..." E, realmente, tinha.

Em duas páginas era tratada a onda de violência e criminalidade provocada por "grupos grandes de jovens vindos dos bairros sociais à Linha da CP de Cascais, durante o Verão". Alguém se lembrou do famoso Arrastão de 2005? Ora, segundo a notícia, "Para evitar futuros arrastões, a Polícia vai colocar o Corpo de Intervenção (CI) a patrulhar os comboios daquela linha".

Para melhor compreendermos a situação a que chegámos, é de ler a reflexão de Manuel Catarino sobre a "Insegurança", publicada na mesma edição do jornal. Diz ele, sem papas na língua: "Portugal, por muito que as estatísticas demonstrem o contrário, é um País inseguro. Não interessa se o número de crimes tem tendência a decrescer. O que importa é outra coisa: a capacidade de punição dos incorrigíveis apanhados a fazer o que não devem – que é pouca ou nenhuma. Os tribunais de pequena instância criminal – criados precisamente para julgar a pequena criminalidade – demitiram-se dessa função: não ligam, não querem saber, adiam, deixam para a semana. Fazem-no sem o menor respeito pelas vítimas. Isto provoca a revolta de quem espera Justiça – e gera um sentimento de impunidade entre a escumalha". O jornalista exemplifica depois com um caso verdadeiro ocorrido na semana passada, para concluir: "Moral da história: a lei penal ou a má vontade dos magistrados – ou as duas coisas juntas – são um convite ao pior: quem assalta pode continuar a fazê-lo alegremente – e quem é vítima fica a saber que o melhor é não apresentar queixa para evitar mais maçadas."

Mais de acordo

Infelizmente, os que mais deviam ser contra o (des)acordo ortográfico — a imprensa e as editoras — aderem ao disparate e adoptam-no. É o caso do «Expresso», que a partir de Sábado passado passou a escrever com essas regras, que se aplicam agora em todas as publicações do grupo Impresa. Nessa última edição, há algumas excepções a louvar. O suplemento «Actual» ainda mantém o 'c' (até quando?) e Miguel Sousa Tavares e José Cutileiro continuam a "escrever de acordo com a antiga ortografia", segundo a nota no final dos seus textos. Obrigado a ambos. Mesmo assim, Cutileiro foi presenteado com um "exceções" na sua coluna habitual "O Mundo dos Outros".

Claro que os motivos do jornal são os do costume: "o futuro" e a "defesa da língua". Na imprensa dita de referência continua a valer o corajoso exemplo do «Público». Sigam-se outros.

Os cartazes de cinema


O cinema cedo se tornou uma paixão minha. Não só os filmes, mas as próprias salas de cinema e o hábito de frequentá-las. Já aqui falei de cinemas de outro tempo e do renascimento do Cinema Alvalade, mas a crónica do Eurico de Barros, publicada no «DN» de Sábado passado, recordou-me aquela altura "quando ainda havia cinemas de portas abertas para a rua e não apenas encafuados em shoppings, e cartazes a anunciarem os filmes, da autoria de pintores especializados". Esses magníficos cartazes pintados à mão sempre me impressionaram. Numa busca rápida na internet, descobri a reprodução de um artigo publicado na imprensa, em 1989, sobre os cartazes dos cinemas do Porto. Para recordar.

Revista Tintin (V)


O n.º de hoje da revista semanal «Tintin - Le Journal des Jeunes de 7 a 77 ans» é o 39, de 30/9/1959.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Diplomatie n.º 44

Esta é a edição da revista "Diplomatie" que citei no meu artigo "Tsunami demográfico", publicado na última edição do semanário «O Diabo», cuja primeira parte reproduzi aqui. O dossier sobre a "bomba humana" tem vários artigos sobre demografia, migração e política, uma entrevista com o economista e demógrafo francês Gérard-François Dumont, sobre as dez leis da geopolítica da demografia, e um atlas geoestratégico da população mundial. Destaque ainda para os artigos de estratégia sobre as sanções ao Irão e a relação Brasil-Irão relativamente à questão nuclear, a análise do papel dos media em caso de conflito e, por fim, a análise geopolítica do Reino Unido perante as últimas eleições. Uma última nota para o óptimo grafismo desta revista excepcionalmente paginada e com infografias excelentes.

Filmes de culto (XXXVI)


Control, Anton Corbijn, 2007.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Visita ao MNAA



A associação Terra e Povo está a organizar uma visita às chamadas "Tapeçarias de Pastrana", em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, guiada pelo Prof. Humberto Nuno de Oliveira, um dos sócios-fundadores. A visita terá lugar no próximo Domingo, dia 27 de Junho, às 10:30. Para mais informações contacte através do endereço electrónico: terraepovo@gmail.com.

