quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Samuel P. Huntington (1927 - 2008)

Morreu há dias o professor Samuel P. Huntington que se notabilizou pela obra “O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial”, publicada em Portugal pela Gradiva, em 1999. Neste livro opõe-se à teoria do “fim da História” de Fukuyama, dizendo que os principais actores políticos do século XXI serão as civilizações e não os estados nacionais e que os principais motivos dos conflitos serão religiosos e não ideológicos. A sua teoria provocou grande polémica e desencadeou acesas críticas. Uma excelente e corajosa análise, que foi infelizmente instrumentalizada pela administração Bush como justificação da guerra contra o terrorismo e da invasão do Iraque. Mais recentemente, Huntington viria a ser acusado de xenofobia por alguns críticos, na sequência do seu livro “Who Are We? The Challenges to America's National Identity”, onde alerta para a crescente imigração mexicana e as consequências desta no futuro da sociedade americana.

sábado, 27 de dezembro de 2008

No Prado (IV): A Rendição de Breda

Gosto muito do trabalho de Velázquez, mas a leitura das aventuras do Capitão Alatriste suscitou-me maior curiosidade em “A Rendição de Breda”, de 1634. No livro “O Sol de Breda”, de Arturo Pérez-Reverte, publicado em Portugal pela ASA, em 2007, o narrador, Íñigo Balboa, revela-nos durante uma visita ao pintor espanhol o local no quadro “onde se insinua, meio escondido atrás dos oficiais, o perfil aquilino do capitão Alatriste”. O problema é que ele não está visível hoje e as palavras Íñigo foram por muitos consideradas uma “afirmação gratuita”, como nos diz a nota do editor original publicada no fim do livro, que explica que este mistério foi resolvido pela obra do professor José Camón Aznar, que confirmou “mediante o estudo de uma radiografia da tela” comprovado o facto de, onde “o espectador só consegue ver um lugar vazio sobre o gibão azul de um lanceiro voltado de costas”, a radiografia revelar que “atrás dessa cabeça, adivinhava-se outra de perfil aquilino”.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

No Prado (III): As Meninas

O meu quadro preferido de Velázquez é “La Familia de Felipe IV”, mais conhecido como “Las Meninas”, de 1656. Desta vez, ao apreciar calmamente a obra, uma amiga demasiado céptica perguntou-me o que, afinal, via eu de tão especial naquela pintura. Respondi-lhe simplesmente que, fora todas as teorias mais loucas, tudo se resumia a uma questão de perspectiva. Um trabalho fantástico que nos colocava no quadro, sem colocar. Um jogo, no verdadeiro sentido do termo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

No Prado (II): Entre Deuses e Homens

Tive a sorte de ver no Museu do Prado a exposição temporária “Entre dioses y hombres”, que juntou às esculturas clássicas da sua colecção, 46 peças do Albertinum de Dresden, encerrado para obras, que pela primeira vez estão expostas fora da Alemanha.

Ao percorrer as várias salas da exposição, apreciando estas representações, não pude deixar de lembrar-me das palavras de Dominique Venner sobre o busto de César encontrado em Arles: “Este rosto podia ser de hoje em dia, mas podia também ser mais antigo. O que é espantoso é até que ponto este rosto viril, esculpido pela vida, é o de um Europeu (Bóreo), um tipo humano particular que atravessou os tempos.

Efebo de Dresden
Réplica Romana. Escola de Policleto
séc. V a. C.
157 x 48 x 42.5 cm
Dresden, Skulpturensammlung Staatliche Kunstsammlungen

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

No Prado (I): O Triunfo da Morte

Nos dias em que estive em Madrid voltei ao Prado, museu que não visitava há muitos anos. Descobri, com satisfação, que há um período grátis diário, das 18 às 20 horas, uma prática que devia ser exemplo para os museus nacionais, nomeadamente o MNAA.

Devido a “O Pintor de Batalhas”, um dos melhores livros que li ultimamente, tinha uma longa lista de obras para ver, sendo a primeira “O Triunfo da Morte”, de Brueghel, de 1562. Para ver — e não olhar — e rever sempre que surja a oportunidade.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Madrid

A convite do CISNE, fui a Madrid para uma conferência sobre os "fascismos" lusos, que correu muito bem, juntando pessoas de várias proveniências e diferentes faixas etárias. Uma excelente oportunidade para dar a conhecer um pouco de uma realidade totalmente nova para o país vizinho.

Aproveitei para ficar na capital espanhola por alguns dias, rever amigos e fazer algum turismo. Museus, gastronomia, passeio e compras, tudo por entre as multidões que asfixiavam as principiais artérias de la Movida devido às compras navideñas.

Sobre as alterações demográficas bastante visíveis, lembrei-me da troca de comentários ocorrida aqui. Sobre outras experiências falarei em posts seguintes.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Solstício de Inverno


«O Natal é a velha festa do Solstício de Inverno. Na noite mais longa do ano, igual ao Inverno, ao frio, à neve, ao gelo, que parecem não ter fim, nessa noite única e terrífica, os nossos antepassados recusaram acreditar na morte do Sol. Traziam no coração a certeza da Primavera. Sabiam que a vida continuava, que as flores iriam furar a neve, que as sementes germinariam debaixo do gelo, que as crianças iriam tomar a sua parte na herança e que os seus clãs e as suas tribos iam conquistar todas as terras de que tinham necessidade para viver, todos os mares onde iam estabelecer um domínio sem limites.

No momento em que os glaciares recuavam pouco a pouco diante as florestas, milhares de anos atrás, uma imensa velada de armas reunia-nos à volta dos fogos, através de toda a Europa, então sem nome. Os nossos antepassados surgiam das trevas e das brumas. Iam descobrir o mar imóvel e erguer pedras verticais, ao sol da Grécia. Sabiam que triunfariam sobre o Inverno, sobre o medo e sobre aquela sageza atroz dos velhos que paralisam a gente jovem impaciente.

O nosso mundo está prestes a nascer. Invisível como as flores e as sementes de amanhã, faz o seu caminho debaixo da terra. Temos já as nossas raízes solidamente enterradas na noite das idades, ancoradas no solo dos nossos povos, alimentadas com o sangue dos nossos antecessores, ricas de tantos séculos de certeza e de coragem que somos os únicos a não renegar. Entrámos no Inverno integral, onde se obrigam os filhos a terem vergonha dos altos feitos de seus pais, onde se prefere o estrangeiro ao irmão, o vagabundo ao camponês, o renegado ao guerreiro. Entrámos num Inverno onde se constroem casas sem chaminés, aldeias sem jardins, nações sem passado. Entrámos no Inverno.

