Quebrei o meu jejum televisivo para ver o documentário sobre Salazar na RTP 1 e não me arrependi, tal como aconteceu quando o retratado era D. Afonso Henriques, onde o disparate abundou e a agenda multiculturalista que guiou o programa o tornou um exercício de pura estupidez.Voltando a Salazar, impõe-se um reconhecimento a Jaime Nogueira Pinto, por um trabalho bem feito, equilibrado e isento. Apesar de algumas questões já apontadas, o mérito é notório, ainda para mais tratando-se da figura histórica em questão.
Antes de continuar, devo dizer que não sou “salazarista”, nem vejo no Estado Novo o paradigma do bom governo de Portugal. Tenho, aliás, muitos pontos fundamentais em que dele discordo totalmente. No entanto, isso não me impede de reconhecer o perfil de um grande estadista e a obra de um regime por ele dirigido, nomeadamente em comparação aos períodos que o antecederam e sucederam. Volto a frisar: recuso-me a ver em Salazar um santo ou, pelo contrário, a encarnação do mal. Repugna-me esse maniqueísmo histórico que, infelizmente, ainda abunda.
Já não há pachorra para a verborreia marxista e a eterna propaganda do “fascismo” e da “ditadura”. Não me vou prender agora com definições teóricas do Estado Novo, num exercício de ciência política que seria necessariamente longo e no qual haveria que distinguir claramente, por exemplo e para começar, Ditadura Militar de Estado Novo e os períodos antes e depois da II Guerra Mundial. Cito apenas de memória uma breve descrição de um artigo do jornal britânico «Times» dos anos 40, que li no âmbito de uma pesquisa que fiz recentemente: “O regime de Salazar, apesar de algumas semelhanças essencialmente na forma, nada tem que ver com regimes como o fascismo italiano ou o nacional-socialismo alemão.” Na verdade, muitos quiseram, à esquerda e à direita, que Salazar fosse fascista. Não o foi, da mesma maneira que nunca foi democrata; podemos lamentá-lo, mas temos que reconhecê-lo.
Parece que os ventos estão a mudar no que respeita aos olhares possíveis sobre este ainda polémico período da História Pátria. Penso que este documentário, nos termos em que foi feito, só foi possível por estar enquadrado num programa cujo modelo não consigo gostar e depois da vitória não revelada na primeira votação. Por outro lado, a verdade é que hoje há uma abertura muito maior em relação à figura de Salazar e ao Estado Novo, o que não significa necessariamente apoio, mas apenas uma leitura histórica o menos preconceituosa possível. O país não está mais “reaccionário”, como alarmam os suspeitos do costume, simplesmente já não está com os calores dos “verões quentes”. Como dizia o outro: Bem-vindos ao século XXI.