Tsunami demográfico

Numa altura em que se fala de crise económica, falência de modelos de segurança social, envelhecimento dos europeus, conflitos étnico-religiosos, imigração em massa e fuga de cérebros, o factor demográfico volta a estar na ordem do dia. Menosprezado por muitos, deliberadamente por demasiados, tornou-se incontornável para quem analisa seriamente o presente e as perspectivas futuras. Tendo em conta que a Europa é a única zona do planeta em depressão demográfica, não há como ficar indiferente. É toda uma civilização – a nossa – que pode estar em causa. Regresso à demografia.

A bomba humana

O último número da revista “Diplomatie” dedica um dossier muito interessante sobre este tema intitulado “População mundial: a bomba humana”. No artigo dedicado à demografia, migração e política, que faz uma análise desde os primeiros homens até aos nossos dias, percebemos como o século XX alterou completamente o panorama habitual. Depois de um aumento exponencial da população e da deslocação de grande parte dela para centros urbanos, vemos como a situação apenas tende a agravar-se.

No que diz respeito ao nosso continente, é de notar que o que presenciamos hoje é muito diferente do que aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, onde a maior parte dos imigrantes eram de outros países europeus mais pobres, como é o caso do nosso. Diz o artigo que: “actualmente, na Europa, a maior parte dos imigrantes são etnicamente muito diferentes das populações autóctones sendo pouco instruídos e tendo poucas qualificações. Estas condições contribuem para o aumento da diversidade étnica e das tensões no seio de numerosos países, o que suscita inquietudes quanto à integridade cultural, identidade nacional, integração e assimilação”.

A demografia é, assim, um parâmetro de inegável importância para as análises geopolíticas. É frequente que se refiram à demografia quando se fala de casos como a China ou a Índia, mas interessa cada vez mais fazer uma comparação séria a nível mundial, nomeadamente em relação aos países europeus. Calcula o referido artigo que a Europa pode perder 42 milhões de habitantes até 2050, enquanto a população de África deverá aumentar em cerca de mil milhões no mesmo período. É a lógica implacável dos números. A bomba vai estoirar e provocar um tsunami demográfico que terá como ponto principal de impacto e destruição a Europa.

[continua na edição desta semana de «O Diabo»]

Disperato Amore

Mão amiga trouxe-me ontem de Roma o último álbum dos geniais ZetaZeroAlfa. Chama-se Disperato Amore, é excelente e não tem parado de girar no meu leitor. Obrigado João!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O talento não é desculpa

No mesmo país que celebrou como herói nacional um falecido escritor comunista – que saneou vários jornalistas enquanto subdirector do «DN» apenas por motivos políticos –, por este ter ganho um prémio Nobel, o projecto de um voto de pesar pela morte de António Manuel Couto Viana, proposto pelo grupo parlamentar do PS, foi retirado após pressão do PCP e do BE. É bom ver que para esta gente o ideal da cultura literária continua a ser uma União de Escritores Soviéticos. E o talento que se lixe!

A este propósito, recordei-me de uma passagem do livro de Alain de Benoist, "Comunismo e Nazismo: 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917-1989)", publicado em Portugal pela Hugin Editores, em 1999: "O nacionalismo é frequentemente assimilado ao fascismo, e este ao nazismo, enquanto que o socialismo nunca é considerado como potencialmente estalinista. A direita é sempre suspeita de «fascismo», enquanto que o comunismo, apesar dos seus erros, é tido como pertencente às «forças do progresso». A venda de um livro nazi suscita veementes protestos (e pode cair na alçada da lei), a de um livro comunista não se presta a nenhum comentário particular. Um velho nazi fica infrequentável para sempre, enquanto que o facto de ter sido comunista não implica nenhuma perda de prestígio nem de estatuto social, mesmo para quem nunca exprimiu arrependimento. O mínimo laço, real ou suposto, com uma ideologia apresentada como tendo, de perto ou de longe, algum parentesco que seja com o nazismo, é uma marca de infâmia indelével que leva à denúncia e ao ostracismo. (...) Pablo Neruda, Bertold Brecht ou Einsenstein são, e com razão, celebrados pelo seu talento. Drieu, Céline ou Leni Riefenstahl, ainda que não vejam negado o seu, continuam envoltos numa aura sulfurosa, que leva a lembrar que «o talento não é desculpa»."

O Solstício da Terra e Povo


No passado dia 20 de Junho, a associação Terra e Povo celebrou o Solstício de Verão, marcando a mudança de ciclo. Veja o relato completo aqui.

