segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Epigrama Muito Sentido

Para o Carlos Cunha
também exilado longe…

Sou peixe do meu regato
de grandes rios não sou.
Sou peixe de águas livres
e deixo aos peixes vermelhos
os cristais dum aquário.

Sou peixe que gosta de águas
puras, clamas, cristalinas.
Deixo, pois, aos outros peixes
os grandes rios que são
a foz dos grandes destinos.

Do meu, não. Quero-me
assim, ledo e feliz,
na liberdade conseguida
dentro das águas tranquilas
de um regato de província,
onde as crianças vão brincar,
onde também vão beber
homens e bichos da Terra,
criaturas como eu
com ânsias de liberdade.

Sou peixe do meu regato
dos grandes rios não sou.
quero por isso águas livres
deixando aos peixes vermelhos
as delícias do aquário.

S. Paulo – 8.1.75

Amândio César
in «País em Fuga», Edições a Rua (1977).

Boletim Evoliano n.º 1

Racismos (VI)

Leio na última edição da revista «Sábado» uma notícia sobre a qual já se teclou na Blogosfera, mas de que nunca é demais falar. Na página, assinada por João Vaz, denominada “Insólito”, deparo-me com um pequeno texto intitulado “Inglesa loira recusada na função pública” e penso, automaticamente, nas piadas discriminatórias ultimamente tão em voga. A prosa não tem, no entanto, graça nenhuma. Dá-nos conta de um caso de discriminação racial contra a britânica Abigail Howart, de 18 anos, que viu a sua candidatura a um emprego público recusada apenas por ser branca e inglesa. Escandaloso? Racista? Impensável? Os sociólogos integracionistas de serviço — técnicos da utopia — responderão prontamente que não. Pelo contrário, esta medida é perfeitamente aceitável e compreensível, já que o politicamente correcto Reino Unido está apenas a tentar cumprir as metas do Race Relations Act, ou seja, está a discriminar para acabar com a discriminação. Não faz todo o sentido?

Curioso, mas também sem graça, é que o jornalista da «Sábado» considere este caso “insólito”. O racismo anti-branco há muito que deixou de ser insólito na Europa. Aliás, como o demonstra a notícia, tornou-se doutrina oficial. Institucionalizou-se.