terça-feira, 30 de setembro de 2008

O busto de César

Em Maio deste ano, o Ministério da Cultura e da Comunicação francês anunciou uma excepcional descoberta arqueológica subaquática, em Arles, de um busto de Júlio César em mármore. No último número de «La Nouvelle Revue d'Histoire», Dominique Venner acompanhou esta notícia com as reflexões que a mesma lhe inspirou. Afirmando, em primeiro lugar, a sua desconfiança do culto dos grandes homens, diz-nos: “Este rosto podia ser de hoje em dia, mas podia também ser mais antigo. O que é espantoso é até que ponto este rosto viril, esculpido pela vida, é o de um Europeu (Bóreo), um tipo humano particular que atravessou os tempos. Não é um Japonês, nem um Chinês (Han), nem um Africano desta ou daquela origem, e também não é um Semita como vemos sob o arco de Tito. E acrescento que a minha benevolência é devida a todos os representantes da diversidade humana desde que eles respeitem a minha. Mas acontece que o rosto de um Europeu, tão antigo e célebre como o de César, desperta em mim uma emoção particular, como a de Ulisses após a reconquista de Ítaca. Tal lembra-me que nós não nascemos ontem e que andamos nos passos dos nossos antepassados, conhecidos ou desconhecidos, que nos fizeram aquilo que somos sem parecenças com outros. Eu existo por aquilo que me distingue, pelo que me identifica àqueles que me são próximos pelas origens, partilham um mesmo passado, um mesmo destino, os mesmos valores constituintes, energia intrépida, vontade de excelência pessoal, culto da Pátria, espírito trágico. (...) César é um Europeu superior em quem nos podemos reconhecer.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Gianluca Iannone em Lisboa

Há uma semana o Gianluca Iannone brindou o nosso país com uma breve visita. Esteve em Lisboa, onde pode conhecer vários camaradas portugueses e no sábado protagonizou o encontro-debate "Roma e Acção Metapolítica", no Montijo, organizado pelo incansável João Roma (um forte abraço!), que está de parabéns. Uma excelente iniciativa que permitiu conhecer, em discurso directo, o óptimo trabalho desenvolvido a vários níveis em Itália.

O Gianluca gostou imenso da capital portuguesa. Após uma curta volta turística, considerou-a molto bella e apreciou os diferentes bairros da cidade de diferentes épocas, ficando por outro lado muito impressionado com a quantidade de prédios devolutos que viu. Não ficou também indiferente à comida — como não podia deixar de ser —, desde o imprescindível pastel de Belém, à tarde, ao jantar com vários portugueses, que permitiu estreitar ligações num agradável convívio.

Grazie Gianluca! Ci vediamo a Roma.

sábado, 27 de setembro de 2008

Regresso a Tintin


1947 — 1966

Perante a actual crise económico-financeira internacional, o Mário Martins mostra-nos a actualidade de Tintin na sua sempre perspicaz Crónica de Nenhures, à qual se segue um oportuno exercício comparativo entre o original de A Estrela Misteriosa, de 1947, e a versão alterada, de 1966. Aos inventores de um Hergé politicamente correcto, o Mário contrapõe que o autor queria, na personagem de Tintin, simbolizar a luta entre o Bem e o Mal, mostrando a rivalidade pelo progresso entre a Europa de Tintin e os Estados Unidos da América de Blumenstein.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A China como modelo?

Tenho a honra de publicar mais um artigo do Filipe Martins, a quem agradeço. É formado em Estudos Europeus e foi bolseiro da Federação Russa no Instituto Estatal de Língua Russa A. S. Pushkin; neste momento gosto de pensar que é um colaborador especializado desta casa.


Já vi escrito por mais que uma vez que a Rússia deveria deixar de competir militarmente com o Ocidente e investir em outras formas de aumentar o seu poderio, nomeadamente copiando a China. Ora, o paralelismo entre a Rússia e a China é falacioso, por vários motivos.

Logo para começar, porque a China nunca foi uma superpotência, não tem esse historial e não nutre sentimentos de perda de poder e território, ao contrário da Rússia.

Por outro lado, o potencial militar chinês ainda é bem mais fraco que o russo. O melhor que os chineses têm é material, precisamente, comprado a Moscovo, como os Su-30 MKK, os destroyers da classe Sovremeny ou os submarinos da classe Kilo, ou material com forte influência russa como os caças JF-17 ou os tanques Type 98 e 99.

