quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Mosteiro

Quando há uns meses atrás “Dos Deuses e dos Homens” se estreou em França, rapidamente se tornou um fenómeno cultural e um êxito imediato de bilheteira, ultrapassando um milhão de espectadores nas duas primeiras semanas. Apesar de ter vencido o Grande Prémio do Festival de Cannes 2010 e recebido o aplauso da crítica, não deixa de ser surpreendente para um filme austero sobre monges.

No início dos anos 90 do século passado, na sequência da anulação das eleições que anunciavam uma vitória da Frente Islâmica de Salvação, começa a guerra civil argelina, também conhecida como a “década negra”, ou “do terrorismo”, que opôs o exército nacional a grupos islamitas armados. A história do filme situa-se em 1996, no centro desse conflito sangrento, e baseia-se no caso verídico do rapto e assassinato dos cistercienses do mosteiro de Tibhirine, nas montanhas do Atlas. Este enquadramento não é dado, tal como o importante papel desempenhado historicamente pelos mosteiros cristãos na Argélia, mas é essencial para se perceber melhor certas passagens.

Parece que o primeiro motivo da atracção desta obra, é o fascínio pela opção da reclusão monástica, em especial no mundo materialista e egoísta em que vivemos. Ao contrário dos excessos consumistas que nos rodeiam, os ascetas deste mosteiro prezam o silêncio, oram em conjunto, vivem da terra e ajudam a população local. Há algo de sedutor em todo este minimalismo, numa época de grandes efeitos especiais. Nota-se que o realizador deu uma especial atenção ao pormenor nas cenas passadas no mosteiro. Xavier Beauvois, que também foi co-argumentista, esteve sempre acompanhado por um especialista que o aconselhou, afirmando que “a dimensão documental é essencial”. Nas representações, destaque para as prestações de Lambert Wilson, no papel do irmão Christian, o líder, e de Michael Lonsdale, que encarna brilhantemente o terno irmão Luc, o médico que assiste todos sem excepções.

Perante a proximidade crescente da ameaça terrorista, instala-se nesta comunidade pacífica a dúvida sobre a permanência naquele local e o possível martírio. Mas esta esconde uma série de questões mais profundas, como a do papel de cada um no mundo e qual o significado das suas escolhas.

É impossível não pensar também na difícil relação da França com o seu passado colonial, no actual conflito com o islão que se vive agora em território francês e nos ataques de islamitas a cristãos que aumentam hoje em dia em todo o mundo.

Um bom filme que, ao que tudo aponta, poderá ser o representante francês na cerimónia dos Óscares da Academia, em Fevereiro do próximo ano, na nomeação para um Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

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