quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O encanto da sereia

A faina árdua e solitária pode trazer a felicidade? Esta é questão que vai pairar na mente de Syracuse (Collin Farrell) depois de descobrir que entre o peixe, “apanhou” também uma mulher nas suas redes. Será uma sereia? De facto, veio da água e quando canta dá-lhe sorte, enchendo-lhe as redes.

De início, esta mulher misteriosa, interpretada pela actriz e cantora polaca Alicja Bachleda, não quer ser vista nem conhecer ninguém, mas acaba por dizer que se chama Ondine. O nome transporta-nos à mitologia europeia e podemos pensar nas ondinas, elementais da água, cantadas entre nós por Camões ou Teófilo Braga.

Rapidamente ela começa a mudar a vida deste pescador irlandês que por muitos ainda é conhecido por “Circus”, devido ao seu passado de alcoolismo e às figuras de palhaço que fazia. Agora está sóbrio e sabe dizer com precisão há quantos anos, meses e dias não toca numa gota de álcool. A mudança deu-se devido à filha, que sofre de uma doença que a obriga a deslocar-se muitas vezes em cadeira de rodas. Annie (Alison Barry), vive com a mãe e o padrasto, que continuam a beber como se não houvesse amanhã. Para a rapariga, Ondine é uma “selkie”; ela estudou essa criatura da mitologia celta, que alterna de forma entre mulher e foca, e está certa que a sua nova amiga é uma delas.

Colin Farrell, que para mim já foi uma desilusão em tantos filmes, tem aqui um papel que lhe assenta como uma luva. Às mulheres a quem desagradou esta observação peço que se lembrem da sua deplorável prestação em “Alexandre, o Grande” (2004). Stephen Rea, que podemos considerar actor residente dos filmes de Jordan, vai bem no papel de um padre amigo e Alicja Bachleda oferece todo o mistério que a sua personagem exige.

Há um paralelo entre a vida real e este filme, já que Farrell, depois de passar por uma cura de alcoolismo, viveu com Alicja, de quem teve um filho.

Todo este conto de fadas se passa na terra encantada que é a Irlanda. As paisagens são maravilhosas e proporcionam um pano de fundo maravilhoso. Tudo belissimamente filmado por um dos meus realizadores de eleição que está, mais uma vez, literalmente em casa. Neil Jordan dispensa apresentações, mas nunca é demais lembrar o enigmático “Jogo de Lágrimas” (1992), o nacional “Michael Collins” (1996) e o surpreendente “A Estranha em Mim” (2007).

Mas talvez pela minha admiração por este realizador irlandês tenha ficado desiludo pelo final. Jordan, que também escreve o argumento, decide dar-nos um fim de filme que mais parece de Domingo à tarde. É caso para dizer que tudo é excelente até ao final, que não se esperava tão simples e cor-de-rosa.
Expectativas à parte, este é um bom filme que vale a pena ver. Não é todos os dias que podemos assistir à exaltação dos valores familiares, tendo por contexto a mitologia europeia e como cenário uma terra céltica mágica. Deixem-se encantar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

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