terça-feira, 5 de outubro de 2010

A propósito de um centenário (VIII)

"Os tais pais da República, saídos das Lojas, eram tão mentirosos como os de hoje. Salienta Jorge de Abreu, em "O 5 de Outubro, A Revolução Portuguesa", que: "De todos os relatos que vieram à tona da imprensa portuguesa sobre episódios do movimento que implantou a República no nosso País, conclui-se nitidamente esta coisa curiosa: raros foram os pontos do governo revolucionário que se cumpriram à risca". Para lá de devorar imediatamente alguns dos seus autores, a República começou a endividar-se a ponto do termo "portugaliser" (portugalizar) se tornar comum a fim de designar uma situação extremamente deteriorada. A primeira ditadura militar de Sidónio Pais foi abafada pelo assassinato do mesmo (Sidónio Pais, Diplomata e Conspirador: 1912-17, Miguel Nunes Ramalho), erro em que nunca caiu Salazar. E a República engendrou os seus monstros, sendo ela mesmo um regime iníquo, construído na conspiração, no assassinato, no roubo violento, no terror imposto e voluntariamente posto em prática pelos seus dirigentes, cuja ética não chegaria ainda à do Cavaleiro Kadosh. Gentinha de carripana e armas na mão entrava nas casas e matava em nome da revolução. A tropa invadia os Conventos e confiscava-os para assentar quartéis. Mesmo para terem um Parlamento tiveram que roubar o Mosteiro de São Bento aos beneditinos. É justamente isto que querem comemorar, ao completarem-se 100 anos de vergonha, 300 de decadência e muitos de bancarrota reconhecida. É pena: o País fundado no sangue de gente que combateu nos quatro cantos do mundo não merecia uma tão horrível má sorte. Mas trovadores, bruxas e adivinhos, como cantava José Cid na sua célebre balada, já tinham previsto o desastre e diagnosticado, tal como o sapateiro de Trancoso, em trovas adulteradas, e o Padre António Vieira, em letras incendiárias, que a salvação havia de vir um dia, quando o País que somos batesse no fundo. E alguém havia de avistar o sonho feito realidade: ao lado do cavalo preto da fome, já cansado de cavalgar, ao lado do cavalo amarelo do segador do trigo das almas, o cavalo branco d'El-Rei Dom Sebastião a ultrapassar, por um fino fio indistinto, os seus directos rivais. Quem quer comemorar o perjúrio, a cultura de morte, o roubo, o quadrilhismo, o insondável desejo de assassinar um País nas aras de um templo obscuro – que devia ter uma a serpente Python no centro da cúpula de mármore róseo, como chegou a descrever Robert E. Howard (Conan, The Barbarian) – deveria ir viver para os Sete Infernos de Dante e chiar todos dias da sua porca vida."

António Marques Bessa
in "O Diabo", 5/10/2010.

Sem comentários:

Enviar um comentário