A natureza morre e os homens tornam-se todos iguais. Já não há paisagens, já não há rostos. Vivemos em cubas. Com um pouco de química, iluminamo-nos, alimentamo-nos, não temos crianças a mais, esquecemos a luta, o esforço e a alegria. Sim, apesar das luzes de néon, das montras e das imagens do cinema, apesar das festas do Natal, das grinaldas, das missas e dos abetos, entrámos num Inverno muito longo.

Somos só alguns que trabalham para o regresso da Primavera.»

Jean Mabire
in “Os Solstícios – História e Actualidade”, Hugin (1995).

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Alatriste

«Não era o homem mais honesto nem o mais piedoso, mas era um homem valente

Arturo Pérez-Reverte
in “O Capitão Alatriste”, Edições ASA, 2006.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Jean Markale

(23/5/1928 — 23/11/2008)

Morreu Jean Markale, pseudónimo literário de Jacques Bertrand, romancista, poeta, radialista, conferencista e professor francês, autor de mais de cem obras sobre os celtas, o mito do Graal, a Bretanha, o esoterismo e os enigmas históricos.

Em Portugal, foram publicadas pela já falida Hugin as quatro primeiras épocas de “O Ciclo do Graal”: “O Nascimento do Rei Artur”; “Os Cavaleiros da Távola Redonda”; “Lancelote do Lago” e “A Fada Morgana”. A Ésquilo publicou, até agora, “O Cristianismo Celta” e as três primeiras épocas de “A Grande Epopeia dos Celtas”: “Os Conquistadores da Ilha Verde”; “Os Companheiros do Ramo Vermelho” e “O Herói dos Cem Combates”. Foram ainda publicados “As Três Espirais”, pela Pergaminho, e “A Grande Deusa”, pelo Instituto Piaget.

Céline regressa em português

A Ulisseia traz Céline de volta ao panorama editorial português, com uma nova edição de “D'un château l'autre”, desta vez com o título “Castelos Perigosos” e com tradução de Clara Alvarez.


Já existia uma tradução portuguesa desse livro, de Leonel Brim, publicada em 1992, pelas Publicações D. Quixote, com o título “De Castelo em Castelo”. A melhor parte da notícia é que desta vez a Ulisseia vai publicar a trilogia completa, continuada com “Nord” e concluída com “Rigodon”. Estes últimos apenas tenho em francês nas boas e baratas edições de bolso Folio.
No Brasil, saiu em 2004 uma tradução de Rosa Freire d'Aguiar de “De Castelo em Castelo”, publicada pela Companhia das Letras, e havia sido publicado “Norte”, em 1985, pela Editora Nova Fronteira.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

I Encontro de blogues nacionalistas

Há muito anunciado, o I Encontro de blogues nacionalistas será no próximo dia 29 de Novembro, em Cantanhede. Uma óptima oportunidade para sair do mundo virtual e conhecer ou rever os autores que pugnam pela causa nacional na blogosfera. O Vítor Carvalho, organizador do evento, apela aos “retardatários” — como eu — para se inscreverem até amanhã. Foi o que fiz e que apelo a que façam. Mais vale tarde que nunca. Até Sábado.
Inscrições através do correio electrónico vitorramalho1@gmail.com ou do telefone n.º 961488375.

1.º de Dezembro nacionalista

terça-feira, 25 de novembro de 2008

À Beira-Mágoa

Já está pronto o CD de Natal do José Campos e Sousa que referi aqui. Encomendas através do endereço electrónico: largodocarmo@gmail.com.

«Plátano» n.º 4

Recebi hoje o último número da «Plátano», a “revista de arte e crítica de Portalegre”. Um excelente projecto encabeçado pelo Mário Martins, que está de parabéns. A demonstração prática de que, quando há vontade, são possíveis iniciativas culturais locais de qualidade.

domingo, 23 de novembro de 2008

Do dia

O João Marchante decidiu, ontem, eleger esta casa como blog do dia. Uma honra, em especial porque vem de um sítio de referência a que vou todos os dias. Um abraço.

sábado, 22 de novembro de 2008

Lucky Luke e Spirou integrais

Fiquei a saber, através do Eurico de Barros, da excelente iniciativa Les Intégrales Dupuis que descreve ele hoje no «DN»: “A ideia da colecção não se limita à republicação cronológica e temática, em grossos álbuns cartonados, de algumas das grandes séries de banda desenhada da "casa", caso da genial Johan e Pirlouit, de Peyo, de Lucky Luke, de Morris, de Spirou e Fantasio da fase Franquin, de Natacha, de Walthéry, de Buck Danny, de Hubinon e Charlier, de Tif e Tondu, de Will - que é uma verdadeira descoberta -, ou de tudo o que Jijé (Joseph Gillain) desenhou. Cada uma das histórias é introduzida por um detalhado dossier que situa a série no seu tempo e revela histórias e pormenores curiosos ou divertidos sobre os autores e a criação das personagens e dos álbuns. A expressão "integral" não se aplica apenas à republicação de todas as histórias de uma personagem ou personagens. São também mostrados, paralelamente, desenhos inéditos ou não, capas alusivas da revista Spirou em que as séries viram a luz do dia, e ainda pranchas que ficaram na gaveta ou que, tendo saído quando a história foi publicada originalmente em continuação na revista, acabaram por ser retrabalhadas ou substituídas pelos autores. Como se isto não fosse suficiente, os álbuns foram todos revistos, bem como corrigidos digitalmente os efeitos das várias manipulações e do tempo, e ainda rectificados erros originais de coloração, devidos às limitações técnicas da época em que as várias aventuras das personagens foram editadas.

Um mimo, como se pode ver. Fui prontamente à página de Les Intégrales Dupuis e trouxe as imagens das personagens que dão o título a este post, as minhas favoritas da editora Dupuis.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Dualidade de critérios

Processo
Imperdível o post d'A Cidade do Sossego sobre o que os media poderiam chamar “processo do PSD”, ou seja a detenção de Oliveira e Costa, se utilizassem os mesmos critérios do dito “processo dos nacionalistas” do ano passado.