A China, no entanto, está a ser vista pelos seus vizinhos como uma ameaça, não só devido aos números mas também devido ao seu forte investimento militar, mormente no sector aeronaval e de projecção de forças. As pretensões chinesas nas Spratley e nas Paracel, para além de Taiwan, são vistas com bastante apreensão por todos os países da zona. A alteração que se verificou no Japão quanto ao emprego de forças militares, e o rearmamento da JDF, deriva das atitudes belicistas da China.

Portanto, sob o ponto de vista militar, a China é de facto uma ameaça dentro da sua zona. À medida que for crescento sê-lo-á a uma escala mais vasta. E quando isso acontencer, nessa altura falaremos.

Sob o ponto de vista internacional, o poderio económico da China baseia-se na completa falta de direitos dos trabalhadores e na produção a baixo preço (e baixa qualidade), no comércio baseado nas redes familiares (sobretudo no SE Asiático) e nos apoios estatais ao comércio e investimento, nomeadamente nos grandes projectos de obras públicas (como em África). É fácil dizer que a Rússia deveria seguir o caminho da China, mas porque não o seguem também os países do Ocidente? Todos, neste momento, estão a perder concorrência face à China, que é quem mais investe em África (ao contrário do Ocidente, a China não faz caridade e está-se nas tintas para critérios de democracia e boa governação, pois só interessam o dinheiro e os recursos naturais).
Deveria a Rússia (e o Ocidente) seguir este exemplo?

A China sofre gravíssimos problemas ambientais ("China Says More Milk Products Show Signs of Being Tainted", noticiava há dias o NY Times) e sociais, com a incapacidade do país em alimentar 20% da população mundial com apenas 8% dos solos aráveis, ou com a incapacidade em crescer a ponto de elevar mais do que 300 mil de habitantes a um nível de classe média. As assimetrias sociais crescem a um ritmo alucinante, e há revoltas constantes de camponeses as quais raramente são noticiadas (as autoridades chinesas exercem um verdadeiro controlo sobre a internet, ao contrário das russas).

Em suma, não só devido às suas características específicas como devido aos graves problemas internos, o que a poderá levar a seguir uma atitude bem mais belicista, a China não é um bom exemplo a seguir.

Filipe Martins

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Entrevista com Pierre Krebs

A não perder no inconformista a tradução da entrevista com Pierre Krebs feita por Luis Anza para o n.º 1 do jornal espanhol «Identidad», publicado em Outubro de 2007, após o lançamento do livro La Lucha por lo Esencial. Pierre Krebs é licenciado em Direito, Jornalismo e Ciência Política, doutorou-se em Filosofia, com a tese “Paul Valéry face a Wagner: medida de proximidade”, e é professor de História e Política. Dirige a associação Thule-Seminar, é conferencista e colaborador de vários meios de comunicação franceses e alemães, director da revista Elemente der Metapolitik e escreveu vários ensaios sobre política e sociologia, entre os quais Im Kampf um das Wesen, já publicado em francês e agora em espanhol.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A guerra de Colónia


Tudo sobre os incidentes em Colónia, após a convocação pela associação Pro-Köln do protesto internacional contra a construção no coração daquela cidade alemã de uma enorme mesquita, pela pena de Robert Spieler, que lembra as palavras, a reter, de Markus Beisicht: «Nós somos ameaçados por todo o lado pelo politicamente correcto e é indispensável reunirmo-nos para defender a nossa identidade europeia. Os problemas já não podem ser resolvidos a nível nacional.»

sábado, 20 de setembro de 2008

Comunicado: Expulsão de Touzé da NDP

A Direcção Nacional da Nouvelle Droite Populaire constata as divergências ideológicas fundamentais que a opõem ao seu secretário-geral, Jean-François Touzé, em particular no que respeita às suas tomadas de posição liberais e atlantistas contrárias às convicções da larga maioria dos aderentes e dos responsáveis do movimento.

Mais ainda, lamenta o comportamento deste depois de ter ficado em minoria na reunião da Direcção Nacional no dia 13 de Setembro. O Gabinete estatutário da NDP decidiu, assim, em virtude do artigo 8.º dos estatutos, proceder à expulsão de Jean-François Touzé do movimento por falta grave. Consequentemente, Jean-François Touzé não está mais habilitado a exprimir-se ou a agir em nome da Nouvelle Droite Populaire. Esta medida tem efeito a partir do dia 17 de Setembro de 2008 às 14 horas. Robert Spieler, antigo deputado e delegado nacional da NDP, será doravante o porta-voz da Nouvelle Droite Populaire.