IdentidaD n.º 29

Paisagem europeia

Esqueçam os filmes de Verão, em especial aqueles ligeiros e prontos-a-digerir tão ao gosto norte-americano. Com estreias de fugir, é melhor regressar a uma das boas surpresas em cartaz vindas do nosso continente, a mostrar a qualidade e originalidade do cinema europeu.

Da janela do seu apartamento vazio em Amesterdão, ela observa os transeuntes a vasculharem o recheio da casa deixado na rua. De seguida, tira a aliança e assim começa uma viagem a pé e à boleia, de mochila às costas, até à costa da chuvosa e ventosa Irlanda. Este é o início de “Nada pessoal”, filme apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema de Locarno do ano passado, assinado por Urszula Antoniak, que escreve e realiza, na sua estreia nas longas-metragens.

Nesta história, vemos como no seu percurso, aparentemente errático, esta rapariga que parece querer desligar-se do mundo, não falando com ninguém e evitando mesmo qualquer contacto, encontra um homem que vive sozinho numa quinta. O semi-eremita oferece-lhe comida a troco de trabalho na sua propriedade isolada. Ela decide ficar, mediante um pacto de silêncio, iniciando uma relação que o filme, bem dividido, nos mostra em capítulos que não nos levam aos lugares-comuns das histórias de amor. Um trabalho notável sobre a forma como as pessoas se relacionam e se procuram conhecer à medida que a curiosidade um pelo outro aumenta. Uma óptima prestação de uma dupla de actores que não precisa de nada mais que o seu talento e entrega para nos oferecer uma representação sincera e poderosa.

Os campos verdes da Irlanda, as suas praias pedregosas e os seus rochedos escarpados proporcionam uma fotografia maravilhosa, que é bem aproveitada para mostrar as paisagens físicas das terras gaélicas onde a Natureza mostra a sua força. Estas cruzam-se com as paisagens humanas, como a da tez alva polvilhada de sardas e os cabelos ruivos da holandesa Lotte Verbeek, com os seus olhos azuis-esverdeados que parecem reflectir o mar, e as mãos sulcadas pelos anos e pelo trabalho do irlandês Stephen Rea. A temperar tudo isto temos momentos de música tradicional irlandesa, num registo popular, mas também de ópera, num registo erudito. No seu conjunto, todos estes elementos constituem uma paisagem europeia, das suas terras e das suas gentes, da sua cultura e do seu mistério.

Na era do consumismo desenfreado e do bombardeamento mediático, há uma sensação de liberdade ao observar a vida neste recanto, onde o dia é ocupado normalmente com o trabalho da casa e do campo e as pausas com as refeições e a leitura. Não há televisão e é um velho rádio que dá música e por vezes notícias, em som de fundo. O conforto não está no excesso e no comodismo, mas na justa recompensa do esforço diário e no conhecimento da terra e do seu equilíbrio.

Esta é uma viagem – não no sentido de turismo, mas de aventura – não nos deixa indiferentes. Até o enigmático final mantém a questão mais importante levantada durante o filme: “Quem és tu?” [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Boletim Evoliano n.º 9

terça-feira, 22 de junho de 2010

Em obras...

O meu amigo HNO, muito avesso a "modernices", como ele diz, ficou escandalizado com as alterações nesta casa. Realmente, hoje tem sido dia de grandes mudanças. Decidi finalmente aproveitar as novas possibilidades oferecidas pelo Blogger e aplicá-las aqui. Contei, claro, com a preciosa ajuda do Miguel Vaz. Espero que gostem e, principalmente, que fique mais funcional.

Dia d'O Diabo


Pode folhear esta edição aqui.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O dia mais longo


Celebremos no dia mais longo do ano a nossa herança ancestral, afirmando a nossa concepção cíclica do mundo, a nossa ligação à terra – a nossa identidade.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Frase do dia

«A queda que dia a dia se acelera para uma catástrofe que não se consegue imaginar é para a maioria dos portugueses, talvez por isso mesmo, irreal: uma coisa que sucede num outro mundo e a outra gente.»

Vasco Pulido Valente
in «Público».

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Eu vi morrer o III Reich


Este é um livro ao qual regressei aquando da morte de João Aguiar. Foi graças a ele que chegou até nós o valioso testemunho de quem viveu o fim do III Reich de bem perto. Num país como o nosso, onde a publicação de memórias é rara, às vezes é necessário um impulsionador para o conseguir. É o caso desta obra, que relata as memórias de Manuel Homem de Mello, no início da sua carreira diplomática, enquanto segundo secretário da Legação de Portugal em Berlim, entre 1941 e 1945.