Cartaz
O Corcunda fala do cartaz do BE com a mensagem “O Governo protege os banqueiros. E quem protege as pessoas?”, um claro crime de ódio, dada a atitude discriminatória, e aguarda a actuação de Sá Fernandes. Eu vi um cartaz igual em Entrecampos e lembrei-me do recorrente argumento “anti-racista” de “não se pode dizer ciganos e portugueses, porque os ciganos são portugueses”. Mas quando são os “donos da verdade” a dizer que os banqueiros não são pessoas, tudo bem...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

La Nouvelle Revue d’Histoire n.º 39

Está nas bancas o número 39 de «La Nouvelle Revue d’Histoire», cujo tema é “1918 A grande ilusão”. No editorial intitulado “Os equívocos do nacionalismo”, o director conclui: “De Paris a Berlim e mesmo até São Petersburgo, o nacionalismo de detestação substituiu o antigo patriotismo carnal, o sentimento interior e forte de identidade. Sentimento que fazia ainda Voltaire dizer em 1751 que a Europa formava uma espécie de República partilhada em vários Estados, mas tendo todos os mesmos princípios, desconhecidos nas outras partes do mundo”. O excelente dossier, abre com o balanço de Dominique Venner sobre “A grande ilusão”: “11 de Novembro de 1918, o clarão do armistício anuncia o fim do inferno. Mas esta guerra destruiu por muito tempo a antiga ordem europeia”, considera. De seguida, podemos ler os artigos “França. A ditadura do Tigre”, de Philippe Conrad, “Foch: a controvérsia”, de Jean Kappel, “A guerra vista da Alemanha”, de François-Georges Dreyfus, “O fracasso de Ludendorff”, de Wolfgang Venohr, “Em África, uma guerra de gentlemen”, de Bernard Lugan, que faz referência à incursão de von Letow em Moçambique, “Sob o olhar dos escritores”, de Jean Bourdier, “As ilusões generosas de Jean Renoir”, de Norbert Multeau e ainda a cronologia de Jean Kappel e a entrevista com Rémy Porte e François Cochet, autores do “Dictionnaire de la Grande Guerre”, sobre as rivalidades franco-inglesas.

Destaque ainda para a entrevista com Jean-Paul Bled sobre as figuras da antiga Prússia, os artigos “A coroa secular da Hungria”, de Jean Bérenger, “A reconquista da Grécia moderna”, de Éric Mousson-Lestang, e a descoberta de Jean-François Gautier sobre um lado desconhecido do historiador Jacques Benoist-Méchin, a música. Como sempre, para além de outros artigos, temos a crónica de Péroncel-Hugoz, bem como as secções habituais.

A comprar antes que esgote.

A norma do caos

Para o Devir.

Há muito de autobiográfico em “O Pintor de Batalhas”. Neste romance que é uma reflexão profunda e intensa, Arturo Pérez-Reverte conta a história de André Faulques, um fotógrafo de guerra que se refugiou numa torre de vigia do século XVIII à beira do Mediterrâneo, onde, solitário, pinta um grande fresco na sua parede. A troca da câmara fotográfica pelos pincéis tem uma razão, que é o mote deste livro: “Se, como defendiam os teóricos da arte, a fotografia recordava à pintura o que esta nunca devia fazer, Faulques tinha a certeza de que o seu trabalho na torre recordava à fotografia o que esta era capaz de sugerir, mas não de conseguir: a vasta visão circular, contínua, do xadrez caótico, regra implacável que governava o acaso perverso a ambiguidade do que governava o quê não era em absoluto casual do mundo e da vida. Aquele ponto de vista confirmava o carácter geométrico dessa perversidade, a norma do caos (...)”.

Faulques é visitado por um homem que o informa prontamente que o quer matar. Trata-se de Ivo Markovic, fotografado pelo pintor de batalhas durante a guerra da ex-Jugoslávia, que antes de concretizar o seu intento deseja que ele “compreenda algumas coisas”. Inicia-se, assim, uma longa conversa entre ambos. Esta visita inesperada é um regresso do seu passado, fá-lo voltar à guerra e à memória de um amor nunca esquecido, numa verdadeira viagem interior, ao mesmo tempo que fala sobre arte e sobre a sua pintura. Num desses diálogos, sobre pintores considerados mestres, há uma passagem muito interessante, onde Markovic diz: “(...) Picasso também pintou um quadro de guerra. Guernica, chama-se. Embora, na realidade, ninguém diria que é um quadro de guerra. Pelo menos, não como este. Não é verdade?” Ao que Faulques responde, implacável, “Picasso nunca viu uma guerra na vida.

Para quem já gostava de Pérez-Reverte, como eu, este livro é a melhor confirmação do talento deste escritor espanhol. Para os que ainda o desconhecem é, com certeza, uma descoberta fantástica.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Biblioteca de Babel

O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores: intermina­velmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, a cinco longas estantes por lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altu­ra, que é a dos pisos, mal excede a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito saguão, que vai desembocar noutra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos. Um permite dormir de pé; o outro, satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa a escada em espiral, que se afunda e se eleva a perder de vista. No saguão há um espelho, que fielmente du­plica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Bi­blioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que serviria esta dupli­cação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito... A luz provém de umas frutas esféricas que têm o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.

Tal como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, se calhar do catálogo dos catálogos; agora que os meus olhos quase não conseguem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela balaustrada; a minha sepultura será o ar insondável; o meu corpo precipitar-se-á longamente até se corromper e dissolver no vento gerado pela queda, que é infinita. Eu afirmo que a Biblioteca é interminável. Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou pelo menos da nossa intuição do espaço. Consideram que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmara circular com um grande livro circu­lar de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; mas o seu testemunho é suspeito; as suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico e Deus.) Basta-me por agora repetir a clássica sentença: «A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, e cuja circunferên­cia é inacessível.» (...)


Jorge Luis Borges
in “Ficções”, 1944.

Filmes de culto (XXXI)

Shichinin no samurai, Akira Kurosawa, 1954.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Dicionário da Novilíngua

Sabemos que, nos tempos que correm, a ditadura do politicamente correcto criou uma novilíngua orwelliana para consolidar o pensamento único. É por isso essencial ler o “Pequeno dicionário da novilíngua”, de Michel Geoffroy, actualizado e com mais de 250 entradas, disponível no Polémia.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Desterrado

«Desterrado é aquele que possui uma relação originária com a liberdade, que se exterioriza, de um ponto de vista epocal, na resistência que opõe ao automatismo e de que não tenciona tirar a sua consequência ética, o fatalismo.»

Ernst Jünger
in “O Passo da Floresta”, Cotovia, 1995.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Pena e Espada em entrevista

O Manuel Azinhal contemplou esta casa na série de mini-entrevistas que em boa hora decidiu fazer n'O Sexo dos Anjos. Agradeço-lhe o interesse por este blog, que honra com a sua visita diária, e as palavras que me dirigiu. Obrigado a um local de referência na blogosfera. Aqui fica a republicação.

