quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Latim

O mestrado tem absorvido a maior parte do meu tempo, domina as minhas leituras e monopoliza a minha escrita. Uma das coisas que me tem ocupado é o meu regresso ao “rosa, rosae”, que é como quem diz ao nominativo e genitivo da primeira declinação e daí em diante. A cadeira de latim medieval obrigou-me a rever o aprendido nos dois anos de latim que tive no Secundário. Para avivar a memória, e porque no nível de ensino em que me encontro dão-se muitas das matérias como adquiridas, fui resgatar da prateleira os volumes I e II do “Initia Latina”. Está a ser bastante divertido e trabalhoso este retorno à língua-mãe. Por entre declinações, tempos verbais, classes de adjectivos, regras de concordância, entre outros, vou recordando os bons momentos que passei quando frequentava o que na altura se chamava “ensino complementar” (10.º e 11.º anos de escolaridade).

Claro está que o latim foi opção. Aliás, no campo das línguas tive nesses anos, para além desta, português, francês e inglês. Mesmo enquanto adolescente, nunca hesitei sobre a minha escolha e sempre considerei que esta devia ser uma disciplina obrigatória nos curricula nacionais. Lembro-me de na altura comunicar orgulhoso a minha opção a um primo meu que residia e estudava no estrangeiro, que se espantou com a não obrigatoriedade do latim, sendo o português uma língua neolatina...

O primeiro ano de latim era mais concorrido. A minha turma tinha cerca de vinte alunos, mas muitos desistiram. No segundo, começámos por ser cerca de dez e terminámos o ano com sete. Foi uma óptima experiência! Preferimos aprender os fundamentos da nossa língua, para melhor a compreender, do que escolher as consideradas “disciplinas fáceis”, como relações públicas, que apenas serviam para subir a média sem qualquer esforço.

Desse grupo, recordo-me em especial de dois amigos de então, o David e o Gonçalo, e das aventuras que vivemos, ao mesmo tempo que aprendíamos esta língua superior. Para o resto da malta, que via a nossa escolha com um misto de respeito e incompreensão, éramos os compinchas de sempre, simplesmente com uma incansável mania de saber. Não entendam mal, estávamos longe de ser marrões. Éramos os atípicos bons alunos com notas médias. Líamos muito e estudávamos pouco, gostávamos de saber e detestávamos papaguear, queríamos descobrir e recusávamos o repetir, tínhamos isso em comum. Uma postura que se adequava com a nossa rebeldia daqueles tempos.

A relação com a professora do segundo ano de latim foi muito complicada. Não nos enquadrávamos no perfil a que ela se habituara mas, apesar de hesitar perante o nosso comportamento desafiador e ter uma atitude censória quanto às nossas ideias políticas, reconhecia o nosso amor àquela disciplina e espantava-se com o empenho com que a defendíamos. Um exemplo divertido da nossa dedicação foi o histórico “Dia do Latim”. Depois de termos visto decorrer na nossa escola eventos destinados a promover várias disciplinas, propusemos que se fizesse o mesmo para o latim. Perante a dúvida da professora e falta de ânimo dos nossos colegas de turma, decidimos fazer tudo praticamente sozinhos. Desenhámos cartazes que espalhámos pelas paredes, fizemos material para uma exposição e, mais importante que tudo, mobilizámos com o resto da “malta da pesada”, através de manobras que se podem considerar intimidatórias, “meio liceu” para assistir na sala verde às apresentações orais feitas por nós e pela stôra, já que o resto da turma não se “sentia à vontade” para falar em público. O “Dia do Latim” foi um sucesso, perante o espanto e inveja dos outros professores. A participação registada foi a maior de todos os outros dias consagrados a disciplinas. A mobilização foi tal que foi o assunto da semana na sala dos professores e tema de uma das reuniões do Conselho Directivo. A partir daí a nossa professora, orgulhosa, continuou a detestar-nos, mas passou a ver-nos de forma diferente e gosto de pensar que terá questionado algumas certezas que carregava há muito...

Belos tempos. Parece que foi ontem, parece que foi há tanto tempo. Tempus fugit.

6 comentários:

  1. Eurico de Barros9/2/07 1:32 da manhã

    Lembro-me de, pouco depois do 25 de Abril, no Liceu Camões, haver umas cavalgaduras que diziam que se devia acabar com a disciplina de Latim porque era... «fascista»! Tempos de loucura absoluta.

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  2. ja vim ler..aposto que usaram a força para cativar pessoas para esse dia :P é de aproveitar que a mafalda ainda nao fala para a ensinares ja a falar latim! :D

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  3. Pois é caro amigo. Apesar de não te ver já faz algum tempo não me posso esquecer da nossa turma e da vossa opção. Fui um dos dicidentes é certo, não pelo latim em si mas por força das circunstancias. Apoio inteiramente que devia ser disciplina obrigatória em portugal. Enfim. Portugal cada vez é menos portugues. Um grande abraço: Pardal

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  4. Amigo Pardal,
    Sejas bem aparecido nesta casa. Não nos temos encontrado ultimamente, mas nunca esqueceremos aqueles anos no RDL.
    Um grande abraço.

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  5. Disculpad mi desconocimiento del portugués, pero el latín que subyace en el portugués y el español nos ayuda a comprendernos:
    Perder el latín es perder cultura, perder cultura es perder libertad.
    Un pueblo sin cultura es más fácil de someter.
    La lengua latina está en las raíces de nuestros pueblos y desconocerla es desconocer parte de nuestra identidad.

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