sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A China como modelo?

Tenho a honra de publicar mais um artigo do Filipe Martins, a quem agradeço. É formado em Estudos Europeus e foi bolseiro da Federação Russa no Instituto Estatal de Língua Russa A. S. Pushkin; neste momento gosto de pensar que é um colaborador especializado desta casa.


Já vi escrito por mais que uma vez que a Rússia deveria deixar de competir militarmente com o Ocidente e investir em outras formas de aumentar o seu poderio, nomeadamente copiando a China. Ora, o paralelismo entre a Rússia e a China é falacioso, por vários motivos.

Logo para começar, porque a China nunca foi uma superpotência, não tem esse historial e não nutre sentimentos de perda de poder e território, ao contrário da Rússia.

Por outro lado, o potencial militar chinês ainda é bem mais fraco que o russo. O melhor que os chineses têm é material, precisamente, comprado a Moscovo, como os Su-30 MKK, os destroyers da classe Sovremeny ou os submarinos da classe Kilo, ou material com forte influência russa como os caças JF-17 ou os tanques Type 98 e 99.

A China, no entanto, está a ser vista pelos seus vizinhos como uma ameaça, não só devido aos números mas também devido ao seu forte investimento militar, mormente no sector aeronaval e de projecção de forças. As pretensões chinesas nas Spratley e nas Paracel, para além de Taiwan, são vistas com bastante apreensão por todos os países da zona. A alteração que se verificou no Japão quanto ao emprego de forças militares, e o rearmamento da JDF, deriva das atitudes belicistas da China.

Portanto, sob o ponto de vista militar, a China é de facto uma ameaça dentro da sua zona. À medida que for crescento sê-lo-á a uma escala mais vasta. E quando isso acontencer, nessa altura falaremos.

Sob o ponto de vista internacional, o poderio económico da China baseia-se na completa falta de direitos dos trabalhadores e na produção a baixo preço (e baixa qualidade), no comércio baseado nas redes familiares (sobretudo no SE Asiático) e nos apoios estatais ao comércio e investimento, nomeadamente nos grandes projectos de obras públicas (como em África). É fácil dizer que a Rússia deveria seguir o caminho da China, mas porque não o seguem também os países do Ocidente? Todos, neste momento, estão a perder concorrência face à China, que é quem mais investe em África (ao contrário do Ocidente, a China não faz caridade e está-se nas tintas para critérios de democracia e boa governação, pois só interessam o dinheiro e os recursos naturais).
Deveria a Rússia (e o Ocidente) seguir este exemplo?

A China sofre gravíssimos problemas ambientais ("China Says More Milk Products Show Signs of Being Tainted", noticiava há dias o NY Times) e sociais, com a incapacidade do país em alimentar 20% da população mundial com apenas 8% dos solos aráveis, ou com a incapacidade em crescer a ponto de elevar mais do que 300 mil de habitantes a um nível de classe média. As assimetrias sociais crescem a um ritmo alucinante, e há revoltas constantes de camponeses as quais raramente são noticiadas (as autoridades chinesas exercem um verdadeiro controlo sobre a internet, ao contrário das russas).

Em suma, não só devido às suas características específicas como devido aos graves problemas internos, o que a poderá levar a seguir uma atitude bem mais belicista, a China não é um bom exemplo a seguir.

Filipe Martins

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