quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O crime compensa

Diz-nos a publicidade a “Inside Job” – título perfeito, mas infelizmente intraduzível – que este filme custou mais de 20 triliões de dólares a fazer. O pior é que esse dinheiro é de todos nós, melhor dizendo, de todos os afectados pela profunda crise económico-financeira que estoirou em 2008. Milhões de pessoas perderam os seus empregos, as suas casas e as suas poupanças. Como foi possível essa tragédia? Quais as suas origens? Quais os seus culpados? Algo foi feito para resolvê-la?

Este é um documentário corajoso que responde a estas questões de uma forma clara e acessível e incisiva, com o recurso a entrevistas, gráficos, títulos de jornais e imagens de arquivo. Tudo muito bem montado, em sequências bem ritmadas que nunca se tornam maçadoras e prendem a atenção do espectador e com a narração do actor Matt Damon.

O responsável por este trabalho de verdadeiro serviço público, isento e bem documentado, é Charles Ferguson que o realiza, produz e escreve. Ferguson é formado em Matemática e doutorado em Ciência Política. Profissionalmente foi empresário na área das novas tecnologias e entretanto passou ao cinema, onde se notabilizou com o documentário sobre a guerra do Iraque “No End in Sight” (2007). Para fazer este filme viajou pelo mundo questionando especialistas, políticos e alguns dos responsáveis pelo desastre financeiro, a quem não teve qualquer problema em colocar as perguntas mais difíceis. Alguns recusaram dar entrevistas e essa atitude é referida, outros ficam sem palavras, incomodados, enervados e há até quem peça para desligar a câmara.

Traçando um percurso desde que se abandonou o modelo financeiro tradicional americano, concretamente com a administração Reagan, mostra-nos como a alta finança começou a ser cada vez mais concentrada e poderosa, de tal forma que começou a dominar a política, independentemente de ser republicana ou democrata. Como é dito a determinada altura, o que existe é um “governo de Wall Street”.

Mas o que mais revolta é a impunidade generalizada que verificamos ao ver que os principais responsáveis continuam a fazer uma vida milionária, coleccionando mansões e jactos privados, ao mesmo tempo que recorrem a serviços de prostituição de luxo e ao consumo de cocaína. Tudo vale neste jogo de ganhar dinheiro à custa da miséria alheia.

A parte final do filme é bastante reveladora do que nos guarda o futuro. Apesar das boas intenções anunciadas pelo recém-eleito presidente Obama, a triste realidade é que nada, ou quase nada, se alterou. Aquele que se apresentava como apóstolo da “mudança”, afinal reconduziu ou colocou em lugares de topo vários responsáveis directos por um ‘meltdown’ nunca antes visto. Para reflectir e agir. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

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