O único relato de um português que presenciou o fim da Alemanha nacional-socialista que eu conhecia era o livro “Como vi o fim da guerra na Alemanha”, do Visconde do Porto da Cruz, cuja primeira edição é de 1946. Confesso que sempre me fascinou saber como era o dia-a-dia neste verdadeiro Crepúsculo dos Deuses. Foi por isso que logo me interessou muito o livro coordenado e comentado por Aguiar.

Segundo ele explica na introdução, conheceu o embaixador Homem de Mello nos anos 60 enquanto trabalhava sob a direcção de um dos seus filhos, em Bruxelas. Convidado a ir a Bad Godesberg, onde se situava a residência oficial de Manual Homem de Mello, então embaixador de Portugal na República Federal da Alemanha, ouviu por várias vezes as "lembranças dos tempestuosos anos em Berlim". Ciente da sua importância, desde logo insistiu em que as publicasse, mas "foram necessários 12 anos para o convencer..." Em Novembro de 1982, estando a primeira edição do livro em preparação, o embaixador Homem de Mello faleceu e esta só sairia no ano seguinte.

Publicado pela Vega, numa edição longe da qualidade exigida, mas com algumas ilustrações, este é um livro que hoje não é fácil de encontrar. Mantendo-se o seu interesse, justifica-se inteiramente uma reedição.

Le Choc du Mois n.º 37

O último número da revista francesa «Le Choc du Mois» dedica um dossier a um assunto de extrema importância hoje em dia, os perigos da alimentação moderna, que inclui vários artigos e três entrevistas. Nos muitos artigos que se seguem, merece especial destaque o encontro entre “dois gigantes no século, Jünger e Heidegger”, visto por Alain de Benoist. Referência também para o artigo “Purificação contabilística e branqueamento estatístico”, de François Bousquet, que analisa a forma como os demógrafos oficiais fazem desaparecer os imigrantes das estaísticas em França. Nota ainda para a secção de economia, onde se questiona “Capitalismo: em direcção à crise final?”, numa série de artigos sobre a situação económica actual e uma entrevista com Jean-Luc Gréau, e ainda, na secção de cultura, entre vários textos, o ensaio de Philippe Marsay “A identidade não existe”, sobre o livro de Jean-Luc Nancy, e “Uma visão geopolítica à francesa”, sobre a reflexão de Maurras neste domínio.

Para hoje


quarta-feira, 16 de junho de 2010

De passagem

A América que nos chega a casa diariamente é a da “terra das oportunidades”, do espectáculo, da abundância e do desperdício. Um novo centro do mundo, a hiperpotência que influencia todo o planeta. No cinema, a imagem desta América é, por excelência, Hollywood e as suas grandes produções. Mas, por detrás desta tela, há um país profundo, um mundo onde também há pobreza e extremas dificuldades. Também há outro cinema – independente –, felizmente cada vez mais divulgado entre nós, onde encontramos boas surpresas. É o caso de “Wendy e Lucy”, cuja estreia foi há dois anos no Festival de Cinema de Cannes.

Wendy (Michelle Williams) é uma rapariga que está “on the road” com a sua cadela Lucy e o pouco dinheiro contado. O seu destino é o Alaska, referido quase como “terra prometida”, onde espera encontrar um emprego. Ainda no Oregon, o seu carro avaria-se forçando-a a parar até tentar resolver o problema, mas as coisas precipitam-se. A sua débil situação financeira leva-a a furtar duas latas de comida para cão num supermercado para alimentar Lucy. É apanhada, detida e forçada a deixar a sua companheira canina presa à porta da loja. Quando regressa da esquadra, ao fim de longas horas, não encontra a sua amiga e começa a desesperar.

A história deste filme é a de uma busca motivada pela amizade. Da forma como esse sentimento se torna um compromisso do qual se não pode desistir, por muito difíceis que se tornem as coisas. Uma jornada por um mundo que funciona a dinheiro, com apenas uns tostões no bolso e que vão desaparecendo rapidamente.

Michelle Williams, que tem um excelente desempenho, é o centro do filme e vai-se cruzando com várias personagens fugazes que preenchem bem toda a acção. Como a sua personagem afirma por várias vezes: está “só de passagem”. O trabalho de Kelly Reichardt, que regressa ao mesmo estado onde filmou “Old Joy” (2006), é bastante bom e são de notar os planos fantásticos no supermercado – uma extraordinariamente bem conseguida oposição consumismo/necessidade.

Esta é uma reflexão norte-americana, a lembrar que momentos como a Grande Depressão também fazem parte daquele país. Uma viagem pessoal sobre a vida, o nosso caminho, a solidariedade, a amizade e as decisões a que somos levados. Em tempos de crise, é bom lembrar que para os gregos antigos “krisis” significava exactamente “decisão”, mas num momento conturbado, especialmente provocado por factores exógenos, onde tudo era possível.

