«Não era o homem mais honesto nem o mais piedoso, mas era um homem valente.»Arturo Pérez-Reverte
in “O Capitão Alatriste”, Edições ASA, 2006.
(23/5/1928 — 23/11/2008)

Já está pronto o CD de Natal do José Campos e Sousa que referi aqui. Encomendas através do endereço electrónico: largodocarmo@gmail.com.Fiquei a saber, através do Eurico de Barros, da excelente iniciativa Les Intégrales Dupuis que descreve ele hoje no «DN»: “A ideia da colecção não se limita à republicação cronológica e temática, em grossos álbuns cartonados, de algumas das grandes séries de banda desenhada da "casa", caso da genial Johan e Pirlouit, de Peyo, de Lucky Luke, de Morris, de Spirou e Fantasio da fase Franquin, de Natacha, de Walthéry, de Buck Danny, de Hubinon e Charlier, de Tif e Tondu, de Will - que é uma verdadeira descoberta -, ou de tudo o que Jijé (Joseph Gillain) desenhou. Cada uma das histórias é introduzida por um detalhado dossier que situa a série no seu tempo e revela histórias e pormenores curiosos ou divertidos sobre os autores e a criação das personagens e dos álbuns. A expressão "integral" não se aplica apenas à republicação de todas as histórias de uma personagem ou personagens. São também mostrados, paralelamente, desenhos inéditos ou não, capas alusivas da revista Spirou em que as séries viram a luz do dia, e ainda pranchas que ficaram na gaveta ou que, tendo saído quando a história foi publicada originalmente em continuação na revista, acabaram por ser retrabalhadas ou substituídas pelos autores. Como se isto não fosse suficiente, os álbuns foram todos revistos, bem como corrigidos digitalmente os efeitos das várias manipulações e do tempo, e ainda rectificados erros originais de coloração, devidos às limitações técnicas da época em que as várias aventuras das personagens foram editadas.”
Um mimo, como se pode ver. Fui prontamente à página de Les Intégrales Dupuis e trouxe as imagens das personagens que dão o título a este post, as minhas favoritas da editora Dupuis.
Está nas bancas o número 39 de «La Nouvelle Revue d’Histoire», cujo tema é “1918 A grande ilusão”. No editorial intitulado “Os equívocos do nacionalismo”, o director conclui: “De Paris a Berlim e mesmo até São Petersburgo, o nacionalismo de detestação substituiu o antigo patriotismo carnal, o sentimento interior e forte de identidade. Sentimento que fazia ainda Voltaire dizer em 1751 que a Europa formava uma espécie de República partilhada em vários Estados, mas tendo todos os mesmos princípios, desconhecidos nas outras partes do mundo”. O excelente dossier, abre com o balanço de Dominique Venner sobre “A grande ilusão”: “11 de Novembro de 1918, o clarão do armistício anuncia o fim do inferno. Mas esta guerra destruiu por muito tempo a antiga ordem europeia”, considera. De seguida, podemos ler os artigos “França. A ditadura do Tigre”, de Philippe Conrad, “Foch: a controvérsia”, de Jean Kappel, “A guerra vista da Alemanha”, de François-Georges Dreyfus, “O fracasso de Ludendorff”, de Wolfgang Venohr, “Em África, uma guerra de gentlemen”, de Bernard Lugan, que faz referência à incursão de von Letow em Moçambique, “Sob o olhar dos escritores”, de Jean Bourdier, “As ilusões generosas de Jean Renoir”, de Norbert Multeau e ainda a cronologia de Jean Kappel e a entrevista com Rémy Porte e François Cochet, autores do “Dictionnaire de la Grande Guerre”, sobre as rivalidades franco-inglesas.
Há muito de autobiográfico em “O Pintor de Batalhas”. Neste romance que é uma reflexão profunda e intensa, Arturo Pérez-Reverte conta a história de André Faulques, um fotógrafo de guerra que se refugiou numa torre de vigia do século XVIII à beira do Mediterrâneo, onde, solitário, pinta um grande fresco na sua parede. A troca da câmara fotográfica pelos pincéis tem uma razão, que é o mote deste livro: “Se, como defendiam os teóricos da arte, a fotografia recordava à pintura o que esta nunca devia fazer, Faulques tinha a certeza de que o seu trabalho na torre recordava à fotografia o que esta era capaz de sugerir, mas não de conseguir: a vasta visão circular, contínua, do xadrez caótico, regra implacável que governava o acaso perverso — a ambiguidade do que governava o quê não era em absoluto casual — do mundo e da vida. Aquele ponto de vista confirmava o carácter geométrico dessa perversidade, a norma do caos (...)”.
O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, a cinco longas estantes por lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altura, que é a dos pisos, mal excede a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito saguão, que vai desembocar noutra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos. Um permite dormir de pé; o outro, satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa a escada em espiral, que se afunda e se eleva a perder de vista. No saguão há um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que serviria esta duplicação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito... A luz provém de umas frutas esféricas que têm o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.



Um amigo brasileiro alertou-me para uma entrevista muito interessante dada por Charles Murray à revista «Isto é», no mês passado, onde afirma que a “miscigenação diminui o QI dos brasileiros” e que a “elevada proporção de negros no País reduz o índice de inteligência nacional”. O politólogo americano, que se tornou internacionalmente conhecido com o livro que provocou grande controvérsia, “The Bell Curve: intelligence and class structure in american life” [1996], escrito em co-autoria com Richard J. Herrnstein, psicólogo e professor de Harvard, foi pela primeira vez ao Brasil para participar no seminário “O Impacto dos Resultados Pisa e a Formação de Intelectuais na América Latina”. O seu último livro é “Real Education: Four Simple Truths for Bringing America's Schools Back to Reality”.

Knut Hamsun, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1920, volta ao panorama editorial português pela mão da Cavalo de Ferro, com a publicação de “Fome”, traduzido do norueguês por Liliete Martins, com prefácio de Paul Auster e com a coragem de afirmar no breve texto de apresentação sobre o escritor: “figura social controversa, acusado de ser simpatizante nazi aquando da ocupação do seu país, tal como L.-F. Céline será, também ele, perseguido pela justiça depois da II Guerra Mundial e os seus livros queimados na praça pública”. Sim, porque nem só os regimes considerados “malditos” hoje queimaram livros, como alguns nos querem impingir. E, já agora — porque nunca é demais dizê-lo —, para mim, queimar livros é um crime hediondo. 