Assumindo deliberadas ressonâncias camonianas, Pena e Espada é o nome do blogue pessoal de Duarte Branquinho. Nele vão ficando partilhados, dia a dia, os interesses do autor: a História, a Política, a Cultura em geral. Não da cultura que se encerra em torres de marfim, mas da cultura que vive e participa no seu tempo. E que combate os combates do seu tempo. Desde Abril de 2004, é um blogue que me habituei a visitar todos os dias - e que nos dias em que nada publica me deixa com a sensação de frustração e de inquietação de quem não encontra um amigo onde esperava vê-lo. Logicamente, também importunei o Duarte com um pequeno questionário, a que ele pacientemente respondeu. Publico a seguir o resultado, exortando os leitores a lançar-se ao caminho: Pena e Espada!

Um blogue é uma arma?
Pode e deve ser uma arma de "desintoxicação cultural", que é o que necessitamos cada vez mais. Mas, infelizmente, há quem não resista à tentação de o usar como arma de maledicência e difamação.

O que tem o "Pena e Espada" que os outros não tenham?
Como é um blog pessoal, acho que a diferença substancial reside nesse cunho próprio.

Isto vai com a pena, ou só à espada?
A eterna questão... Acho que a escolha do título deste blog demonstra bem a minha preocupação em transmitir a necessidade desse dificílimo equilíbrio, essencial ao nosso combate.

Leu o texto sobre o "gramscismo tecnológico", de Jean Yves Le Gallou? O que se lhe oferece comentar?
Li com bastante agrado, é um texto excelente e de leitura obrigatória. O Polémia é, aliás, uma das minhas visitas habituais.
Não vou repetir agora a importância da internet e todas as possibilidades que esta abre na batalha das ideias. Vou referir uma questão que acho bastante importante, a de que a internet não é o substituto, mas sim o complemento das edições tradicionais, nomeadamente livros ou revistas. Estou inteiramente de acordo e acho que no nosso país, onde na nossa área há uma incrível falta de publicações de todos os quadrantes, a internet pode ser o óptimo motor de arranque para projectos editoriais. Não só porque permite a prática da escrita, da crítica e da edição, bem como o conhecimento rápido e a fácil troca de informações entre autores e outros envolvidos, mas porque é um óptimo meio de divulgação dessas publicações.

Cinco anos depois do aparecimento de uma corrente nacional na blogosfera, em Julho de 2003, qual é hoje o balanço?
Como "bom português" deveria responder qualquer coisa do género: "não serviu para nada", ou "no início é que era bom, mas agora..." No entanto, tenho a opinião exactamente contrária. Gosto sempre de pensar que tudo demora o seu tempo e quem espera resultados imediatos rapidamente desiste. Não nego que esperava e gostaria que muitas coisas se tivessem passado... mas não é assim a vida? Congratulo-me por ter conhecido muitas pessoas válidas e interessadas, das quais me tornei amigo, que na blogosfera encontraram uma montra para o seu talento e uma motivação para a sua luta diária. Os efeitos profundos da blogosfera, como espaço de combate cultural que é, sentir-se-ão a longo prazo.

"Politique d'abord" é uma máxima actual? Ou acredita que hoje tem que ser "culture d'abord"?
Estou convicto, e sou amiúde criticado por isso, que é a cultura primeiro. Mas tal não significa só a cultura. É claro que o combate político é sempre necessário e importante, mas na ordem actual de prioridades arrisco-me a dizer "métapolitique d'abord".

Pode a internet ser o meio para escapar à tirania mediática?
Afirmo que é, neste momento, o único meio para escapar à tirania mediática. De tal forma que a grande dor de cabeça das brigadas do pensamento único é como controlá-la eficazmente. Infelizmente temos assistido a várias tentativas de censura da internet e a situação só tende a agravar-se. Depois do combate na internet livre, será o combate pela liberdade na internet.

“Sociedade racial”

Alguns comentários ao artigo de Luís Campos e Cunha hoje do «Público», sobre o “problema das minorias étnicas”, modelos “integração” e diferenças de discriminação, com a ênfase na sociedade americana, sobre a qual afirma: “não é racista, é racial”.

Diz o autor: “quando cheguei a Nova Iorque e me matriculava em Columbia, no formulário de inscrição pediam-me para responder (facultativamente se eu era branco, latino, asiático ou negro.” Lembrei-me automaticamente dos tempos que passei nos EUA e onde em quase todos os questionários há esta pergunta. É claro que isso permite informação estatística preciosa para análises que noutros sítios, como na Europa continental, não se podem fazer por censura politicamente correcta. Como escreveu Pacheco Pereira na revista «Sábado», em Março de 2005, “a ideia politicamente correcta de que não se deve nomear a cor, nacionalidade (no caso de imigrantes) ou qualquer outro pormenor que possa ser considerado racista, sexista ou xenófobo, nas notícias dos crimes, é só e apenas isso: politicamente correcta. Na prática, censura-nos uma informação que devíamos ter: a relação entre a criminalidade e os factores sociais e culturais onde ela encontra raízes.” Mais, não pensem que os membros das minorias se sentem ofendidos com essa questão, pelo contrário, nos EUA, a maioria sente orgulho nessa pertença. Experimentem, por exemplo, dizer a Myke Tyson que não é negro porque “não há raças” e preparem-se para ficar sem dentes...

Ainda sobre o questionário racial, Campos e Cunha diz: “Não estando ainda habituado às subtilezas americanas, não sabia como preencher: eu era branco mas também latino, como os espanhóis ou italianos.” Quanto à dificuldade na resposta, é óbvio que para um americano “latino” não se refere a quem fale uma língua latina e, por isso, portugueses, espanhóis e italianos não são “latinos” nessa classificação americana. Da mesma forma que, quando um jornal português se refere à comunidade hispânica, falando dos EUA, não quer dizer ibérica. A questão dos “latinos” suscitou já grande debate, nomeadamente após protestos de vários sul-americanos de origem europeia, que se consideram brancos mas não “latinos”, apesar da língua, deixando perceber que esta é uma classificação mais rácica que étnica.

“Ninguém está seguro”

Tomei conhecimento de um caso peculiar através da crónica de Vasco Pulido Valente, na edição de hoje do «Público». O de um funcionário da EPUL que foi alvo de um processo disciplinar após ter reenviado e comentado um e-mail com a imagem que publico abaixo por, entre outros argumentos, ser “discriminatório em função da raça”. Não esquecendo o facto de o dito funcionário já estar em litígio com a empresa e ter utilizado o computador de serviço, Pulido Valente comenta desta forma o essencial do caso: “No seu zelo, a administração não percebe [ou não quer perceber, digo eu] o carácter irónico do e-mail original nem a legitimidade democrática do comentário de Almeida Faria. O que a EPUL quis foi esmagar o herético. O funcionalismo é hoje vigiado por uma "polícia do pensamento" minuciosa, activa e protegida. Ninguém está seguro.”

