quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Salazar hoje

Quebrei o meu jejum televisivo para ver o documentário sobre Salazar na RTP 1 e não me arrependi, tal como aconteceu quando o retratado era D. Afonso Henriques, onde o disparate abundou e a agenda multiculturalista que guiou o programa o tornou um exercício de pura estupidez.

Voltando a Salazar, impõe-se um reconhecimento a Jaime Nogueira Pinto, por um trabalho bem feito, equilibrado e isento. Apesar de algumas questões já apontadas, o mérito é notório, ainda para mais tratando-se da figura histórica em questão.

Antes de continuar, devo dizer que não sou “salazarista”, nem vejo no Estado Novo o paradigma do bom governo de Portugal. Tenho, aliás, muitos pontos fundamentais em que dele discordo totalmente. No entanto, isso não me impede de reconhecer o perfil de um grande estadista e a obra de um regime por ele dirigido, nomeadamente em comparação aos períodos que o antecederam e sucederam. Volto a frisar: recuso-me a ver em Salazar um santo ou, pelo contrário, a encarnação do mal. Repugna-me esse maniqueísmo histórico que, infelizmente, ainda abunda.

Já não há pachorra para a verborreia marxista e a eterna propaganda do “fascismo” e da “ditadura”. Não me vou prender agora com definições teóricas do Estado Novo, num exercício de ciência política que seria necessariamente longo e no qual haveria que distinguir claramente, por exemplo e para começar, Ditadura Militar de Estado Novo e os períodos antes e depois da II Guerra Mundial. Cito apenas de memória uma breve descrição de um artigo do jornal britânico «Times» dos anos 40, que li no âmbito de uma pesquisa que fiz recentemente: “O regime de Salazar, apesar de algumas semelhanças essencialmente na forma, nada tem que ver com regimes como o fascismo italiano ou o nacional-socialismo alemão.” Na verdade, muitos quiseram, à esquerda e à direita, que Salazar fosse fascista. Não o foi, da mesma maneira que nunca foi democrata; podemos lamentá-lo, mas temos que reconhecê-lo.

Parece que os ventos estão a mudar no que respeita aos olhares possíveis sobre este ainda polémico período da História Pátria. Penso que este documentário, nos termos em que foi feito, só foi possível por estar enquadrado num programa cujo modelo não consigo gostar e depois da vitória não revelada na primeira votação. Por outro lado, a verdade é que hoje há uma abertura muito maior em relação à figura de Salazar e ao Estado Novo, o que não significa necessariamente apoio, mas apenas uma leitura histórica o menos preconceituosa possível. O país não está mais “reaccionário”, como alarmam os suspeitos do costume, simplesmente já não está com os calores dos “verões quentes”. Como dizia o outro: Bem-vindos ao século XXI.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

I'm Shipping Up To Boston



I wish I was...

Apocalypto

No mês passado fui ver o último filme de Mel Gibson, Apocalypto, que aconselho a todos. Gosto de alguns pormenores não-hollywoodescos utilizados — e que começam a caracterizar o realizador — como o de substituir o inglês pelas línguas originais, por mais remotas ou estranhas que sejam. Esta é uma reconstituição histórica que, apesar de não ser totalmente exacta, está extremamente bem construída, com uma atenção aos pormenores que não é habitualmente observável. Por fim, gosto especialmente daquela que considero a mensagem fundamental do filme, acabar com a ideia romântica de que os maias, ou outros povos, viviam pacificamente, numa espécie de paraíso terrestre, até que chegaram os europeus e lhes deram a conhecer a violência, a malvadez e a cobiça.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Latim

O mestrado tem absorvido a maior parte do meu tempo, domina as minhas leituras e monopoliza a minha escrita. Uma das coisas que me tem ocupado é o meu regresso ao “rosa, rosae”, que é como quem diz ao nominativo e genitivo da primeira declinação e daí em diante. A cadeira de latim medieval obrigou-me a rever o aprendido nos dois anos de latim que tive no Secundário. Para avivar a memória, e porque no nível de ensino em que me encontro dão-se muitas das matérias como adquiridas, fui resgatar da prateleira os volumes I e II do “Initia Latina”. Está a ser bastante divertido e trabalhoso este retorno à língua-mãe. Por entre declinações, tempos verbais, classes de adjectivos, regras de concordância, entre outros, vou recordando os bons momentos que passei quando frequentava o que na altura se chamava “ensino complementar” (10.º e 11.º anos de escolaridade).

Claro está que o latim foi opção. Aliás, no campo das línguas tive nesses anos, para além desta, português, francês e inglês. Mesmo enquanto adolescente, nunca hesitei sobre a minha escolha e sempre considerei que esta devia ser uma disciplina obrigatória nos curricula nacionais. Lembro-me de na altura comunicar orgulhoso a minha opção a um primo meu que residia e estudava no estrangeiro, que se espantou com a não obrigatoriedade do latim, sendo o português uma língua neolatina...

O primeiro ano de latim era mais concorrido. A minha turma tinha cerca de vinte alunos, mas muitos desistiram. No segundo, começámos por ser cerca de dez e terminámos o ano com sete. Foi uma óptima experiência! Preferimos aprender os fundamentos da nossa língua, para melhor a compreender, do que escolher as consideradas “disciplinas fáceis”, como relações públicas, que apenas serviam para subir a média sem qualquer esforço.

Desse grupo, recordo-me em especial de dois amigos de então, o David e o Gonçalo, e das aventuras que vivemos, ao mesmo tempo que aprendíamos esta língua superior. Para o resto da malta, que via a nossa escolha com um misto de respeito e incompreensão, éramos os compinchas de sempre, simplesmente com uma incansável mania de saber. Não entendam mal, estávamos longe de ser marrões. Éramos os atípicos bons alunos com notas médias. Líamos muito e estudávamos pouco, gostávamos de saber e detestávamos papaguear, queríamos descobrir e recusávamos o repetir, tínhamos isso em comum. Uma postura que se adequava com a nossa rebeldia daqueles tempos.

A relação com a professora do segundo ano de latim foi muito complicada. Não nos enquadrávamos no perfil a que ela se habituara mas, apesar de hesitar perante o nosso comportamento desafiador e ter uma atitude censória quanto às nossas ideias políticas, reconhecia o nosso amor àquela disciplina e espantava-se com o empenho com que a defendíamos. Um exemplo divertido da nossa dedicação foi o histórico “Dia do Latim”. Depois de termos visto decorrer na nossa escola eventos destinados a promover várias disciplinas, propusemos que se fizesse o mesmo para o latim. Perante a dúvida da professora e falta de ânimo dos nossos colegas de turma, decidimos fazer tudo praticamente sozinhos. Desenhámos cartazes que espalhámos pelas paredes, fizemos material para uma exposição e, mais importante que tudo, mobilizámos com o resto da “malta da pesada”, através de manobras que se podem considerar intimidatórias, “meio liceu” para assistir na sala verde às apresentações orais feitas por nós e pela stôra, já que o resto da turma não se “sentia à vontade” para falar em público. O “Dia do Latim” foi um sucesso, perante o espanto e inveja dos outros professores. A participação registada foi a maior de todos os outros dias consagrados a disciplinas. A mobilização foi tal que foi o assunto da semana na sala dos professores e tema de uma das reuniões do Conselho Directivo. A partir daí a nossa professora, orgulhosa, continuou a detestar-nos, mas passou a ver-nos de forma diferente e gosto de pensar que terá questionado algumas certezas que carregava há muito...

Belos tempos. Parece que foi ontem, parece que foi há tanto tempo. Tempus fugit.