Uma estreia a saudar, já que traz o cinema independente norte-americano às salas portuguesas, que só peca por tardia. Uma obra a mostrar que uma história simples também dá um bom filme. Um filme sobre os valores e a sua importância quando tudo o resto falta e que nos obriga a questionar certezas que tínhamos por inabaláveis. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

O novo racismo sul-africano


Afrique du sud : le racisme anti-blanc

Enquanto a maioria continua a soprar alegremente as insuportáveis vuvuzelas, acreditando na utopia da "nação arco-íris", alguns tentam mostrar a nova realidade sul-africana. É o caso desta reportagem do canal francês M6, que mostra como hoje são os brancos os discriminados. Como os bairros da lata de brancos, sem água nem electricidade, crescem de dia para dia. A chamada discriminação positiva é, de facto, um verdadeiro racismo anti-branco, que atira milhares de pessoas para o desemprego e a miséria apenas devido à sua raça. Racismo? Claro! Mas o racismo anti-branco, ao contrário de todos os outros, não interessa combater nem denunciar. São os dois pesos e duas medidas da ditadura do politicamente correcto.

É melhor continuar cego pela cortina do futebol, apesar de intervenções como a de Bernard Lugan, especialista em assuntos africanos, que alertou para o facto deste país se dirigir para a catástrofe.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Soneto agudizante de despedida

Morreu por não saber vestir a pele
De português perdido à beira-mar
Morreu! E até parece que com ele
Vai toda a poesia a enterrar

Morreu por não haver já quem anele
Os gestos de uma gesta secular
Morreu! Para que a Pátria Exausta o vele
Mais do que as rosas velhas a murchar

Assim o centenário sem proveito
Da funda e falsa fé republicana
Não lhe irá macerar o nobre peito

O seu legado é obra sobre-humana
E o nome um decassílabo perfeito:
António Manuel Couto Viana.

Bruno Oliveira Santos
(10.06.2010)

in «O Diabo».

Dia d'O Diabo

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Geert Wilders

Geert Wilders é um fenómeno político holandês semelhante ao malogrado Pim Fortuyn. Devido às suas posições anti-islâmicas e anti-imigração é prontamente catalogado como "extrema-direita" pela imprensa bem-pensante. Na verdade, o seu partido pouco tem que ver com os que ocupam esse espectro no panorama europeu. Conheço algumas pessoas – poucas – na chamada área nacional que gostam dele. Não é o meu caso. Ainda ontem concordei aqui com um leitor nesse sentido.

Lembrei-me, a este propósito, de um artigo escrito no n.º 19 do jornal «IdentidaD», intitulado "O confuso anti-islamismo de Geert Wilders", constante de um dossier consagrado às forças identitárias na Europa, onde se afirmava: "O PVV é difícil considerá-lo como uma formação assimilável aos restantes partidos europeus tratados neste dossier. Se apesar de tudo mantém alguns rasgos nacionalistas e identitários, também tem elementos do que poderíamos denominar 'mundialismo anti-islâmico'. No seu famoso filme Fitna, Wilders parece muito menos preocupado com o avanço demográfico das massas de imigrantes islâmicas na Europa - o problema real - e mais em assinalar as problemáticas locais nos países islâmicos, com a mensagem subliminar de que a democracia ocidental e o modelo capitalista americano deveriam impor-se nos países árabes e muçulmanos. Um argumento sobre o qual os europeus e os defensores da autodeterminação dos povos não podem estar de acordo." Citando depois Wilders distanciando-se de vários partidos nacionalistas europeus, ao mesmo tempo que afirmava a sua admiração por Israel, que considera a única democracia no Próximo Oriente, o artigo conclui que: "Apesar disso, realmente, os votos de Wilders não vêm da sua admiração pelo estado de Israel, mas da preocupação angustiante com que os holandeses vêem todos os dias como o seu bonito país de pradarias ganhas ao mar, de igrejas e tulipais, se transforma num território de mesquitas, véus e integristas."

Para não nos distrairmos do fundamental, é de reler o post Para a compreensão do discurso anti-islamização.

domingo, 13 de junho de 2010

Poeta sem os favores do tempo

Um amigo alertou-me em boa hora para o que Francisco José Viegas escreveu sobre António Manuel Couto Viana. Palavras honestas e corajosas, que vale a pena ler: "Couto Viana estava do lado dos vencidos, o que - num país que vive a História da Literatura e dos criadores marcado pelo ‘complexo de esquerda’ - não ajudou. A sua morte despertou uma nostalgia brava e magoada em redor deste homem melancólico que deu uma parte da vida pelos leitores que manteve e que lhe sobrevivem. Tão poucos. Muitos não sabem que o são, porque Couto Viana escreveu fados. Mas não era um letrista. Era um poeta que conhecia o seu lugar num mundo que o ignorou deliberadamente, como uma presença incómoda. Cai sobre a sua morte um silêncio discreto, como ele quereria ou foi levado a querer. Um dia será redescoberto."