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Frutas e legumes

Tenho que referir a boa notícia de que foi aprovada a “proposta da Comissão Europeia que deixa cair a obrigação de calibragem de 26 frutas e legumes, passando a ser autorizada a venda de produtos "deformados"”, que deverá entrar em vigor para o ano. Uma das coisas mais incompreensíveis e irritantes da uniformização levada a cabo pela União Soviética Europeia é a normalização das frutas e legumes. Mas há muito mais coisas, entre outras frutas e legumes, nas quais não me parece que vão recuar...

sábado, 8 de novembro de 2008

Ronda blogosférica

Novidade
O mais recente membro do clã Zentropa, desta vez na Alemanha, já está em linha: Syndicat-Z.

Formação
Sem dúvida aquilo que mais necessitamos na nossa área para fugir à massificação que nos querem impor. É nesse sentido que vai o texto imperdível de Pierre Chatov, em português no Inconformista, que conclui: “Cada alma salva da desculturização e das patologias materialistas é uma vitória mais importante que todas as eleições do mundo, sobretudo aquelas em que o resultado é decidido nos bastidores de Wall Street.

Obamania
O Harms coloca a questão: Aristóteles era preto? E bem, porque parece que nesta “nova era” é preciso ter um afro-tudo; qualquer dia até exigem afro-africanos...

Em português
Foi com grande satisfação que vi republicados dois textos em português no blog de referência Euro-Synergies, um do Mário Martins sobre a actualidade de Tintim e outro desta casa sobre o regresso de Hamsun.

Regresso
O Pedro voltou a escrever no seu Último Reduto. Finalmente! Que não nos deixe outra vez tanto tempo à espera...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

The Hollow Men

Mistah Kurtz—he dead.

A penny for the Old Guy


I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats’ feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death’s other Kingdom
Remember us—if at all—not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

II

Eyes I dare not meet in dreams
In death’s dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind’s singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death’s dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat’s coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer—

Not that final meeting
In the twilight kingdom

III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man’s hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death’s other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death’s twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o’clock in the morning.

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.


T. S. Elliot (1925).

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Napalm


I love the smell of napalm in the morning. You know, one time we had a hill bombed, for 12 hours. When it was all over, I walked up. We didn't find one of 'em, not one stinkin' dink body. The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like... victory. Someday this war's gonna end...

Lieutenant Colonel Bill Kilgore

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

“O Mediterrâneo não é a nossa mãe”

Por ler hoje no «Público» que foi ontem anunciado em Marselha que “a União para o Mediterrâneo, anunciada em Julho pelo Presidente francês Nicolas Sarkozy, vai ter sede em Barcelona”, volto ao tema do Mediterrâneo como havia prometido quando falei do último número da revista «Éléments». Criticando esse projecto, no qual Portugal também participa, bem como as posições de Alain de Benoist e as transmitidas pelo dossier da revista, Pierre Vial escreveu o lúcido artigo “O Mediterrâneo não é a nossa mãe”, na última edição da «Terre et Peuple», cuja tradução portuguesa está disponível na página da associação Terra e Povo.

Quem é que ficou acordado?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

“Miscigenação diminui o QI dos brasileiros”

Um amigo brasileiro alertou-me para uma entrevista muito interessante dada por Charles Murray à revista «Isto é», no mês passado, onde afirma que a “miscigenação diminui o QI dos brasileiros” e que a “elevada proporção de negros no País reduz o índice de inteligência nacional”. O politólogo americano, que se tornou internacionalmente conhecido com o livro que provocou grande controvérsia, “The Bell Curve: intelligence and class structure in american life” [1996], escrito em co-autoria com Richard J. Herrnstein, psicólogo e professor de Harvard, foi pela primeira vez ao Brasil para participar no seminário “O Impacto dos Resultados Pisa e a Formação de Intelectuais na América Latina”. O seu último livro é “Real Education: Four Simple Truths for Bringing America's Schools Back to Reality”.

Racista?
Às acusações de racismo, Murray responde: “Fui acusado de racismo porque mostrei um indiscutível facto empírico: quando amostras representativas de brancos e negros são submetidas a testes que medem a habilidade cognitiva, os resultados médios são diferentes. Isto não é uma opinião. É um facto, da mesma forma que medidas de altura mostram um resultado médio diferente entre japoneses e alemães. Eu não tirei conclusões racistas deste facto, não advoguei políticas racistas, e tenho escrito explicitamente que a lei deve tratar pessoas como indivíduos e não como membros de grupos raciais. Então por que me chamar de racista? Porque alguns factos não podem ser discutidos - e os indivíduos que os discutem devem ser pessoas terríveis.

Miscegenação e QI
Confrontado com a constatação de que o Brasil é um país onde a miscigenação é a regra e questionado se isso significa que o QI médio do brasileiro é inferior ao dos nórdicos, por exemplo, Murray responde: “É uma questão de aritmética. Se em testes o QI é sempre maior com amostras de nórdicos do que com amostras de negros, então um país com uma significativa proporção de negros terá um QI médio inferior ao de um país que consiste exclusivamente de nórdicos. Isso é verdade, por exemplo, quando comparamos os Estados Unidos com a Suécia, da mesma forma que é verdade quando comparamos o Brasil e a Suécia. A única questão é empírica: as médias são sempre diferentes? Se são, a questão está respondida por si mesma.

O valor dos testes de QI
O valor dos testes de QI, para um cientista social, é usá-los para prever resultados em grupos grandes. Por exemplo, se você me mostrar duas crianças de seis anos, uma com 110 de QI e outra com 90, não tenho ideia de quem estará ganhando mais quando elas estiverem com 30 anos. Mas, se você me mostrar mil crianças de seis anos com 90 de QI e mil com 110, posso dizer com muita confiança que a renda do grupo de 110 de QI aos 30 anos será mais alta na média - essa é palavra-chave, na média - do que a do grupo de 90.

Mais um “racista”?

Leio as declarações do ministro francês da Imigração, Brice Hortefeux, na conferência ministerial europeia sobre a integração, em Vichy, e penso se, segundo a cartilha politicamente correcta, este não será eleito pelos imigracionistas bem-pensantes como o novo “racista” e “xenófobo”...

