segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Debater as Direitas

Decorreu nos passados dias 29 e 30 de Novembro, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, um seminário intitulado “As raízes profundas não gelam? Ideias e percursos das direitas portuguesas” organizado pelo investigador Riccardo Marchi. Este italiano radicado em Portugal é autor de um estudo sério sobre as direitas radicais portuguesas de 1939 a 1974, o que era uma lacuna na nossa historiografia. Marchi decidiu investigar aprofundadamente o assunto e doutorou-se em História no ISCTE com a tese que deu origem a dois livros complementares: “Folhas Ultras. As ideias da direita radical portuguesa (1939-1950)”, publicado pelo ICS, tem por base a primeira parte do seu estudo; “Império, Nação, Revolução. As direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo (1959-1974)”, publicado pela Texto, é a parte central da sua tese.

Razões de um seminário
Numa entrevista ao blogue Dissidente.info, questionado sobre as razões que o levaram a organizar este seminário, Marchi respondeu: “Quis reunir peritos de cada área específica das direitas que permitam desenhar um “fil rouge” desde o miguelismo contra-revolucionário até ao liberalismo dos nossos dias. Como é óbvio, não procuro uma lógica unívoca que conecte coerentemente tudo o que se moveu na direita em Portugal nos últimos 200 anos. Procuro sim identificar quais raízes afundam no terreno das ideias das direitas portuguesas e, a partir desta pluralidade, pretendo desvendar quais frutos produziram, se ainda são fecundas ou se, pelo contrário, secaram de vez. O intuito final dos dois dias será produzir uma colectânea com as contribuições dos oradores e de outros autores”.

Dois dias de trabalhos
Coube a Rui Ramos a abertura do seminário com a comunicação “As direitas na historiografia portuguesa” e a introdução não podia ter sido melhor. Há muito que este historiador tem denunciado uma oposição que se faz entre a esquerda e direita como se se tratasse do “bem” e do “mal”, perdoando-se os “excessos” das esquerdas e recriminando o mínimo deslize das direitas. Tal reflecte-se no campo historiográfico onde não devia acontecer. Segundo Rui Ramos, há uma cultura instalada que leva a que mesmo historiadores que não seguem necessariamente uma agenda política caiam nessas simplificações. Dos vários exemplos que deu, lembro aqui um: a chamada “ditadura de João Franco” é sempre considerada uma ditadura, por outro lado, o Governo Provisório de 1910, tecnicamente uma ditadura, nunca recebe essa designação e as suas medidas persecutórias são “compreendidas”.
Seguiram-se duas intervenções sobre o miguelismo “A reacção anti-liberal miguelista” de Maria Alexandre Lousada, e “A violência política no miguelismo” de Fátima Sá. Como se pode adivinhar pelos títulos das comunicações, estas centraram-se no “terror miguelista” que recordava, a espaços, as palavras iniciais de Rui Ramos.
Na tarde do primeiro dia falou José Manuel Quintas, sobre o “Integralismo Lusitano para além das etiquetas” e foi bastante interessante ouvir as origens desta experiência política e intelectual portuguesa por tantas vezes (propositadamente) mal tratada. O único defeito da sua comunicação foi a falta de tempo para assistir a tudo o que estava preparado. Seguiu-se a excelente intervenção de Ernesto Castro Leal, intitulada “As direitas revolucionárias na I República”, que se centrou em grupos menos conhecidos como a Acção Realista Portuguesa ou o Centro do Nacionalismo Lusitano, falando com clareza e demonstrando profundo conhecimento.
No segundo dia, duas intervenções a que O Diabo assistiu. Primeiro do cronista Henrique raposo que falou sobre “A Direita liberal no Portugal do Século XXI”, tentando demarcar o liberalismo do puramente económico, ao mesmo tempo que adiantou que várias das suas ideias, tão criticadas, estão a ser propostas pela própria União Europeia a vários estados devido à actual crise. Depois a comunicação de José Pedro Zúquete, “O Império contra-ataca: uma ideia antiga para as direitas do futuro”, que era sem dúvida a que tinha o melhor título de todo o seminário e prometia debate.

Ideias para o futuro
A José Pedro Zúquete, investigador a quem coube o primeiro artigo académico sobre o Partido Nacional Renovador (PNR), há que reconhecer a capacidade de estudo da chamada “extrema-direita”, em todas as suas complexidades, e a coragem de tentar propostas para o futuro, recusando a aposição confortável de observador não-interveniente.
Na sua participação neste seminário lembrou a importância da lusofonia na construção das direitas do futuro. Essa era a “ideia antiga” a que se referia o título da sua comunicação. Criticou o PNR por não a considerar, desejando boa sorte a quem tentar pesquisar o termo “lusofonia” no site deste partido nacionalista. Louvando, por outro lado, o Movimento Internacional Lusófono (MIL), disse que este era a expressão de uma ideia que não devemos desprezar. [publicado na última edição de «O Diabo»]

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