Comunicado da Direcção Nacional
da Nouvelle Droite Populaire

terça-feira, 16 de setembro de 2008

La Nouvelle Revue d’Histoire n.º 38

Mesmo a propósito, o tema central do último número de «La Nouvelle Revue d’Histoire» é “O despertar da Rússia”, em cujo editorial o director nos diz: “Para Vladimir Putin ninguém está habilitado a impor o seu direito a outrem. Esperemos que ele se lembre disso nas suas relações com os estados bálticos. Destes princípios advém também a noção de "democracia soberana". Soberania e democracia estão ligadas. Uma não se pode conceber sem a outra. O que deveria significar logicamente uma democracia fundada não sobre os direitos do homem abstracto e sem raízes, mas sobre os direitos dos nacionais de nações concretas”. Num óptimo dossier, traz-nos os artigos “Memória russa e memória europeia” e “Para saudar Soljenitsyne”, de Dominique Venner, “Nas origens da história russa”, de Jean-Pierre Arrignon, “Os alemães na terra dos czares”, de François-Georges Dreyfus, “O regresso dos Romanov”, por Jean des Cars, e “Volkoff, o mais russo dos escritores franceses”, e ainda a cronologia “Do comunismo à nova Rússia. 1917-2008”, feita por Charles Vaugeois e as entrevistas com o economista Jacques Sapir, feita por Michel Rival, sobre “O despertar da Rússia”, e com Aymeric Chauprade, sobre “A geopolítica da Rússia”, feita por Virginie Tanlay.

Destaque ainda para a entrevista com Jean-Marie Constant sob o tema “Uma outra história de França”, o artigo sobre “A epopeia da Nova França”, de Philippe Conrad e o retato de Jacques Bergier, por Jean Bourdier, bem como para as secções habituais.

Como sempre, uma leitura obrigatória a não perder.

A (re)ver


Sobre o “despertar” da Rússia, aconselho aqui a (re)ver o grand débat, dedicado ao tema «Vladimir Poutine, nouveau tsar ?». Um programa do canal francês Histoire, muito bem conduzido pelo jornalista Vincent Hervouët, com os comentários de Eric Zemmour, do Figaro Magazine, e a presença dos convidados George Nivat, Marc Ferro, Jean-François Colosimo e Jean-Michel Carré.

Touzé tira a máscara

Acabo de saber, lendo o «Rivarol» (n.º 2871, de 12 de Setembro 2008), que Jean-François Touzé ataca violentamente, no que diz respeito ao caso Geórgia, aqueles que exprimem um "anti-americanismo primário, secundário, e visceral" pelo facto de verem com simpatia a Rússia afirmar sem complexos o seu direito a ser potência. Usando fórmulas (como "A Rússia neo-kgbista") que exalam propaganda americana da mais clássica, quer dizer, mais débil.

Assim, em função desta linha de partilha determinante que opõe, em todo o lado, adversários e partidários do imperialismo americano, Touzé alinha no campo dos últimos. Está no seu direito. Mas teria sido mais honesto anunciá-lo aquando da criação da Nouvelle Droite Populaire, que em princípio reagruparia pessoas com as mesmas convicções. Tal evitaria que eu tivesse perdido o meu tempo a participar – por uma preocupação de "ecumenismo nacional" – nas mesmas tribunas que o Sr. Touzé. Para evitar que outros sejam enganados com a mercadoria, difundirei o mais possível os testemunhos de carinho que o Sr. Touzé manifesta em favor do eixo Washington-Tel-Aviv. É sempre melhor sabermos com quem lidamos.

Pierre Vial
Presidente da Terre et Peuple
13/9/2008

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A Rússia, o Cáucaso e as “virtudes” da Democracia

O Filipe Martins, um dos amigos com quem fui ao debate “Geórgia, Rússia: conflito regional, jogos globais”, honrou-me com a permissão da publicação nesta casa de um artigo seu sobre as lições da “recente guerra caucasiana”, escrito a 13 de Agosto deste ano. Salvaguardada a referência temporal, devo ainda dizer que o Filipe é formado em Estudos Europeus e foi bolseiro da Federação Russa no Instituto Estatal de Língua Russa A. S. Pushkin. O meu agradecimento ao autor por este privilégio para os meus leitores.

A mais recente guerra caucasiana veio ensinar-nos umas quantas lições sobre as coisas da política e sobre os preconceitos que temos sobre a realidade.