Hortefeux considerou que “as nossas políticas de integração estão esgotadas em termos de habitação, de emprego, de aprendizagem da língua, de escolarização”, afirmando que o “desafio da integração” deve ser recolocado paralelamente à política de controlo dos “fluxos migratórios”. Falou ainda das “violências urbanas” e fez referência à taxa de desemprego dos estrangeiros que é “duas a três vezes mais elevada que as taxas de desemprego nacionais”.

A notícia fala ainda de reacções contra as declarações do ministro, tal como seria de esperar, e termina de uma forma que merece um breve comentário. Qual o objectivo de concluir com a frase, completamente deslocada: “Durante a II Guerra Mundial, Vichy foi sede do governo pró-alemão que ajudou à deportação dos Judeus.”? A única justificação parece ser a eterna associação (obrigatória?) entre propostas de restrição ou de regulação da imigração ao nazismo, entendido como mal absoluto. Se for esse o caso, demonstra bem o estado a que chegou a politização do jornalismo nesta terra.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O último samurai


«Dobrou os braços, com as mãos por baixo da cabeça e olhou para as tábuas escuras do tecto, na escuridão situada para lá do alcance do candeeiro. Era da morte que estava à espera? Ou de um violento êxtase dos sentidos? As duas coisas pareciam sobrepor-se, quase como se o objecto do seu desejo físico fosse a própria morte. Mas, fosse como fosse, a verdade é que o tenente nunca antes tinha experimentado esta sensação de liberdade.

Na rua, ouvia-se o barulho de um carro. Conseguia-se perceber os guinchos dos pneus sulcando a neve amontoada ao pé do passeio. O som da buzina fez eco nas paredes da vizinhança... Ouvindo estes barulhos, o tenente teve a sensação de que a sua casa se erguia como uma ilha solitária no oceano de uma sociedade que continuava, como sempre, a fazer o seu negócio. À volta, extenso e desarrumado, estendia-se o país pelo qual ele sofria. Ia dar a vida por ele. Mas prestaria aquele grande país, que ele estava preparado para admoestar a ponto de se destruir a si próprio, alguma atenção à sua morte? Não sabia; e isso não importava. O seu campo de batalha era um campo sem glória, no qual ninguém podia mostrar acções de coragem: era a frente de batalha do espírito.»

Yukio Mishima
in “Patriotismo”, Morte no Verão e outras histórias, Editorial Estampa, 1996.

“Um homem da pena e da espada”


Assim caracteriza o Eurico de Barros, Yukio Mishima, no seu artigo “Mishima no CCB: a pena e a espada do samurai”, publicado hoje no «DN», sobre o ciclo de que falei no post anterior: “Yukio Mishima era um intelectual de acção, um homem da pena e da espada, um patriota que sempre juntou o gesto ao discurso, educado no espírito e nos valores da tradição samurai, que "viveu a sua própria estética", como escreveu o seu biógrafo, Henry Scott Stokes, em The Life and Death of Yukio Mishima. E cuja obra literária, nomeadamente a tetralogia O Mar da Fertilidade, reflecte intensamente essa preocupação com o estado "do nosso povo e da nossa cultura milenar", da "conservação das tradições" e da "preservação da alma japonesa", como declarou na última entrevista dada uma semana antes da sua morte, a um jornalista italiano.

Ciclo Mishima

Começa hoje no Centro Cultural de Belém o ciclo “Mishima, Um Esboço do Nada”, que se prolongará até ao dia 14 de Dezembro, dedicado à figura e à obra de Yukio Mishima, escritor, dramaturgo, actor e realizador japonês, que a 25 de Novembro de 1970 cometeu seppuku após ter ocupado com a sua organização uma base militar em Tóquio, contra a ocidentalização e descaracterização do Japão após a II Guerra Mundial. O ciclo será composto por exposições, workshops, leitura encenada, comunidade de leitores, teatro, dança e cinema.

domingo, 2 de novembro de 2008

Emprego para os outros

Ferreira Leite quebrou um tabu na entrevista à TSF: “A líder do PSD considerou que os grandes investimentos do Estado só ajudam a reduzir o desemprego para os trabalhadores de países como Cabo Verde e a Ucrânia.” Seria uma verdade de La Palisse se não estivéssemos numa ditadura do politicamente correcto. Aliás, a senhora que se ponha a pau, pois a avaliar por casos recentes, com pouco esforço, tais declarações podem muito bem constituir crime de discriminação racial.

sábado, 1 de novembro de 2008

Ainda o mito do Aristides

Em Abril do ano passado, no semanário «O Diabo», era desmistificada a lenda de Aristides Sousa Mendes. No início do mês passado, o Corcunda fez um excelente post sobre o assunto com várias citações do recém-publicado livro de memórias do embaixador João Hall Themido, “Uma Autobiografia Disfarçada”.

O assunto merece novamente referência por ter sido mencionado no «Expresso» de hoje que, a propósito do livro de Hall Themido, fala do capítulo “A mitificação de Aristides Sousa Mendes”, que considera “porventura o mais polémico”, citando o embaixador: “Aristides foi um mito criado por judeus e pelas forças democráticas saídas do 25 de Abril”. Apesar de ser uma novidade velha, já sabemos que estas coisas ganham outra força ao aparecerem na imprensa mainstream. Que sirva para abrir os olhos aos que não os querem fechar. É caso para dizer que para os construtores de mitos politicamente correctos, este embaixador não é Themido, mas temido.

Knut Hamsun de volta

Knut Hamsun, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1920, volta ao panorama editorial português pela mão da Cavalo de Ferro, com a publicação de “Fome”, traduzido do norueguês por Liliete Martins, com prefácio de Paul Auster e com a coragem de afirmar no breve texto de apresentação sobre o escritor: “figura social controversa, acusado de ser simpatizante nazi aquando da ocupação do seu país, tal como L.-F. Céline será, também ele, perseguido pela justiça depois da II Guerra Mundial e os seus livros queimados na praça pública”. Sim, porque nem só os regimes considerados “malditos” hoje queimaram livros, como alguns nos querem impingir. E, já agora — porque nunca é demais dizê-lo —, para mim, queimar livros é um crime hediondo.

