quinta-feira, 14 de outubro de 2010

No fio da navalha

Quem se lembra dos conturbados tempos de violência étnico-política que marcaram a Irlanda do Norte no último quartel do século XX e ficaram conhecidos como “The Troubles”? Para quem acompanhou esse conflito complexo, recusando as análises simplistas de certa imprensa e opinadores maniqueístas, esta é uma incursão muito interessante num período da História Contemporânea cujos efeitos ainda se fazem sentir.

No final dos anos 80, era prática corrente a Royal Ulster Constabulary (RUC), a polícia de então na Irlanda do Norte, recrutar infiltrados no campo inimigo, conhecido por Irish Republican Army (IRA), o exército republicano irlandês, uma força paramilitar independentista considerada como organização terrorista pelo Reino Unido.

A acção de “Na senda dos condenados” decorre nessa altura, concretamente entre 1987 e 1991, contando-nos uma versão livre da história de Martin MacGartland. Este foi um dos infiltrados mais importantes da altura, considerado um “supergrass”, que devido à delação afirmou ter salvo cinquenta pessoas. Este número inspirou o título de um dos seus livros autobiográficos, publicado em 1997, que agora foi adaptado à sétima arte com o mesmo nome.

Martin, que é brilhantemente representado por Jim Sturgess, é um jovem católico irlandês que vive de vendas de material furtado porta à porta e passa – ou pelo menos tenta passar – ao lado da oposição entre católicos independentistas e protestantes unionistas. É aquilo que a que se chama popularmente um “espertalhão”. Talvez por isso, mas também porque se vê inevitavelmente ligado à situação politica da sua terra, que começa a ser assediado tanto pela RUC como pelo Provisional IRA (apesar de a maior parte das pessoas o conhecer apenas pela sigla histórica IRA). Acaba por conseguir tornar-se um dos “Óglaigh na hÉireann”, ou seja “voluntários da Irlanda”. No entanto, por discordar do seu modo de actuar, acaba por dar informações preciosas ao Special Branch, através do contacto que o recrutou e que usa o nome de código Fergus, evitando vários atentados. No filme essa personagem é bem interpretada pelo veterano Ben Kingsley, que consegue transmitir eficazmente um lado paternal inerente à “conversão” de Martin.

O ambiente da época está muitíssimo bem reproduzido, tanto no guarda-roupa como nos cenários e nos adereços, dos automóveis às armas utilizadas. Está também muito bem conseguida a integração de imagens da altura e a transmissão do estado de tensão que se vivia. Há uma cena memorável em que Martin é detido pelo exército britânico e os transeuntes se revoltam espontaneamente, começando a atirar pedras e a agredir os soldados.

Neste relato pessoal, que nos chega num filme bem ritmado e que nos prende a atenção até ao final, encontramos as dúvidas de um conflito pessoal, das amizades, das fidelidades, das “causas”. Mas no qual a questão central é sempre a da motivação... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Sem comentários:

Enviar um comentário