Comecemos pelas lições mais óbvias, as da "grande política", ("policy", em inglês, em oposição a "politics", que lhe são menores), e das consequências geopolíticas desta guerra.

Não há dúvidas de que esta guerra foi iniciada quando as forças georgianas, obedecendo a uma estratégia há muito delineada, pretenderam reafirmar a soberania de Tbilissi sobre um região separatista pró-russa. Não se sabe bem o que passou pela cabeça do presidente georgiano quando mandou avançar as tropas, mas podemos presumir que ele se sentiu apoiado pelos EUA e esperava a rápida conclusão das operações militares. Mas se assim foi, ele cometeu um erro estratégico crasso, diria mesmo infantil. Poderemos nós aprender com os seus erros? Certamente que sim. Estudemos então a lição.

A primeira lição que tiramos desta guerra é que os EUA sobrecarregados com duas guerras simultâneas e sem vitória à vista, com as suas finanças, Forças Armadas e, sobretudo, a população norte americanas sob um enorme stress, não manifestaram capacidade para se aventurarem militarmente no Cáucaso. As dificuldades acima expostas eram evidentes, o apoio militar norte-americano à Geórgia era improvável, e Saakashvili deveria ter percebido isso. Mas não foi o que aconteceu. E o culminar desta sua aventura belicista foi, não só a destruição das suas forças armadas e a perda inútil de vidas, mas também a humilhação desnecessária do seu aliado transatlântico, o qual se mostrou impotente para apoiar o "farol da democracia" que é a Geórgia. A guerra por procuração é sempre preferível à guerra directa, mas tal guerra, nestas circunstâncias, revelou-se um logro.

A segunda lição desta guerra é que a destruição do Direito Internacional e da soberania territorial dos Estados, efectuada pelos EUA/NATO aquando da crise jugoslava, se voltou agora contra os seus autores através do sacrifício de um dos seus aliados. Saakashvili não soube ler as mudanças na política internacional, com as implicações que se conhece. Analisados os factos à luz da realidade no terreno, a intervenção armada georgiana na Ossétia tem menos legitimidade que a intervenção sérvia no Kosovo em 1999. Com efeito, se a Sérvia estava na plena posse deste território e actuou para debelar uma revolta armada (apoiada internacionalmente) dentro das suas fronteiras, a Geórgia, detendo soberania nominal, de jure, sobre a Ossétia do Sul, não a exercia de facto. E ainda que sob o ponto de vista do Direito Internacional a Ossétia seja parte integrante do Estado georgiano, o modo de actuar do exército deste país retirou-lhe qualquer legitimidade.

A terceira lição é geopolítica. Saakashvili, jurista de profissão, não domina aquela ciência, pois se entendesse de geopolítica saberia que a Rússia nunca poderia abandonar a Ossétia ou a Abkházia. Se as tropas russas não interviessem no conflito, em breve as duas províncias separatistas seriam engolidas por Tbilissi. Mas mais ainda. Ao perder essas duas regiões, seria a credibilidade da Rússia, enquanto potência, que estaria em causa. Não sendo capaz de apoiar a Ossétia, como poderia Moscovo inspirar confiança à Arménia, cercada por inimigos? Como poderia Moscovo mandar a mensagem ao Azerbeijão, que se está a rearmar perigosamente, para não ter tentações belicistas sobre o Alto Karabakh? A perda da Ossétia ditaria, para a Rússia, a perda de todo o Caúcaso. E recordo aqui a entrevista que fiz ao teórico Aleksandr Dugin, na qual ele disse que, geopoliticamente falando, se a Ásia Central é um objectivo "potencial", de futuro, o Cáucaso é um objectivo "actual", e é imperativo que Moscovo o controle. A direcção moscovita tem essa ideia bem presente e não vacilou na hora de tomar uma atitude. Só o presidente da Geórgia é não o percebeu, e o seu povo pagou bem caro pelo erro.

A quarta lição é de que a Rússia, aparentemente, está de volta, e tem um enorme desejo de se vingar de 20 anos de humilhações. Desde a queda da URSS que os EUA, sucessivamente, têm procurado cercar a Rússia de Estados que lhe são hostis. A Parceria para a Paz, a GUUAM e o alargamento da NATO, efectivamente, deixou a Rússia quase cercada, e é assim que ela se vê. A reacção era inevitável, e só foi preciso um pretexto para Moscovo mostrar aos seus vizinhos, e sobretudo à sua Némesis, os EUA, que a Rússia havia recuperado parte do seu poder, que era uma potência a ter em conta e que quer, e pode, mandar no seu quintal.