No prefácio à edição portuguesa de “Pan”, publicada em 1955 pela Guimarães, o tradutor da obra, César de Frias, escreve: “Não poucas críticas hão proclamado esta obra de Knut Hamsun como a culminante no seu avultado e precioso legado literário. Se hesitamos em assentir nisso é porque nos merece também, embora por diferentes atributos, franca admiração o romance Fome — que, diga-se por tangência, sofre do equívoco de muitos lhe atribuírem, antes de o lerem e tocados apenas pelo tom angustioso do título, o carácter de obra de intuitos panfletários, grito de revolta contra as desigualdades e injustiças sociais, quando é somente, mas em elevado grau de originalidade, um singular documento humano e como tal considerado único nos anais do género. Não há burguês, por mais egoísta e cioso de sua riqueza, que, ao lê-lo, perca o apetite e o sono, por se lhe afigurar que de aquelas páginas vão surdir acerbas invectivas e punhos cerrados contra o que mais estima no Mundo. A ordem pública não corre ali o risco de uma beliscadura sequer, nem erra por lá o acusador fantasma da miséria do povo, convocado por tantos outros romancistas. A tal respeito não se poderia exigir coisa mais inócua e mansarrona. Assim o juramos à fé de quem somos.
Agora o que Pan tem mais a seu favor, o que lhe requinta a sedução, é o facto de ser um livro trasbordante de claridade e de poéticas intuições. Tutela-o, inspira-o de lés a lés — e isso conduziu o autor a denominá-lo de tal jeito — essa divindade grotesca mas amável, simplória e prazenteira como nenhuma outra, da arraia miúda das velhas teogonias mas tão imortal como os deuses da alta, que, em se pondo a tanger a sua frauta, faz andar tudo num rodopio. Baila ele, bailam à sua volta as ninfas, não há nada que não baile. E assim também cada um de nós se sente irresistivelmente levado na alegre ronda, pois do seu teor se desprende uma sugestão optimista e festiva. E a despeito de lhe sombrear o desfecho a morte do herói, a cujo convívio nos habituáramos e se entranhara na nossa afeição — morte que é nota esporádica da novelística do autor, um dos que menos "assassinaram" as suas personagens, preferindo deixá-las de pé e empenhadas em prosseguir sempre na grande aventura da Vida —, termina-se a leitura com o espírito deliciosamente impregnado de um subtil, inefável sabor a Primavera.


Referências blogosféricas para saber mais sobre Hamsun:

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Pessoa em CD por José Campos e Sousa

Do cantor e compositor José Campos e Sousa:

CARTA AOS MEUS AMIGOS:
No tempo em que se festejam os 120 anos de Pessoa

Inspirado no poema Aniversário, de Álvaro de Campos, dei um nome a esta carta que vos dirijo, ao núcleo mais duro de fiéis amigos, que me têm acompanhado na caminhada pessoana, pedindo-lhes ajuda e alguns conselhos para um projecto ambicioso. A ideia é sensibilizar-vos para comemorarmos os 120 anos de Pessoa com a edição de um CD com poemas da Mensagem musicados e cantados por mim.Para um solitário como eu, por feitio e pelas vicissitudes da vida, a opção é fazer tudo a pulso e com a prata da casa, como de costume. Mas a casa não tem prata, tem apenas ideias e alguns talentos. Para viabilizar este projecto, preciso da garantia de encomendas de CDs, comprometendo-me a entregá-los, a tempo dos presentes de Natal. Feito o estudo financeiro, posso adiantar-vos que os CDs antecipadamente encomendados ficarão a 15 euros. Todos os outros CDs serão vendidos pelo preço de 17 euros. Em conclusão, meus amigos, este projecto tornar-se-á automaticamente viável com um significativo número de encomendas que permita a sua gravação.É então para este projecto que vos desafio, tendo, para o concretizar, que saber se estão efectivamente interessados e, se sim, quantos CDs pretendem adquirir. A vossa esposta breve, e positiva, permitir-me-á avançar rapidamente para o estúdio. A fechar esta mensagem, peço-vos ainda que promovam esta iniciativa junto dos vossos amigos, a quem pensem que possa interessar, de modo a gerar novas encomendas, provocando o tal efeito de bola de neve. Vamos ver o que resulta deste trabalho em rede. Darei notícias do desenrolar dos acontecimentos.

Um abraço a todos.
José Campos e Sousa
largodocarmo@gmail.com
Lisboa 28 de Outubro de 2008
PS – Façam as vossas encomendas de Cd’s para o meu e-mail, explicando o local onde podem recebê-las.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Notícia curiosa

A edição de hoje do «Correio da Manhã» traz uma notícia curiosa que nos informa que “a Polícia Judiciária abdicou de provar que Leandro violou a pequena Joana, antes de a enteada de oito anos desaparecer da aldeia da Figueira, em 2004. Por forma a "poupar 10 mil euros" em exames nos Estados Unidos.” Uma atitude que dá que pensar sobre as prioridades na investigação nacional, nomeadamente comparando com casos como o de Madeleine McCann.

Por outro lado, a notícia explica as razões do teste: “Os vestígios coincidiam em cerca de 90 por cento ao ADN de Leandro. Foi detectada uma doença genética característica de pessoas de origem africana. Leandro é africano.” É pá! Esta agora é que não convinha nada aos igualitaristas. A genética é tramada para os apóstolos do dogma “somos todos iguais”, fiéis de São Lyssenko.

O que é a geopolítica?

É o ramo da ciência política que estuda a parte activa exercida pelo meio geográfico na determinação dos eventos políticos e históricos que afectem a população de um dado território. Por vezes tem sido chamada “geografia dinâmica”. Distingue-se ainda pela geografia política, uma vez que não trata somente da situação natural dos Estados e dos povos, mas também (e sobretudo) da maneira como essa situação natural influencia a sua formação e o seu destino.

Alain de Benoist
in
O que é a geopolítica, Edições do Templo (1978).

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Terre & Peuple Magazine n.º 37

Mais um número da óptima revista da associação Terre et Peuple que tem como tema de capa bastante actual “A Rússia está de Regresso”, com os artigos “Histeria anti-russa: a paranóia dos media ocidentais” e a excelente análise geopolítica “Compreender o conflito entre a Rússia e a Geórgia”, de Jean-Patrick Arteault.

A destacar, também, “A peste jacobina”, com os artigos “Pré-história do jacobinismo”, de Jean Haudry, “Reflexões sobre um episódio jacobino da Revolução Francesa”, de Jean-Patrick Arteault, “O jacobinismo aplicado na Vendeia: do genocídio ao memoricídio”, de Pierre Rigolage, “Yann Fouéré. Da préfectorale ao autonomismo”, de Xavier Guillemot, “Os incorrigíveis jacobinos”, de Pierre Vial, e “Intentidades provinciais”, de Yvan La Jehanne. A não perder, também, o artigo sobre a Grande Guerra de Alain Cagnat intitulado “1914-1918: O fim de um mundo”. De referir ainda a crítica de Pierre Vial ao último número da revista «Éléments», afirmando que “o Mediterrâneo não é a nossa mãe” e o artigo sobre genética das populações de Michel Alain.

