domingo, 14 de setembro de 2008

Guerra mediática

A minha única intervenção no debate “Geórgia, Rússia: conflito regional, jogos globais” foi dirigida ao jornalista Carlos Santos Pereira, dizendo que nesse próprio dia me lembrara de uma passagem do seu livro “Da Jugoslávia à Jugoslávia — Os Balcãs e a Nova Ordem Europeia”, quando lia um artigo da revista «Marianne»; comentário que se seguiu à discussão da importância da guerra mediática neste conflito.

No prefácio do seu excelente livro, escreve o jornalista português: “Gorazde, Abril de 1994. No próprio dia em que os F-16 da NATO assinaram os primeiros fogos reais da história da atlântica agremiação, duas cadeias televisivas de vocação planetária — a CNN e a Sky News — ofereceram-nos imagens impressionantes da destruição deixada pela ofensiva sérvia em Gorazde e dos cadáveres que juncavam o solo da cidade. Pois bem, as imagens tinham sido capturadas em aldeias vizinhas, e perto de um ano antes, durante os violentos confrontos então registados na área. E os cadáveres mostrados tinham sido filmados mais de oito dias antes em Trnovo, a alguns quilómetros mais a oeste, a caminho de Sarajevo, e tinham resultado, não de qualquer assalto a Gorazde, mas de um confronto entre forças sérvias e um comando muçulmano que tentara penetrar as linhas do "inimigo".”

O artigo da «Marianne», sobre o ataque da Geórgia à Ossétia do Sul, revelava que a CNN, ao noticiar a destruição de Gori pelo russos, mostrou imagens da capital osseta, Tshkinvali, destruída pelos georgianos.

Voltando a socorrer-me do mesmo livro de Santos Pereira, estamos perante “uma ilustração exemplar daquilo que o general Pierre M. Gallois chamou as "oficinas de selecção de imagens" ou mesmo de "fabrico de falsas imagens , acomodando a realidade à vontade dos que financiam a sua realização".

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