Tolerâncias holandesas

Na sequência do resultado pelo partido anti-islamista de Geert Wilders na Holanda, o «Diário de Notícias» publicou ontem uma entrevista muito interessante com J. Rentes de Carvalho, escritor residente na Holanda há 54 anos, professor de Literatura Portuguesa (jubilado) e antigo jornalista, que afirma: "Os holandeses vivem na ilusão de que são os mais tolerantes". Sobre os trabalhistas diz que "representam o politicamente correcto, que não ousa chamar as coisas pelo seu nome. Eles vivem numa utopia em que para ser bom é preciso ser negro ou muçulmano". E acrescenta: "Acham que o imigrante tem de ser acarinhado ao ponto do ridículo. Até há pouco, não exerciam qualquer controlo sobre os subsídios à imigração. Um exemplo: um marroquino dizia ser polígamo, ter quatro mulheres e 17 filhos, e o subsídio era entregue em função destes números. Outro exemplo: uma municipalidade proibiu o padre de tocar o sino enquanto da mesquita se pode continuar a chamar para a oração."

sábado, 12 de junho de 2010

As Tapeçarias de Pastrana no MNAA


A partir de hoje e até 12 de Setembro, as chamadas "Tapeçarias de Pastrana", os quatro recém-restaurados monumentais panos, tecidos em Tournai por encomenda de D. Afonso V, conservados na Colegiada de Pastrana desde o século XVI, podem ser vistos no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), na exposição "A Invenção da Glória. D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana".

Estas quatro impressionantes peças, que apenas tive oportunidade de ver as réplicas que se encontram no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães, representam a Conquista de Arzila (Desembarque, Cerco e Assalto) e a Tomada de Tânger.

Uma oportunidade a não perder.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Candidatura presidencial de José Pinto-Coelho na televisão

Bernard Lugan sobre a África do Sul

No dia em que começa o Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul, é de ouvir o africanista Bernard Lugan sobre este país que considera "em perdição", recusando a fantasia da "nação arco-íris".

10 de Junho

Ontem foi um Dia de Portugal em cheio, com a homenagem aos combatentes, em Belém, da parte da manhã, ao qual se seguiu um almoço-convívio, e a marcha do PNR, à tarde.



A cerimónia de homenagem aos combatentes, onde estive com a Comissão Nacionalista de Homenagem aos Mortos por Portugal.


A marcha nacionalista que partiu do Largo do Rato e terminou na Praça Luís de Camões.


Discurso de José Pinto-Coelho, onde anunciou a sua candidatura à presidência da República.

José Pinto-Coelho à presidência!


A grande notícia de ontem foi o anúncio da candidatura de José Pinto-Coelho à presidência da República, feito no discurso que encerrou a marcha do Dia de Portugal. É tempo agora de apoiar esta candidatura nacionalista, contribuindo na sua divulgação e na recolha das assinaturas necessárias.

O sítio oficial na internet é: http://www.josepintocoelho.com/

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Mau tenente mau

Werner Herzog recusou que o seu filme, baptizado com o título original quilométrico “The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans”, fosse um “remake” do excepcional “Bad Lieutenant” realizado em 1992 por Abel Ferrara. No entanto, como facilmente se percebe, é impossível não pensarmos nesse clássico contemporâneo “neo-dark”com a magnífica interpretação de Harvey Keitel. A inspiração é óbvia: um polícia corrupto, que abusa do poder, consome drogas, joga em apostas ilegais e entra numa espiral de decadência. Mas a distância entre os dois filmes é enorme – é a que vai de uma obra-prima a um filme vulgar.

Quando o filme foi anunciado, houve uma “troca de galhardetes” na comunicação social entre os dois realizadores. Ferrara, bastante irritado com a notícia, chegou mesmo a desejar a morte às pessoas que fazem “remakes”. A reacção de Herzog foi afirmar que desconhecia Abel Ferrara e nunca tinha visto qualquer trabalho dele.

Polémica à parte, este “Polícia sem Lei” tem lugar em Nova Orleães e passa-se após a destruição deixada pelo furacão Katrina. Este é um dos aspectos que foram muito mal aproveitados, já que o caos que se gerou na sequência dessa catástrofe natural não é explorado.

