Voltando ao povo Karen, há uma passagem que o refere durante uma viagem turística da personagem principal à Tailândia. Aqui fica o excerto: "A região fronteiriça que íamos percorrer agora era parcialmente povoada por refugiados da Birmânia, de origem karen; mas não havia problema. Segundo ela, Karens muito corajosos, crianças boas alunas, tudo bem. Não tinham semelhança com algumas tribos do Norte, com quem, aliás, não nos iríamos cruzar durante a excursão; na opinião dela, não perdíamos grande coisa. Em especial no caso dos Akkhas, relativamente a quem parecia ter uma certa má vontade. Apesar dos esforços do governo, mostravam-se incapazes de abdicar do cultivo da papoila de ópio, a sua actividade tradicional. Eram vagamente animistas e comiam cães. Akkhas maus, acrescentou Sôn energicamente: só cultivar papoilas e apanhar frutos, sabem fazer nada; filhos alunos maus na escola. Com eles muito dinheiro gasto, resultado nenhum. São grande nulidade, conclui ela finalmente, dando mostras de um belo poder de síntese.
Quando cheguei ao hotel observei com atenção estes famosos karens, afadigados à beira do rio. Vistos de perto, isto é a uma distância em que não era preciso levar pistola-metralhadora, não tinham um ar nada mau; o aspecto mais evidente era a sua adoração por elefantes. Tomar banho no rio e esfregar o dorso dos elefantes, parecia ser a sua maior alegria. É verdade que não se tratava de rebeldes karens mas sim de karens vulgares - justamente aqueles que tinham fugido das zonas de combate, fartos daquilo tudo, a causa da independência passava-lhes completamente ao lado."

Bom, comparativamente... se calhar são os eslavos do Reich birmanês.
ResponderEliminarExcelente livro! Lembro-me que essa referência aos karen me surpreendeu na altura em que li o livro.
ResponderEliminarQuanto ao "Reich birmanês", acho que não faz qualquer sentido comparar o nacional-socialismo alemão com a cleptocracia de Rangoon, um regime assassino que, para além de ser o segundo maior produtor mundial de ópio, só sobrevive através da negociação indirecta de recursos com grandes multi-nacionais.
Eu até consigo falar bem do regime sem insultar os karen, vocês conseguem fazer o oposto?
ResponderEliminarComo sabes, Flávio, não é possível falar dos Karen sem referir a campanha de limpeza étnica de que são alvo.
ResponderEliminarNão têm valores próprios a exaltar? Só valem "por oposição a"? Creio que não será assim tão redutor.
ResponderEliminarE os karen "colaboracionistas"? E os karen que emigraram por não se identificarem com nenhum dos lados? Esses são karens "maus"? Não valem por si só, só valem "por oposição a"?
Esta é uma questão sentimental que tenho evitado comentar, mas porra que já cansa tanto insulto para com um regime que só conhecem pela boca dos seus opositores, por filmes como o "Rambo" ou séries pró-capitalistas e pró-EUA como "O Filantropo".
É que eu aceito que os karen, como todos os povos, valem por si só. Myanmar é uma manta de retalhos étnica, para se apoiar os karen também se apoia a ETA, o IRA, os corsos, os separatistas bascos e por aí fora, a lógica é a mesma: uma minoria étnica inserida num Estado com o qual não se identifica.
São quase dezena e meia de etnias diferentes, tanto que o governo possui um Ministério para a Preservação das Raças Nacionais, dessa quase dezena e meia só os karen se revoltam? Porquê?
Espanha agiria melhor caso os galegos ou os bascos optassem por técnicas de guerrilha? Um governo nacionalista europeu trataria melhor as suas minorias? Será? Mesmo?
Onde está "separatistas bascos" referia-me a "separatistas da Catalunha".
ResponderEliminarNão se pode comparar a luta dos Karen com a ETA, o IRA e os corsos. Para já, à excepção dos bascos, nenhum desses grupos se destaca pela etnia. Em segundo lugar, nenhuma dessas minorias é atacada como os Karen. Na Birmânia, o que se verifica é uma autêntica limpeza étnica, ao estilo dos Balcãs ou de alguns países africanos. Terceiro, os Karen não fazem explodir bombas em Rangoon. Comparar os Karen com a ETA, tal como comparar a Birmânia com o 3º Reich, é pôr ao mesmo nível batatas e chapéus.
ResponderEliminarOs Karen que fugiram para Tailândia, muitas deles para campos de refugiados com condições deploráveis, tentaram escapar ao extermínio. E os que ficaram, nas suas terras, lutam todos os dias pela sobrevivência. Não é uma minoria inserida num Estado com o qual não se identifica. É um Estado que promove a eliminação física de todo um povo.
Como eu não sou de dois pesos duas medidas, não estou habilitado a debater contigo.
ResponderEliminarEu tenho amizades junto do regime, tu junto dos karen, não há como concordarmos nisto, e a abordagem mais racional não serve porque, salta à vista, é uma questão sentimental isto de escolhermos que povos são da mesma etnia ou não e quais merecem a nossa simpatia nas suas lutas de libertação.
Doravante, discutimos política nacional ou vamos acabar por nos desentender irremediavelmente.
Tarda nada começam a falar dos 6 milhões de karen exterminados...
ResponderEliminarFlávio, não há problema :) Podes crer que não vou falar de forma diferente da próxima vez que estiver contigo. Discordamos neste assunto como numa série de coisas, mas isso não invalida a nossa convivência.
ResponderEliminarAinda sobre os Karen, impressiona-me como tu, que sempre te opuseste aos regimes suportados por grandes interesses multinacionais, e que sempre reconheceste a luta dos mais desfavorecidos, apoias de forma tão contundente o regime birmanês. Mas pronto, todos temos as nossas posições e opiniões e nem sempre elas são as que deveriam ser, ou as que os outros acham adequadas.