Para já, e mesmo tendo em atenção que agora começaram as guerras dos corredores, menos sangrentas, é certo, mas mais decisivas, os resultados deste conflito são altamente favoráveis à Rússia. A separação, de facto, da Ossétia do sul e da Abkházia provavelmente conduzirão estes territórios a um estatuto semelhante aquele que viveu o Kosovo nestes últimos anos, com um resultado final certamente idêntico. Nada justificaria o contrário.

A quinta lição desta guerra é que os média prosseguem objectivos políticos os quais, nesta crise, se mostraram evidentes. Os média russos, sob um regime aparentemente pouco democrático, mostraram o conflito sob a perspectiva moscovita, tal como seria de esperar. Contudo, a maior parte dos média ocidentais, longe de mostrarem isenção, cobriram a guerra sobretudo sob a perspectiva georgiana, e poucos foram aqueles que se deslocaram à Ossétia do Sul ou à Abkházia para ver "o outro lado" do conflito. Nada que nos seja estranho, contudo, pois basta recordar a cobertura das guerras na Jugoslávia para encontrarmos um padrão. O New York Times, do qual sou leitor assíduo, apresentou o conflito quase exclusivamente a partir de Tbilissi. O mesmo se passou com a BBC. Honrosa excepção foi a RTP a qual, através do seu enviado Evgueni Moravich esteve também do lado russo, mostrando uma imparcialidade digna de nota.

Através de uma cobertura parcial, a guerra, que começou com uma agressão georgiana, rapidamente passou a ser apresentada como uma agressão russa. Mostraram-se os bombardeamentos a Gori mas não os bombardeamentos a Tskhinvali; mostraram-se os feridos e mortos georgianos mas não os ossetas. E em tudo os média acompanharam os políticos ocidentais, que apresentaram a ofensiva russa como uma agressão, esquecendo-se da punição às mãos da NATO, bem mais violenta e destrutiva, que tinha recaído sobre a Sérvia uns anos antes por causa do Kosovo.

Por fim, a maior lição que podemos tirar desta guerra é que a democracia e os governantes democraticamente eleitos não são, necessariamente, sinónimos de paz.

O presidente georgiano, não há dúvida, é um campeão da democracia, dos direitos humanos e do mercado livre, os três grandes paradigmas da actualidade pós-moderna. E não há dúvida de que foi eleito democraticamente pela maioria da população. Pouco importa de onde lhe tenham vindo os apoios ou que o seu programa eleitoral fosse nacionalista. O que importa é que a sua eleição foi um triunfo da democracia, e assim ele se apresenta (e é apresentado) à opinião pública interna e internacional. Mas nem mesmo a enorme campanha mediática pró-georgiana que teve lugar nestes últimos dias pode camuflar o facto de terem sido as forças armadas georgianas a invadirem um território o qual, de facto, escapava ao seu controlo, e de terem espalhado a destruição. Foi uma manobra ofensiva, foi uma guerra, e a ordem partiu de um presidente "democraticamente eleito". Desenganem-se portanto aqueles que associam a Democracia a uma qualquer kantiana "Paz Perpétua": a Democracia tem virtudes assim como tem defeitos, e é tão belicosa quanto os outros sistemas de governo. A prova está aí para quem a quiser ver.

Filipe Martins

13/08/2008

domingo, 14 de setembro de 2008

Guerra mediática

A minha única intervenção no debate “Geórgia, Rússia: conflito regional, jogos globais” foi dirigida ao jornalista Carlos Santos Pereira, dizendo que nesse próprio dia me lembrara de uma passagem do seu livro “Da Jugoslávia à Jugoslávia — Os Balcãs e a Nova Ordem Europeia”, quando lia um artigo da revista «Marianne»; comentário que se seguiu à discussão da importância da guerra mediática neste conflito.

No prefácio do seu excelente livro, escreve o jornalista português: “Gorazde, Abril de 1994. No próprio dia em que os F-16 da NATO assinaram os primeiros fogos reais da história da atlântica agremiação, duas cadeias televisivas de vocação planetária — a CNN e a Sky News — ofereceram-nos imagens impressionantes da destruição deixada pela ofensiva sérvia em Gorazde e dos cadáveres que juncavam o solo da cidade. Pois bem, as imagens tinham sido capturadas em aldeias vizinhas, e perto de um ano antes, durante os violentos confrontos então registados na área. E os cadáveres mostrados tinham sido filmados mais de oito dias antes em Trnovo, a alguns quilómetros mais a oeste, a caminho de Sarajevo, e tinham resultado, não de qualquer assalto a Gorazde, mas de um confronto entre forças sérvias e um comando muçulmano que tentara penetrar as linhas do "inimigo".”