A história é a de um polícia que lesiona as costas ao salvar um detido de morrer afogado numa inundação. Dos analgésicos receitados às drogas duras é um instante, talvez até uma passagem demasiado rápida. Promovido a tenente, é nomeado responsável pela investigação de um homicídio múltiplo durante a qual se envolve numa série de situações complicadas. Tudo parece correr mal e precipitar-se: vício, abuso, dívidas, azares, ligações com criminosos, entre outros. Aparentemente num beco sem saída, vemos a sua vida desabar diante os seus olhos e interrogamo-nos: será que tal percurso descendente pode ter um final feliz?

Nicholas Cage representa Terrence McDonagh, a personagem principal, e está bem nas cenas como drogado, mas longe da sua impressionante prestação em “Morrer em Las Vegas” (1995), de Mike Figgis, filme brilhante e tocante sobre o vício e as suas últimas consequências. Cambaleando com o seu Smith & Wesson modelo 29 à cintura – revólver igual ao imortalizado no cinema por Dirty Harry –, desleixadamente enfiado nas calças, falha nas cenas onde parece tentar um lado cómico exagerado. Quanto a outros desempenhos, Eva Mendes não surpreende e Val Kilmer pouco aparece e sempre num tom exaltado.

Um filme ao qual falta a profundidade, a dureza e a tensão exigidas; para além da violência crua e não de espectáculo, como nos é apresentada. Um trabalho ao qual falta a dimensão trágica de uma desgraça pessoal, que acaba tratada com uma ligeireza improvável e, por isso, inadmissível. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Filmes de culto (XXXV)

Bad Lieutenant, Abel Ferrara, 1992.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Partiu o poeta...

António Manuel Couto Viana (24/1/1923 - 8/6/2010)

João Aguiar (28/10/1943 - 3/6/2010)

Outro aspecto penoso mas inevitável da guerra é assistir à morte de camaradas com quem na véspera se partilhou uma refeição à roda da fogueira. Assim perdi o meu amigo Indibilis, que morreu durante um assalto, trespassado por uma lança. Vinguei-o matando o legionário que o atingiu. Antes de morrer, Indibilis ofereceu-me o seu capacete de bronze e pediu-me que, em troca, enterrasse o seu corpo. Cumpri esta vontade; fora um guerreiro corajoso e um bom amigo, sempre pronto a instruir-me no ofício da guerra.
João Aguiar
in «A Voz dos Deuses»


Na semana passada, morreu o escritor João Aguiar. Autor de uma quantidade impressionante de obras, viu o seu talento ser louvado pelo público, mas não tanto pela crítica. Como disse o HNO, o seu grande mérito nunca foi devidamente reconhecido. Nunca tive o prazer de o conhecer, mas tenho um grande amigo que privou com ele e a quem dei a notícia da sua morte. Numa longa conversa, pela noite adentro, falámos de Aguiar, como pessoa, e do seu trabalho. Nesta troca de impressões transmiti-lhe uma experiência interessante, contada por outro amigo, bastante mais novo, sobre a influência deste escritor. Hoje na casa dos vinte e poucos anos, ainda na faculdade, disse-me como tinha gostado de ler as aventuras do Bando dos Quatro, colecção iniciada já no final dos anos 90 do século passado e da qual não li qualquer volume. Gostara como esssa série, ao contrário de outras concorrentes, transmitia um sentimento português e lhe despertava a curiosidade para a História e literatura pátrias. Lembrou-se que, por exemplo, tinha sido num desses livros que ouvira pela primeira vez falar n'Os Maias, romance que se tornaria mais tarde um dos seus de eleição. Depertar a curiosidade era um dos seus dons – os seus livros continuarão a fazê-lo.

Dia d'O Diabo

domingo, 6 de junho de 2010

Um sossego

Passei o fim-de-semana fora de Lisboa e foi um sossego não ouvir, nem por uma vez, as malfadadas vuvuzelas. Para esse novo instrumento terceiro-mundista de estupidificação nacional só há a solução apontada pelo Eurico de Barros: "contra as vuvuzelas, marchar!"

sábado, 5 de junho de 2010

La Nouvelle Revue d'Histoire n.º 48

O número 48 de «La Nouvelle Revue d'Histoire», a revista de referência que habitualmente aconselho aqui, já está disponível nas bancas do nosso país. A sua leitura é obrigatória pela sua qualidade, mas desta vez acresce a actualidade do tema. O dossier desta edição é “A África do Sul: entre negros e brancos”, com artigos de Dominique Venner, Philippe Conrad, Henri Nérac, Philippe d'Hugues, Pierre-Olivier Sabalot e, como não podia deixar de ser, do africanista Bernard Lugan, que também dá uma entrevista sobre a evolução da historiografia relativa à África do Sul.

