quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Samuel P. Huntington (1927 - 2008)

Morreu há dias o professor Samuel P. Huntington que se notabilizou pela obra “O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial”, publicada em Portugal pela Gradiva, em 1999. Neste livro opõe-se à teoria do “fim da História” de Fukuyama, dizendo que os principais actores políticos do século XXI serão as civilizações e não os estados nacionais e que os principais motivos dos conflitos serão religiosos e não ideológicos. A sua teoria provocou grande polémica e desencadeou acesas críticas. Uma excelente e corajosa análise, que foi infelizmente instrumentalizada pela administração Bush como justificação da guerra contra o terrorismo e da invasão do Iraque. Mais recentemente, Huntington viria a ser acusado de xenofobia por alguns críticos, na sequência do seu livro “Who Are We? The Challenges to America's National Identity”, onde alerta para a crescente imigração mexicana e as consequências desta no futuro da sociedade americana.

sábado, 27 de dezembro de 2008

No Prado (IV): A Rendição de Breda

Gosto muito do trabalho de Velázquez, mas a leitura das aventuras do Capitão Alatriste suscitou-me maior curiosidade em “A Rendição de Breda”, de 1634. No livro “O Sol de Breda”, de Arturo Pérez-Reverte, publicado em Portugal pela ASA, em 2007, o narrador, Íñigo Balboa, revela-nos durante uma visita ao pintor espanhol o local no quadro “onde se insinua, meio escondido atrás dos oficiais, o perfil aquilino do capitão Alatriste”. O problema é que ele não está visível hoje e as palavras Íñigo foram por muitos consideradas uma “afirmação gratuita”, como nos diz a nota do editor original publicada no fim do livro, que explica que este mistério foi resolvido pela obra do professor José Camón Aznar, que confirmou “mediante o estudo de uma radiografia da tela” comprovado o facto de, onde “o espectador só consegue ver um lugar vazio sobre o gibão azul de um lanceiro voltado de costas”, a radiografia revelar que “atrás dessa cabeça, adivinhava-se outra de perfil aquilino”.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

No Prado (III): As Meninas

O meu quadro preferido de Velázquez é “La Familia de Felipe IV”, mais conhecido como “Las Meninas”, de 1656. Desta vez, ao apreciar calmamente a obra, uma amiga demasiado céptica perguntou-me o que, afinal, via eu de tão especial naquela pintura. Respondi-lhe simplesmente que, fora todas as teorias mais loucas, tudo se resumia a uma questão de perspectiva. Um trabalho fantástico que nos colocava no quadro, sem colocar. Um jogo, no verdadeiro sentido do termo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

No Prado (II): Entre Deuses e Homens

Tive a sorte de ver no Museu do Prado a exposição temporária “Entre dioses y hombres”, que juntou às esculturas clássicas da sua colecção, 46 peças do Albertinum de Dresden, encerrado para obras, que pela primeira vez estão expostas fora da Alemanha.

Ao percorrer as várias salas da exposição, apreciando estas representações, não pude deixar de lembrar-me das palavras de Dominique Venner sobre o busto de César encontrado em Arles: “Este rosto podia ser de hoje em dia, mas podia também ser mais antigo. O que é espantoso é até que ponto este rosto viril, esculpido pela vida, é o de um Europeu (Bóreo), um tipo humano particular que atravessou os tempos.

Efebo de Dresden
Réplica Romana. Escola de Policleto
séc. V a. C.
157 x 48 x 42.5 cm
Dresden, Skulpturensammlung Staatliche Kunstsammlungen

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

No Prado (I): O Triunfo da Morte

Nos dias em que estive em Madrid voltei ao Prado, museu que não visitava há muitos anos. Descobri, com satisfação, que há um período grátis diário, das 18 às 20 horas, uma prática que devia ser exemplo para os museus nacionais, nomeadamente o MNAA.

Devido a “O Pintor de Batalhas”, um dos melhores livros que li ultimamente, tinha uma longa lista de obras para ver, sendo a primeira “O Triunfo da Morte”, de Brueghel, de 1562. Para ver — e não olhar — e rever sempre que surja a oportunidade.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Madrid

A convite do CISNE, fui a Madrid para uma conferência sobre os "fascismos" lusos, que correu muito bem, juntando pessoas de várias proveniências e diferentes faixas etárias. Uma excelente oportunidade para dar a conhecer um pouco de uma realidade totalmente nova para o país vizinho.

Aproveitei para ficar na capital espanhola por alguns dias, rever amigos e fazer algum turismo. Museus, gastronomia, passeio e compras, tudo por entre as multidões que asfixiavam as principiais artérias de la Movida devido às compras navideñas.

Sobre as alterações demográficas bastante visíveis, lembrei-me da troca de comentários ocorrida aqui. Sobre outras experiências falarei em posts seguintes.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Solstício de Inverno


«O Natal é a velha festa do Solstício de Inverno. Na noite mais longa do ano, igual ao Inverno, ao frio, à neve, ao gelo, que parecem não ter fim, nessa noite única e terrífica, os nossos antepassados recusaram acreditar na morte do Sol. Traziam no coração a certeza da Primavera. Sabiam que a vida continuava, que as flores iriam furar a neve, que as sementes germinariam debaixo do gelo, que as crianças iriam tomar a sua parte na herança e que os seus clãs e as suas tribos iam conquistar todas as terras de que tinham necessidade para viver, todos os mares onde iam estabelecer um domínio sem limites.

No momento em que os glaciares recuavam pouco a pouco diante as florestas, milhares de anos atrás, uma imensa velada de armas reunia-nos à volta dos fogos, através de toda a Europa, então sem nome. Os nossos antepassados surgiam das trevas e das brumas. Iam descobrir o mar imóvel e erguer pedras verticais, ao sol da Grécia. Sabiam que triunfariam sobre o Inverno, sobre o medo e sobre aquela sageza atroz dos velhos que paralisam a gente jovem impaciente.

O nosso mundo está prestes a nascer. Invisível como as flores e as sementes de amanhã, faz o seu caminho debaixo da terra. Temos já as nossas raízes solidamente enterradas na noite das idades, ancoradas no solo dos nossos povos, alimentadas com o sangue dos nossos antecessores, ricas de tantos séculos de certeza e de coragem que somos os únicos a não renegar. Entrámos no Inverno integral, onde se obrigam os filhos a terem vergonha dos altos feitos de seus pais, onde se prefere o estrangeiro ao irmão, o vagabundo ao camponês, o renegado ao guerreiro. Entrámos num Inverno onde se constroem casas sem chaminés, aldeias sem jardins, nações sem passado. Entrámos no Inverno.

A natureza morre e os homens tornam-se todos iguais. Já não há paisagens, já não há rostos. Vivemos em cubas. Com um pouco de química, iluminamo-nos, alimentamo-nos, não temos crianças a mais, esquecemos a luta, o esforço e a alegria. Sim, apesar das luzes de néon, das montras e das imagens do cinema, apesar das festas do Natal, das grinaldas, das missas e dos abetos, entrámos num Inverno muito longo.

Somos só alguns que trabalham para o regresso da Primavera.»

Jean Mabire
in “Os Solstícios – História e Actualidade”, Hugin (1995).