O artigo da «Marianne», sobre o ataque da Geórgia à Ossétia do Sul, revelava que a CNN, ao noticiar a destruição de Gori pelo russos, mostrou imagens da capital osseta, Tshkinvali, destruída pelos georgianos.

Voltando a socorrer-me do mesmo livro de Santos Pereira, estamos perante “uma ilustração exemplar daquilo que o general Pierre M. Gallois chamou as "oficinas de selecção de imagens" ou mesmo de "fabrico de falsas imagens , acomodando a realidade à vontade dos que financiam a sua realização".

sábado, 13 de setembro de 2008

Debater com nível e qualidade

A preciosa informação do Manuel Azinhal levou-me, com dois amigos, ao excelente debate “Geórgia, Rússia: conflito regional, jogos globais”, promovido pelo «Le Monde Diplomatique», no Instituto Franco-Português. Não só pela qualidade dos oradores, os jornalistas Carlos Santos Pereira e Pedro Caldeira Rodrigues, mas pelo nível de conhecimentos da assistência muito participativa, esta foi uma óptima oportunidade para debater um tema “quente” da actualidade internacional.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Nota sobre O Senhor dos Anéis

Acrescentei recentemente a trilogia cinematográfica The Lord of the Rings aos meus filmes de culto, mas devo esclarecer que não foi mais um filme...

Conheci J.R.R. Tolkien, através de O Senhor dos Anéis, por indicação de um amigo e colega do 1.º ano de Latim, isto no 10.º ano de escolaridade. Foi uma experiência maravilhosa entrar na Terra Média e conhecer todo um passado mitológico da Europa. Senti-me afortunado por viver toda aquela aventura e fazer parte de um mundo que começávamos a considerar nosso. É uma sorte ler Tolkien na adolescência, nessa idade das paixões, das descobertas, do tempo interminável... Lembro-me como, com esse amigo, estudávamos os apêndices genealógicos, cronológicos e históricos, bem como os sobre os calendários, as línguas e as raças da Terra Média. Aquele mundo existia em nós; existira, sem dúvida, num tempo perdido, próprio.

A forma como esta obra me havia tocado, criou a certeza da impossibilidade de uma transposição cinematográfica. Reforçada quando vi, tardiamente, a versão animada de Ralph Bakshi, datada de 1978.

Tudo isto explica porque, tantos anos depois, não fui ver The Fellowship of the Ring ao cinema, apenas os seguintes. Isto perante o espanto e a incompreensão dos meus amigos, conhecedores da minha admiração pela obra do escritor inglês. Temia, claro está, pelo seu abastardamento, bastante provável neste mundo do “politicamente correcto”. Mas a minha renitência e desconfiança dissipou-se graças ao DVD do primeiro filme. Foi com grande agrado e alívio que verifiquei que, apesar de continuar a existir um Senhor dos Anéis só meu, o trabalho magistral de Peter Jackson concretizou um Senhor dos Anéis de todos nós.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Middle children of history


Man, I see in fight club the strongest and smartest men who've ever lived. I see all this potential, and I see squandering. God damn it, an entire generation pumping gas, waiting tables; slaves with white collars. Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don't need. We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives. We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won't. And we're slowly learning that fact. And we're very, very pissed off.

Tyler Durden

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Hacienda de la Fuente

«Graves motins raciais incendeiam Sul de Espanha» é o título da notícia do «DN», que nos dá conta de mais uma das maravilhas das zonas de não-direito alimentadas pela invasão imigrante. Reza assim: "centenas de africanos ocuparam as ruas, na caça ao cigano, enquanto iam incendiando carros e contentores. Impediram as ambulâncias e os veículos de bombeiros de entarem no perímetro dos conflitos e rumaram à casa onde vivia o presumível assassino - de etnia cigana, segundo o El País - que acabaram por incendiar."

Não resisti à ironia no título deste post, pretendendo chamar a atenção para o facto de os mesmos fenómenos provocarem as mesmas consequências em toda a Europa, por muito que nos queiram convencer do contrário. Desta vez, as semelhanças com o sucedido na Quinta da Fonte são impressionantes...