Destaque ainda para três entrevistas: a primeira e mais longa sobre a Europa do Norte e os Vikings com o incontornável Régis Boyer; a segunda com Dominique Venner sobre De Gaulle; a última com Aymeric Chauprade, sobre o novo sítio na internet Realpolitik.tv. Nos artigos, nota para “Mauras na Universidade” de François-Georges Dreyfus, “O centenário de Jean Anouilh”, de Jean Mabire, a evocação de Joseph Kessel, de Anne Bernet, e a memória de Jean-Claude Valla, num “retrato de um amigo desaparecido demasiado cedo” assinado por Alain de Benoist. Como habitualmente, temos a crónica de Péroncel-Hugoz e as secções do costume.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Éléments n.º 135

Alain de Benoist e a «Éléments», a sua “revista das ideias”, são referências que acompanho regularmente, pese embora algumas discordâncias. O último número que comprei foi o 135, que abre com o editorial de Robert de Herte “A justiça ou a vingança?”, uma óptima reflexão para entrar no excelente e pertinente dossier com o tema “A justiça que mete medo”, que inclui artigos “A justiça vítima das ideologias” e “A justiça penal em questões”, de Alain de Benoist, “Os romanos não confundiam direito e lei!”, de Jean-Charles Personne, e uma entrevista com o magistrado François Franchi sobre a perda de credibilidade da justiça.

A destacar, também, ao debate “Marx, Stirner e a questão proletária”, a entrevista com o especialista em política social e professor na Universidade de Múrcia Jerónimo Molina Cano e os artigos “Michel Déon é um escritor trágico”, de Christopher Gérard, e “George Orwell previu o pior”, de Pierre Le Vigan. Nas 64 páginas da revista há ainda muitas outras coisas a descobrir, como artigos, ideias, críticas a livros e filmes, etc. Última nota para o texto de Michel Marmin em memória de Jean-Claude Valla.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O tanque

O conflito a que Israel chamou “Operação Paz na Galileia” e os árabes “A Invasão” ficou conhecido como Primeira Guerra do Líbano e iniciou-se a 6 de Junho de 1982, com a invasão do Sul do Líbano por tropas israelitas com o apoio de cristãos libaneses, contra a OLP, forças sírias e libanesas muçulmanas. É exactamente nesse mês que se passa “Líbano”, realizado e escrito por Samuel Maoz, que se baseou nas suas próprias experiências nessa guerra onde foi ferido aos 20 anos de idade.

O filme, que venceu o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza do ano passado, conta a história da tripulação de um tanque que tem que acompanhar um pelotão de pára-quedistas numa operação em território hostil. De início, tudo é apresentado como sendo uma coisa simples, um “passeio” como é dito. Mas cedo se percebe que não vai ser assim, pelo contrário. O destino da missão, um hotel chamado ironicamente Saint Tropez, começa a pouco e pouco a tornar-se uma miragem.

Dentro desse tanque há uma inscrição que diz “o tanque é de ferro, os homens são de aço”, mas o que ninguém disse a estes jovens soldados é que esse aço é temperado pela guerra. E é exactamente a guerra que eles vão encontrar e viver, com todas a suas dúvidas e o seu horror, o que lhes causa uma tremenda confusão e pressão. São novos, inexperientes, ingénuos até. O comandante do tanque não tem autoridade e é constantemente questionado pela sua equipa, na qual uns contam o tempo de comissão que lhes falta e outros sonham com o conforto do lar maternal, numa permanente desautorização. Também não são movidos por um idealismo ou conhecimento dos beligerantes. A determinada altura um deles pergunta: “O que é um falangista?”

Tudo isto se passa num espaço claustrofóbico, para agravar ainda mais a tensão. Esta é aliás uma palavra que define bem este filme. O único momento em que essa tensão parece aliviar-se é quando um dos rapazes conta uma história pessoal que cruza a morte do seu pai e uma situação de cariz sexual com a professora do liceu. A sua expressão mostra-nos como naqueles homens a adolescência está ainda tão perto.

O mundo exterior chega-lhes pela mira do artilheiro – que aqui funciona como uma segunda câmara, um segundo nível do filme –, ou pela escotilha por onde entram o comandante pára-quedista, um camarada de armas morto, um prisioneiro sírio e um falangista libanês.

Por fim, há que referir o trabalho muito bem conseguido de realização dos jogos de reflexos com a água no chão do tanque, talvez a mostrar que esta é a única forma de ultrapassar a exiguidade constrangedora do espaço, para além da mira que anuncia morte e destruição. Aqui, o ambiente confinado entra-nos pelos olhos dentro, com as paredes oleosas e os fumos intoxicantes, para além do desconforto do ruído ensurdecedor. Uma atmosfera que se sente neste filme de tensão constante. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]