Podemos ainda ler críticas a livros, bem como comentários sobre a actualidade e as habituais rubricas sobre genealogia e culinária.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A olhar para casa...

Gesta perdida

Os meus trezentos soldados
Mortos ficaram por terra;
Não tenho armas nem cavalos,
Volto ferido da guerra.
Que é da rosa branca,
que me fora prometida?
Filha do Rei, que é da rosa
Que me fora prometida?
Quero encharcá-la no sangue
Que jorra da minha ferida.
Aquela rosa, tão branca,
Ficará rosa vermelha.
Julgando beijar teus lábios,
Hei-de beijá-la de rastros,
Como se beija a bandeira.
Sonhei com a rosa branca
Nos rubros campos da guerra.
Mas os meus bravos soldados
Mortos ficaram por terra,
Minha espada espedaçaram,
Vieram lanças em riste
E feriram-me no peito
(Não mais do que me feriste!)
Agora volto sem sonhos,
Derrotado, só e triste...

Mas a rosa, rosa branca,
Murcha ficou em meus dedos,
Rosa esfolhada e sem vida.
Ai, antes a tua rosa
Me não fosse prometida!

(1945)

António Manuel Couto Viana
in “O Poeta pela mão: Primeiros versos”, 1999.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

M.


Fui almoçar com a M. que já não via há algum tempo. Falámos de cinema, como não podia deixar de ser, lembrámos aquele sítio (toda a gente tem um) onde trabalhámos e tudo era perfeito — ou pelo menos parece, agora —, do qual contei umas histórias mirabolantes, que ela concordou que ultrapassavam largamente a ficção. Agora não. Já não há acessos desses. Agora há blogs e trocas de e-mails, por vezes chat... Perante isto ficam os almoços e os livros. E por estes últimos disse-lhe para levar o livro que estivesse a ler, que depois lhe explicava porquê. Simples, para passar uma excelente mania que o Miguel Vaz trouxe para os nossos almoços: fotografar livros.

Óptimo regresso!


O Paulo está de volta, desta vez n'O Duro das Lamentações. Livre como sempre. Sem pressões, nem moderações. É caso para dizer: há males que vêm por bem...

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Filmes de culto (XXX)

Alexander Nevsky, Sergei M. Eisenstein, Dmitri Vasilyev, 1938.

Liberdade para a História

No Sábado passado, escrevi um post com o mesmo título no Jantar das Quartas, onde falei do editorial de José Manuel Fernandes a propósito do processo “contra o franquismo” iniciado pelo sempre ávido de estrelato juiz Baltasar Garzón, que referia artigo de Timothy Garton Ash, acrescentando um parágrafo sobre a associação “Liberté pour l'Histoire”, fundada por René Rémond e hoje presidida por Pierre Nora.

Volto ao tema para referir o artigo de Jorge Almeida Fernandes, ontem no «Público», intitulado “Garzón e os historiadores em cólera” que, citando o historiador Santos Juliá, diz que “um Estado democrático não pode chamar 'assassinados' às vítimas da rebelião [franquistas] e 'falecidos' às vítimas da revolução, como faz a Junta da Andaluzia para justificar uma determinada política da memória”, concluindo que “tanto na História como na Memória é perigoso reescrever o passado à luz dos interesses políticos de hoje”.

Termino com uma reflexão: todo este processo das “leis memoriais” teve início nos anos 80 do século passado, na Alemanha, Bélgica e Canadá, com disposições legais que criminalizavam o chamado “revisionismo do Holocausto”, o que levou à famosa lei Gayssot, de 1990, que por sua vez abriu caminho em França à lei sobre o genocidío arménio, à lei Taubira, sobre a escravatura, e à lei Mekachera, sobre o colonialismo, e a iniciativas similares noutros países. Apesar de inicialmente pouco criticadas, estas imposições legais têm vindo a ser cada vez mais postas em causa pelos seus efeitos perversos. É caso para dizer, de boas intenções...

Como escreveu Max Gallo no «Le Figaro», em 2005, “para o historiador, não é admissível que a representação nacional dite "a história correcta, aquela que deve ser ensinada". Já demasiadas leis, bem intencionadas, caracterizaram este ou aquele acontecimento histórico. E são os tribunais que decidem. O juiz é desta forma conduzido a ditar a história em função da lei. Mas o historiador, tem por missão dizer a história em função dos factos.

domingo, 19 de outubro de 2008

A grande viagem


O meu avô materno, oficial de Marinha, homem viajado e conhecedor do mundo, verdadeira figura paternal que me despertou o gosto pelo conhecimento, pela História, pelas viagens, pelas línguas, pela leitura e pelos livros, e me transmitiu os valores fundamentais que ainda hoje me guiam, tinha uma viagem de sonho — o Transiberiano.

Foi ainda criança que ouvi falar nessa travessia euro-asiática e o fascínio ficou-me desde então. Vem esta recordação a propósito da reportagem no último número da revista «Volta ao Mundo» sobre esta “viagem que nunca termina”. Claro está que muita coisa mudou, desde os tempos em que o meu avô pensava esta experiência. O fim da Guerra Fria “ocidentalizou” em parte uma Rússia que ainda mantém marcos soviéticos, mas que guarda sempre uma alma própria. O autor do texto, que fez a viagem, diz-nos que em Kabarovsk um viajado professor de zoologia se lamentava: “hoje a população reduziu-se a metade e o comércio está na mão dos chineses. A Perestroika pode ter trazido muitas coisas boas, como a abertura do país ao exterior, mas também trouxe as consequências da globalização. Kabarovsk está a perder a sua individualidade, a ficar igual ao resto do mundo”. Apesar desta alteração, confirmada pelos cartazes com anúncios a telemóveis à volta de uma estátua de Lenine, pelas filas à porta do McDonald's de Irkutsk, a mais antiga cidade da Sibéria, entre tantos tiques do ultraconsumismo reinante, a verdade é que “a grande travessia” continua a ter a sua magia e a cativar cada vez mais turistas de todo o mundo.

O meu avô nunca chegou a fazer a sua viagem — fez uma maior e mais rica, que foi o seu percurso de vida — mas fez perdurar o seu encanto. Mesmo sabendo que muito dificilmente a conseguirei fazer, não deixará de estar no meu imaginário.