Na última edição do semanário «O Diabo» foi publicado um conto do meu amigo Roberto de Moraes, que me autorizou a reproduzi-lo aqui. Vale mesmo a pena ler.
A CARREIRA
Garatujilho, jovem de futuro, escreveu um romance de cento e vinte páginas. Queria fazer carreira nas letras, embora não o dissesse, pois era um rapaz avisado. Levando debaixo do braço o pequeno volume, saído de fresco na Editorial Verbete, livreiros bem conhecidos, foi visitar o célebre Escribante, autor de algumas obras cheias de beleza, muito apreciadas por duzentos conhecedores.
– Mestre, começou Garatujilho, admiro-o desde a mais tenra adolescência. Li e reli as suas obras-primas: “Vertigem Gelada”, “Prazo de Validade”, “A Condição Húmida”, “Jangada de Cortiça”. Aqui lhe trago o meu primeiro romance. Chama-se “A Mumificação”. Não estou descontente com o título. Trata-se da história de um homem que passa vinte e quatro horas fechado num quarto ponderando se irá ou não cozer um ovo num aquecedor a álcool. Decide finalmente não o fazer pois, no fundo, não gosta de ovos. Há uma descrição de uma janela que dura vinte e sete páginas. Penso ter escrito um livro importante que traz consequências. Quis que o leitor, em cada página, a cada linha, se sinta pessoalmente implicado.
Escribante ia nos setenta e nove anos e fazia lembrar um gato selvagem. Vivia numa pequena casa, ali à Sé, na Rua da Saudade, onde coleccionava “bibelots” de meter medo, de par com uma porção de pinturas modernas. Mostrando os seus tesouros a Garatujilho, que se extasiava educadamente, foi-lhe debitando um discurso ambíguo que levantou dúvidas e inquietações vagas na alma cândida do jovem arrivista.
– Meu caro amigo, disse, estou contentíssimo que tenha escrito “A Mumificação”, que me parece um belo e curioso livro. Há um ror de tempo que se não falava em ovos cozidos num romance. Creio que o último ovo cozido português data de “A Noiva do Republicano”, de Altino de Tormes, que leu, naturalmente. Romance admirável. Todo o Camilo já lá está. Aliás é bem melhor que Camilo.
– Adoro “A Noiva do Republicano”, respondeu acaloradamente Garatujilho, que ouvia falar pela primeira vez naquela obra que, de resto, nunca tinha sido escrita. Mestre, acredita que tenho alguma chance de ganhar o prémio Capões?
– Sabe, não é, que, em Portugal, são anualmente atribuídos 241 prémios literários, disse Escribante, respondendo um pouco ao lado, como era seu hábito.
– É muito, retorquiu Garatujilho.
– Ah? Acha? A mim, pelo contrário, parece-me um pouco à justa. Os prémios existem para encorajar os maus escritores e temos muito mais de 241 maus escritores por ano.
– Mestre, replicou Garatujilho rindo, isso é um paradoxo. Há bons escritores a quem foram atribuídos prémios, até mesmo o prémio Capões.
– É verdade, disse Escribante, mas é caso tão raro que nos leva a pensar, razoavelmente, que os júris se enganaram. Com toda a boa fé, evidentemente.
Veja bem: seria injusto que as pessoas tivessem, simultaneamente, talento e prémios. Não se pode ter tudo. Em segundo lugar, são os maus escritores que devem ser encorajados, caso contrário, desgostosos, deixariam de escrever o que seria uma pena. Para quê incentivar os que têm verdadeiro talento? Esses, continuam sempre a escrever, não obstante as contrariedades, a miséria, a família e os críticos literários.
– Hum!... Meu querido Mestre, balbuciou Garatujilho com voz incerta, não vejo bem aonde quer chegar.
– A isto, meu rapaz: uma literatura só é verdadeiramente viva e brilhante quando está cheia de gente sem talento que escreve uma imensidade de romances ineptos, ensaios estúpidos e poemas ilisíveis. É o que faz girar a edição; é o que forma uma espécie de adubo artístico no qual crescem flores soberbas e raras. Veja a Inglaterra, veja a Alemanha, onde não há praticamente prémios e onde, por conseguinte, não há quase maus escritores: por lá se tem estiolado a literatura. Portanto viva o prémio Capões que faz que um mau romance possa vender duzentos mil exemplares!
– Ah! Mestre, mestre, o senhor desespera-me! Exclamou Garatujilho. Receber um prémio será assim uma marca de infâmia indelével? Será preciso ficar sem brilho, ignorado, desconhecido, para caber na sua estima?
– Aceitar um prémio literário, meu caro senhor, é certamente dar prova de modéstia e abnegação. Longe de mim abafar essas duas qualidades num jovem coração.
Garatujilho despediu-se de Escribante num estado de extrema confusão que, graças a Deus, só durou dois dias. O seu editor, que, não sendo nem escritor nem filósofo, mas sim comerciante, deu-lhe excelentes conselhos sobre a táctica a adoptar para conseguir o prémio Capões. Garatujilho, que decididamente não era um jovem qualquer, seguiu os seus conselhos, obteve o prémio e recusou-o. O facto deu tanto que falar que “A Mumificação”, um dos piores romances publicados em Portugal nos últimos vinte anos, se vendeu a quatrocentos mil exemplares. E eis assim um conto com um final feliz.
Roberto de Moraes
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